sábado, 7 de novembro de 2015

IX Congresso de Orientação: Orientação em BTT



Depois das Corridas de Aventura, prosseguimos hoje com uma abordagem à Orientação em BTT. O ponto de partida é o IX Congresso de Orientação e Daniel Marques o convidado. E quem, melhor do que o selecionador nacional, para falar dum tema que domina há mais de uma década e que, se lhe vai trazendo as maiores alegrias, não deixa de ser igualmente fonte de preocupação?


Olhando o quadro de participantes na Taça de Portugal de Orientação em BTT, é possível perceber que, pela oitava temporada consecutiva, mantivemos uma tendência negativa. A média é agora de 104 participantes por evento, menos de um terço do que em 2005/2006 e em 2006/2007. Na sua intervenção no IX Congresso de Orientação falou em “problemática de participação”. O futuro assusta-o? De que forma é que isto é uma preocupação para si e para a própria Federação Portuguesa de Orientação?

Daniel Marques (D. M.) - É o principal desafio da modalidade, garantir uma participação que nos dê um futuro com sustentabilidade e competitividade. O futuro não assusta mas sim, preocupa. Em primeiro lugar temos de ter consciência do cenário sócio-económico do país. Com dificuldades no orçamento familiar não pode haver ilusões, fazer orientação não é essencial, há prioridades para as famílias e infelizmente o desporto acaba por ser um luxo que muitos não conseguem suportar. No caso do Ori-BTT a logística e a despesa da bicicleta ainda complica mais a situação.

O BTT Loulé/BPI tem sido apresentado como “um caso de sucesso” na Orientação em BTT nacional. O que é que obsta a que outros clubes possam seguir este bom exemplo?

D. M. - O BTT Loulé/BPI é, efectivamente, o clube mais forte no panorama da Ori-BTT Nacional. A responsabilidade deste sucesso vem não só de um clube bem estruturado, com uma grande dinâmica junto dos mais jovens, mas também do seu chefe de fila, o Hélder Faísca, que tem um papel preponderante na formação, captação, organização e competição. Atrevo-me a dizer que o bom exemplo a que se refere é o contributo do Hélder Faísca para com a modalidade. Por isso recebeu, recentemente, um reconhecimento desse trabalho num louvor da FPO. Temos que compreender que a génese dos outros clubes é a Orientação Pedestre, a maior parte dos seus dirigentes e atletas estão mais focados na Pedestre, é normal e aceitável que assim o seja. Logo, a Ori-BTT tem um problema de lideres que consigam motivar os seus atletas e também trazer novos atletas para a modalidade com a ambição de tornar o clube/equipa mais competitiva. Posso adiantar em primeira mão que o COC, em 2016, vai fazer uma parceria com um clube de BTT de nível nacional com o objectivo de potenciar sinergias entre as modalidades. Está estrategicamente pensado fazer o Campeonato de Distância Longa de 2016 na zona de treino dos atletas de BTT (apanha a sede do clube que também ajuda na organização do evento) e dar formação aos BTT’istas para que possam experimentar a Orientação em BTT. Penso que pode ser uma boa opção, os clubes de orientação arranjarem parcerias com clubes de BTT e pensarem em realizarem eventos nos seus "quintais".

Quer falar-me daqueles que considera terem sido os pontos altos da temporada velocipédico-orientista nacional, no tocante à Taça de Portugal? Como é que pode ser vista a vitória do Carlos Simões no ranking da Taça de Portugal 2015?

D. M. - A vitória por clubes do BTTLoulé é a 5ª consecutiva e veio premiar, efectivamente, o clube mais forte nesta disciplina. Os vencedores H/D17, Duarte Lourenço e Marisa Costa respectivamente, são atletas em que se deposita uma grande esperança para o futuro. Em relação aos veteranos gostava de realçar a vitória do Rui Botão em H40, culminando uma luta muito interessante com o Mário Marinheiro e o Inácio Serralheiro. Destaque absoluto para as vitórias do Carlos Simões e da Susana Pontes. Se no caso do Carlos foi uma estreia, em relação à Susana foi a 13ª consecutiva! Chamo a atenção que são dois elites veteranos. O Carlos Simões é um exemplo para todos nós. É um atleta exemplar, que tem capacidades técnicas e físicas impressionantes e a sua vitória na Taça veio premiar toda a sua dedicação para com a modalidade. Deixa-me particularmente satisfeito que ele tenha conseguido tamanho feito. Quero também dar os parabéns ao João Ferreira pelo 2º lugar e foi uma luta renhida que só ficou decidida no Absoluto. Deixar também a nota que o principal candidato à vitória na Taça, o Davide Machado, teve uma lesão que o impediu de lutar por este título.

E a nível internacional? Os resultados deixam-no satisfeito?

