sábado, 19 de dezembro de 2015

Augusto Almeida: "O presente é vivido com serenidade"



A Federação Portuguesa de Orientação completa hoje 25 anos de vida e o Orientovar assinala a efeméride com um convidado de honra. Augusto Almeida, Presidente da FPO, responde a um conjunto de questões numa longa Entrevista onde é escalpelizado o atual momento da Orientação em Portugal.


Numa altura em que a FPO comemora os seus 25 anos, fazemos um breve apanhado da história e percebemos que praticamente metade desse tempo contou com Augusto Almeida na qualidade de Presidente da FPO. Pessoalmente, e duma forma global, como avalia a experiência?

Augusto Almeida (A. A.) - 12 anos é muito tempo, sendo que a razão de ser do último segmento deste tempo é sobejamente conhecida! Um olhar retrospectivo, subjetivo e pessoal, só pode ser positivo pelo resultado alcançado. Muito trabalho e muita dedicação de dezenas de dirigentes, dos funcionários, de membros dos órgãos sociais e de milhares de atletas que na esmagadora maioria o fizeram voluntária e benevolamente. Obviamente que num tão largo período de tempo existiram “entorses” mas nada que tenha impedido que a Orientação se implantasse, se desenvolvesse, crescesse e se afirmasse. O mais importante, na minha opinião, é celebrar este caminho feito com dificuldades quase permanentes mas também de muita tenacidade, trabalho, dedicação e amizade que nos permite olhar o futuro com confiança.

Onde vai arranjar a energia (e a diplomacia) necessária para continuar à frente dos destinos da FPO, conseguindo transmitir confiança, ajudando a “apagar os fogos” que sempre surgem e apontando novas soluções, novos caminhos?

A. A. - O presente, bem como o passado recente, vive-se num ambiente externo complexo, onde os fatores sócio-económicos nos são fortemente adversos, e, felizmente, numa estabilidade interna onde os praticantes filiados são em número menor que os que todos gostaríamos que fossem e onde os participantes nos eventos são menos do que os que queremos mas em números aceitáveis, e onde o voluntariado disponível, a sustentabilidade e a viabilidade económica estão estabilizados em patamares credíveis. O presente é vivido com serenidade e a modalidade tem podido apoiar as atividades mais deficitárias em níveis nunca antes praticados. A energia, diplomacia, força, etc.? Surgem de duas fontes: a paixão pela Orientação e, fundamentalmente, da generosidade, da dedicação, da capacidade, da competência e do carácter dos meus amigos que guarnecem o órgão de gestão da FPO. É um privilégio estar na liderança dum grupo de seres humanos de excelência que assumem responsabilidades, tomam decisões, resolvem problemas e lutam diariamente pela Orientação. Assim é fácil ser Presidente!

Consegue eleger, durante os anos da sua presidência, dois ou três momentos que o marcaram pela positiva e que foram determinantes para a evolução da modalidade em Portugal? E pela negativa?

A. A. - Para mim, como já referi, o mais importante é o trabalho e dedicação de dirigentes, de voluntários e de atletas que na esmagadora maioria o fazem voluntária e benevolamente em prol da modalidade. É esse trabalho, durante estes 25 anos, que constitui o fator determinante da evolução da Orientação. Individualizar momentos que me marcaram pela positiva é complicado porque felizmente são muitos… mas entre eles estarão a democratização do uso do sistema SPORTident em 2003, o equipamento da Federação entre finais de 2006 e 2007, a medalha de ouro do Diogo Miguel no sprint do EYOC’07, o Campeonato do Mundo de Veteranos em 2008 (WMOC’08), os Campeonatos da Europa de Orientação Pedestre e de Orientação de Precisão em 2014 (EOC/ETOC’14) e os Campeonatos da Europa de Orientação em BTT em 2015 (MTBOC’15). Pela negativa, mas exclusivamente do foro pessoal embora ao serviço da modalidade, o acidente de viação que sofri no regresso dos MTBOC’15 de que resultou a perda total da minha viatura e um susto de vida enorme.

