segunda-feira, 26 de maio de 2008

CONDENAÇÃO!


“Gostava de escrever hoje um belo poema, forte, quente, luminoso, escarolado, em louvor da vida. É que, sem saber porquê, respondi há bocado com palavras dum optimismo impressionante a um moço poeta que me exibia a sua decadência precoce. E doía-me a garganta nessa altura! Mas fui-lhe dizendo que qual morte ou qual cabaça! Vida! Vida conquistada em luta, como a do rebento do milho que empurra, empurra, e consegue levantar o torrão e ver o sol. – Qual morte, homem de Deus! Você já viu por acaso um pinheiro suicidar-se!”

Tomou-me pela mão e foi com espanto que percebi naquele gesto o tão desejado sinal de assentimento. Senti um baque. Fitei-o e vi o seu rosto como nunca antes tinha visto outro assim. Não era feio e era quase bonito, estava antes da fealdade e da beleza, era um rosto do homem antes do homem. Trémulo, colei-me a ele e segui-o. Sem uma palavra vencemos a estreita e íngreme vereda, as pesadas gotas de gélida chuva a fustigar-nos o rosto. De repente estacou e, olhando muito para lá de tudo quanto se poderia avistar, naquela imensidão agreste, com um gesto largo e numa voz cava, ouvi-o pensar em voz alta: “No Inverno, árvores despidas; na Primavera, folhas e flores; no Verão, frutos. No Inverno seguinte, árvores despidas; na Primavera, folhas e flores; no Verão, frutos. No Inverno a seguir… Eu bem sei que o homem da cidade tem por sua vez mil maneiras de notar este eterno retorno da vida e da morte. Parece-me é que, lá, a coisa não tem esta nitidez, esta evidência, esta fatalidade.”

“ - Não queiram coisas impossíveis”, diz para nós uma mulher que na serra andava à lenha, quando tentávamos subir a uma penedia inacessível. “ – Quero, quero”, respondeu-lhe obstinado. Ela olhou-o com uns doces olhos de ovelha tosquiada pela vida, depois olhou para mim e sorriu melancolicamente. Pôs o molho à cabeça e partiu. E ali ficámos, eu a disparar a minha Sony a100 à esquerda e à direita, ele a pensar em que sonho irrealizável teria aquela alma simples posto um dia o desejo, para com a sua desilusão formular uma frase tão carregada de renúncia e amargura.

Que argumentos tinha eu perante aquele vulto. Depois de o ouvir falar de Baudelaire, Rilke, Tolstoi, Newton e Pessoa, como é que podia contrapor com o Tiago Aires, a Raquel Costa, a Maria Sá ou o Tiago Romão. Era homem para perceber o sentido da coisa, a importância da bússola, os azimutes; sabia que acharia graça ao termo “atascado” e que “pastores” também aqui os havia, e de que maneira; mas não me atrevia a avançar-lhe com neologismos do género “orientista”. Só queria (só podia querer) que visse com os seus próprios olhos.

Mal adivinhávamos a vastidão do horizonte, do alto daquelas fragas, quando decidi mudar de agulha e, pensando ainda na velhota, arrisquei: “Cavam de sol a sol, comem um caldo, mas são felizes. Não têm preocupações…” A voz sobe-lhe, inflama-se e devolve-me o comentário: “Como se o problema da quadratura do círculo fosse maior do que o problema de saber se chove ou não chove no dia da sementeira. Que vale um boi, no café? Em termos de pura dor – nada. Pois digo-te, Joaquim, que nunca vi ninguém sofrer tanto como o meu vizinho a quem morreu um esta noite. Que me importa a mim! Tudo são homens. E ao cabo, ao cabo, tanto pesa uma arroba de terra, como uma arroba de filosofia.”

