“Estou
com os meus companheiros. Treinámos durante a manhã e acabámos de
comer. Agora é tempo de pausa à espera do treino da tarde que irá
ser num terreno de bosque muito fechado e com detalhe rochoso, tal
como no WOC 2011. Será uma partida em massa, seguramente. Enquanto
aguardamos e descansamos, jogamos às cartas. Tenho uma mão cheia de
cartas boas. Esta rodada é minha!” Um exercício simples, um apelo
à imaginação e uma resposta que diz muito daquilo que é o atual
líder do novíssimo Ranking Mundial de Sprint. Falamos de Andreu
Blanes Reig, espanhol de Onil, Alicante, onde nasceu há 22 anos
atrás. Um atleta que respira Orientação por todos os poros e cujo
pensamento na vitória é uma constante. Mesmo em momento de pausa.
Mesmo num jogo de azar!
Nome: Andreu Blanes
Reig
País: Espanha
Disciplina: Orientação
Pedestre
Pontos altos: 31º
lugar na Distância Média (WOC 2013, Vuokatti), 24º lugar no Sprint
(WOC 2012, Lausanne), 14º lugar na Estafeta (WOC 2013, Vuokatti),
Vice Campeão do Mundo Júnior de Sprint (JWOC 2011, Rumia-Wejherowo)
Posição no Ranking Mundial: 64º
(em 31/12/2013)
Posição no Ranking Mundial de
Sprint: 1º (provisório)
A entrevista sofrera algum atraso
devido à época de exames em Espanha, mas agora que tudo está mais
calmo temos algum tempo para conversar. E Andreu Blanes começará
por satisfazer essa curiosidade relativamente aos estudos: “Estou
no Curso de Engenharia Civil e estes eram os exames da primeira
metade do curso, deles dependendo a aprovação de todo o trabalho
desenvolvido desde o início do ano letivo, em Setembro.”
A Orientação foi a razão de estar
agora na UCAM – Universidad Católica San António de Múrcia,
depois de lhe ter sido oferecida a possibilidade de ter uma bolsa de
estudos e poder seguir em frente com o desporto e o ensino. Andreu
aceitou e acaba de se mudar para Múrcia, depois de quatro anos a
estudar e a treinar em Madrid. Segundo ele, “a principal razão
desta mudança teve a ver com as facilidades de treino e de estudo
que tenho em Múrcia e que não tinha em Madrid. Em Madrid era
impossível fazer as duas coisas ao mesmo tempo e os estudos são,
sem dúvida, o mais importante com vista ao futuro.”
“Corria mais do que o mapa”
Tudo começou no Desporto Escolar. O
entusiasmo levou-o a apaixonar-se pela prática desportiva e era
presença em vários grupos de modalidades distintas. Mas à medida
que começou a perceber que o tempo não dava para tudo, o leque de
opções foi-se reduzindo. O Futebol foi o primeiro a cair e logo a
seguir o Basquetebol. Acabou por ficar apenas a Orientação, num
processo que ele próprio não sabe explicar muito bem, até porque,
reconhecidamente, no início, as suas qualidades físicas se
sobrepunham às qualidades técnicas. Ou, fazendo uso das suas
palavras, “corria mais do que o mapa”.
E contudo, em 2011, chega ao pódio
mundial de Juniores, conquistando a medalha de prata na distância de
Sprint. O atleta não nega essa realidade e reconhece: “A ida para
Madrid e o ingresso no Centro de Alto Rendimento Joaquín Blume
acabou por ser determinante. Creio que a mudança foi o resultado
duma reflexão pessoal e teve a ver com essa necessidade de pensar a
sério no meu futuro, começar a dar no duro e a analisar o porquê
das coisas. Foi um passo determinante para ser aquilo que sou hoje,
foi a chave para chegar à Elite e ter sido Vice-Campeão do Mundo.”
Falando de 2011 e desse Campeonato do
Mundo de Juniores, na Polónia, fica a enorme emoção e uma grata
recordação do apoio recebido daqueles que lhe são mais próximos.