Muito se tem falado em crise, nos últimos anos, mas todos sabemos que “a necessidade aguça o engenho” e é nos momentos de crise que se encontram as mais engenhosas soluções para colmatar os problemas que vão surgindo. A verdade, porém, é que a crise continua a “roubar-nos” participantes e não estamos a saber como estancar esta “sangria”. Por outro lado, continuamos a não saber encontrar argumentos para, junto dos eventuais patrocinadores, vendermos a imagem da Orientação. Admite que a FPO tem falhado, nomeadamente nestes dois desígnios?

A. A. - Esta questão dava um livro… Obviamente que, consoante o ponto onde nos posicionemos, assim temos uma perspectiva… A minha é esta: a nossa realidade nacional, infelizmente bem prolongada, é da falência diária de cerca de 35 famílias, largas dezenas de novos desempregados e de muitas dezenas de pessoas a emigrar! Obviamente que as pessoas têm a sua pirâmide de interesses e vão lutando para conseguir garantir os que lhes são vitais e importantes e, quando obrigatório, deixando cair os secundários onde se inclui o desporto, o que é de todo compreensível do meu ponto de vista. Acresce, ainda, que por razões culturais somos um povo pouco dado ao associativismo. Não está nos nossos valores o fazer parte dos movimentos associativos com que nos identificamos. Esta postura da esmagadora maioria dos nossos concidadãos leva a que quase todos os movimentos tenham uma baixa adesão de filiados -que não de simpatizantes- e a Orientação não é excepção. Também o mercado da publicidade se retraiu muito e os recursos financeiros disponíveis para o desporto são disputados ferozmente, com todos os meios disponíveis, por uma multidão de atores com múltiplos interesses. Felizmente, e em resumo, como já referi antes, a sustentabilidade e a viabilidade económica da FPO estão estabilizados em patamares sólidos e credíveis para o nível de ambição estabelecido e estes são os factos. Mas admito, e aplaudirei, que no futuro os responsáveis federativos venham a elevar o nível de ambição e, para tal, garantam a consequente geração de recursos e espero que nesse objectivo apareçam envolvidos os “idealistas” e os “renovadores” que por estes dias mostram alguma insatisfação.

Na abertura do VIII Congresso de Orientação, em Dezembro de 2011, ouvimo-lo abrir o Congresso afirmando, e cito, “especial atenção devem merecer-nos as áreas onde tradicionalmente temos maiores dificuldades como sejam a mediatização (...)”. O Augusto sabe que esta é uma área à qual sou particularmente sensível e cujo balanço que faço, de 2011 até à data, não é realmente famoso. Porque é que, sendo a Comunicação um aspeto reconhecidamente de capital importância para o crescimento e desenvolvimento da modalidade, não tem merecido da parte da tutela um maior empenho?

A. A. - Institucionalmente esta questão melhorou imenso no último ano com a chegada de uma estagiária, tal como, pela mesma razão, melhorou a organização da formação e a sua creditação. No entanto, apesar de se reconhecer a sua importância, continua a ser uma das áreas com lacunas evidentes quer pela escassez dos recursos financeiros existentes quer pela existência e disponibilidade de recursos humanos habilitados. Eu diria que tal como é fácil de identificar a lacuna é difícil de a ultrapassar. O bloqueio cultural que nos afasta de integrar os movimentos associativos com que nos identificamos, que referi antes, revela-se também nesta área onde por exemplo nas redes sociais são muito escassas as partilhas das matérias e assuntos da modalidade quando não são do clube de cada um.

O ano de 2016 trará com ele alguns desafios deveras interessantes e eu pedia-lhe uma opinião sobre três deles, em particular. Comecemos pelo Ori-Trail / Rogaine, a grande novidade em termos competitivos nacionais na próxima temporada. Acredita que foi uma boa opção avançar de forma aparentemente prematura com um quadro nacional e já com seis etapas delineadas? Não teme o fracasso, sabendo que cada uma dessas provas terá, nos fins de semana em que se disputarão, a concorrência de provas de Trail por todo o País, essas sim já com uma implantação e uma aceitação indiscutíveis?

