terça-feira, 10 de novembro de 2015

IX Congresso de Orientação: Rogaine



Surgido na Austrália em finais da década de 40 do século passado, o Rogaine parece querer, finalmente, fixar-se no nosso País. Apesar de reduzidas em número, as iniciativas levadas a cabo entre nós, até ao momento, deixaram sinais deveras positivos. Alexandre Reis “puxou” o tema para cima da mesa do IX Congresso de Orientação e é esse o pretexto para que saibamos mais acerca desta disciplina da Orientação.


Uma prova de Orientação em formato score”, desta forma se pode definir, grosso modo, o Rogaine. Que ingredientes é que este tipo de prova integra e que a torna tão apelativa em países como a Estónia, por exemplo?

Alexandre Reis (A. R.) - Há na natureza humana um fascínio pelos limites! Todos nós gostamos (ou tentamos) de testar, numa qualquer coisa, os nossos limites. No desporto isso é por demais conhecido. Chamamos-lhe recordes! Por outro lado, o contacto com a natureza, principalmente no seu estado mais puro, é outro aliciante. A formula de conciliar estes dois vetores, resistência/natureza, resulta na prática de atividades de longa duração em ambientes primitivos. E aí surgem os nossos bem conhecidos Trails! Ora a Orientação proporciona-nos tudo isto, mais os desafios da navegação (leitura do mapa) e estratégia (escolha do percurso a efetuar). Por último, cse praticada em equipa, acresce outra variável muito importante e quase sempre decisiva no desporto coletivo: trabalho em equipa.

A IOF chumbou este ano a pretensão de algumas Federações de Orientação – nomeadamente da Federação Russa – de vir a integrar o Rogaine no seio das disciplinas por si tuteladas. Como é que acompanhou a situação e qual a sua opinião acerca do seu desfecho?

A. R. - A IOF sempre foi resistente à introdução de novas disciplinas, principalmente quando elas são desenvolvidas de forma comercial. Já o foi relativamente ao Sprint, quando, na década de 90, se faziam umas provas na altura chamadas Provas de Parque e eram mundialmente promovidas pela Park World Tour.

Que diferenças separam o Rogaine das Corridas de Aventura?

A. R. - O meio de locomoção durante uma competição de Rogaine é sempre o mesmo. O Rogaine, na sua forma tradicional, é praticado exclusivamente a pé. No entanto podem haver competições de Rogaine com outro meio de locomoção. É isto, basicamente, que separa o Rogaine das Corridas de Aventura. Já no tocante à Ori-BTT relativamente ao Rogaine, aqui as diferenças são maiores, desde o tempo de prova à definição do percurso, passando pela forma de classificação. Não há percurso imposto pela organização mas sim um conjunto de pontos (valorizados) a visitar; E, vence quem obtiver mais pontos, sendo o tempo apenas usado para desempate.

Do ponto de vista organizativo, que ingredientes são necessários para alavancar um evento desta natureza?

A. R. - A organização de um evento destes, na sua plenitude, tem uma exigência organizativa muito similar a um evento tradicional de Orientação. No entanto, em alguns casos, é possível reduzir muito os meios humanos envolvidos. Recordo que é uma competição de longa duração, em que os atletas saem todos ao mesmo tempo e regressam algumas horas depois, e durante uma pequena janela de tempo. Uma alteração que salta logo à vista é a eliminação do procedimento de partidas.

Qual o terreno ideal para uma prova desta natureza?

A. R. - A duração da competição determina, em grande parte, a escolha do terreno “ideal”. Uma competição de 4 horas não requer um área muito grande, sendo, neste caso, fácil encontrá-la. Há, inclusive, áreas cartografadas para Orientação em BTT ou Orientação Pedestre que permitem planear um evento destes. Idanha-a-Nova, Marinha Grande, Gerês ou a Serra da Cabreira são disso bons exemplos. No entanto, para mim, o terreno ideal para uma prova será uma área desumanizada de média e alta montanha e de fácil progressão. Tenho alguns exemplos de locais “ideais” descobertos no planeamento para provas de aventura, nomeadamente a Serra do Alvão e a Serra da Estrela. A Serra da Arrábida, local da recente prova de Setúbal, também é um local de excelência.
Mencionou Setúbal e eu pergunto-lhe que balanço faz das experiências que tivemos este ano, em Castelo Branco e em Setúbal, precisamente.

A. R. - Focando-me essencialmente na prova de Setúbal, porque estive mais envolvido, o balanço é extremamente positivo. Participaram 27 equipas, 70% dos participantes tinham pouco ou nenhum contacto com a modalidade e o feedback destes foi muito positivo. Daqueles que fazem Orientação com regularidade, registo este comentário: "Talvez a melhor prova de Orientação que fiz até hoje"

Conseguir cativar os amantes das Corridas de Trail através do Rogaine pode ser uma manobra de sucesso, fazendo aquilo que as Corridas de Aventura não conseguiram fazer? É este o principal público alvo?

A. R. - Será esse, na verdade, o público alvo. O habitat é o mesmo, as distâncias também e a componente técnica, a novidade, não deverá ser um impedimento, dado que este tipo de prova privilegia a escolha do itinerário (estratégia) em detrimento da técnica. Os pontos são colocados em elementos facilmente referenciáveis.

Não teme que o Rogaine possa vir a reduzir ainda mais a expressão que as Corridas de Aventura têm no panorama nacional?

A. R. - O ideal seria as pessoas encontrarem em cada uma das disciplinas um complemento que as satisfizesse nas necessidades técnicas e físicas para o bom desempenho da outra vertente. Para além disso, as Corridas de Aventura apresentam outro tipo de desafios que mais nenhum “produto” desportivo apresenta no mercado: Multidisciplinaridade, com atividades como canoagem, rapel, slide, escalada, etc, pelo meio... a um preço “simbólico”. É mesmo ÚNICO! A referencia ao “simbólico” não é de maneira nenhuma uma provocação para uma revisão em alta das taxas, mas apenas uma constatação comparando com o que se paga no mercado das atividades de ar livre para um evento desta natureza. Muito provavelmente, alguém interessado em fazer uma hora de canoagem, por exemplo, paga em qualquer lado uns 10€. Ora, numa prova de Aventura, por 15€, ele (ou ela) faz: canoagem, rapel, escalada, tirolesa, dois percursos de btt, dois de ori pedestre e no final ainda tem um almoço (isto é o que acontecerá em Idanha dentro de dias).

Os nossos vizinhos espanhóis terão, já em 2016, a primeira edição da Liga nacional de Rogaine. Prevê que o mesmo possa vir a acontecer em Portugal?

A. R. - Penso que pode acontecer! Temos neste momento o regulamento pronto e um conjunto de provas que já nos permite pôr de pé um quadro competitivo interessante.

Numa altura em que nos preparamos para celebrar os 25 Anos da FPO, pedia-lhe um voto para a Federação Portuguesa de Orientação e para todos os orientistas e, em particular, para o Rogaine.

A. R.
- Os votos para a Federação são simples mas que implicam muito trabalho. Que Portugal continue na senda dos grandes eventos internacionais, que nos trazem prestigio e saúde financeira. Que esses eventos se saldem por excelentes organizações e que daqui a uns anos também estejamos a falar de um grande evento internacional de... Rogaine.

[Foto gentilmente cedida por Alexandre Reis]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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