“ Foi uma experiência incrível e os meus companheiros foram duma
ajuda preciosa naqueles momentos, fazendo com que corresse mais
rápido”, lembra. Uma experiência seguramente enriquecedora e que
teve inúmeras consequências, tanto a nível desportivo como
pessoal: “Foi importante na minha carreira porque me ajudou a
perceber que me encontrava no bom caminho e que com trabalho poderia
chegar à Elite da orientação mundial. Também foi importante
porque significou poder correr pela equipa sueca do
Södertälje-Nykvarn Orientering e ter como sponsor a Salomon, para
além duma pequena ajuda do Governo espanhol.”
“Há pessoas que fazem da
orientação o seu sonho”
- Quais as maiores dificuldades que
se colocam ao orientista Andreu Blanes?
“As dificuldades maiores são
económicas, embora a questão da crise económica seja, no nosso
caso, quase uma não questão. Na verdade, uma vez que já temos tão
pouco, também não nos podem tirar grande coisa. Sejamos realistas:
Em Espanha não existem meios para um desporto como a Orientação e
tudo é feito à custa de muito poucos recursos. É um problema de
sempre, embora se deva reconhecer que os meios de que a Federação
dispõe são cada vez menores. Conseguir um simples apoio é quase
missão impossível. Felizmente, há pessoas que fazem da orientação
o seu sonho e acreditam naquilo que eu próprio acredito. É graças
a elas e ao seu esforço que eu tenho a possibilidade de estar aqui
agora.”
“Gosto de fazer coisas diferentes
dumas vezes para as outras”
Falando de si e daquilo que constitui a
rotina do treino, Andreu Blanes explica que a sua semana está sempre
dependente de haver ou não competição. Mas o mais normal é algo
do género: Segunda feira descanso ativo, terça feira séries
(intervalos), quarta feira treino técnico, quinta feira mudanças de
ritmo, sexta feira rolar, sábado e domingo competição. E tudo isto
sob a supervisão dum treinador: “Ao longo da minha carreira tive
dois treinadores: Jesus Gil e Alberto Minguez. Ambos me ensinaram
muito. O treinador é sempre alguém muito importante, é ele quem
indica a forma de colocar as peças para formar o puzzle”, afirma.
Para além da Orientação, o atleta
gosta de todo o tipo de desportos mas não acompanha nenhum em
especial. Também gosta muito de cinema, embora não seja um
frequentador tão assíduo como gostaria. O mesmo se passa com a
leitura. Sobretudo, gosta de fazer coisas diferentes dumas vezes para
as outras, “é mais divertido do que fazer sempre as mesmas
coisas”, diz.
“Só o tempo dirá onde
chegaremos, mas chegaremos longe!”
- Nos recentes Campeonatos do Mundo,
a Espanha conseguiu meter pelo menos três atletas em cada uma das
finais A individuais e o Andreu alcançou na Distância Média o
melhor resultado de sempre dum orientista espanhol em Campeonatos do
Mundo de Elite. Que Espanha é esta e até onde pode ir?
Temos uma boa equipa, uma equipa jovem
e com muitas possibilidades em termos de futuro. Agora somos apenas
uma possibilidade, mas esperamos no futuro chegar a ser uma
realidade. Não dispomos de grandes meios, mas há gente a trabalhar
muito para que o dia da nossa afirmação chegue. E todos nós
ansiamos por esse momento o mais rapidamente possível. A soma dos
atletas com motivação e das pessoas que estão na base deste
projeto mostrará certamente resultados enormes. Só o tempo dirá
onde chegaremos, mas chegaremos longe!
António Martinez, Roger Casal e
Thierry Gueorgiou
Andreu Blanes tem com António Martinez
- outro valor seguro da orientação espanhola e mundial -, uma
relação muito especial. Mas quem são, afinal, os “Niños Bomba”?
A resposta não se faz esperar: “Os 'niños bomba' eram dois
meninos que faziam orientação, uma vezes muito bem e outras vezes
muito mal (risos). Hoje as coisas são mais a sério e já
conseguimos que a diferença entre as provas boas e as menos boas se
vá esbatendo a pouco e pouco. António e eu sempre estivemos juntos
e para os dois é muito importante termo-nos um ao lado do outro. É
impensável ver-me numa prova importante sem o António e creio que o
mesmo se passa com ele. Temo-nos apoiado sempre e vamos continuar a
fazê-lo.”
