WTOC 2012

WTOC 2012 CAMPEONATO DO MUNDO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO: DIÁRIO (VI)



Junho, 09. Pela primeira vez nestes Mundiais, o dia amanhece airoso. Conseguem descortinar-se alguns pedaços de céu azul, a temperatura é amena e não sopra vento.


1. Pela primeira vez nestes Mundiais, o dia amanhece airoso. Conseguem descortinar-se alguns pedaços de céu azul, a temperatura é amena e não sopra vento. Quem se refere a Dundee como “o recanto solarengo do Reino Unido” sabe do que fala. Sobretudo depois de vermos os estragos que o mau tempo das últimas horas provocou no País de Gales.

2. Na derradeira viagem de Mini-Bus a caminho de Tentsmuir, voltamos a ter Lyn West por companhia. Duma nova troca de ideias particularmente construtiva, retenho um conselho. “Avalia quantos voluntários vais precisar para uma prova e multiplica esse número por dois. Nas alturas em que mais precisas, há sempre aqueles que não vão aparecer. Por mais válidas que sejam as suas razões!”

3. Vivo e sinto intensamente este último dia dos Mundiais. Uma certa nostalgia faz com que a floresta pareça mais bela que nunca. Os pássaros, no seu trinado, constroem verdadeiras sinfonias e o mar, que apenas se escuta, abre-se de súbito ante os nossos olhos. Impressiona o facto de sermos tantos ali à volta e não se ouvir um pequenino ruído que seja. Parece que andamos todos em bicos de pés, para não perturbarmos a concentração uns dos outros. De facto, isto não tem mesmo nada a ver com a realidade dos nossos atletas, das nossas provas, do nosso País!

4. Sou o primeiro a completar a prova, o que me vale uma ida à cabine de som e o transmitir de algumas palavras. Fica o agradecimento a uma organização que tão bem nos soube acolher, a todos aqueles que trabalharam no sentido de que estes Mundiais fossem um êxito e a todos quantos quiseram partilhar connosco algo do muito que sabem. E um desejo: Que nos voltemos a encontrar brevemente, em torno dum ideal chamado Orientação de Precisão!

5. É verdade que o resultado era o que menos interessava, mas confesso que esperava ter feito bem melhor neste segundo dia. Mais tarde perceberei que há distrações que se pagam caro e confirmarei que, num evento desta natureza, para além do domínio das técnicas e duma estratégia adequada, a experiência é fundamental.

6. Ao contrário de mim, o Ricardo está muito contente. Subiu um lugar na classificação e, para ele, os Mundiais acabaram por se compor. O café que bebemos, enquanto discutimos animadamente as nossas opções, sabe deliciosamente. Decidimos tomar outro. Chego à tenda e faço questão de dizer que este foi o melhor café que bebi durante a estadia no Reino Unido. A senhora agradece as minhas palavras, ao mesmo tempo que me informa que já só tem mesmo um café. Paciência, mais vale um que nenhum. Prepara-se, na hora. É instantâneo, bastam duas colheres em pó e é só acrescentar água quente. Café instantâneo, um Mokambo ou coisa do género, o melhor café desta viagem. Quem diria!?

7. A chuva faz com que a Cerimónia de Entrega de Prémios sofra um ligeiro atraso. É tempo de celebrar os vencedores e de lhes prestar a devida homenagem. Stig Gerdtman e Ola Jansson dão uma saborosa vitória dupla à Suécia, repetindo precisamente o mesmo resultado alcançado há dois anos atrás, em Trondheim. A Finlândia vence por equipas. A Grã-Bretanha, anfitriã destes Mundiais, tem em Ian Ditchfield uma solitária presença do pódio. A Noruega acaba por ser a grande derrotada dos Campeonatos, não conseguindo, pela primeira vez na sua história, classificar qualquer atleta nos seis primeiros lugares.

8. Regressamos para o derradeiro ato destes Mundiais. A Cerimónia de Encerramento volta a ser um momento de grande dignidade, pontuado pela passagem de testemunho à Finlândia como País organizador dos próximos Campeonatos do Mundo. Segue-se o banquete, com muita festa e animação, vinho a acompanhar a refeição, molhos à base de whisky e música ao vivo. Música de ressonâncias célticas, à solta em West Park, dançada a preceito por gente de saias!

