segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

25 Anos FPO: Clube Português de Orientação e Corrida



Numa altura em que festejamos os 25 anos da FPO, qual a palavra que de imediato lhe vem à mente?

Luís Santos (L. S.) - Estive uns três minutos a olhar para a pergunta e a pensar nela, mas sinceramente a única palavra que me vem à mente é a própria modalidade: Orientação. Eu estou ligado à modalidade “apenas” há 17 anos - não vivi os primeiros oito anos -, mas nestes 17 anos a modalidade moldou fortemente a minha vida. Tenho feito de tudo um pouco: liderei a Secção de Orientação do CDCE de 2000 a 2002, fui Diretor de Prova pela primeira vez em 2000, fui Diretor-Executivo da FPO entre 2002 e 2004, fundei o CPOC com o grupo vindo do CDCE em 2002 e liderei o clube até 2009 e posteriormente de 2011 até hoje. Já fui responsável pelo Departamento de Cartografia da FPO, agora sou Vice-Presidente do Conselho de Arbitragem, sou Supervisor Internacional desde 2007, tenho o curso de traçador de percursos e traço muitas vezes, sou cartógrafo de nível 3 e crio alguns mapas urbanos, dou ações de formação, faço arranjos gráficos de mapas, e sei lá quantas coisas mais esqueci. Não menos importante, tenho 90% dos meus amigos ligados à modalidade. Por tudo isto, esta celebração da FPO é também muito especial para mim.

Qual a “dívida” que o CPOC tem para com a Federação em matéria do seu aparecimento e desenvolvimento?

L. S. - Diria que, provavelmente, sem a FPO não existiria o CPOC. A génese do CPOC está no desafio que o Presidente Augusto Almeida me lançou quando trabalhávamos juntos na FPO. Na altura estava no CDCE, confidenciava alguns problemas que tinham a ver com o ritmo diferente da Secção de Orientação e do resto do Clube e com a falta de autonomia para gerir as verbas que gerávamos, e foi o Augusto que lançou na altura o desafio - que me pareceu uma loucura completa! - de criar um Clube novo. A ideia ficou a fervilhar e acabou por ser partilhada com os outros amigos do CDCE. O processo não correu como eu gostaria, pois gostaria que todo o grupo tivesse transitado para o CPOC, tal como tinha acontecido quando saímos do CM Arrábida em 2000 para ir para o CDCE. Mas em 2002, alguns dos elementos do grupo optaram por ficar no CDCE. Curiosamente, por vezes são as frases negativas que mais nos movem e foi “profetizado” por um dos elementos que ficou no CDCE que nem nos dava um ano. Ao fim de um ano estaríamos falidos. A história desportiva do CPOC foi-se encarregando de o desmentir... É também importante frizar que o apoio que o Presidente da FPO deu, tal como o Jorge Simões, sempre uma das pessoas mais marcantes da nossa modalidade, foram decisivos para que a fase mais embrionária da criação do CPOC fosse ultrapassada sem grandes turbulências. Ao segundo ano de vida (em 2003/2004) o CPOC já era o 4º clube na pedestre e o 6º na BTT em Portugal.

Como definiria o CPOC neste momento? (por favor, exemplifique com alguns feitos alcançados em 2015 e com iniciativas relevantes agendadas já para 2016 e 2017)

L. S. - O CPOC tem apenas 13 anos mas já foi obrigado a reinventar-se algumas vezes. Muitos sócios e praticantes com bastante peso no Clube e mesmo na modalidade (cito por exemplo os casos de Tiago Aires, Susana Pontes, Raquel Costa, António Aires, Tiago Fernandes, Alexandra Coelho, Rui Botão - os dois primeiros ainda são sócios), que constituem só por si um grupo que, se estivesse junto, daria para ter um dos clubes mais fortes e experientes da modalidade. O clube perdeu a mais valia destes e de outros elementos com muito valor e foi-se reinventando ao longo dos anos. 2015 tem sido um ano particularmente difícil pois o CPOC organizou possivelmente o evento mais contestado da sua existência (os Nacionais de Distância Longa e Sprint em Gouveia), o que levou a colocar dúvidas sobre a continuidade do projeto diretivo atual. Ainda assim, o projeto renovou-se, o Clube mantém uma presença razoavelmente boa nos vários eventos da modalidade (embora longe do nível atingido quando o CPOC lutava pela vitória na Taça de Portugal Pedestre entre 2005 e 2010).