Senti que não havia nada a explicar. Ele não compreenderia o significado daquilo. Era impossível passarem assim por nós, de olhar suspenso e respiração ofegante, andando ali às voltas, às voltas – quantos deles sem rumo! -, não reparando sequer na beleza das delicadas flores, na verde exuberância do Teixo ou do Ulmeiro, no rumorejar dos inúmeros regatos. Olhou-me mansamente, como se pressentisse o meu desapontamento, e com uma inesperada complacência, explicou-me: “Às vezes esqueço-me das coisas. Mas sempre que me lembro e posso, maravilho-me a ver como esta inacreditável fauna humana germina. Gosto de me sentar num café e ficar uma hora inteira a ver passar na rua as trinta mil pessoas da cidade. Convencidas, vencidas, alegres e tristes, inquietas, calmas, seguras, inseguras, deslizam como imagens num écran. Tal como neste momento, aqui onde nos encontramos, dir-se-ía que cada um concentra em si o destino do mundo. E, afinal, um segundo depois, não fica no seu caminho o mais leve sinal de significação que parecia ter. Representou apenas um papel semelhante ao daqueles protagonistas das tragédias e comédias contadas num jornal que a criada amarrota, mete num fogão e queima.”

Quero sair dali. Não sei como dizer-lhe e desculpo-me com o facto de ter ficado sem pilhas na máquina. “ - Ah! A máquina!”, exclama. "E que vais fazer com as fotos?" Explico-lhe a minha ansiedade em chegar a casa, passá-las para o computador enquanto preparo um chá e depois, calmamente, visualizá-las uma a uma como apresentação de diapositivos. “Então e a emoção do quarto escuro? Os rolos e a impressão em papel? Aquelas dezenas de películas a secar à luz vermelha? A ansiedade a atingir os limites do insuportável pela espera de longas horas até ver como sairá aquela que – tudo o indica – será a melhor foto? Transformas esse precioso tempo nos dez minutos que leva a preparar um chá?”

Parto sem me despedir, olhos no chão, envergonhado desta existência mesquinha, ali tão fortemente evidenciada da forma mais simples, face a face com estas pedras, memória do tempo dos tempos. É então que o ouço chamar por mim. “ – Joaquim, vem cá. Tenho uma coisa para ti!” Estendeu-me um bilhete dobrado em quatro e disse-me: “Gostava de escrever hoje um belo poema, forte, quente, luminoso, escarolado, em louvor da vida. É que, sem saber porquê, respondi há bocado com palavras dum optimismo impressionante a um moço poeta que me exibia a sua decadência precoce. Toma. É para ti.” Meti-o ao bolso sem agradecer e parti. Descia agora a encosta e as lágrimas desciam comigo cara abaixo, irreprimíveis, incontroláveis. Parei para as enxugar, assoei-me com força e pus a mão ao bolso donde tirei o bilhete. A garganta apertou-se mais e mais, à medida que o ía lendo:

OOOOOToda a manhã o lírico pagão,
OOOOOO animal sensível que em mim olha,
OOOOOOlhou, olhou, cheio de comoção,
OOOOOUma folha.

OOOOOEra de tília a mágica verdura.
OOOOOLarga, quieta, ao sol, vivia.
OOOOOE a viver assim dava frescura
OOOOOA quem da terra seca lha pedia.

OOOOONisto, não sei que maldição soprou,
OOOOOOu que Deus demoníaco sorriu,
OOOOOQue toda aquela calma se agitou
OOOOOE caiu.

Com os olhos baços, apreciei a bonita caligrafia, nada a ver com o estereótipo da “letra de médico”, o “M” de Miguel a fazer lembrar as curvas duma serra, o “T” de Torga desenhado como quem faz uma cruz. Mas a referência que se lhe seguia, imediatamente abaixo, abalou-me no mais íntimo de mim, como um sinal daquilo que fui, daquilo que sou: “Condenação – Gerês, 26 de Agosto de 1942”.

[adaptação livre de excertos dos “Diários”, de Miguel Torga]

Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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