segunda-feira, 16 de novembro de 2015

IX Congresso de Orientação: "FPO/Clubes - Compromisso para uma década"



Com 20 anos de actividade voluntária ao serviço da Orientação em Portugal, José Fernandes é uma das figuras mais conhecidas e estimadas no seio da modalidade. Subordinada ao tema “FPO/Clubes – Compromisso para uma década”, a sua apresentação no âmbito do IX Congresso de Orientação constitui, por si só, um manifesto de enorme coragem e frontalidade, que deve merecer a melhor atenção da parte de todos. Ao Orientovar, o atleta, técnico e dirigente “esmiuçou” alguns pontos da sua apresentação, revelando uma visão clara e realista do actual momento da nossa Orientação.


O que permite diferenciar um clube dum grande clube? Há grandes clubes na Orientação em Portugal?

J. F. - Para a nossa dimensão, considero que há clubes grandes em Portugal. Serão os quatro ou cinco com maior número de sócios. São clubes que apresentam recursos humanos para fazer face a grandes organizações e apresentam um grande número de atletas nas diversas competições. Isso é bom para a modalidade e tem todo o meu apoio; o que eu não apoio é que esses clubes, de uma forma sistemática, se apropriem de valores formados nos clubes de menor dimensão. Os clubes pequenos, para mim, são os que pelo número de sócios ou técnicos não conseguem por si só aspirar à realização de eventos com algum peso, no entanto acho que o podem fazer em parceria com outros clubes e recomendo vivamente esse tipo de parcerias. Os nossos vizinhos espanhóis, nesse aspecto, são muito mais abertos. No passado mês de Setembro participei no XXVI Troféu Martin Kronlund, nos arredores de Madrid, no qual se disputou também o Campeonato Ibérico de Orientação de Precisão; esse evento foi organizado em conjunto por três clubes de Madrid, dos dezassete existentes naquela cidade, segundo as últimas informações de que disponho.

Duma forma geral, há da parte dos clubes um défice de níveis de integração e de popularidade nos meios onde estão inseridos, comparativamente com outras associações”, e isto são palavras suas que eu subscrevo inteiramente. Os outros sabem fazer melhor o trabalho do que nós?

J. F. - Não quero dizer que sabem fazer melhor do que nós esse trabalho. O que se passa, no meu entender, é que sendo a Orientação uma modalidade não muito conhecida por enquanto e que nos "atira" permanentemente para o interior da floresta, torna a tarefa de nos darmos a conhecer bastante mais difícil do que outras associações, cuja ação é feita directamente com o público em geral. Creio que uma das fórmulas para nos tornarmos mais populares poderá passar por interagirmos mais com as associações de jovens e outras, nos locais onde desenvolvermos a nossa ação.

Há anos que acompanho o Portugal O' Meeting e há anos que me pergunto porque é que os clubes potenciais organizadores nos anos seguintes não investem uns “patacos” e levam à prova um conjunto de entidades “escolhidas a dedo”, numa manobra de charme e de sensibilização para aquilo que me parece essencial. E o essencial são apoios, matéria que abordou na sua apresentação. Também aqui falhamos redondamente?

J. F. - O POM já é a maior prova de inverno a nível mundial e concordo que pode ser melhor "vendida" aos potenciais beneficiários dos dividendos que esse evento já arrasta consigo. Gostaria muito que os possíveis apoios que viessem por via desse evento fossem canalizados para quem realmente dá o corpo ao manifesto. Seja como for, o POM já é um evento que, bem gerido, dá um bom retorno aos seus organizadores e seria bom que no futuro a atribuição desta organização carecesse de uma candidatura conjunta de pelo menos dois clubes. Já houve algumas edições, poucas, que foram organizadas em parcerias de dois clubes e correram muito bem.

