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quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Anton Foliforov, Atleta do Mês da Federação Internacional de Orientação



O atleta do mês de Setembro dispensa apresentações. Dois títulos de Campeão da Europa, dois títulos de Campeão do Mundo, a revalidação do triunfo na Taça da Europa e a manutenção da sólida liderança no Ranking Mundial da IOF fazem de Anton Foliforov o maior nome da Orientação em BTT da atualidade. Das primeiras pedaladas, sob o olhar atento e sabedor do pai, aos mais extraordinários momentos da sua carreira até ao momento, venha ouvir aquilo que Anton tem para nos dizer.


Nome: Anton Foliforov
País: Rússia
Data de Nascimento: 3 de Janeiro de 1987
Disciplina: Orientação em BTT
Melhores resultados: Campeão do Mundo de Orientação em BTT na Distância Longa (2010, 2014 e 2015), Distância Média (2015), Sprint (2011 and 2014) e Estafeta (2009 and 2010); Campeão da Europa de Orientação em BTT na Distância Longa (2015) e Distância Média (2015). Vencedor da Taça do Mundo em 2014 e 2015.
Classificação no Ranking Mundial da IOF: 1º lugar.


Texto e foto de Joaquim Margarido

Nascido em Kovrov, 250 km a leste da capital russa, Moscovo, Anton Foliforov parecia ter o destino traçado à partida. Desde cedo se habituou a acompanhar o pai, treinador de sucesso na área do Ciclismo de Estrada, e foi com naturalidade que recebeu a sua primeira bicicleta aos seis anos de idade. Pedalar “com os mais crescidos” está entre as suas gratas recordações de infância, bem como o grupo de jovens criado pelo clube e do qual Anton, com dez anos de idade, passou a fazer parte. “Eu era tão pequeno que tinha de me sentar no próprio quadro da bicicleta”, recorda a esse propósito.

Os anos foram passando até que, no início de 2003, um acontecimento veio marcar em definitivo a vida de Anton. A inesperada visita ao clube do treinador de Orientação em BTT trouxe com ela uma proposta. Fontainebleau recebera, no ano anterior, a primeira edição dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT e novas oportunidades pareciam surgir. Quem ousa experimentar? Sem nada a perder, Anton lançou-se à descoberta. “Gostar de mapas” poderá ter sido decisivo nesta sua aposta. Desde essa altura, a Orientação em BTT passou a ser o seu desporto e o misterioso visitante é, ainda hoje, o seu treinador.


As primeiras pedaladas

Em 2003, Kovrov recebeu os Campeonatos da Rússia de Orientação em BTT e Anton Foliforov teve a oportunidade de participar naquela que foi a sua primeira competição. Inscrito no escalão de Elite, a correr ao lado de nomes como Maxim Zhurkin, Viktor Korchagin ou Ruslan Gritsan, o jovem Anton alcançou a medalha de prata e, com ela, a motivação necessária para se dedicar ainda mais intensamente à Orientação em BTT. Ainda nesse ano, nos meses de Setembro e Outubro, teve a oportunidade de participar nas três últimas rondas da Taça do Mundo. A 32ª posição numa das etapas individuais foi o melhor resultado alcançado, mas a experiência de competir na Polónia, República Checa e Itália valeram pela aprendizagem de novos mapas e terrenos, pelos contactos com as figuras emergentes da Orientação em BTT mundial e pelas doses reforçadas de motivação.

Em 2005, Anton ruma a Banska Bystrica, na Eslováquia, onde integra pela primeira vez a seleção nacional da Rússia presente num Campeonato do Mundo de Orientação em BTT. O primeiro resultado de vulto surge no ano seguinte, em Joensuu, na Finlândia, com o 5º lugar na prova de Distância Média.Teremos de aguardar até 2009 para vermos Anton Foliforov conseguir a sua primeira subida ao lugar mais alto do pódio, naquele que o atleta recorda como o melhor momento da sua carreira até à data: “Foi em Ben Shemen, Israel, com a medalha de ouro na Estafeta. Corri o último percurso e recebi o testemunho com seis minutos de atraso em relação à liderança, mas no final fui capaz de chegar em primeiro. Foi algo de verdadeiramente inesperado”. Mas os episódios menos bons também existiram, o pior dos quais foi o seu afastamento da final de Distância Longa nos Campeonatos do Mundo em Itália, em 2011: “Tive um problema mecânico na fase de qualificação e não consegui terminar a prova. Fiquei afastado da Final A e, consequentemente, da possibilidade de defender o meu título mundial. Foi um episódio muito triste e não inteiramente correto, na minha opinião”, lembra.


Três perguntas, três respostas

- Tem preferência por algum tipo particular de terreno ou de distância?

“De momento, prefiro os terrenos desnivelados, independentemente da distância, qualquer que ela seja. Mas confesso que acho mais interessante e divertida a Estafeta Mista de Sprint. Em qualquer caso, procuro dar sempre o meu melhor em cada prova.”

- Do seu ponto de vista, que particulares características possui e que fazem de si o melhor orientista em BTT da atualidade?

“As características são únicas em cada atleta e variam de atleta para atleta. Honestamente, não consigo particularizar essas características no meu caso pessoal. Trabalho duramente a minha parte física e procuro manter a cabeça fria em cada momento ao longo da prova.”

- Tem alguns apoios ou patrocinadores que o possam colocar na situação de profissional da Orientação em BTT?

“Um dos grandes apoios está no próprio grupo de seleção. Sente-se uma enorme energia e vontade de trabalhar e procuramos treinos de qualidade a pensar nas grandes competições. Para além disso, há o apoio da Federação Russa de Orientação, mas também da Federação Regional e do Departamento Regional do Desporto, aos quais devo uma sincera palavra de agradecimento. Vistas bem as coisas, penso que sim, que posso considerar-me um profissional da Orientação em BTT.”


Sorte na Distância Média

Liberec, na República Checa, tornou-se um marco importante na carreira de Anton Foliforov. Aí, no passado mês de Agosto, o atleta conquistou dois dos seis títulos mundiais que ostenta no currículo, revalidando a medalha de ouro na prova de Distância Longa e alcançando, pela primeira vez, o ouro na Distância Média. Estas conquistas projetam-no para o lugar do atleta com maior número de títulos mundiais de sempre da Orientação em BTT masculina, a par do seu compatriota Ruslan Gritsan. Por isso, os momentos que marcam os recentes Campeonatos do Mundo são as subidas ao lugar mais alto do pódio e o cantar, juntamente com os seus colegas de equipa, o hino nacional russo.

Sobre as mais recentes conquistas, Anton realça um momento: “Penso que conquistar um título mundial é tudo menos fácil, mas devo reconhecer que tive muita sorte com a medalha de ouro ganha na prova de Distância Média. O Luca Dallavalle esteve no comando durante toda a prova, mas teve um problema com um pneu já no último ponto o que o impediu de vencer. Mas este é um desporto onde o binómio homem-máquina está sempre presente e ninguém está livre de ter um problema com a bicicleta.”


Se queremos integrar o programa olímpico, então teremos de fazer com que a modalidade seja mais espetacular”

Mas Liberec ofereceu também a oportunidade de refletir sobre o atual momento da Orientação em BTT. Ter Brian Porteous, o Presidente da Federação Internacional de Orientação, inscrito nos Mundiais de Veteranos que se realizaram em paralelo com a competição maior “foi muito positivo, mostra que ele está interessado nesta disciplina e que nos apoiará no futuro”, refere Anton. O atleta olha de forma muito positiva para as novas diretrizes de cartografia, as regras relativas à circulação fora dos caminhos e mesmo o sistema touch-free, entre outros, não tendo dúvidas em afirmar que “a Orientação em BTT está no bom caminho”. Mas adverte: “Se os organizadores permitem que se pedale fora dos trilhos, então os competidores devem mesmo pedalar e não carregar a bicicleta à mão; doutra forma, a circulação fora dos trilhos deve ser proibida.”. E ainda uma palavra acerca dos Jogos Olímpicos: “Se queremos integrar o programa olímpico, então teremos de fazer com que a modalidade seja mais espetacular.”

A temporada caminha para o final e Anton recorda os longos períodos passados longe da família e dos amigos, “que me apoiam a tempo inteiro”. Agora é tempo para “uma ou duas semanas longe da bicicleta, a repousar na praia”. Mas o seu pensamento dirige-se já para os desafios que se avizinham: “Vou começar a preparar-me convenientemente para todas as competições de Orientação em BTT do próximo ano e quero fazer ainda melhor. O ano de 2005 foi o melhor até hoje na minha carreira, mas tentarei melhorar os resultados no futuro, embora saiba que isso não vai ser fácil.” E são sobre o futuro as suas últimas palavras: “Continuarei a fazer Orientação em BTT enquanto for capaz de competir com os melhores”.


[Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação. O artigo pode ser lido no original em http://orienteering.org/iof-athlete-of-the-month-anton-foliforov-russia/]

terça-feira, 5 de maio de 2015

Baptiste Fuchs: "Prefiro terminar uma prova no 20º lugar mas contente comigo mesmo, em vez de chegar ao pódio sem a satisfação de ter feito uma boa prova”



Da BTT, através da Orientação, para a Orientação em BTT – desta forma Baptiste Fuchs, o nosso atleta de Maio de 2015, descobriu o seu desporto. “Apreciei desde logo o lado lúdico, divertido, da Orientação em BTT e sentia que podia passar horas e horas na floresta à procura dos pontos sem dar pelo tempo passar”, afirma. No passado domingo, foi ele o vencedor, juntamente com a equipa da França, da Estafeta Mista que encerrou a ronda inaugural da Taça do Mundo de Orientação em BTT 2015. E muito mais há a esperar dele no futuro próximo...


Nome: Baptiste Fuchs
País: França
Data de Nascimento: 31 de Janeiro de 1987
Disciplina: Orientação em BTT
Melhores resultados: Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT – Distância Longa 2º (2014), Distância Média 10º (2014), Sprint 14º (2014), Estafeta 3º (2014). Campeonatos da Europa de Orientação em BTT - Distância Longa 11º (2013), Distância Média 34º (2014), Sprint 19º (2014), Estafeta 4º (2014). Taça do Mundo – 8º (2014).
Classificação no Ranking Mundial: 5º lugar


Texto e foto de Joaquim Margarido

Baptiste Fuchs nasceu no último dia de Janeiro de 1987, em Ambilly e aí viveu os primeiros 20 anos da sua vida em plena natureza, ante o olhar majestático dos Alpes do Norte. Juntamente com as três irmãs, foi desde muito cedo estimulado pelos pais a praticar desportos de natureza e, das caminhadas e passeios de bicicleta, aos mais “radicais” alpinismo, escalada e parapente, de tudo fez - e continua a fazer! - a família Fuchs.

No percurso de vida de Baptiste, todavia, há um acontecimento que terá sido determinante nas opções pessoais e desportivas tomadas a partir de então. Mas deixemos que seja ele a contar: “Quando tinha 10 anos, fui de bicicleta até ao Mediterrâneo com o meu pai. Fazíamos uma média de 100 km diariamente, comprávamos a comida à beira da estrada e dormíamos em abrigos ou na tenda que levávamos. Para mim era como fazer a Volta à França e passei a alimentar o sonho de poder vir a ser ciclista!” Baptiste Fuchs começou a fazer Ciclismo aos 12 anos e, com 19 anos de idade, chegava à Elite nacional de França. Dividido entre o Ciclismo e a necessidade de prosseguir os seus estudos, porém, acabou por se dedicar ao Curso de Educação Física, sendo hoje professor. Colocado na região de Paris, foi aí que descobriu a Orientação: Nos bosques de Fontainbleau.


Uma bela noite…

Tudo começou com um convite: Fazer parte duma equipa numa prova noturna de Orientação Pedestre era o desafio. Os mais familiarizados com a Orientação conseguem compreender quais os ingredientes reunidos: a camaradagem, o jogo de equipa, a competição, o desafio de encontrar os pontos, tudo isto num cenário de sombras e penumbra. E quando o líder da equipa passou o mapa para as mãos de Baptiste, fez-se luz: “Tinha deixado o Ciclismo de competição há algum tempo e sentia a necessidade de encontrar um desporto que encaixasse nos meus gostos e na minha disponibilidade.” A Orientação assumia-se agora como “o tal desporto”.

Para Baptiste, foi uma surpresa tomar conhecimento que a Orientação também se praticava sobre rodas. Todo o terreno. “Como vinha do Ciclismo de estrada, a Orientação em BTT era uma evidência do ponto de vista pessoal”, refere, a propósito desta inesperada descoberta. Desde que deixara as “suas” montanhas e se mudara para Paris, o contacto com a natureza tinha-se reduzido praticamente a zero e surgia agora a oportunidade de ser recuperado. Mas havia mais: “Apreciei desde logo o lado lúdico, divertido, da Orientação em BTT e sentia que podia passar horas e horas na floresta à procura dos pontos sem dar pelo tempo passar.” Possuidor das qualidades físicas e domínio da bicicleta necessários a um bom desempenho, faltava a Baptiste a técnica de orientação. Mas isso aprende-se e aperfeiçoa-se com o treino e as provas. Motivado, passa a ser presença habitual em todas as competições. Adora o ambiente saudável entre os corredores. Sobretudo, aprecia esse facto indesmentível: “O mais forte fisicamente não é, necessariamente, aquele que vence!”


Começar… aos 24 anos

As primeiras pedaladas a sério, com mapa e bússola, datam de 2011. Baptiste tem nessa altura 24 anos (!) e a questão não pode deixar de se colocar: Não é demasiado tarde para começar? O atleta desfaz as dúvidas: “Na verdade, comecei a fazer Orientação em BTT aos 24 anos e não esperava progredir de forma tão rápida! Mas comecei com um bom nível físico, embora isso constituisse inicialmente uma desvantagem porque a tendência para andar demasiado rápido era enorme e acabava por me perder. Procurava recuperar o tempo perdido andando mais depressa ainda e… perdia-me de novo. Realmente, as minhas primeiras provas não foram muito bem conseguidas”, confessa.

À medida que foi aperfeiçoando a técnica de orientação, porém, Baptiste acabou por retirar o maior partido das suas qualidades físicas, tornando-se naquilo que é hoje. E ambição para chegar cada vez mais longe não lhe falta: “Alguns defendem que são necessários 10 anos para formar um campeão. Quando vejo o que o Ruslan Gritsan é ainda capaz de fazer aos 37 anos, digo a mim mesmo que tenho ainda muito tempo à minha frente para progredir”, assegura.


Uma medalha inesperada

Do 11º lugar alcançado em 22 de Outubro de 2011, na Distância Longa dos Campeonatos de França – naquela que foi a sua primeira prova pontuável para o Ranking Mundial -, até ao 2º lugar nos Campeonatos do Mundo, na Polónia, em 29 de Agosto de 2014, vai todo um caminho ascensional de enorme sucesso. Com Baptiste Fuchs mergulhamos nessa “jornada de prata”, afinal o momento alto da sua carreira até ao momento.

- Que memórias guarda desse dia?

“Foi um dia bastante especial. Contrariamente ao sucedido nos dias anteriores, com as provas de Sprint e de Distância Média, acordei com uma sensação de enorme confiança, de que este era o meu dia. Já na véspera ficara admirado com o 10º lugar conseguido na prova de Distância Média, sobretudo porque tinha cometido demasiados erros. Sabia que se fizesse uma prova limpa, não havia razão nenhuma para falhar o meu objectivo inicial e que era um lugar no top 10. Apresentei-me na partida com essa vontade de fazer as coisas bem, de realizar uma prova sem erros, de acordo com o meu plano de corrida e sem pensar no resultado, apenas pelo prazer de sentir o momento. E foi uma aposta ganha: agarrar a prova com esse desejo de dar o melhor de mim, de fazer uma prova plenamente conseguida e sem objectivos de ganhar a quem quer que fosse. A medalha de prata não é mais do que um bónus. Prefiro terminar uma prova no 20º lugar mas contente comigo mesmo, em vez de chegar ao pódio sem a satisfação de ter feito uma boa prova.”

- Esperava conseguir a medalha de prata?

“Não, de maneira nenhuma. O meu melhor resultado até essa altura tinha sido o 7º lugar numa etapa da Taça do Mundo! Penso que a dificuldade desta prova, em particular, não esteve na escolha de itinerários, mas sim no número de pontos de controlo (37): Era necessário manter a lucidez e a concentração do princípio ao fim. E isso percebe-se perfeitamente quando analisamos a prova do Jiri Hradil, o melhor à passagem pelo ponto de espectadores mas que deita tudo a perder no ponto 31. Talvez eu tenha conseguido fazer menos erros que os meus adversários, mantendo-me concentrado até ao fim e levando à letra o meu plano de corrida: optar sempre pelo caminho mais curto, antecipar, alimentar-me e hidratar-me.”

- Uma dos reflexos dessa medalha tem a ver com a sua posição no ranking. Qual o significado de ser o nº 5 do Mundo, atualmente?

“Isso é também uma surpresa. Mas é sobretudo demonstrativo da minha regularidade ao longo da temporada e vem provar que a minha medalha de prata não aconteceu por acaso. Quando entrei nas primeiras competições internacionais, via os atletas do Red Group de tal maneira fortes que estava longe de imaginar que um dia viria a integrá-lo. Isso vai permitir-me, sobretudo, estar em contacto este ano com os melhores do Mundo e beneficiar dessa motivação suplementar.