9. Os ritmos vivos interrompem-se de súbito para dar lugar a uma dolente balada. As cadeiras de rodas pisam agora a improvisada pista de dança em frente ao palco do Auditório. Embalados na música, Chris James e Marina Borisenkova rodopiam em torno um do outro, protagonizando aquele que será, para mim, o mais belo momento dos Mundiais. Absolutamente sublime!

10. Porque tudo tem um fim, é tempo de despedida. Dos Mundiais recolhe-se a experiência, o convívio, a camaradagem e um valioso conjunto de ideias em relação ao futuro imediato. Das conversas com Owe Fredholm, Knut Ovesen e Roberta Falda retiro um par de recomendações com vista aos trabalhos dos Europeus de 2014. Da minha convivência com o Ricardo saem reforçados os laços de amizade e a certeza de poder contar com ele para o futuro. Até 2013, em Vuokatti!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO


WTOC 2012 CAMPEONATO DO MUNDO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO: DIÁRIO (V)



Junho, 08. Terrível noite mal dormida. O vento e a chuva, misturei-os nos meus sonhos com mapas e bússolas. E gigantescos sacos de plástico para abrigar o Ricardo.


1. Terrível noite mal dormida. O vento e a chuva, misturei-os nos meus sonhos com mapas e bússolas. E gigantescos sacos de plástico para abrigar o Ricardo. Saio para tomar o pequeno almoço e os meus piores receios parece que não se confirmam. O tempo está menos agreste do que supunha e, pelo menos por agora, não chove. Só o vento sopra rijo, colocando uma nota de invernia nesta segunda quinta-feira de Junho, às portas do Verão.

2. O Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão vai começar. Deito uma última olhadela às nossas coisas, confirmo os horários. O Ricardo será dos primeiros a partir, quando forem 10h09; eu sairei ás 10h44. Temos um longo dia pela frente.

3. A viagem até Tentsmuir faz-se na companhia da comitiva húngara. Viajamos em silêncio. E em silêncio, após a nossa chegada, remetemo-nos ao aconchego duma recatada tenda, recheada de japoneses e americanos. Olhamos para a bandeira da IOF sacudida pelo vento. Tentamos adivinhar-lhe a direção. Alguém trouxe uma bússola?

4. Confirmo junto de Anne Braggins que o Ricardo terá assistência na deslocação durante a prova. A Diretora destes Mundiais recebe-me com um sorriso e, à sua curiosidade, respondo que já ganhámos a nossa medalha e que a quantidade de ensinamentos que vamos recolhendo dia após dia vale ouro. Fala-me do seu “staff”, dos muitos indisponíveis e de estarem a trabalhar nos mínimos. Têm um “núcleo duro” de aproximadamente dez pessoas, outras dez bastante próximas e são, no total, 72 pessoas a trabalhar nesta organização, 50 das quais aqui a tempo inteiro. Percebo nisto um recado. Portugal prepara os Europeus de Orientação de Precisão em 2014 e não podemos adiar por muito mais tempo o início dos trabalhos.

5. Viajo em mini-autocarro para as partidas. Quase a chegar, um sobressalto: esqueci-me do cartão de controlo na mochila. É irlandês o meu companheiro de viagem e logo me tranquiliza ao dizer que não serei o único a esquecê-lo e que a organização deverá ter nas partidas cartões a mais. Com efeito!...

6. Acerto os dois primeiros pontos cronometrados e gasto 15 segundos apenas. Os Mundiais não poderiam ter começado da melhor forma. À medida que a prova vai decorrendo, começo a perceber que todos os atletas têm uma estratégia própria de abordagem aos vários pontos. Marit Wiskell não se afasta muito do ponto de observação, Lauri Kontkanen já circula mais em torno dos pontos, tal como Ivo Tilsjar. Remo Madella quase dá a volta à floresta para aferir a sua resposta no ponto 4. Quanto a mim, não sei se fique, não sei se vá. Vou!