A. A. - O Ori-Trail / Rogaine já vinha sendo estudado internamente na federação e com alguns técnicos há cerca de dois anos e este ano realizaram-se três eventos de teste. Refira-se que em Espanha apresenta índices de participação muito interessantes. O lançamento da Taça de Portugal da disciplina visa disponibilizar mais um formato competitivo aos amantes da Orientação e dos desportos de natureza. Se vai ter muita ou pouca adesão serão os praticantes a decidir mas com o formato livre e aberto adotado, com a possibilidade de se fazer orientação em grupo e com a relativa longa duração dos eventos a que acresce o convívio no final, eu acredito que vai vingar.

Lisboa recebe em Abril uma ronda da Taça da Europa de Orientação de Precisão, sendo esta a disciplina que mais alegrias deu ao nosso país, em termos competitivos, no ano que agora está a chegar ao fim. Como tem acompanhado o fenómeno TrailO e que soluções apontaria para o seu crescimento e afirmação plenas?

A. A. - Felizmente o ano de 2015 foi generoso com a modalidade e deu-nos alegrias no Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão, no Campeonato da Europa de Juniores de Orientação em BTT e no Campeonato da Europa de Jovens de Orientação Pedestre. Foi mais um ano feliz. A Orientação de Precisão em Portugal surgiu fulgurante graças ao trabalho e dedicação de um punhado de pessoas. Este excelente fenómeno não teve a natural companhia de formação inicial adequada e, por via disso, assenta ainda praticamente nesse núcleo duro. Chega agora o momento de sistematizar a formação de técnicos e, com ela, a capacitação dos nossos clubes para organizar eventos. Em paralelo com a formação é necessário desenvolver um trabalho de divulgação e desmistificação junto dos orientistas por forma a despertar-lhes a vontade de experimentar e praticar a Orientação de Precisão. O objectivo de médio prazo para a disciplina é a organização do Campeonato do Mundo de 2019 e para que o possamos concretizar com alguma tranquilidade e qualidade temos de, no curto prazo formar, organizar e capacitar clubes e técnicos.

Finalmente o Campeonato do Mundo de Orientação em BTT 2016, seis anos depois da memorável campanha de Montalegre. Que Campeonatos vão ser estes?

A. A. - Espero que os campeonatos decorram com normalidade. A equipa organizativa é basicamente a mesma que organizou os Campeonatos Europeus de 2015 e que já vem desde 2013, e nos oferece todas as garantias de qualidade. A FPO estabeleceu protocolos de cooperação com os municípios envolvidos -Águeda, Cantanhede e Mealhada- e com eles temos trabalhado no planeamento e preparação dos Campeonatos Mundiais, assim como com alguns parceiros locais já angariados. A FPO estabeleceu os habituais protocolos de cooperação com nove dos seus filiados colectivos para concretizar a organização e onde destaco o Clube de Aventura da Bairrada (CAB) que será o grande dinamizador da modalidade e da disciplina na região. Por agora o planeamento decorre com normalidade. No que se refere à mobilização da sociedade civil e em especial a dividendos para a Orientação em BTT além do CAB é um tema bem mais complexo porque, como nos outros eventos passados, a adesão a ideias e o abraçá-las não depende tanto do pregador mas depende fundamentalmente do destinatário. E aqui voltamos às questões de cidadania… a cada dia que passa são menos as pessoas disponíveis para se entregarem às causas colectivas, para dedicarem algum do seu tempo aos outros.

Pedia-lhe ainda que se pronunciasse sobre uma questão que abriu à discussão no seio dos orientistas: Quadros Competitivos Nacionais: reformular ou manter? Que soluções preconiza o Presidente da FPO? É desejável, por exemplo, o regresso dos circuitos regionais, na sua opinião? E quanto às restantes matérias?