Treino-tipo

Baptiste Fuchs não tem treinador pessoal e é ele mesmo quem traça os seus próprios planos de treino. Mas não deixa de admitir que ter alguém que o questionasse, o aconselhasse e, sobretudo, que o obrigasse a treinar quando a vontade escasseia, pudesse ser importante. Confessa-se um apaixonado por tudo o que concerne a preparação física, nutrição, recuperação, preparação mental. Os seus estudos na Universidade de Desporto de Lyon permitiram-lhe adquirir um determinado número de conhecimentos que procura agora aprofundar e complementar com o tempo e a experiência. “É apaixonante percebermos como funciona o nosso corpo e medir nele os efeitos do treino”, refere, ao mesmo tempo que elege o Power Meter como “essencial” no seu processo de preparação física.

O esquema de treino de Baptiste leva em conta o treino de outra grande atleta francesa, Gaëlle Barlet, e reparte-se por ciclos de quatro semanas cada, com três semanas de preparação física progressiva e uma semana de recuperação. Em geral, uma semana-tipo não se afasta muito do seguinte esquema: Segunda feira – Recuperação, reforço muscular e análise de provas. Terça feira de manhã – Treino individual; terça feira à noite – Treino com Gaëlle. Quarta feira de manhã – Reforço muscular; quarta feira à tarde – Treino com Gaëlle. Quinta feira de manhã – Treino individual; quinta feira à noite – Treino com Gaëlle. Sexta feira – Recuperação, reforço muscular e simulação de prova. Sábado e Domingo – Competição.


O maior inimigo do atleta é ele próprio, a sua mente”

No processo de treino, a parte mental desempenha um papel fundamental e Baptiste consegue identificar perfeitamente os seus vectores mais importantes: “Nem sempre é fácil ter a necessária motivação para seguir à risca o plano de treino, sobretudo quando chove, neva ou as condições são difíceis. É nessa altura que vemos o quão importante é a parte mental”, diz. Todavia, o seu passado no Ciclismo ensinou-o a “gostar de sofrer” em cima duma bicicleta e isso revela-se nestas alturas particularmente útil. Dirigir as atenções sobre momentos agradáveis, provas bem conseguidas, imagens da competição, são estratégias que ajudam o contornar os momentos difíceis, às quais acrescenta o facto de saber que os seus adversários se treinam igualmente no duro. Resultado: “A motivação aparece num instante”, vinca.

Mas não é apenas por questões motivacionais que Baptiste faz incidir uma atenção muito especial sobre a preparação mental do desportista. Na sua opinião, ela condiciona extraordinariamente a performance durante a competição: “Todos nós temos, dum modo geral, o mesmo nível físico e técnico à partida para um Campeonato do Mundo. Aquilo que marca a diferença tem a ver com a capacidade de permanecer concentrado durante toda a competição, não se deixar perturbar por um erro cometido, um adversário com quem se cruza, uma falha mecânica. O maior inimigo do atleta é ele próprio, a sua mente”, diz. É aqui que Baptiste encontra as causas da sua progressão, sobretudo na temporada passada: “A confiança adquirida permitiu-me avançar sempre com a certeza da melhor opção e não voltar a perder 15 segundos a analisar o mapa sempre que percebia que aquele não seria o caminho a tomar”, conclui.


Nem só de Orientação em BTT vive o homem

A actividade física e a prática desportiva levam Baptiste Fuchs a não limitar à Orientação em BTT as suas atenções. Esqui de fundo e Orientação em Esqui são duas disciplinas que fazem parte das preferências do atleta no Inverno, fazendo questão de salientar que “a técnica de orientação, tanto no Esqui como na BTT, é a mesma e o exemplo está no Hans Jorgen Kvale, um atleta brilhante em ambas as disciplinas.” Provas pedestres, passeios em esqui e alguns raids – “para desenvolver a endurance e a resistência mental” -, no Inverno e bicicleta na Primavera são actividades complementares, tais como o parapente e a escalada, estas duas condicionadas pelo tempo que não é elástico e não dá para tudo. Sobretudo, ressalta o facto de Baptiste Fuchs não suportar estar fechado: “Gosto de qualquer desporto, a partir do momento em que saia de casa e mergulhe na natureza, de preferência sem ter de pegar no carro”, remata.

- O que pensa da BTT “pura e dura”? Considera-a essencial como parte do treino do orientista em BTT com ambições?

“Eu não faço BTT. Treino-me exclusivamente em bicicleta de estrada e penso que está aqui a prova de que se pode ser bem sucedido na Orientação em BTT sem praticar BTT!!! Tenho consciência dos meus pontos fracos em termos de domínio da máquina: não tenho a mesma agilidade do Kristof Bogar nas descidas, por exemplo. Mas não creio que isso seja determinante na Orientação em BTT. São tantos os aspectos que devo trabalhar para conseguir ganhar alguns segundos que não tenho qualquer problema em colocar de parte este assunto.”


BTT e Orientação em BTT: Duas realidades bem distintas

Para além da necessidade de prosseguir os estudos, na decisão de Baptiste em deixar o Ciclismo pesou o mau ambiente reinante, por vezes, entre os corredores. “Talvez uma certa mentalidade seja consequência do dinheiro e dos prémios em jogo nas provas”, alvitra. Isto leva-o a reflectir sobre o ambiente no seio da Orientação em BTT: “É fantástico que se mantenha preservado um bom ambiente na nossa modalidade. Ganhar uma caneca e um frontal quando se é o 2º classificado do Campeonato do Mundo pode parecer inacreditável para qualquer ciclista habituado a receber os prémios em dinheiro, mas eu penso que é precisamente aqui que reside um dos encantos da Orientação em BTT. Não se pode viver dela, gasta-se imenso dinheiro em deslocações para os quatro cantos do mundo onde as provas têm lugar, mas quem está disposto a fazer sacrifícios financeiros desta envergadura, fá-lo forçosamento por prazer, por paixão.” E conclui: “Enquanto as coisas continuarem assim e o doping e outros derivados se mantiverem afastados do nosso desporto, tanto melhor.”

O tema de conversa continua a ser a BTT e não podemos deixar de abordar o fenómeno de massas que ela constitui, enquanto a Orientação em BTT continua a atrair um número de praticantes deveras reduzido. Baptiste encontra a explicação no facto de a BTT ser “uma disciplina largamente mediatizada, que soube adaptar-se de forma a tornar as provas mais dinâmicas, mais sensacionais. Os circuitos são mais curtos, o que permite a transmissão televisiva em direto das provas.” E acrescenta: “Os jovens podem facilmente identificar-se com os seus campeões, inscrevendo-se nos clubes e procurando imitá-los.” Em contrapartida, “a Orientação em BTT não é facilmente retransmitida, visto nunca sabermos as opções de cada concorrente. Temos de admitir que colocar uma câmera junto a um ponto de controlo para ver um plano fixo durante dois minutos não é propriamente apaixonante. Penso que é este o grande travão ao desenvolvimento da sua prática”, conclui.


O risco faz parte do jogo

Quando vemos um atleta a progredir por um single track, filmado pela sua própria GoPro, sente-se uma espécia de vertigem, tal a velocidade a que as coisas se desenrolam. Velocidade é sinónimo de risco e o risco faz parte do jogo, todos o sabemos, mas que risco é necessário correr para se ser Campeão do Mundo? Baptiste elege a anterior Atleta do Mês da Federação Internacional de Orientação, Hanka Doležalová, “vítima dum acidente dramático em Portugal”, como exemplo do risco sempre presente. Para ele, “conduzir uma BTT não é tarefa fácil, mas conduzir e ler um mapa ao mesmo tempo torna tudo ainda mais difícil. Perguntem a Julien Absalon se é capaz de ler um jornal e resumi-lo no final durante um Campeonato do Mundo. Não tenho a certeza que ele chegue inteiro ao fim e ganhe a prova!”

A sua experiência leva, naturalmente, o fator risco em conta: “Quando parto para uma prova, é sempre com alguma apreensão que o faço. A partir do momento em que olho o mapa, porém, acabo por esquecer alguns preceitos de segurança e por correr riscos escusados. Uma das coisas que procuro fazer é memorizar o máximo de informação possível para não ser obrigado a olhar para o mapa durante as descidas, por exemplo. Mas infelizmente isto nem sempre basta”, conclui.


França, uma equipa forte

O trabalho de endurance no Inverno repartiu-se entre o Esqui de Fundo, a corrida e a bicicleta. O atleta procurou participar no máximo de provas de Orientação Pedestre possível, sobretudo provas de Sprint urbano, aquelas que mais se assemelham à Orientação em BTT no que à tomada de opções e rapidez de decisão diz respeito. Com a chegada da Primavera, arrumam-se os esquis e Baptiste concentra-se exclusivamente na bicicleta.