7. A prova corre-me bem. Embora sinta como certas as respostas dadas em apenas três ou quatro pontos, tenho a impressão que talvez tenha conseguido uma percentagem superior a cinquenta por cento de respostas certas. Não erro por muito. Dos 22 pontos que compunham este primeiro dia de provas, acerto 11. Na verdade acerto 10, já que houve um ponto anulado pela organização e no qual tinha dado uma resposta acertada. Não me sinto frustrado, foi uma bela experiência, embora a minha aspiração de ficar entre os 50 melhores do mundo tenha ido completamente por água abaixo.

8. O Ricardo está inconsolável. Depois da excelente prestação no Model Event, os sete pontos conseguidos deixam-no “à beira de um ataque de nervos”. Digo-lhe que, tal como eu, tem tudo a aprender e nada a provar. Mas compreendo a sua desilusão, o seu desconsolo. Diz-me que amanhã vai vingar este resultado menos conseguido. Mas como? Fez aquilo que sabia e amanhã vai voltar a fazê-lo, que isto da Orientação de Precisão não se aprende dum dia para o outro.

9. Aproveitamos o início da tarde para conhecer um pedacinho de Dundee. É uma cidade pequenina e simpática, com um bom par de ruas comerciais apenas para peões, museus, galerias e um espaço comercial de excelência, bem no centro da cidade. Uma rede de transportes públicos adaptados deixam-me muito agradavelmente surpreendido. Entre as obras que revolvem toda a frente ribeirinha do Tay, descortina-se, imponente, o RRS Discovery, o primeiro navio a ser construído especificamente para pesquisa científica. É nele que embarcamos e, sob as ordens do Capitão Scott, atingimos o Pólo Sul nesse distante 17 de Janeiro de 1912.

10. O Trail-O Meeting de hoje é marcado pelo anúncio dum ponto anulado, precisamente o primeiro. A queixa partiu da Finlândia e baseou-se na incorreta colocação das balizas. Na Orientação de Precisão tudo tem de bater certo e, por sinal, havia ali uma árvore "fora do sítio". Mas os aspetos negativos não se quedam por aqui. Considera-se que o mapa não está à altura dum Campeonato do Mundo, o traçador de percursos ofereceu vários pontos de “bingo”, como lhes chamaria Lauri Kontkanen, e os atletas paralímpicos viram as suas provas muito dificultadas, não apenas pela desadequada assistência de jovens sem preparação, mas também pela deficiente colocação dos pontos em termos da sua visibilidade. No segundo dia as coisas viriam a correr bastante melhor, mas a nódoa nos Campeonatos, essa, não há como a fazer desaparecer.

11. Deitadas para trás das costas as agruras do primeiro dia de provas, o jantar faz-se à mesa do conjunto da Polónia. Ágata Ludwiczak é uma atleta paralímpica que tem uma queixa. A assistência dada às pessoas em cadeira de rodas, por parte de miúdos com 14 e 15 anos, não foi a melhor. É claro que esta foi uma experiência fantástica para os jovens, é óbvio que eles constituiram um recurso de valor inquestionável para a organização. Mas se a desvantagem de progredir em cadeira de rodas é um facto, aqui tornou-se mais evidente ainda. Ágata opina que deveriam ter participado no Model Event e, em cadeira de rodas, deveriam ter feito a prova empurrando-se uns aos outros. A ideia é brilhante e, em situações semelhantes, devemos pô-la em prática em Portugal. Para a Ágata, o ideal é que os jovens sejam substituídos por militares: Altos, fortes, fardados!



Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO


WTOC 2012 CAMPEONATO DO MUNDO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO: DIÁRIO (IV)



Junho, 07. Model Event, a grande oportunidade para levantar o moral, depois do pouco animador resultado no Troféu Mundial de TempO.


1. Model Event, a grande oportunidade para levantar o moral, depois do pouco animador resultado no Troféu Mundial de TempO. “Ibéria unida, na fortuna e na desgraça”, diria o meu amigo Roberto Munilla e não poderia estar mais de acordo com ele. Mas antes, a viagem até ao muito procurado Parque de Merendas de Kinshaldy, num pouco simpático dia cinzentão mas sem chuva. Por enquanto!