Para além de António Martínez, há
dois outros atletas que Andreu aprecia no espetro da Orientação
mundial. São eles Thierry Gueorgiou e Roger Casal, este último
outra enorme referência da modalidade em Espanha. Acerca do
primeiro, comenta que “é espetacular aquilo que faz e consigo
aprender imenso com ele”. Quanto ao seu compatriota, as palavras
são igualmente elogiosas: “Apesar de estar sozinho, conseguiu ir
muito longe. Foi uma felicidade poder aprender com ele dia após
dia.” Em resumo: “Sem dúvida, quando me olho ao espelho e vejo
até onde quero chegar, é com eles que me comparo”, conclui.
“Um passo mais na minha carreira”
- Ainda recentemente, em Portugal,
foi possível vê-lo subir por duas vezes ao lugar mais alto do pódio
duma prova pontuável para o ranking mundial de Sprint, à frente de
atletas como Daniel Hubmann, Fréderic Tranchand, Philippe Adamski
ou... Thierry Gueorgiou. Que valor dá a estas vitórias e que o
colocam na liderança do ranking mundial de Sprint?
Estas vitórias são apenas um passo
mais na minha carreira e querem dizer que estou no bom caminho.
Pessoalmente, são duas vitórias muito motivadoras, sobretudo porque
não é facil perceber se estamos a fazer bem as coisas ou não e
aqui tenho a confirmação. Mas há ainda muito para fazer e todo um
trabalho árduo pela frente.
“Os resultados são bons e as
sensações também”
Andreu Blanes prepara com afinco e
ambição uma nova temporada. Mas as coisas mudaram bastante, o
atleta está numa universidade nova, numa cidade nova e a viver novas
experiências. “Neste momento os resultados são bons e as
sensações também”, diz. Daí que o futuro, pelo menos no
imediato, seja sorridente: “Espero continuar assim e estar a 100%
nos momentos mais importantes da temporada. Até esta altura o treino
foi mais de volume, mas agora começo a trabalhar a orientação com
mais intensidade. Esta pré-época está a ser fantástica e tenho
viajado muito, repartindo o meu treino entre Portugal e Espanha.
Quero continuar assim, com este afinco, para poder chegar na melhor
forma à Taça do Mundo, em Espanha, e aos Campeonatos da Europa, em
Portugal.
O grande objetivo é sempre o
Campeonato do Mundo, mas este é também o ano dos Campeonatos da
Europa e da Taça do Mundo em Espanha. Três apostas fortes e que
merecem a seguinte antevisão: “Creio que poderei conseguir bons
resultados e vou trabalhar para isso com todas as minhas forças.
Sobretudo, espero desfrutar das provas e alcançar o melhor resultado
possível.” Referindo-se concretamente à Taça do Mundo, em
Espanha, Andreu Blanes deixa-nos a sua opinião: “Creio que será
um grande evento. Sei que irei encontrar provas desafiantes e
exigentes e espero estar ao meu melhor nível.” A terminar, uma
certeza em jeito de convite: “Aqueles que vierem a Espanha vão
poder contar com orientação de grande qualidade e enfrentar uma
equipa espanhola na máxima força. Vai ser, sem dúvida,
inesquecível!”
Perguntas e respostas
Questão colocada por Daisy Kudre, a
Atleta do Mês de Fevereiro: “ - Os Campeonatos do Mundo de 2017
terão lugar na Estónia. Já correu aqui alguma vez e acha que os
terrenos são à sua medida para alcançar bons resultados?”
E a resposta de Andreu Blanes: “Nunca
corri na Estónia mas penso que os terrenos serão ao meu gosto,
talvez não agora, mas seguramente em 2017. É tudo uma questão de
treino. Terei 25 anos quando disputar o WOC 2017 e as minhas
expectativas são as de que estarei nessa altura no pelotão da
frente.”
Finalmente, a questão de Andreu Blanes
para Martin Fredholm, o Atleta do próximo mês de Abril: “Como é
que treina Orientação de Precisão? E qual o melhor momento da sua
carreira? Porquê?”. Resposta para descobrir dentro de 31 dias.
[Leia a Reportagem na versão original
inglesa em
http://orienteering.org/athlete-of-march-on-the-way-to-the-top/.
Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de
Orientação]
Saudações orientistas.
JOAQUIM MARGARIDO