Ainda relativamente ao POM, permita-me que faça um pouco de história sobre o seu formato actual. Há cerca de dezoito anos, meia dúzia de "loucos" da ARCCa, Associação Recreativa e Cultural do Campo - que em 2002 deu lugar ao .COM, Clube de Orientação do Minho -, liderados pelo José Carlos Pires e por mim próprio, resolveram organizar pela primeira vez em Portugal uma prova com quatro dias de competição. Em Fevereiro de 1998, no fim de semana que antecedeu o Carnaval e na segunda e terça feira de Carnaval, aconteceu a primeira edição dos Quatro Dias do Minho, na Serra da Cabreira, nos concelhos de Vieira do Minho e Cabeceiras de Basto, que contou com a presença de vários atletas estrangeiros (alguns deles ainda vêm todos os anos), entre os quais a campeã do mundo de distância média em titulo, a austríaca Lucie Böhm. Nessa altura o POM já se realizava todos os anos, numa prova de dois dias, num fim de semana. Em 1999, nos mapas de Santa Isabel, no concelho de Terras de Bouro, a ARCCa organizou a segunda edição dos Quatro Dias do Minho no mesmo fim de semana do Carnaval e no próprio, tal como no ano anterior. Foi a segunda prova de quatro dias de competição realizada em Portugal e de novo com a presença de atletas estrangeiros de referência. Em 2000 a FPO apropriou-se da data e organizou-se o primeiro POM com quatro dias de competição como ainda hoje acontece. Esse POM foi organizado pelo Ori-Estarreja, em Mira, onde se utilizou pela primeira vez o sistema SI. Estes acontecimentos já não devem fazer parte da memória da maioria dos atuais orientistas portugueses, mas a ideia de uma prova desta dimensão no Inverno nasceu de uma "loucura" de meia dúzia de elementos da ARCCa, numa altura em que os percursos eram marcados nos mapas com uma matriz, uma espécie de carimbo que tinha que ser composto para cada percurso diferente e se usava o sistema de cartão de controlo durante a prova. Quanto aos Quatro dias do Minho, a ARCCa, e depois o .COM, continuaram a organizá-lo anualmente até à sexta edição e depois de dois em dois anos a partir de 2008 até 2012, cada vez com maiores dificuldades de encaixar essa prova numa boa data.

Outra “ferida” onde “coloca o dedo” é a desproporção entre as receitas líquidas e as despesas efetuadas, acabando os clubes por “funcionar muito apoiados numa espécie de mecenato interno exercido principalmente pelos seus dirigentes e técnicos”. E todos sabemos o quanto isso desgasta e, com o tempo, acaba por afastar muitos dos melhores. Qual a responsabilidade da FPO nesta situação? Pode a FPO fazer melhor no tocante à busca de apoios e à sua repartição pelos clubes?

J. F. - As grandes despesas dos clubes estão relacionadas com a participação dos seus atletas em provas da Taça de Portugal. Tal como sugiro nas ideias que expus, os encargos dos clubes podem ser aliviados com uma redução do número de provas desse ranking e, na minha opinião, sete fins de semana chegam para definir os campeões. Relativamente a apoios federativos, a FPO tem vindo a beneficiar cada vez menos dos apoios oficiais como é sobejamente conhecido por todos. Apesar disso, manteve os apoios aos clubes na federação e renovação da inscrição dos jovens. Na Orientação em BTT assume o pagamento das inscrições de todos os jovens, tem também apoios especiais na Orientação de Precisão, tem investido como nunca nas selecções, isto tudo numa altura em que em Portugal a ordem foi cortar em tudo. Na situação actual não é fácil conseguir-se grandes apoios ou patrocínios, pelo que para se apoiar directamente alguns projectos de clubes, não vejo outra forma de o fazer senão desinvestindo nomeadamente nas selecções, que neste momento consomem a grande fatia do investimento da Federação e não sei se seria uma decisão acertada. E já que tocamos neste ponto, não posso deixar de manifestar que o investimento que se tem feito nas selecções provém principalmente das organizações de provas da IOF, que a FPO tem conseguido para Portugal e levado a cabo com um conjunto muito alargado de voluntários amigos da modalidade, dirigidos por um competentíssimo e incansável Augusto Almeida.