2. O Roberto seguirá de carro diretamente para a prova e o lugar vago é ocupado por Lyn West. Senta-se à frente na viatura, entre o condutor e um jovem japonês. Salto do lugar, desalojo o japonês e instalo-me ao lado da Presidente da Federação Britânica de Orientação. Essa nossa conversa até Tentsmuir ficará registada no meu gravador. Para mais tarde transcrever… e partilhar!

3. Vamos lá então ao Model Event. Vento e mar por pano de fundo. O percurso tem 10 pontos, complementado por dois pontos cronometrados. Desde logo, confirmo aquilo que o Roberto já me tinha dito. Por muito boas que sejam para a Orientação Pedestre, estas nossas bússolas não são adequadas para a Orientação de Precisão. Fazem-lhes falta a régua graduada ao milímetro. Mais tarde perceberei que uma boa base para assentar no mapa também é importante, bem como a extensão da régua. Quanto maiores, mais aferidas são as “miras” que a partir delas se tiram. E pensar numa lupa como a do Ivo Tilsjar talvez também não seja má ideia!

4. Acompanho o Ricardo, auxilio-o na progressão. Onde ele pára, eu paro também. Ajudo-o a deslocar-se para um lado e para outro para melhor conferir as suas tomadas de decisão. No entretanto, vou estudando o meu próprio mapa e fazendo algumas fotos dos pontos e de um ou outro concorrente. No final de cada ponto, comparamos as respostas. Explico-lhe o como das minhas certezas, exponho-lhe o porquê das minhas dúvidas. Estamos em desacordo num bom par delas. Dou de barato que falhei no ponto três por deficiente leitura da sinalética. E ele terá decidido bem? No final saberemos quem tem razão.

5. Estamos os três – o Roberto, o Ricardo e eu – sentados à "mesa das sentenças". Contas feitas, acertei quatro questões, o Roberto seis e o Ricardo oito. Curiosamente, acertámos todos nos pontos cronometrados e com tempos muito interessantes. O Roberto diz que sou um “forjador de diamantes”, visando o Ricardo e manifestando-lhe a sua admiração por ter conhecido a modalidade apenas há três meses atrás. Oito em doze, quem diria? Grande Ricardo. Valeu-se dos conhecimentos, de alguma intuição e, sobretudo, não complicou. Estou muito orgulhoso dele, estou muito feliz por ele. Tenho a expectativa que amanhã, já a doer, a surpresa será maior ainda!

6. A tarde é aproveitada para conhecer um pouco da região. Seguimos de carro diretamente até St. Andrews, em cuja Universidade, com quase 600 anos de existência, se graduaram o Príncipe William e a sua esposa, Kate Middleton. Independentemente deste fenómeno de popularidade, a Universidade de St. Andrews está entre as vinte melhores do mundo em Artes e Humanidades. Além da excelente qualidade de pesquisa e ensino, possui um ambiente académico extremamente estimulante e tem professores – muitos deles verdadeiras referências mundiais – que interagem e participam ativamente com os alunos.

7. Um passeio pelo centro de St. Andrews leva-nos ao encontro duma cidade que se move num eixo entre duas avenidas cuja largura suaviza a austeridade dos edifícios. Há ainda a Catedral com a bonita Torre de St. Rule, o Castelo, as praias de areia dourada e os campos de golfe. Sim, ou não fosse St. Andrews a pátria do Golfe, com uma primeira referência histórica a datar de 1552. Aliás, o Golfe está por todo o lado, nas montras e nas lojas, na igreja (onde se vendem três bolas por uma libra) e mesmo no cemitério.

8. Parece que muitas das comitivas tiveram a mesma ideia que nós. Cruzamo-nos nas ruas com checos e noruegueses, almoçamos no Restaurante ao lado dos polacos. Restaurante onde, por sinal, se comeu muito bem e por um preço correcto. A acompanhar o meu bife, um shiraz com cabernet sauvignon muito delicado e feminino, muito Novo Mundo. O Roberto ainda hoje está a dar voltas à cabeça como é que eu descobri que o vinho era... australiano!