D. M. - Foi um ano recheado de competições internacionais, com presença assídua e marcante da Selecção Nacional nos principais palcos internacionais (como são os casos do Campeonato do Mundo e do campeonato da Europa). Essa representação só foi possível porque houve um esforço conjunto da FPO, dos clubes e dos atletas. Deixe-me referir que em primeiro lugar temos de ter consciência dos nossos recursos e em função disso procurar optimizá-los de forma a potenciar os resultados internacionais, mas com a estratégia de apoiar os jovens, dar oportunidade de os nossos melhores elites mostrarem e confirmarem o seu valor lá fora e reconhecer o esforço dos nossos veteranos. Tudo isto assente numa visão de sustentabilidade, de só apostar aquilo que há na carteira. Deste modo fiquei muito satisfeito com os resultados e também com a atitude dos nossos atletas. Somos um verdadeiro grupo de selecção que demonstra união, amizade e vontade de fazer mais e melhor, valores que só podem deixar um seleccionador satisfeito e com boas perspectivas para o futuro. Deixe-me destacar a medalha [de bronze] dos Juniores Masculinos no Campeonato da Europa, na prova de Estafetas, e os melhores resultados de sempre na Elite Masculina nas Estafetas do Campeonato do Mundo e da Europa com um 7º lugar, à frente de grandes potências da modalidade.

Portugal recebeu no passado mês de Julho os Campeonatos da Europa e os Mundiais de Veteranos de Orientação em BTT, no Município de Idanha-a-Nova. Qual o saldo deste evento em termos organizativos e no tocante à promoção da modalidade?

D. M. - Houve um saldo claramente positivo a todos os níveis. Uma organização sólida liderada pelo Augusto Almeida que garantiu competições de excelência. De salientar e saudar o esforço voluntário e os resultados financeiros que dão uma ajuda preciosa nas contas dos clubes e FPO. Tivemos também a oportunidade dar experiência internacional aos nossos melhores jovens, um factor importante de crescimento para potenciar os resultados e a modalidade para o futuro.

Atentando nos rankings da Taça de Portugal de Orientação em BTT 2015, contabilizam-se duas atletas em Damas 15, três em Damas 17, uma em Damas 20... Por seu lado, a Susana Pontes, aos 44 anos de idade, venceu o ranking pela 13ª temporada consecutiva. Que futuro para a Orientação em BTT feminina em Portugal?

D. M. - A orientação BTT feminina portuguesa precisa de mais atletas para ser mais competitiva, é um problema que não é de agora, mas que existe desde sempre. A Susana é o grande símbolo da Orientação Feminina Portuguesa e tem uma história fantástica na modalidade. O facto de praticamente não ter tido concorrência interna não deve ser associado aos títulos fáceis com resultado folgados, temos é que enaltecer o seu espírito lutador e de perseverança que marca os grandes atletas. A verdade é que mais nenhuma mulher portuguesa conseguiu superiorizar-se à Susana nestes últimos 13 anos. Dou-lhe os parabéns e digo-lhe que conto com a sua experiência para ajudar a selecção em 2016. Ela sabe que os seus 44 anos não são critério para representar Portugal nas grandes competições internacionais, é apenas preciso apresentar resultados e vontade.

A aposta na divulgação de eventos tem sido uma falha, não apenas na Orientação em BTT, mas dum modo geral em todas as diciplinas. Que estratégias defende para tornar a comunicação mais efetiva?

D. M. - Para 2016 estão a ser feitos esforços estratégicos para divulgar as nossas provas e o nosso desporto, nomeadamente a parceria com um site de divulgação de eventos de BTT e o ajuste do nosso Regulamento de Competições para permitir formatos de escalões abertos mais apelativos, de modo a que os novos atletas que possam vir do BTT se sintam enquadrados e valorizados na Orientação. Os clubes também devem fazer mais um esforço na divulgação e promoção da modalidade; não é fácil, nem cómodo, mas a problemática da participação não deve ser vista de braços cruzados. Há, efectivamente, que ser activo na procura de soluções.

2016 é ano de Campeonato do Mundo, precisamente em Portugal. Mais do que o seu desejo em relação ao evento em si, atrevia-me a perguntar-lhe o que gostaria que resultasse do evento, que mais-valias em termos de futuro deveriam sobrar destes Mundiais 2016?

D. M. - Em primeiro lugar estou confiante que o evento seja um sucesso, à semelhança do que tem sido a nosso historial organizativo, da qualidade que conseguimos oferecer aos atletas. Como seleccionador, estou igualmente confiante nos resultados desportivos. A jogar em casa, espero naturalmente uma boa resposta do nosso grupo de selecção. A minha esperança para o futuro é que este Mundial crie raízes na zona da Mealhada / Cantanhede, por força da visibilidade de um evento desta dimensão. Vamos também ficar com mais património cartográfico que servirá para continuar a dinamizar a modalidade na região através de estágios, treinos e competições.

Sem lhe pedir que faça futurologia, como vai ser a próxima temporada da Taça de Portugal de Orientação em BTT?

D. M. - Espero que seja mais participada e mais competitiva, espero que os jovens e os seniores lutem por um lugar na convocatória do Campeonato do Mundo. Espero que se mantenha a boa disposição e ambiente nas competições, factor que valorizo muito e que tem contribuído para que os atletas passem um fim-de-semana descontraído e divertido com os amigos, pedalando pela natureza e conhecendo novos trilhos.

Numa altura em que nos preparamos para celebrar os 25 Anos da FPO, pedia-lhe um voto para a Federação Portuguesa de Orientação e para todos os orientistas e, em particular, para a Orientação em BTT.

D. M. - Desejo que nestes tempos difíceis sejam amigos e procurem ser felizes com um mapa na mão. No caso da Orientação em BTT desejo o mesmo, mas com o mapa no respectivo suporte da bicicleta.

[Foto gentilmente cedida por Daniel Marques]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido
  

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