Os últimos tempos reparte-os entre Espanha e Portugal, juntamente com todos os seus colegas de seleção. É dessa equipa francesa que fala: “É uma equipa forte, recheada de jovens que estão a progredir muito depressa e que fazem frente aos mais antigos. Teremos este ano, seguramente, uma equipa de Estafetas muito homogénea.” Percebe-se, contudo, que o que torna esta equipa tão particular é a sua capacidade de entreajuda. Baptiste confirma: “O ambiente é excelente e não hesitamos em organizarmo-nos e avançarmos para estágio em grupo, independentemente dos encontros organizados pela nossa Federação. Temos também esse hábito de nos reunirmos fora das competições. A criação da equipa Elite MTBO é um sonho tornado realidade e só espero que esta dinâmica positiva seja para durar”, observa.


Tenho pressa de fazer a minha primeira prova WRE”

- Como avalia a sua forma física atual?

“Sinto-me bastante bem. Tenho a felicidade de nunca adoecer e de muito raramente me magoar, pelo que consegui seguir à risca o meu plano de treino até ao momento. Estou com alguns quilos a menos em relação à época passada, por esta altura e atrevo-me a acreditar que a minha preparação está também mais adiantada comparativamente à última temporada. Tenho pressa de fazer a minha primeira prova WRE para poder comparar-me à concorrência internacional.”

- A julgar pelos resultados, parece-me que será nas provas de Distância Longa que se sente mais confortável. É verdade?

“Sim, é um facto que, no plano dos resultados, sou melhor nas provas de Distância Longa. Penso que quando começamos na Orientação é importante simplificarmos as coisas ao máximo e as provas de Distância Longa são aquelas onde mais facilmente podemos exprimir o nosso potencial físico, em detrimento da parte técnica. Mas à medida que vou progredindo, retiro cada vez maior prazer duma prova de Sprint urbano que duma prova de Distância Longa, por exemplo, pelo seu lado lúdico. Importa dizer que as opções de itinerário não tiveram uma importância decisiva nos últimos anos em relação às provas de Distãncia Longa. Na Polónia, o número de pontos de controlo e o fraco desnível faziam com que as opções nas pernadas longas não tivessem um caráter decisivo. Neste contexto, é mais fácil para um “não-orientista” ser bem sucedido. Mas as coisas irão ser diferentes em Portugal. Olho para exemplos de mapas de Distância Longa e, tranquilamente sentado no meu escritório com o mapa à minha frente, não consigo desenhar uma opção para o primeiro ponto que seja claramente a melhor. Por outro lado, penso que Portugal é um país que se adapta bem às minhas características. Quando fazia Ciclismo, era sobretudo um bom trepador. Gosto quando estamos perante subidas a sério, quando há bastante desnível. Vivo nos Alpes e os colos à minha volta são o meu terreno de treino.”


Triângulo de emoções

Num ano em que Portugal forma, com a Hungria e a República Checa, um triângulo de competições de alto nível que dominam a temporada 2015, tempo agora para abordar os grandes objetivos. Já se percebeu que Baptiste nutre alguma preferência por Portugal e que haja uma aposta forte nos Campeonatos da Europa que aí terão lugar no mês de Junho. Para o atleta, “estão reunidas todas as condições para que eu possa apreciar estes Campeonatos da Europa, mas tenhi igualmente boas recordações da Hungra, onde disputei o meu primeiro campeonato do Mundo, em 2012. Fiz o primeiro percurso da prova de Estafeta e garanti a liderança, sendo o primeiro a entregar o testemunho e depois fui o segundo classificado nas qualificatórias de Distância Longa, ante a surpresa geral”, recorda. Mas por muitas e boas expectativas que Baptiste possa ter relativamente às competições portuguesa e húngara, é na República Checa que se centram as suas maiores atenções: “A República Checa é o país da Orientação em BTT. Estão habituados a organizar eventos de grande categoria (nomeadamente os 5 Dias de Plzeň) e não irei ficar desiludido com a forma como os Campeonatos do Mundo se desenrolarão”, assegura.

“Divertir-me, sobretudo, já que os resultados serão a consequência lógica de provas bem conseguidas”, a tanto se resumem os objetivos de Baptiste Fuchs para a temporada em curso. O mais difícil, reserva-se para si próprio: “Confirmar que o meu pódio nos últimos Campeonatos do Mundo não foi fruto do acaso!” Para que tal aconteça, Baptiste sabe que não pode descurar a forte concorrência, admitindo que “os 20 primeiros classificados do ranking mundial são todos eles capazes de subir ao pódio dos Campeonatos”. Uma vez mais, “o meu principal adversário serei eu próprio”. Mas se Baptiste apresentar o mesmo estado de espírito de 2014, então ele sabe – todos sabemos! - que uma medalha é bem possível. E ficamos com a expressão do seu maior desejo: “Realizar a prova perfeita! Mas será que isso existe?”


Perguntas & Respostas

Hanka Doležalová, Atleta do Mês de Abril, colocou as seguintes questões a Baptiste Fuchs: “Está a pensar em participar nos 5 Dias de Plzeň em 2015? O que é que aprecia mais neste evento?” O atleta responde: “Com efeito, tenho prevista a minha participação nos 5 dias de Plzeň como forma de preparação para os Campeonatos do Mundo que irão decorrer na República Checa, em Agosto. A primeira vez que participei nesta competição foi em 2013 e achei o ambiente excelente. Os atletas são todos alojados no mesmo sítio e tomam as refeições em conjunto, as crianças a partir dos 4 anos participam em pequenas bicicletas sem pedais, no meio dos outros concorrentes. Percebe-se que a Orientação em BTT é bastante mais popular na República Checa que em França. Gostei igualmente das “originalidades” propostas pelos organizadores, nomeadamente a classificação do melhor tempo no corredor de chegada, o chasing start do último dia, a Estafeta de triatlo ou o formato de ordem semi livre, que me colocou enormes problemas.”

Finalmente, as questões de Baptiste Fuchs a Emily Kemp, a atleta do Mês de Junho: “Sei que viveu em França e que, de momento, habita na Finlândia. O sonho dos orientistas franceses é precisamente poderem rumar à Finlândia ou à Suécia para continuarem a progredir. Há diferenças na forma como os atletas franceses e os atletas finlandeses se treinam? As condições de treino para desportistas de alto nível são as mesmas nos dois países? Quais são os pontos positivos (ou negativos) da Finlândia em relação à França em termos de progressão na Orientação?


[Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação. O artigo pode ser lido no original em http://orienteering.org/sundays-mixed-relay-winner-iof-athlete-of-may/]

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Hanka Doležalová: “Penso que a única coisa que a Orientação em BTT e a Orientação de Precisão têm em comum são as rodas!”



A Atleta do Mês de Abril da Federação Internacional de Orientação representou o seu País, em Campeonatos do Mundo, em duas disciplinas: Orientação em BTT e Orientação de Precisão. Hanka Doležalová começou a sua carreira na Orientação em BTT, mas um brutal acidente nos Mundiais de 2010 impediu-a de voltar a pedalar e a andar. Mas não foi preciso muito tempo para que Hanka encontrasse uma nova disciplina: a orientação de Precisão. E rapidamente passou a fazer parte da seleção nacional. Mas é ela própria que confessa que os seus conhecimentos da Orientação em BTT de pouco serviram na Orientação de Precisão: “Penso que a única coisa que a Orientação em BTT e a Orientação de Precisão têm em comum são as rodas!”


Nome: Hanka Doležalová
País: República Checa
Disciplina: Orientação de Precisão
Momentos altos na carreira: Campeonato da Europa de PreO – 22º lugar; Campeonato da Europa de TempO 2014 – Qual. 42º lugar. Campeonato do Mundo de PreO 2014 – 28º lugar. Taça da Europa de Orientação de Precisão 2014 (não oficial) – 35º lugar.


Texto e foto de Joaquim Margarido

É um quente dia de Julho do já distante ano de 2010. Em redor da pequenina aldeia de Avelelas, no extremo Nordeste de Portugal, jogam-se as qualificatórias de Distância Longa do Campeonato do Mundo de Orientação em BTT. Para as participantes na prova feminina o objectivo resume-se a terminar a prova e não fazer “mp”. Mas eis que de repente tudo se precipita. Hanka Doležalová, atleta da República Checa, tem uma saída de estrada, a roda dianteira fica presa e a atleta passa por cima da bicicleta, caindo de costas numa vala. Um vôo que irá significar uma viragem de 180 graus naquilo que fora, até então, a vida e os sonhos da atleta. “Não consegui controlar este bloqueio súbito da roda e caí de costas na vala. De imediato, percebi que não sentia as pernas nem a parte inferior do tronco, não conseguia mexer-me e estava com dificuldade em respirar. Procurei gritar o mais alto que podia e esperar que alguém me ouvisse. Felizmente, a Anke [Danowski] e a Melanie surgiram de imediato, mas ainda esperei bastante tempo pela ambulância. Era um dia quente e senti uma sede insuportável.”