A forma como elenca aquilo a que chama “desequilíbrios” é quase uma visão catastrofista da modalidade. A que distância estamos de bater no fundo?

J. F. - Os nossos desequilíbrios não são de agora. Alguns deles, os que se referem ao nosso nível técnico, são antigos e persistentes. Eu creio que se criou a ilusão de que, pelo facto de desde há vários anos realizarmos alguns bons eventos, já tínhamos atingido um grau de desenvolvimento elevado, mas isso não é real. Os restantes desequilíbrios de que falo também não são de agora e no entanto temos conseguido resistir. A situação em que estamos ainda é sustentável porque se vai renovando de ano para ano, no entanto, para nos desenvolvermos precisamos de aumentar o número de atletas jovens, de formar para melhorarmos o nosso nível técnico e competitivo e precisamos de novos dirigentes, que venham abraçar a causa e não para fazer apenas uma pequena incursão por ela.

Devemos concordar, dum modo geral, com as medidas de sustentabilidade e desenvolvimento que advoca, mas... como é que se aumenta o número de clubes em Portugal? E acredita mesmo que aumentar o nível técnico e físico dos percursos dos escalões de competição nas provas da Taça de Portugal é solução, quando é o próprio a afirmar aquilo que é uma evidência, a de termos um nível competitivo muito baixo na maioria dos escalões e inexistente em alguns?

J. F. - Desde o início da introdução da Orientação em Portugal no meio civil, que os clubes que se formaram, ajudaram à criação de outros clubes. Sendo a Orientação uma modalidade com uma componente técnica tão importante, não vejo outra forma de se constituírem novos clubes senão com esse apoio. Existiram e existem nos diversos clubes atletas de todas as áreas do nosso território e há vários casos em que esses atletas e, ao mesmo tempo, técnicos, decidiram abraçar novos projectos nas suas áreas de origem e assim nasceram vários clubes. Creio que os clubes nunca estiveram tão fechados em torno de si próprios como hoje e isso é um grande problema. Sinal desta minha sensação é a quase total ausência de parcerias entre eles e uma demissão muito grande na participação do debate de assuntos comuns, como sejam as reuniões de clubes ou as Assembleias Gerais da FPO. Quanto ao aumento da dificuldade física e técnica de que falo, expliquei que esta é uma necessidade se quisermos melhorar as prestações dos nossos atletas jovens e seniores (apenas estes) nas competições internacionais, mas será uma medida que não pode ser aplicada da imediato e terá que ser precedida de uma aposta muito grande na formação.

Como avalia a evolução no campo do Desporto Escolar? Matéria-prima não falta, mas são poucos os professores de Educação Física ligados à modalidade que investem os seus recursos no ensino da Orientação no meio escolar. Não seria importante incluir no compromisso todos os outros professores (e que são muitos) que, sendo orientistas, fogem de dar Orientação aos seus alunos “como o diabo da cruz”?

J. F. - Estou ligado à Orientação no desporto escolar logo a seguir aos meus primeiros anos na modalidade e já lá vão 20 anos. Sempre assisti à participação de muitos jovens em todas as provas que ajudei a organizar e o meu clube sempre organizou pelo menos uma por ano, para o ranking da DREN. Matéria prima temos. Professores na Orientação também há bastantes. A Orientação dá muito trabalho? Claro que dá. A Orientação no Desporto Escolar pode funcionar bem sem o apoio dos clubes? Não vejo como. Foi por este motivo que o .COM fundou a EDOM, Escola Desportiva de Orientação do Minho, que tem protocolos com diversas escolas do distrito de Braga. Penso que quando os clubes apoiarem os professores que tenham formação na Orientação, lhes forneçam mapas e os ajudem a pôr em marcha projectos nessa área, haverá de certeza quem esteja disposto a dar esse passo. Até lá julgo isso bastante difícil, porque ensinar Orientação, para além de dar muito trabalho, exige um instrumento imprescindível, o mapa.