9. O regresso faz-se junto à costa, parando para curtas visitas a Crail e Anstruther. À medida que a tarde cai, a chuva parece querer aumentar de intensidade. Fala-se em temporal na região sudoeste de Inglaterra e que avança nesta direção. A prova de amanhã tem mais uma preocupação acrescida. Ainda estamos longe de Dundee e o Trail-O Meeting é daqui a vinte minutos. O Roberto bem procura andar um pouco mais depressa, mas a estrada estreita não o permite. É realmente surpreendente como Portugal tem estradas extraordinárias quando comparadas com estas daqui. Mas não serão precisamente todos esses excessos que agora andamos a pagar? E com juros!

10. Jantamos de novo à mesa da Dinamarca. E de novo recolho de Søren Saxthorp um par de lições importantes. Diz-me que a mulher fez o mesmo percurso que nós, mas com descrições diferentes nos vários pontos. Um percurso tornado mais fácil graças aos artifícios da sinalética. Porque não me lembrei disto antes? Não será mais necessário preocupar-me em fazer um percurso para a Elite e outro para a Formação. Podem ser os dois percursos num só, com o mesmo número de pontos ou não. Neste caso, apenas devo ter o cuidado de marcar o número de cada estação com diferentes cores: Azul para a Elite, amarelo para a Formação. Obrigado, Søren!

[Confira as fotos da jornada vespertina de St. Andrews em https://plus.google.com/u/0/photos/108054301526873509793/albums/5753786359892685169]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO


WTOC 2012 CAMPEONATO DO MUNDO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO: DIÁRIO (III)



Junho, 06. Viatura com motorista à porta, um luxo. Antes disso, um pequeno-almoço à inglesa (ou à escocesa) e, ainda antes, uma noite mal dormida, que isto de Mundiais mexe – e de que maneira! - com uma pessoa.

1. Viatura com motorista à porta, um luxo. Antes disso, um pequeno-almoço à inglesa (ou à escocesa) e, ainda antes, uma noite mal dormida, que isto de Mundiais mexe – e de que maneira! - com uma pessoa. Depois este tempo invernoso, cinzentão, molhado. Apesar de não ser uma companhia bem vinda, a chuva parece estar aí para ficar. O que se pode fazer? Camperdown Park é um paraíso de verde, tornado opaco por esta cortina de chuva miudinha que persiste em cair. Procuro ânimo num café duplo, mas aquilo que me cai em sorte não passa duma sensaborona e morna água tingida, que rapidamente se transforma na mais triste das companhias.

2. As partidas atrasam-se para lá da meia hora. A tão badalada pontualidade britânica parece não fazer escola neste canto das terras de Sua Majestade. Reina o fairplay e só a chuva lá fora parece fazer mossa na disposição de alguns. Encontro Roberta Falda, conversamos. Diz-me que desistiu da competição o ano passado para se dedicar quase em exclusivo ao treino. Confessa que não pode ser treinadora e concorrente ao mesmo tempo. Percebo-a muito bem. Talvez deva analisar a minha própria situação em termos de futuro.

3. O Ricardo acaba de partir e estou preocupado com ele. O terreno está pesado, os atletas em cadeira de rodas não têm assistentes e agora a chuva cai com alguma intensidade. Falta uma boa meia hora para a minha partida. Aproveito para visitar o Jardim Zoológico de Camperdown Park. Não sei o que me espera em sorte e a modorra deste tempo parece estar a mexer comigo. Uma enorme árvore estende os seus braços mortos onde se acotovelam algumas aves de grande porte. De quando em vez, uma cegonha lança o seu grito lúgubre. Poisado na rede, do lado de fora, um melro apregoa um melodioso canto à liberdade.

4. Completo o meu percurso. Derrota ou vitória? Tanto eu como o Ricardo somos aqueles que, à partida, mais temos a ganhar. Assim, como falar em derrota? A verdade, porém, é que da experiência do TempO acabo por retirar muito pouco. Questões operacionais e logísticas à parte (dá para perceber que um percurso destes, com oito estações, implica um número de voluntários a rondar as quatro dezenas), aquilo que retiro é a extraordinária dificuldade em lidar com o tempo. Num terreno com algum detalhe, encontrar uma referência segura é, para o nosso nível, quase como encontrar uma agulha num palheiro. E lá se foi um minuto. O pior é quando o juíz nos avisa que já só temos 15 segundos para concluir a prova e ainda não demos uma resposta sequer.

5. O exemplo anterior corresponde à minha experiência no ponto 1. Pareceu-me ter melhorado no ponto 2 e ter já alguns automatismos a funcionar. Todavia, os pontos 3 e 4 fazem-me perder a fé em Deus ao reconhecer que este é um nível de exigência brutal. Encontrar uma referência segura apenas na última resposta e perceber imediatamente que as duas respostas anteriores estão erradas dá cabo do moral a qualquer um. E perceber, já com metade da prova feita, que as linhas de norte estão na parte superior do mapa, idem, idem, aspas, aspas. O tanto que tenho para aprender!...

6. Troco impressões com o Ricardo. Para ele, a prova de TempO foi uma lição. Desde logo porque lhe dói terrivelmente a mão e reconhece que estamos mal habituados em Portugal em termos da qualidade dos caminhos. Apesar de tudo, gostou muito da experiência, considera ser um óptimo desafio e já só pensa em desenhar um percurso de TempO no Parque da Prelada, uma prova a sério, que obrigue a decidir rapidamente em situações de grande stress. “Muito desafiante”, não se cansa de dizer. Deixo-me contagiar pelo seu entusiasmo. Para o próximo ano temos de montar uma prova de TempO no III Open de Orientação de Precisão do Hospital da Prelada.

7. O Auditório de West Park recebe a Cerimónia de Abertura dos 9º Campeonatos do Mundo de Orientação de Precisão. É uma cerimónia digna, onde todos se sentem e tratam com amizade e carinho. Os sorrisos estampam-se nas caras de todos. Dos japoneses aos suecos, dos russos aos checos e a nós, portugueses. Eu e o Ricardo não nos cansamos de fotografar e de ser fotografados. Vai saber bem recordar mais tarde estes momentos tão especiais, de emoção e felicidade, de orgulho de ser português e de, pela primeira vez, estar a representar o País nesta grande competição.

8. Depois da Croácia, hoje estamos sentados à mesa juntos com a Dinamarca. Falamos da tradição orientista no país, da Maja Alm e da Signe Søes, do Erik Skovgaard Knudsen e da Rikke Kornvig, dessa extraordinária vitória da Estafeta feminina nos Mundiais de BTT de Montalegre e de como a Ida Bobach é tão franzina. E falamos de Futebol, claro. A Dinamarca está no nosso grupo no Europeu e esteve anteriormente em grupos de apuramento para o Europeu e o Mundial. Puxamos todos pela cabeça em busca do histórico de resultados recentes. Tenho que dar a mão à palmatória. A Dinamarca está em vantagem.

9. Søren Saxthorp, o Vice-Campeão do Mundo da Classe Paralímpica em título, está ao meu lado na mesa. Traz com ele a mulher, as duas filhas e ainda uma assistente que o auxilia nalgumas das principais tarefas. Conversamos sobre a Orientação de Precisão em Portugal, falo-lhe do Dia Nacional da Orientação em 2009 e, depois disso, do Circuito de Orientação de Precisão “Todos Diferentes, Todos Iguais” até aos nossos dias. Fica impressionado com o que fizemos, com o que fazemos. Diz-me que a Orientação de Precisão tem muito poucos atletas na Dinamarca, “talvez uns vinte, não muito mais do que isso”. E diz-me que, se estão aqui, é graças a uma Federação Dinamarquesa de Desporto para Pessoas com Deficiência ou algo do género. Um mau cartão de visita para a Federação Dinamarquesa de Orientação!

[Veja aqui as fotos do TempO World Trophy e da Cerimónia de Abertura]


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO



WTOC 2012 CAMPEONATO DO MUNDO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO: DIÁRIO (II)


Junho, 05. Desligo o telemóvel antes de despertar. São 02:17 e os Mundiais começam aqui.

1. Desligo o telemóvel antes de despertar. São 02:17 e os Mundiais começam aqui. Na verdade, já começaram antes, mas é agora que os sinto com a devida conta e medida. Os presságios – os bons e os maus, que também os há – ficaram lá para trás, que o tempo não está agora para devaneios. Dundee fica na outra ponta duma longa linha, a dezasseis horas de distância. Vamos lá!

2. Linhas, pontes, conexões. Todas se interrompem de súbito, quando lanço o olhar para trás. Esta é uma realidade nova, completamente diferente e é o Ricardo que faz a diferença. Um brutal acidente de viaçãoroubou-lhe a mobilidade dos membros inferiores. Naquele Dia dos Namorados de 1998, quis o destino que ele encontrasse na cadeira de rodas a companheira duma vida. Esta viagem é dele, por ele e para ele. Para ele e para todos quantos, como ele, souberam, a murro, voltar a abrir portas que pareciam fechadas para sempre.

3. Não posso acreditar! São 03:55 e estou aqui com o Ricardo, no piso -1 do Aeroporto Francisco Sá Carneiro, dependente dum elevador em manutenção. “Todas as primeiras terças-feiras do mês” - nunca me hei-de esquecer disto - “os elevadores páram para manutenção”, dizem-me. Eu, que não estou em manutenção, exijo que levem o Ricardo para cima. Vinte minutos depois, estamos nas partidas, prontos para fazer o “check-in”.

4. Avião, comboio, comboio e... comboio. Viagem em trânsito, longos corredores, alfândegas, transbordos. Porto, Londres, Peterborough, Edimburgh, Dundee. A reter essa nota de disponível amabilidade de todos quantos, em todos os locais onde foi necessário, prestaram assistência ao Ricardo. Absolutamente fantástico. O resto é uma Inglaterra de verde matizada, salpicada aqui e além de pequeninas aldeias pardacentas. E de ovelhas, muitas e muitas ovelhas pasmadas, a ver passar os comboios.

5. West Park, Dundee. Event Centre, o centro do nosso Mundial, do nosso mundo nos próximos dias. Alojamentos impecáveis, um “staff” inexcedível de atenções, uma disposição excelente. Dorsal 248 para mim, 124 para o Ricardo, horários de partida definidos para o Troféu Mundial de TempO e algumas dúvidas esclarecidas num Trail-O Meeting desinteressante. Depois é o jantar, que a fome aperta e a sandes do meio-dia já lá vai há que tempos.

6. Mesa 3. Eu, o Ricardo e a delegação da Croácia. Entre eles o Zdenko Horjan, medalha de prata em 2008 e 2009 na Classe Paralímpica e o Ivo Tilsjar, medalha de bronze nas duas últimas edições do Mundial na Classe Aberta. Falamos de Portugal e da Croácia. O Zdenko “arranha” um pouquinho de português e aproveita para lançar um par de frases bem alinhavadas. Depois vêm os conselhos a estes dois principiantes. Lição a reter: “Faz o que fizeres no primeiro dia, não interessa. Importante é que, no segundo dia, sejas dos últimos a partir.”

7. São 21:30 dum dia anormalmente longo e a noite cai rapidamente. Adormeço no seio desta fantástica família. Já sou um deles!


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

WTOC 2012 CAMPEONATO DO MUNDO DE ORIENTAÇÃO DE PRECISÃO: DIÁRIO (I)


Portugal participou pela primeira vez num Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão e eu tive o privilégio de, juntamente com o Ricardo Pinto, ter sido pioneiro nesta aventura. Com o Orientovar, abro agora uma página especial dedicada ao WTOC 2012 e onde, com base na notícia, na reportagem, na entrevista, na imagem e na análise de dados, darei conta das minhas vivências ao longo de seis exigentes e desgastantes dias. Um estudo tão exaustivo quanto possível destes Mundiais que partilharei entusiasticamente, esperando com isso captar a atenção de todos para uma realidade tão bela quanto desafiante chamada Orientação de Precisão.


Saudações orientistas.

JOAQUIM MARGARIDO

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