Hanka foi evacuada em ambulância, primeiramente para o Hospital de Chaves e depois para o Centro Hospitalar do Porto, onde foi intervencionada à coluna já na madrugada do dia seguinte. De manhã, os noticiários televisivos davam conta do acidente e avançavam com prognósticos. Quanto a esses, há muito que a atleta os percebera: “Compreendi imediatamente, no fundo daquela vala, que o destino estava traçado. Limitei-me a esperar para ver”, recorda.


Sempre mais, sempre melhor

A Orientação em BTT sempre foi algo deveras importante na vida de Hanka Doležalová. Em Portugal, a atleta disputava o seu segundo Campeonato do Mundo no seio da Elite e, para si, este era o desporto nº 1. Ainda Junior, treinava já com a selecção nacional sénior da República Checa e os resultados começavam a surgir. Enquanto Junior, aos três lugares no top 10 dos Mundiais 2008 (4º lugar no Sprint, 6º na Distância Média e 9º na Distância Longa), Hanka Doležalová juntou a medalha de ouro na Estafeta, ao lado de Michaela Maresova e de Hana Hancikova.

No ano seguinte, já no escalão de Elite, a atleta viria a conseguir o 11º lugar na Distância Média dos Campeonatos da Europa (North Zealand, Denmark) e o 13º lugar na mesma distância dos Campeonatos do Mundo (Ben Shemen, Israel). O objectivo era progredir, entrar no top 10, chegar às medalhas, mas sobretudo desfrutar. “Acima de tudo, eu gostava de fazer Orientação em BTT”, afirma. O seu melhor resultado acabaria por surgir já em Portugal, com o 10º lugar alcançado na final de Sprint, três dias antes do acidente fatídico.

Regressando às primeiras pedaladas de mapa na mão, Hanka Doležalová referencia-as como parte da evolução natural do seus gosto pela Orientação, mas também pela BTT. Praticando Orientação desde criança, a bicicleta esteve sempre presente nas suas correrias e brincadeiras. “Tinha 12 anos quando experimentei a Orientação em BTT pela primeira vez e gostei imenso. De forma regular, comecei a praticar esta disciplina a partir dos 16 anos.” Nos poucos anos que levou de Orientação em BTT, Hanka não consegue destacar um momento que possa considerar como o melhor. “Foi uma festa fantástica”, recorda.


Primeiros passos duma nova vida

- A partir do momento em que teve início o longo processo de reabilitação, decidiu apagar a bicicleta das suas memórias ou as coisas não se passaram exactamente assim?

“Nunca. Os meus colegas visitavam-me com muita frequência nessa altura e eu sentia-me muito satisfeita com tudo aquilo que me contavam. Bebia com avidez todas as notícias e partilhava com eles alegrias e frustrações. Acima de tudo, aquele tinha sido o meu mundo.”

- Nesse processo de reabilitação, de que forma é que a sua atitude positiva e ganhadora acaba por ser importante na conquista de autonomia?

“É um processo longo e demorado. Só deixei o Hospital e regressei a casa ao fim de oito meses. Mas penso que no meu caso os progressos alcançados na minha reabilitação não têm tanto a ver com uma atitude competitiva mas sim com a minha própria natureza, com a minha maneira de ser.”


Experiências radicais

A natureza e maneira de ser de Hanka impediram-na de colocar de parte o desporto. A variedade de oferta ao nível do Desporto Adaptado na República Checa levou-a a experimentar uma vasta gama de modalidades, umas deveras atractivas, outras nem tanto. “Sempre gostei de explorar novas actividades. Já numa fase mais aguda da minha convalescença, seis meses após a lesão, costumava deslocar-me até às Montanhas Krkonoše, durante os fins de semana e fazer monoski. Vi nisso uma coisa perfeitamente normal. As actividades menos tradicionais são o meu adorado esqui aquático ou conduzir uma moto 4.” Mas a atleta também faz Cross Country em Esqui, durante o Inverno e participa numa competição de sobrevivência, de carácter anual: “É uma prova em parelha, com um tempo limite de 24 horas e que inclui dezasseis diferentes actividades.”

Numa curta deslocação a Portugal, em Maio de 2012, Hanka Doležalová pode experimentar a Vela Adaptada. “Foi uma experiência incrível, sobretudo pela sensação de liberdade”, recorda, acrescentando em tom de lamento: “É uma pena que na República Checa não existam grandes condições para prática deste desporto.”


A vez da Orientação de Precisão

Hanka Doležalová conheceu a Orientação de Precisão pela via da organização dum evento. “Há 18 anos que o meu clube organiza uma prova de Orientação de Precisão, mobilizando algumas pessoas com deficiência e eu dava o meu apoio na qualidade de assistente e de organizadora”, explica. Foi nessa altura que conheceu o atleta paralímpico Bohuslav Hůlka, pessoa que, juntamente com Jana Kosťová e outros, viria a ser determinante na aproximação da atleta à Orientação de Precisão após a lesão, culminando no seu ingresso na selecção nacional da República Checa. “Imediatamente após o acidente, começaram a aliciar-me. Diziam-me que devia experimentar a Orientação de Precisão porque era uma bem sucedida orientista”, recorda.

Uma das suas primeiras incursões nesta disciplina teve lugar na cidade do Porto, em Portugal. Convidada do DAHP – Núcleo de Desporto Adaptado do Hospital da Prelada, a atleta foi a madrinha do II Open de Orientação, participando igualmente na competição: “Creio que ter decidido aceitar o convite do DAHP e ter participado no Open da Prelada acelerou todo o processo de aproximação à Orientação de Precisão”, reconhece.


Se eu mandasse...

Os primeiros tempos nesta disciplina foram tudo menos fáceis para a atleta. As enormes diferenças em relação às outras disciplinas são o motivo apontado por Hanka para justificar o seu desapontamento nesses primórdios. Mas afinal o que é que há de tão difícil assim na Orientação de Precisão? “Manter o sentido de orientação e conseguir evitar que ele se altere entre os vários exercícios de geodese que vão sendo efetuados”, explica a atleta.

Mas há outros aspectos sensíveis nesta disciplina, um dos quais Hanka Doležalová elegeria como aquele que, se tivesse poder para tal, mereceria a maior atenção e exigiria a definição duma regra própria: “Se eu mandasse, os percursos de Orientação de Precisão seriam obrigatoriamente traçados em caminhos asfaltados!” E explica porquê: “É a única maneira de conseguir manter-me focada no mapa e na minha orientação. De outra forma, acabo por gastar toda a minha energia na progressão, como vencer passagens estreitas, como transpor rochas, raízes e lama.”


Quatro questões breves

- Para muitos, treinar Orientação de Precisão permanece um mistério. Pode dizer-me algo acerca dos seus métodos de treino e quais os aspectos mais importantes na adequação a uma situação de competição?

Treinar Orientação de Precisão é, também para mim, um mistério. Não faço nenhum tipo de treino em especial. Tento adquirir experiência e progredir com a minha participação nas competições.

- De que forma é que os seus conhecimentos na Orientação em BTT foram importantes para a sua integração no seio desta nova disciplina?

Penso que a única coisa que a Orientação em BTT e a Orientação de Precisão têm em comum são as rodas!

- Quem são os atletas nesta disciplina que mais admira?

Os atletas de TempO, capazes de resolver uma estação em oito segundos.

- Qualquer pessoa pode praticar Orientação de Precisão?

Sim, qualquer pessoa pode fazê-lo. Só é necessário ser-se preciso.


Mundiais sim, mas...

Chamada em 2014 a representar pela primeira vez a selecção nacional checa, Hanka Doležalová teve prestações valorosas e, sobretudo, bastante auspiciosas, tanto nos Campeonatos da Europa, realizados em Portugal, como nos Campeonatos do Mundo, que tiveram lugar em Itália. Pese embora as boas recordações que guarda destas duas representações com a camisola da selecção, Hana elege como o melhor momento de 2014 a etapa da Taça da Europa de Orientação de Precisão (não oficial) 2014, disputada no seu país: “Foi uma prova limpa, sem erros, incluindo os pontos cronometrados”.

Já no tocante aos objectivos para 2015, a atleta mostra-se prudente e parca em palavras. Será este ano que vamos ver Hanka Doležalová pisar o pódio dum Campeonato do Mundo? “Primeiro que tudo, tenho de garantir a minha qualificação para os Mundiais”, diz.


Uma boa razão para continuar agarrada à Orientação de Precisão

Considerada como “uma excelente forma de ir a lugares que, doutra forma, não teríamos tanta facilidade em visitar estando numa cadeira de rodas”, a Orientação de Precisão tem, para a atleta, um valor acrescido, nesta particular altura da sua vida. A razão é simples: “Não tenho a certeza de estar agarrada à Orientação de Precisão mas tenho a certeza de me sentir definitivamente agarrada a um orientista de precisão”, diz, com um sorriso de orelha a orelha.

E deixa, a terminar, algumas palavras a todos aqueles que, devido a uma lesão do género que a vitimou, sentem o mundo desabar à sua volta: “Algumas portas fechar-se-ão, mas outras irão abrir-se.”