Há um aspeto sobre o qual não encontro uma linha nesta proposta de compromisso FPO/Clubes e que é o da Comunicação. Isto intriga-me, devo confessar. Que relevância tem, afinal, a Comunicação para a FPO e para os Clubes?

J. F. - Confesso que não sou um especialista em Comunicação, mas que ela tem relevância para a FPO e para os clubes, não tenho dúvidas que tem. Penso que temos todos que aproveitar melhor as redes sociais para esse fim, já que a comunicação paga é cara e para se ter retorno tem que ser persistente.

No “caderno de encargos” em matéria de compromissos FPO/Clubes são dadas sugestões importantes, mas falar em “evitar o recrutamento dos melhores valores dos pequenos clubes” parece-me polémico. Não acha que esta “migração” tem ajudado mais os jovens atletas a permanecerem agarrados à modalidade do que mantendo-se em clubes onde escasseiam os estímulos competitivos?

J. F. - Creio que a migração dos melhores valores dos pequenos para os grandes clubes tem vários pontos negativos e os positivos tenho muita dificuldade em descortiná-los. Amputar um pequeno clube do um valor seguro ou quase, significa retirar-lhe uma referência, significa retirar-lhe protagonismo a nível local e não só, significa retirar-lhe poder de afirmação e capacidade técnica. Resumindo, significa um grande prejuízo para quem levou a que esse jovem fosse cobiçado e levado sem qualquer contrapartida. Quanto aos ganhos relativos aos visados, pelo que temos assistido ao longo dos anos, a não ser alguns benefícios de ordem material, não consigo vislumbrar nenhum caso em que essas transferências redundassem num sucesso minimamente palpável. Os jovens atletas, que já conseguiam nos clubes de origem resultados com algum significado, limitam-se a continuar a conseguir resultados similares e as suas carreiras seguem sem que as acelerações eventualmente esperadas aconteçam.

De que forma é que a Orientação em BTT, a Orientação de Precisão e as Corridas de Aventura “encaixam” no compromisso FPO/Clubes? Os apoios especiais de que já beneficiam devem ser reforçados, sob pena de podermos vir a assistir ao seu desaparecimento?

J. F. - Penso que essas três vertentes são as que beneficiam de mais apoios da FPO actualmente. A Federação tem feito um grande esforço e também junto dos clubes para manter essas variantes da Orientação a funcionar o melhor possível, mas esse objectivo não depende apenas desse esforço. A crise de participação na Orientação em BTT tem como principal motivo os custos inerentes aos equipamentos utilizados nessa vertente e às grandes deslocações que por vezes tem que se fazer para participar numa prova, quando se tem por perto um passeio de BTT ou uma maratona à disposição. Sobre as Corridas de Aventura, não tenho opinião formada por não ser suficientemente conhecedor. Sobre a Orientação de Precisão, o que me parece é que o que falta será mesmo um aumento dos níveis de participação, mas isso dependente completamente da decisão de cada um.

Acredita mesmo ser possível o crescimento em número ao ritmo de 150 novos filiados anuais nos próximos dez anos?

J. F. - Pelos registos que temos, todos os anos se inscrevem novos atletas em número bastante superior aos 150. O problema é que outros saem ou não conseguimos "segurar" todos os que chegam. Para conseguirmos este objectivo penso que será necessário aproximarmos mais a modalidade do principal alvo de todas as Federações, o Desporto Escolar, mas isso penso que só poderá ser feito com uns calendários competitivos mais amigos da modalidade.

Numa altura em que nos preparamos para celebrar os 25 Anos da FPO, pedia-lhe um voto para a Federação Portuguesa de Orientação e para todos os orientistas.

J. F. - O meu voto é que daqui a 25 anos a FPO e todos os seus filiados comemorem os 50 anos deste desporto fantástico em Portugal, com muitos motivos de satisfação e de orgulho.

Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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