Para 2016 temos três projetos ambiciosos em curso: (A) O LIOM - Provavelmente o terceiro maior evento da história do clube, puxando pelo potencial da cidade de Lisboa para benefício da Orientação, mas mantendo a perspetiva de escolher bons terrenos para a modalidade, o que nos levou a aliar-nos ao GDU Azoia e a fazer a Distância Longa do evento em Sesimbra. É a primeira vez que o CPOC tem um evento com 2 WRE's e temos grandes expectativas para o WRE de Sprint que vai decorrer em Alfama/Mouraria. (B) - O Ibérico de BTT - Mais uma parceria. Foi raro na história do clube recorrer a parcerias, mas foi também esta a forma que vimos para conseguir projetar um regresso às organizações de Orientação em BTT. Optámos por nos juntar ao ATV para juntos podermos oferecer um bom Campeonato Ibérico e tentar captar novos praticantes ou recuperar alguns dos que se afastaram desta vertente da Orientação. (C) - Os Campeonatos Nacionais de Orientação de Precisão, que serão também Taça da Europa em 2016. Será a primeira vez que os Nacionais não serão associados a uma prova âncora pedestre e esperamos ter uma boa participação de cada vez mais interessados na Orientação de Precisão, até porque o CPOC tem ótimos praticantes e alguns dos melhores organizadores de Portugal.

Como vê o atual estado da Orientação em Portugal?

L. S. - Com preocupação. Atualizo regularmente as estatísticas da FPO e da modalidade e sei do que falo. Os grandes sucessos de muitos dos nossos eventos internacionais tem mascarado um pouco a quebra de participantes regulares, com maior incidência ainda na vertente de Orientação em BTT. É certo que em 2015 os números parecem ter estabilizado, principalmente na Orientação Pedestre. Mas não podemos estabilizar. Temos que voltar a crescer. Creio que por vezes é muito difícil conciliar a preocupação em criar as melhores condições possíveis para os nossos melhores atletas com a necessidade de eventos apelativos para quem queira vir experimentar a modalidade, mas penso que as fórmulas usadas entre 2004/2006 eram mais apelativas do que as atuais. É certo que a conjuntura é diferente, mas é nesta conjuntura atual que outras modalidades têm singrado e fortalecido, “canibalizando” as possibilidades de sucesso da Orientação. É certo que há na modalidade quem defenda que o Trail pode ajudar a trazer praticantes para a Orientação mas eu o que vejo é o enfraquecimento progressivo da Orientação à custa do Trail e de outras vertentes de corrida sem mapa, que nada têm a ver com a Orientação e que lhe roubam praticantes.

Três ideias breves para três tópicos muito concretos: Comunicação, Desporto Escolar e Provas Locais.

L. S. - Comunicação - A maior lacuna da modalidade. A modalidade dá muito trabalho a organizar e os clubes têm dificuldade em organizar-se para conseguirem projetar os seus eventos com eficácia. Não estou a responsabilizar a FPO que tem lutado muito para conseguir dar visibilidade à modalidade, nomeadamente através do O'TV, mas cabe à FPO e a todos os que nela vamos trabalhando, conseguir criar soluções para o futuro de forma a enfrentar ameaças que identifiquei como a do Trail. Recordo que há 10 anos, quando começámos a criar condições de grande sucesso na modalidade, a maior ameaça aos nossos eventos internacionais eram os eventos em Espanha que colidiam com os nossos. Ganhámos essa batalha mas também temos de ganhar as batalhas às outras modalidades que nos roubam praticantes e, porque não, tentar conquistar aos “sofás” deste país, ainda com grande défice de prática desportiva, mais praticantes.

Desporto Escolar - A melhor “alavanca” da modalidade nos últimos anos. Enquanto cada vez perdemos mais recém-chegados adultos à modalidade, o Desporto Escolar tem crescido e sustentado um elevado número de jovens a vir para a modalidade. Creio que tem havido poucos a trabalhar pelo crescimento da modalidade no Desporto Escolar, mas têm trabalhado muito bem e feito muito pelo crescimento da Orientação. Alguns dos principais “pilares” da nossa modalidade são professores de Educação Física do Desporto Escolar. O CPOC é um clube moldado pela sua parceria com a Escola da Sarrazola. Os seus melhores atletas são - e têm sido quase sempre - da Sarrazola e atualmente estão na Direção do clube duas jovens que começaram a praticar Orientação na Sarrazola: a Ana Filipa Silva e a Mariana Moreira.

Provas Locais - O CPOC organiza anualmente perto de uma dezena delas. É uma carga organizativa pesada e com pouco impacto financeiro na vida do clube mas é decisivo para que a modalidade se mantenha dinâmica e para que muitos que nunca vão a Taças de Portugal vão mantendo contacto com a modalidade. Ainda por cima, o CPOC é atualmente o único clube da Orientação portuguesa com alguma dimensão e dinamismo na área da Grande Lisboa e seria criminoso para a modalidade se não mantivéssemos este dinamismo, quer através do projeto “Mexa-se Mais”, que temos em Oeiras, quer através do recém-criado “Ori Monsanto” que ainda no passado fim-de-semana teve mais uma etapa com 180 participantes, apesar do clima instável.

Um desejo neste soprar das 25 velas.

L. S. - Ver a modalidade a crescer, em paz, com muitos e bons eventos e que eu possa continuar a sentir-me feliz no seu meio. Como ainda recentemente escrevi numa entrevista, e como muitos de nós dizemos muitas vezes, isto não é só uma modalidade desportiva: é uma forma de vida.

[Foto gentilmente cedida por Luís Santos]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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