Perguntas e respostas

A questão colocada por Tove Alexandersson, a Atleta do Mês de Março, foi a seguinte: “Qual é o seu sítio preferido na República Checa e porquê?”

E a resposta de Hanka: “São muitos os meus locais preferidos na República Checa porque é um país muito variado. Mas o meu coração bate pelas Montanhas Krkonoše, onde vivo.”

Finalmente, a questão de Hanka Doležalová a Baptiste Fuchs, Atleta do próximo mês de Maio: Vai participar nos 5 Dias de Plzeň 2015? O que é que mais aprecia neste evento?


[Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação. O artigo pode ser lido no original em http://orienteering.org/i-think-that-the-only-thing-these-two-sports-have-in-common-is-wheels/]

segunda-feira, 2 de março de 2015

Tove Alexandersson, Atleta do Mês da IOF: A melhor no Verão, a melhor no Inverno



Tove Alexandersson tinha apenas um ano de idade quando fez a sua estreia nas Orientação. Desde esse “miniknat” às três vitórias na ronda inaugural da Taça do Mundo de Orientação Pedestre, no início deste ano, ou às duas medalhas de ouro – Sprint e Estafeta – dos recentes Mundiais de Orientação em Esqui, há duas semanas atrás, é toda uma caminhada de sucesso a percorrida pela atleta sueca e que a coloca, atualmente, na liderança dos rankings mundiais de ambas as disciplinas.


Nome: Tove Alexandersson
País: Suécia
Data de nascimento: 07 de Setembro de 1992
Disciplinas: Orientação Pedestre e Orientação em Esqui
Momentos altos na carreira: Campeonato do Mundo de Orientação Pedestre: Seis medalhas de prata (2014, Sprint e Distância Longa; 2013, Distância Média e Distância Longa; 2012, Distância Média e Estafeta), três medalhas de bronze (2014, Distância Média e Estafeta; 2011, Estafeta). Campeonato da Europa de Orientação Pedestre: Duas medalhas de bronze (2014, Distância Média; 2012, Estafeta). Campeonato do Mundo de Juniores de Orientação Pedestre: Cinco medalhas de ouro (2012, Sprint e Distância Média; 2011, Estafeta; 2010, Distância Média; 2009, Distância Média). Taça do Mundo de Orientação Pedestre: Uma vitória e um segundo lugar na Geral Final (onze vitórias em etapas individuais).
Campeonato do Mundo de Orientação em Esqui: Cinco medalhas de ouro ( 2015, Sprint e Estafeta; 2013, Sprint e Estafeta Mista de Sprint; 2011, Sprint), uma medalha de prata (2013, Estafeta), uma medalha de bronze (2013, Distância Longa). Campeonato do Mundo de Juniores de Orientação em Esqui: Oito medalhas de ouro (2012, Sprint, Distância Média, Distância Longa e Estafeta; 2011, Sprint e Distância Média; 2010, Estafeta; 2009, Estafeta). Taça do Mundo de Orientação em Esqui: Dois segundos lugares na Geral Final (treze vitórias em etapas individuais).
Posição atual no Ranking Mundial de Orientação Pedestre: 1º
Posição atual no Ranking Mundial de Orientação em Esqui: 1º


“Para mim, a Orientação Pedestre é a disciplina mais importante, mas até hoje tenho sentido que a Orientação em Esqui também me ajuda a ser melhor orientista. Durante a temporada, não me foco em particular na Orientação em Esqui, mas sim na orientação e faço aquilo que julgo ser melhor para mim.” Foi desta forma que, há um ano atrás, Tove Alexandersson respondeu a uma questão colocada pelo Orientovar, acerca da “dualidade” de ser-se orientista pedestre e orientista em esqui. Nessa altura, Tove estava muito próximo da liderança dos Rankings Mundiais em ambas as disciplinas. Hoje ela está mesmo lá em cima, mas o discurso mantém-se. Apenas uma pequena atualização, por assim dizer: “Nas últimas semanas tenho estado focada exclusivamente na Orientação em Esqui, mas vou provavelmente 'mudar de canal' muito em breve”, diz.

Foram estas as primeiras palavras duma conversa que nos irá permitir revisitar alguns dos momentos mais importantes da carreira de Tove. Mas é importante deixar, desde já, um 'aviso à navegação': Esta rapariga que poupa toda a energia que tem, aplicando-a apenas naquilo que é essencial (e para ela o essencial é, naturalmente, a competição), é a mesma que está aqui a responder às minhas questões. Portanto, não se esperem grandes revelações ou conselhos extraordinários. Apenas ideias soltas, pequenas peças deste complexo puzzle que está prestes a abrir-se aos seus olhos. Apenas... o essencial!


Adoro a Orientação”

Vir a liderar o ranking mundial, tanto na Pedestre como no Esqui, foi algo com o qual Tove nunca sonhou. “Na verdade, nunca me preocupei muito com essa questão dos Rankings. É algo ao qual raramente dou atenção e, por esse motivo, nem me apercebi que liderava os dois rankings até que alguém me chamou a atenção para isso.” De qualquer forma, ser o nº 1 do Mundo é algo que a atleta desvaloriza: “Vejo isso mais como um número, as competições são muito mais importantes”, acrescenta.

Apesar da sua curta carreira, o número de vezes que Tove subiu ao pódio em competições maiores dos calendários internacionais é impressionante e hoje ela não tem dúvidas: “Adoro a Orientação e tenho a certeza que continuarei a praticá-la mesmo depois de terminada a minha carreira como atleta de Elite.” Se não a víssemos na Orientação, haveríamos de vê-la, de qualquer forma, ligada a um desporto de natureza: “Corta-Mato em Esqui ou Corridas de Montanha”, confessa. E aí seria também, certamente, a melhor do Mundo!


Os últimos sete dias

Tove não consegue definir, para si própria, uma semana-tipo de treino: “Por vezes estou por casa toda a semana, mas geralmente estou fora, em Campos de Treino ou em competições. Na última semana, o meu treino foi o seguinte: Sexta-feira: Descanso; Sábado: Campeonato do Mundo de Orientação em Esqui – Distância Média; Domingo: Campeonato do Mundo de Orientação em Esqui – Estafeta; Segunda-feira: Uma hora de corrida contínua; Terça-feira: 10 km/0:30 min de Corrida em Esqui + 0:45 min de Aquecimento/regresso à calma; Quarta-feira (manhã): Duas horas de corrida contínua, metade do tempo em floresta, na neve; Quarta-Feira (tarde): Duas horas de Esqui; Quinta-feira (manhã): Intervalos em passadeira 6-5-4-3-2-2 minutos, com um minuto de repouso entre cada intervalo; Quinta-feira (tarde): Duas horas de corrida na floresta.” E ainda uma curiosidade: “Eu não tenho um treinador para a parte técnica ou física, os planos de treino sou eu que os desenho”, conclui.

Tendo corrido já em variadíssimos terrenos - “muitos deles bastante maus, mas nada que não se fizesse”, diz -, o terreno favorito de Tove chama-se Norrlandskusten, “uma floresta muito bonita, com bastante desnível e muito detalhada”. O seu diário de treino mostra que, no ano passado, ela correu 1999 km e esquiou 1633 km - “nem sempre levo comigo o gps, portanto, podem ter sido mais”, acrescenta -, mas a forma física permanece em níveis próximos da excelência e o grande desafio poderia residir na forma como a atleta lida com a pressão nas grandes competições. Mas esse parece não ser um problema: “Sei que a competição é comigo mesma e com mais ninguém”, diz.


Australia

Terminou a época passada na liderança do ranking mundial e pudemos vê-la confirmar essa liderança na Austrália, durante a primeira ronda da Taça do Mundo de Orientação Pedestre 2015. Fazia parte dos seus planos estar tão forte nesta altura da temporada e ganhar de forma tão tranquila?

“Os meus objetivos passam, naturalmente, por conseguir boas prestações. Tive um período de treino realmente excecional nos meses anteriores à competição, embora atualmente não corra muito, esteja mais focada no esqui.”

Quais os melhores (e os piores) momentos que guarda desses dias na Australia?

“Tenho apenas uma má recordação dos dias passados na Austrália e que foi quando a Karolin fez uma entorse no tornozelo. À parte a competição, os melhores momentos guardo-os das corridas em Cradle Mountain nos dias seguintes. Gosto de viajar, de conhecer novos sítios e penso, por isso, que as grandes competições possam ter lugar, igualmente, do outro lado do mundo. Mas preferiria que não fossem nesta altura do ano.”