A. A. - A FPO recebeu dezenas de contributos. Na ata da reunião da direção da FPO de 27 de novembro é referido que os contributos, versando as mais diversas situações, não convergem em linhas de ação. O único traço comum é a proposta de realização de mais eventos regionais ou locais pelo que a FPO deixa aos Clubes a possibilidade de implementarem circuitos regionais e fica disponível para estudar o apoio aos mesmos com os respectivos promotores. Em todo o caso o calendário de 2017 apresenta muitas datas livres o que pode permitir não só aos interessados em dinamizar actividades de âmbito local ou regional como aos futuros dirigentes da Federação tomar opções.

Mais recentemente, no acordo assinado com a FEDO sobre o Ori-Trail / Rogaine, li com entusiasmo a determinação em “liderar e aumentar a cooperação com os países Sul-Americanos e Africanos”. Isto diz respeito apenas ao Ori-Trail / Rogaine ou existe, estrategicamente, algo concertado entre a FEDO e a FPO, nesta matéria, para todas as disciplinas da Orientação?

A. A. - A FPO e a FEDO têm, desde o início da sua cooperação, o desenvolvimento da modalidade em África e na América do Sul como objectivo importante. Acontece que em Portugal, apesar das múltiplas tentativas, ainda não foi possível obter fundos destinados a essa cooperação.

Vamos ter, em 2016, Eleições para os Corpos Sociais da FPO para um novo quadriénio e já por mais de uma vez, ao longo desta nossa conversa, o ouvi falar em “futuros dirigentes”. Isto significa que não o vamos ver por mais quatro anos à frente dos destinos da FPO?

A. A. - O meu contributo como responsável chega ao fim em outubro próximo e os sócios estão cientes da minha decisão, tal como sabem das razões que motivaram este regresso em 2011. O órgão de gestão da FPO, quais sapadores bombeiros, resolveu a extremamente crítica situação existente no início de 2011 e devolveu a normalidade institucional, administrativa e financeira à Federação, investiu e investe em equipamentos ao mesmo nível de 2006 e 2007, apostou nas seleções nacionais como raramente se fez - excepto em 2010, quando existiam os proveitos do WMOC’08 -, apoiou as actividades e a participação de jovens em patamares nunca antes atingidos e, ainda, conseguiu consolidar um saldo de gerência que permite gerir sem angústias. Sejamos claros: somos voluntários mas com grande profissionalismo nas tarefas que desenvolvemos e temos orgulho no nosso trabalho.

Na preparação da substituição, nas últimas assembleias gerais tenho alertado para a conveniência de quem pretenda inteirar-se da vida federativa o fazer atempadamente, de se inteirar dos processos administrativos, dos ciclos organizativos, dos “picos” de trabalho, dos momentos de acrescida responsabilidade, por forma a não surgirem lapsos após a transição e que só prejudicam a modalidade. Afinal, se o passado e o presente foram construídos por homens, o futuro passará certamente pelos homens e na minha opinião o “segredo” está em eleger um Presidente que seja um gestor. Uma pessoa capaz de impor (atempadas) travagens sempre que necessárias, capaz de dinamizar vontades sempre que surjam as oportunidades e capaz de enfrentar e vencer os desafios que a sociedade lhe irá colocando. Capaz de identificar os diversos interesses, capaz de discernir o acaso do propositado e capaz de conviver com as vaidades. Obviamente, um “resistente”, porque durante o percurso terá de saber ultrapassar as desistências de alguns, substituir ou apoiar outros em muitos momentos e ter sempre uma palavra de estímulo e incentivo, esta muito necessária nas horas menos felizes. Para finalizar, uma certeza: quem chegar vai encontrar uma FPO, mais uma vez, sem dívidas, bem equipada, atualizada e com um fundo de maneio apreciável e que garante as despesas de funcionamento de um ano.

Para concluir, no soprar destas 25 velas, um desejo.

A. A. - Que a vida da FPO siga com normalidade, isto é, sem sobressaltos nem sustos, e sucesso, já que quando esta malfadada crise se resolver e as pessoas voltarem a ter níveis de vida mais adequados, a modalidade vai crescer de forma natural pois é a mãe de todas as actividades de ar livre.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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