Correr e esquiar e verão e inverno

Após a Taça do Mundo na Austrália, Tove apanhou o avião em Sidney e fez praticamente uma direta à Suiça e aos Europeus de Orientação em Esqui. Foi um “choque”, esta mudança brusca? Tove assevera que não e explica porquê: “Estou bastante acostumada a alternar a Orientação Pedestre e a Orientação em Esqui, o Verão e o Inverno. Antes de chegar à Suiça, ainda tie alguns dias em casa com uma boa dose de treino na neve e, portanto, a transição foi bastante normal.” Esta espécie de alternância entre “modo pedestre” e “modo esqui” é vista como natural: “Bastou concentrar-me exclusivamente na Orientação em Esqui e isso bastou-me para fazer os necessários ajustes ao modo correto”, acrescenta.

Vendo os Campeonatos da Europa de Orientação em Esqui como “uma boa preparação para os Campeonatos do Mundo”, foi na Noruega que Tove concentrou todas as suas atenções, para onde apontou todos os grandes objetivos da temporada de Esqui. E partilha as suas ideias acerca das prestações e conquistas: “Sim, foram competições muito boas. Talvez demasiados altos e baixos nas minhas classificações para poder sentir-me totalmente satisfeita, mas foi muito bom.” Quanto aos grandes momentos dos Campeonatos, Tove elege “a prova de Sprint, sem dúvida. Foi uma prova excelente, em estava na melhor forma e tive uma das melhores prestações de sempre na minha carreira. A pior parte, foi a morte duma pessoa muito próxima durante a semana dos Campeonatos e isso foi muito difícil.”


WOC é o grande objetivo

Mudando de novo para a Orientação Pedestre, a conversa está agora cetrada nos Campeonatos do Mundo. Entretanto, Tove explica como é que está estruturado o seu plano de treinos até aos Mundiais: “A próxima competição verdadeiramente importante é a Taça do Mundo na Noruega e na Suécia. Antes disso teremos também algumas provas do Campeonato da Suécia e a Tiomila. Não é muito frequente ter um programa de treino tão longo mas acaba por ser bom e estou muito focada nisso. O plano passa por treinar o mais intensamente que eu puder, continuar a fazer Esqui enquanto as condições se proporcionarem e treinar em terrenos relevantes a pensar na Escócia.”

Notando que, do ponto de vista pessoal, o momento mais importante da última temporada foi, “claro, a vitória na etapa final de Sprint da Taça do Mundo e a consequente conquista da Taça do Mundo”, Tove aponta os grandes objetivos para o WOC: “Estou a preparar-me para todas as disciplinas e vou dar o meu melhor.”


O mais importante é estar motivado”

Quando questionada acerca da conquista do prémio “The Orienteering Achievement of 2014” pelo seu compatriota, Runa Haraldsson, um jovem com 96 anos de idade, Tove confessa: “Foi espetacular que o Rune tenha ganho o prémio, a vida dele é realmente impressionante.” E não tem dúvidas: “Também quero estar capaz de fazer Orientação quando tiver 96 anos.”

As últimas palavras tomam a forma de um conselho especialmente dirigido aos mais novos, à queles que sonham, um dia, poderem vir a ser como Tove Alexandersson: “O mais importante é estar motivado, aceitar os desafios e fazer incidir o treino naquilo que há para melhorar.”


Perguntas e respostas

A questão colocada por Michael Johansson, o Atleta do Mês de Fevereiro, foi a seguinte: “Já alguma vez experimentou a Orientação em BTT ou a Orientação de Precisão? Ou, pensa fazê-lo?”

E a resposta de Tove: "Sim, já participei nalgumas competições em ambas as disciplinas. Gosto muito de Orientação em BTT, gostaria de ter mais tempo para poder participar nalgumas competições mais.”

Finalmente, a questão de Tove Alexandersson a Hana Dolezalova, Atleta do Mês de Abril: “Qual é o seu sítio preferido na República Checa e porquê?”



Mundanidades
  • Dormiria até que horas, se pudesse? R: Não gosto de dormir de manhã e normalmente não necessito dum despertador para acordar. Levanto-me normalmente entre as 6:30 e as 7:30.
  • Qual é o seu carro de sonho? Prefere conduzir ou ser conduzida? R: Não tenho nenhum carro de sonho, mas sonho com ter um carro que tenha uma boa condução no Inverno. Prefiro ser conduzida mas, por vezes, também é bom conduzir.
  • Se tivesse uma banda de música, como é que se chamaria e que tipo de música tocariam? R: A única coisa que sei é que necessitaria de alguém que fosse mais musical do que eu.
  • Por favor, escolha a tripulação para o seu veleiro e a trace a rota dos seus sonhos. R: Gosto de viajar e de ver novas paragens, mas não num veleiro. Penso, portanto, que ficaria por terra e traria alguns amigos que gostam de aventura e de correr comigo.
  • Escolha um destes objetos e explique porquê: uma árvore, uma pedra, uma praia, um animal doméstico, um pôr do sol. R: Uma enorme pedra. Dessa forma poderia escalá-la.
  • Convida Barack Obama para jantar. O que cozinharia para ele? R: Não faço ideia, não tenho nenhuma especialidade. Faria aquilo que me viesse à ideia nesse dia.
  • Depois dum susto enorme a esquiar montanha abaixo, que bebida escolheria para relaxar? R: Chocolate quente.
  • Qual o seu filme preferido? Que papel desempenharia nele? R: Acho desinteressante ver filmes e por isso raramente o faço, sobretudo ver um filme inteiro.
  • É-lhe dada a hipótese única de ir a Marte mas, para isso, vai ter de deixar a Orientação durante 1000 dias. Embarca nessa viagem? R: Não, nem pensar. Eu não quero ir a Marte. É uma viagem longa e aborrecida e, afinal, o que é que eu faria lá?
  • O que é que não dispensava na ilha deserta? R: Alguns amigos.


[Texto: Joaquim Margarido; Foto: Swedish Orienteering Federation / orienteering.org. Traduzido do original em http://orienteering.org/best-in-summer-best-in-winter-iof-athlete-of-march-2015/. Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação]

sábado, 1 de março de 2014

ALETA DO MÊS: Andreu Blanes, um espanhol na alta roda



Estou com os meus companheiros. Treinámos durante a manhã e acabámos de comer. Agora é tempo de pausa à espera do treino da tarde que irá ser num terreno de bosque muito fechado e com detalhe rochoso, tal como no WOC 2011. Será uma partida em massa, seguramente. Enquanto aguardamos e descansamos, jogamos às cartas. Tenho uma mão cheia de cartas boas. Esta rodada é minha!” Um exercício simples, um apelo à imaginação e uma resposta que diz muito daquilo que é o atual líder do novíssimo Ranking Mundial de Sprint. Falamos de Andreu Blanes Reig, espanhol de Onil, Alicante, onde nasceu há 22 anos atrás. Um atleta que respira Orientação por todos os poros e cujo pensamento na vitória é uma constante. Mesmo em momento de pausa. Mesmo num jogo de azar!


Nome: Andreu Blanes Reig
País: Espanha
Disciplina: Orientação Pedestre
Pontos altos: 31º lugar na Distância Média (WOC 2013, Vuokatti), 24º lugar no Sprint (WOC 2012, Lausanne), 14º lugar na Estafeta (WOC 2013, Vuokatti), Vice Campeão do Mundo Júnior de Sprint (JWOC 2011, Rumia-Wejherowo)
Posição no Ranking Mundial: 64º (em 31/12/2013)
Posição no Ranking Mundial de Sprint: 1º (provisório)


A entrevista sofrera algum atraso devido à época de exames em Espanha, mas agora que tudo está mais calmo temos algum tempo para conversar. E Andreu Blanes começará por satisfazer essa curiosidade relativamente aos estudos: “Estou no Curso de Engenharia Civil e estes eram os exames da primeira metade do curso, deles dependendo a aprovação de todo o trabalho desenvolvido desde o início do ano letivo, em Setembro.”

A Orientação foi a razão de estar agora na UCAM – Universidad Católica San António de Múrcia, depois de lhe ter sido oferecida a possibilidade de ter uma bolsa de estudos e poder seguir em frente com o desporto e o ensino. Andreu aceitou e acaba de se mudar para Múrcia, depois de quatro anos a estudar e a treinar em Madrid. Segundo ele, “a principal razão desta mudança teve a ver com as facilidades de treino e de estudo que tenho em Múrcia e que não tinha em Madrid. Em Madrid era impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo e os estudos são, sem dúvida, o mais importante com vista ao futuro.”


Corria mais do que o mapa”

Tudo começou no Desporto Escolar. O entusiasmo levou-o a apaixonar-se pela prática desportiva e era presença em vários grupos de modalidades distintas. Mas à medida que começou a perceber que o tempo não dava para tudo, o leque de opções foi-se reduzindo. O Futebol foi o primeiro a cair e logo a seguir o Basquetebol. Acabou por ficar apenas a Orientação, num processo que ele próprio não sabe explicar muito bem, até porque, reconhecidamente, no início, as suas qualidades físicas se sobrepunham às qualidades técnicas. Ou, fazendo uso das suas palavras, “corria mais do que o mapa”.

E contudo, em 2011, chega ao pódio mundial de Juniores, conquistando a medalha de prata na distância de Sprint. O atleta não nega essa realidade e reconhece: “A ida para Madrid e o ingresso no Centro de Alto Rendimento Joaquín Blume acabou por ser determinante. Creio que a mudança foi o resultado duma reflexão pessoal e teve a ver com essa necessidade de pensar a sério no meu futuro, começar a dar no duro e a analisar o porquê das coisas. Foi um passo determinante para ser aquilo que sou hoje, foi a chave para chegar à Elite e ter sido Vice-Campeão do Mundo.”

Falando de 2011 e desse Campeonato do Mundo de Juniores, na Polónia, fica a enorme emoção e uma grata recordação do apoio recebido daqueles que lhe são mais próximos. “ Foi uma experiência incrível e os meus companheiros foram duma ajuda preciosa naqueles momentos, fazendo com que corresse mais rápido”, lembra. Uma experiência seguramente enriquecedora e que teve inúmeras consequências, tanto a nível desportivo como pessoal: “Foi importante na minha carreira porque me ajudou a perceber que me encontrava no bom caminho e que com trabalho poderia chegar à Elite da orientação mundial. Também foi importante porque significou poder correr pela equipa sueca do Södertälje-Nykvarn Orientering e ter como sponsor a Salomon, para além duma pequena ajuda do Governo espanhol.”


Há pessoas que fazem da orientação o seu sonho”

- Quais as maiores dificuldades que se colocam ao orientista Andreu Blanes?

“As dificuldades maiores são económicas, embora a questão da crise económica seja, no nosso caso, quase uma não questão. Na verdade, uma vez que já temos tão pouco, também não nos podem tirar grande coisa. Sejamos realistas: Em Espanha não existem meios para um desporto como a Orientação e tudo é feito à custa de muito poucos recursos. É um problema de sempre, embora se deva reconhecer que os meios de que a Federação dispõe são cada vez menores. Conseguir um simples apoio é quase missão impossível. Felizmente, há pessoas que fazem da orientação o seu sonho e acreditam naquilo que eu próprio acredito. É graças a elas e ao seu esforço que eu tenho a possibilidade de estar aqui agora.”


Gosto de fazer coisas diferentes dumas vezes para as outras”

Falando de si e daquilo que constitui a rotina do treino, Andreu Blanes explica que a sua semana está sempre dependente de haver ou não competição. Mas o mais normal é algo do género: Segunda feira descanso ativo, terça feira séries (intervalos), quarta feira treino técnico, quinta feira mudanças de ritmo, sexta feira rolar, sábado e domingo competição. E tudo isto sob a supervisão dum treinador: “Ao longo da minha carreira tive dois treinadores: Jesus Gil e Alberto Minguez. Ambos me ensinaram muito. O treinador é sempre alguém muito importante, é ele quem indica a forma de colocar as peças para formar o puzzle”, afirma.

Para além da Orientação, o atleta gosta de todo o tipo de desportos mas não acompanha nenhum em especial. Também gosta muito de cinema, embora não seja um frequentador tão assíduo como gostaria. O mesmo se passa com a leitura. Sobretudo, gosta de fazer coisas diferentes dumas vezes para as outras, “é mais divertido do que fazer sempre as mesmas coisas”, diz.


Só o tempo dirá onde chegaremos, mas chegaremos longe!”

- Nos recentes Campeonatos do Mundo, a Espanha conseguiu meter pelo menos três atletas em cada uma das finais A individuais e o Andreu alcançou na Distância Média o melhor resultado de sempre dum orientista espanhol em Campeonatos do Mundo de Elite. Que Espanha é esta e até onde pode ir?

Temos uma boa equipa, uma equipa jovem e com muitas possibilidades em termos de futuro. Agora somos apenas uma possibilidade, mas esperamos no futuro chegar a ser uma realidade. Não dispomos de grandes meios, mas há gente a trabalhar muito para que o dia da nossa afirmação chegue. E todos nós ansiamos por esse momento o mais rapidamente possível. A soma dos atletas com motivação e das pessoas que estão na base deste projeto mostrará certamente resultados enormes. Só o tempo dirá onde chegaremos, mas chegaremos longe!


António Martinez, Roger Casal e Thierry Gueorgiou

Andreu Blanes tem com António Martinez - outro valor seguro da orientação espanhola e mundial -, uma relação muito especial. Mas quem são, afinal, os “Niños Bomba”? A resposta não se faz esperar: “Os 'niños bomba' eram dois meninos que faziam orientação, uma vezes muito bem e outras vezes muito mal (risos). Hoje as coisas são mais a sério e já conseguimos que a diferença entre as provas boas e as menos boas se vá esbatendo a pouco e pouco. António e eu sempre estivemos juntos e para os dois é muito importante termo-nos um ao lado do outro. É impensável ver-me numa prova importante sem o António e creio que o mesmo se passa com ele. Temo-nos apoiado sempre e vamos continuar a fazê-lo.”

Para além de António Martínez, há dois outros atletas que Andreu aprecia no espetro da Orientação mundial. São eles Thierry Gueorgiou e Roger Casal, este último outra enorme referência da modalidade em Espanha. Acerca do primeiro, comenta que “é espetacular aquilo que faz e consigo aprender imenso com ele”. Quanto ao seu compatriota, as palavras são igualmente elogiosas: “Apesar de estar sozinho, conseguiu ir muito longe. Foi uma felicidade poder aprender com ele dia após dia.” Em resumo: “Sem dúvida, quando me olho ao espelho e vejo até onde quero chegar, é com eles que me comparo”, conclui.


Um passo mais na minha carreira”

- Ainda recentemente, em Portugal, foi possível vê-lo subir por duas vezes ao lugar mais alto do pódio duma prova pontuável para o ranking mundial de Sprint, à frente de atletas como Daniel Hubmann, Fréderic Tranchand, Philippe Adamski ou... Thierry Gueorgiou. Que valor dá a estas vitórias e que o colocam na liderança do ranking mundial de Sprint?

Estas vitórias são apenas um passo mais na minha carreira e querem dizer que estou no bom caminho. Pessoalmente, são duas vitórias muito motivadoras, sobretudo porque não é facil perceber se estamos a fazer bem as coisas ou não e aqui tenho a confirmação. Mas há ainda muito para fazer e todo um trabalho árduo pela frente.


Os resultados são bons e as sensações também”

Andreu Blanes prepara com afinco e ambição uma nova temporada. Mas as coisas mudaram bastante, o atleta está numa universidade nova, numa cidade nova e a viver novas experiências. “Neste momento os resultados são bons e as sensações também”, diz. Daí que o futuro, pelo menos no imediato, seja sorridente: “Espero continuar assim e estar a 100% nos momentos mais importantes da temporada. Até esta altura o treino foi mais de volume, mas agora começo a trabalhar a orientação com mais intensidade. Esta pré-época está a ser fantástica e tenho viajado muito, repartindo o meu treino entre Portugal e Espanha. Quero continuar assim, com este afinco, para poder chegar na melhor forma à Taça do Mundo, em Espanha, e aos Campeonatos da Europa, em Portugal.

O grande objetivo é sempre o Campeonato do Mundo, mas este é também o ano dos Campeonatos da Europa e da Taça do Mundo em Espanha. Três apostas fortes e que merecem a seguinte antevisão: “Creio que poderei conseguir bons resultados e vou trabalhar para isso com todas as minhas forças. Sobretudo, espero desfrutar das provas e alcançar o melhor resultado possível.” Referindo-se concretamente à Taça do Mundo, em Espanha, Andreu Blanes deixa-nos a sua opinião: “Creio que será um grande evento. Sei que irei encontrar provas desafiantes e exigentes e espero estar ao meu melhor nível.” A terminar, uma certeza em jeito de convite: “Aqueles que vierem a Espanha vão poder contar com orientação de grande qualidade e enfrentar uma equipa espanhola na máxima força. Vai ser, sem dúvida, inesquecível!”


Perguntas e respostas

Questão colocada por Daisy Kudre, a Atleta do Mês de Fevereiro: “ - Os Campeonatos do Mundo de 2017 terão lugar na Estónia. Já correu aqui alguma vez e acha que os terrenos são à sua medida para alcançar bons resultados?”

E a resposta de Andreu Blanes: “Nunca corri na Estónia mas penso que os terrenos serão ao meu gosto, talvez não agora, mas seguramente em 2017. É tudo uma questão de treino. Terei 25 anos quando disputar o WOC 2017 e as minhas expectativas são as de que estarei nessa altura no pelotão da frente.”

Finalmente, a questão de Andreu Blanes para Martin Fredholm, o Atleta do próximo mês de Abril: “Como é que treina Orientação de Precisão? E qual o melhor momento da sua carreira? Porquê?”. Resposta para descobrir dentro de 31 dias.

[Leia a Reportagem na versão original inglesa em http://orienteering.org/athlete-of-march-on-the-way-to-the-top/. Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO