sábado, 14 de novembro de 2015

IX Congresso de Orientação: "Bases da Excelência na Orientação"



Bases da Excelência na Orientação: as Particularidades da infância, Adolescência e na Juventude de Atletas de Elite na Orientação” foi o tema levado ao IX Congresso de Orientação por Tadeu Celestino. Longa e apaixonadamente, o técnico e atleta aborda este assunto em detalhe na conversa que manteve com o Orientovar. Um verdadeiro documento cuja leitura se recomenda na íntegra.


Pedia-lhe que definisse, de forma breve, o que é a excelência na Orientação?

Tadeu Celestino (T. C.) - Na atualidade ainda não há um entendimento unânime do que é a excelência. É muito frequente encontrarmos na literatura de referência neste campo muitos termos que implicitamente lhe estão associada como sejam talento, “expertise”, elite, … na realidade todos eles têm em comum o facto de estarem associados a desempenhos superiores comparativamente à generalidade dos indivíduos e particularmente em relação aos seus pares e aludem apenas a uma característica ou particularidade distintiva nos indivíduos. Deste modo, partilho da opinião de se entender este fenómeno humano com uma perspetiva mais holística. Assim, a excelência é um termo mais global que encerra em si mesma duas dimensões: a dimensão da realização, associada ao desempenho; e a dimensão do ser, que diz respeito ao indivíduo enquanto ser social. Estas duas dimensões, por seu turno, fundem-se na chamada excelência pessoal. Particularmente no contexto da Orientação, a excelência pode, sinteticamente, traduzir-se naquilo que é a performance excecional sistemática ao longo do tempo materializado nos resultados. Estes refletem e integram, por sua vez, a harmoniosa conjugação entre as componentes físico/fisiológicas e cognitivas, concretizadas numa rápida execução, e constante busca pela perfeição. Concomitantemente refletem, também, as componentes intrapessoais associadas aos valores da ética e deontológicos enquanto indivíduo. Em suma, a excelência, como refere Patrício “... é aquilo que é muito bom, e perfeito, o distintivo, o magnífico.”

Baseou o seu estudo na recolha de dados junto de seis atletas campeões e ex-campeões do mundo. A amostra é suficiente e os resultados são fiáveis?

T. C. - Esta questão é muito pertinente e, à primeira vista, pode causar alguma estranheza e dúvidas por serem tão poucos. Com base em Gagné e na sua teoria “do pouco espaço no topo”, apenas 10% dos indivíduos que têm por objetivo a excelência, conseguem efetivamente alcançar e manter níveis de elevada excecionalidade. Particularmente no desporto, estes indivíduos são facilmente identificáveis por dados objetivos e concretos (classificações, tempos, resultados …), comparativamente a outros campos de realização. Assim, muito simplesmente, “apenas um pode ser campeão” do mundo. Deste modo, os atletas entrevistados foram selecionados tendo em consideração critérios de inclusão baseados quer nos seus desempenhos, quer na regularidade das suas performances ao longo da vida como sugerem diversos estudos neste campo. Face a este “crivo”, poucos são os atletas do “pelotão” internacional que reuniriam os critérios de inclusão.

Por outro lado, e face à escassez de estudos com uma abordagem compreensiva na Orientação, este estudo foi desenvolvido no paradigma qualitativo de análise em que, efetivamente, mais que o número, dá-se maior relevância à riqueza da experiência e vivência dos indivíduos. Não são uns atletas quaisquer... Do mesmo modo, o que procurei foi essencialmente ter uma visão mais holística e profunda da excelência neste contexto, por meio da compreensão da experiência humana e dos comportamentos a ela associados. Como qualquer metodologia de investigação, este paradigma segue procedimentos metodológicos rigorosos, quer para a recolha da informação, quer para a sua análise, por forma a atestar a fiabilidade e validade de todo o processo.

Quando fala de excelência na Orientação, fala do conceito duma forma muito concreta e refere, a título de exemplo, Daniel Hubmann e Simone Niggli, Ida Bobach e Thierry Gueorgiou, entre outros. Podemos dizer que qualquer um destes “monstros” da Orientação já nasceu orientista? E é possível dizer que serão muitos aqueles que “nasceram orientistas” mas que nunca chegarão a saber o que é, sequer, a Orientação?

T. C. - Esta é uma questão que, ao longo das décadas, tem suscitado um grande debate no campo científico e muito particularmente no âmbito das Ciências do Desporto. Efetivamente, durante um longo período de tempo, degladiaram-se duas grandes correntes explicativas da excelência. Por um lado os defensores do determinismo genético, que procuram justificar a excelência como o resultado de fatores biológicos, isto é, argumenta-se que são os genes os determinantes do potencial de desenvolvimento e, consequentemente, da aquisição, desenvolvimento e manutenção da excelência. Do lado oposto, encontram-se os defensores da corrente ambientalista. Estes, por seu turno, argumentam serem os fatores contextuais os reais elementos significativos para o processo de aquisição, desenvolvimento e manutenção da excelência. Porém, mais recentemente, diversos autores têm vindo a alertar para a necessidade de se possuir uma visão mais holística, multifatorial e interacionista deste fenómeno. Isto é, o contributo de fatores de ambas as perspetivas que, numa bem-sucedida interação entre si, promovem a concretização da excelência.

Face ao exposto e do que investiguei com este grupo de atletas é que efetivamente nenhum nasceu orientista e ninguém nasce orientista de excelência. Na minha ótica, todos possuem um substrato biológico que se adaptou facilmente aos requisitos e especificidades da modalidade. No mesmo sentido, o contexto onde nasceram, viveram, se desenvolveram como indivíduos, assim como os incidentes críticos daí resultantes, possibilitou a existência de uma interação bem-sucedida que conduziu à excelência. A questão que coloco agora não é saber se um orientista nasce ou se desenvolve. A pergunta é saber como se processa esta interação dos diversos fatores (contextuais e pessoais) entre si para se obter a excelência. Talvez possa parecer um pouco utópico, mas chave para a excelência reside em compreender esta multiplicidade de interações de fatores. Com efeito, há muitas crianças e jovens com potencial individual para serem possíveis atletas de altas performances, mas efetivamente o contexto onde se desenvolvem, assim como os incidentes críticos, não se conjugam … e sim, efectivamente, há muita gente com um perfil para a excelência que nunca verá um mapa de Orientação. Um exemplo. Qual é a probabilidade de uma criança/jovem africano, com um genoma com características perfeitas para se ajustar às exigências da modalidade, poder vir a ser um orientista de excelência se viver apenas em África e nunca ouvir falar de Orientação, ou não saber o que é um mapa de Orientação? Efetivamente são mais os que se perdem do que aqueles quê se aproveitam. Mas isto é transversal a todas as modalidades.

Há uma idade ideal e uma idade-limite para começar a fazer Orientação, a partir da qual é impossível pensar em vir a ser-se um orientista de excelência?

T. C. - Bem, para se começar a fazer Orientação não há limite de idade. Mas, efectivamente, se queremos almejar a manter com regularidade e ao longo do tempo performances de top10 mundial, sim, existem limites que me parecem agora mais claros e definidos. Temos de sublinhar que a Orientação é uma modalidade de experiência. Como referem alguns atletas pertencentes às melhores seleções da Europa de Orientação auscultados, efetivamente, a experiência é um dos fatores distintivos e determinantes da excelência e esta começa a desenvolver-se logo na infância. Com efeito, no estudo da Marisa Barroso, com crianças com idades compreendidas entre os 3 e os 4 anos de idade, estas foram capazes de desenvolver tarefas de orientação com uma fotografia aérea. Aqui, definimos claramente que quanto mais precocemente iniciarmos o desenvolvimento dos pré-requisitos e “skills” da Orientação, eventualmente mais aptos estarão as crianças/jovens para aprender e apreender os fundamentos da modalidade em etapas subsequentes. Desde logo é um passo importante e fundamenta a razão do sublinhado por Thierry Gueorgiou que logo aos quatro anos já tinha como brinquedo uma bússola. Do mesmo modo, alguns atletas de seleções de topo da Orientação mundial, confessaram-me ter iniciado a modalidade já tarde (13, 14 anos), sublinhando como este aspeto tem uma influência significativa na sua prestação actual, referindo-se inclusive às dificuldades em conseguir alcançar e manter-se em patamares de top10 do mundo.

Outro dado que se observa nos atletas é que o pico de carreira (a obtenção de melhores performances) na Orientação é tardio e mantém-se por algum tempo. Isso explica a necessidade de muitos anos de aprendizagem, de prática deliberada e refinamento dos “skills” apreendidos em etapas mais iniciais. Uma importante teoria desenvolvida para explicar a “expertise” sublinha a necessidade de 10 anos ou 10 000 horas de prática sistemática para se alcançarem elevados níveis de performance. É certo que não podemos ser tão lineares, mas isto reforça a importância de uma intensa e prolongada necessidade de prática. Porém, um facto contraditório desta perspetiva no contexto da Orientação é o facto de existirem “atletas mais novos” que começaram a praticar a modalidade em idades mais tardias e já revelam performances regulares de excelência. Em suma, ter o início em idades precoces é importante, e porventura facilita o caminho, no entanto não é uma questão linear e não podemos esquecer que a excelência é um processo dinâmico e multidimensional, requerendo a conjugação harmoniosa das suas condicionantes.

Do ponto de vista genético, os nórdicos possuem alguma característica que os coloque numa posição de superioridade em relação aos demais?

T. C. - Eu não colocaria a questão nesse campo. Bons genes para a Orientação existem em todas as partes do mundo. Indo ao cerne da questão, como diria Lewonton, “os genes determinam a dimensão morfológica do desportista, mas a sua interação com o contexto envolvente influencia a sua performance.” Creio que aqui o fator diferenciador reside, efetivamente, na questão cultural e sócio contextual. Concretizando, o berço da Orientação reside na região Escandinava. É uma modalidade que é parte integrante da cultura desportiva da sociedade destes países. Existe mesmo um reconhecimento, implícito, das virtualidades e potencialidades da modalidade para o desenvolvimento eclético dos indivíduos. Um bom exemplo disso mesmo é o facto de que a maioria, se não a totalidade, das crianças, nos jardim-de-infância destes países, já contactarem com atividades de exploração da natureza de uma forma geral e de Orientação de modo mais particular. Paralelamente há um incentivo de pessoas significativas (familiares) na promoção de atividades e momentos prazenteiros de contacto e exploração da natureza (caminhadas nas montanhas, acampamentos,…) e onde a Orientação se vai desenvolvendo constantemente e de forma muito informal, prazenteira e lúdica.

Esta estimulação precoce é, desde logo, uma grande vantagem, não só por se obter uma ampla base de indivíduos com os pré-requisitos de Orientação que, mais tarde, vêm praticar a modalidade e eventualmente converterem-se em bons atletas, como também, na aquisição de um conjunto de skills, motores, psicomotores, de habilidades de diferente ordem, fundamentais para serem refinados mais tarde. Por outro lado, existe nestes países um conjunto de estruturas de suporte formativo e tangencial acessível a todos os indivíduos, que proporcionam os recursos (técnicos, mapas, etc…) fundamentais para a aquisição, desenvolvimento e manutenção da prática da modalidade por parte dos cidadãos. Em suma, promove-se a acessibilidade, valorização e desmistificação da modalidade, algo que não se vê por exemplo em outras realidades da Europa. Do mesmo modo, existe um vetor orientador onde assenta toda a estrutura formativa. Estou a referir-me, concretamente, a um modelo de formação de praticantes, com uma estruturação lógica e adaptada às realidades da alta competição (escolas de orientação de referência) ou do lazer (clubes locais). Se olharmos para a realidade internacional, os diferentes países apresentam diversos modelos de formação, escolas de referência na Escandinávia, o Pole em França, a residência Blume em Espanha, etc… e com resultados visíveis.

Como é que se trabalha e desenvolve um orientista de excelência?

T. C. - Como diria Aristóteles “… a excelência é um hábito.” Neste sentido, volto a sublinhar que, primeiramente, temos de entender que a Orientação é um desporto de experiência e experiências. Neste sentido, a experiência só se adquire com a prática sistemática, rigorosa e consistente. Logo é um processo de longo prazo repartido em diferentes partes. Assim, e de forma sintética e pragmática, num primeiro momento é extremamente importante desenvolver-se a literacia motora. Isto é, logo desde criança desenvolver um conjunto de skills psicomotores, preceptivo-motores e habilidades, por meio de uma variedade e diversidade de experiências associadas quer com a exploração da natureza, quer com habilidades psicomotoras de uma forma geral. Aqui é importante que a criança explore livremente os diferentes campos de ação, que ajuste regras, adapte jogos e estimule a sua criatividade (o jogo livre). Não nos esqueçamos que as primeiras experiências são as mais significativas, a obtenção do sucesso e do prazer destas práticas são como vínculos importantes para uma futura adesão e vinculação à prática desportiva, numa primeira instância, e consequentemente à modalidade.

Prosseguindo - e mantendo a mesma lógica da diversidade e variabilidade da prática -, é fundamental desenvolver aquilo a que designo de inteligência desportiva. Isto é, o desenvolvimento eclético do jovem, que se materializa com a experienciação/prática de outras modalidades desportivas, para além da Orientação. Devido ao transfere positivo que se pode obter para a Orientação, não só a nível psicomotor mas também ao nível da tomada de decisão e resolução de situações problemáticas com as quais os atletas são confrontados na floresta, assim como o desenvolvimento dos valores da ética e da deontologia desportiva. Neste momento o jogo livre deixa de fazer sentido e passa-se para um conceito de prática/jogo mais deliberado, com um objetivo definido e um sentido claro do treino específico de Orientação. Em suma, aqui procura-se essencialmente a aquisição de experiências, conhecimentos e vivências fundamentais que um desportista com o objetivo da elite deve possuir. Enrobustecendo esta perspetiva, recordo-me que muitos atletas por mim entrevistados salientarem efetivamente a importância de terem desenvolvido este tipo de práticas enquanto crianças e adolescentes e como elas têm sido importantes no momento atual. Consequentemente, importa desenvolver o que designo de deliberada diversificação dos locais de prática e de treino. Isto é, a necessidade de viajar a diferentes tipos de terrenos, contactar diferentes tipos de cartografia, mapas, … elevar o número diversificado de experiencias e de representações mentais. Paralelamente - e reforçando estas experiências -, é importante contactar, partilhar opiniões com outros atletas, treinadores, cartógrafos, … a frequência de campos de treino, organizar eventos, ensinar outros praticantes … assim como o visionamento de outros desportos/atletas … recordo-me de ver o Thierry Gueorgiou que durante a sua preparação nos entre treinos assistia a jogos de andebol, ou outra modalidade, assim como lia biografias de atletas. São experiências que parecem não ter relevância mas que diferentes estudos confirmam serem significativas na formação dos atletas.

Por fim é importante refinar toda esta aprendizagem com uma intensiva prática deliberada e especifica de Orientação com o intuito do perfecionismo normal (onde o atleta sente prazer, e satisfação na luta pela performance). Aqui surge a exclusividade para com a Orientaçao. Em suma, para se alcançar a excelência na Orientação, não basta ter os genes, a motivação, a paixão pelo desporto … é necessário trabalho árduo, empenho, dedicação, sofrimento, … exclusividade, suportados por uma filosofia de desenvolvimento do indivíduo de forma holística e ecléctica, isto é, sempre numa perspetiva bio-psico-socio-axiológica a excelência pessoal no longo prazo.

Quando falamos de excelência devemos incluir também o Treinador? Ou seja, pode um atleta ser excelente se o seu treinador não o fôr?

T. C. - Da minha observação e contacto com alguns dos melhores atletas do mundo, friso “os melhores do mundo”, a questão é afirmativa. Inclusive, muitos deles não tinham treinadores. Creio que quando se atinge um alto grau de excecionalidade, os níveis de conhecimento, de competências e experiencias adquiridos ao longo do tempo possibilita a estes indivíduos alcançarem um background de saberes acerca do processo de treino desportivo, assim como dos seus fundamentos, que lhes possibilita gerir e conduzir os seus próprios processos de treino e preparação. Efetivamente, um atleta neste nível de performances conhece-se muito bem, sabe os seus limites e capacidades melhor que ninguém, assim como sabe como vai reagir às adversidades numa prova. Complementarmente, uma das particularidades da Orientação é que o atleta em competição está sozinho na imprevisível floresta, deste modo é ele que tem de tomar decisões, resolver problemas, gerir a prova, o esforço, … logo, a experiência acumulada ao longo dos anos permite-lhe estar em vantagem na hora de saber gerir o seu processo de treino.

Centrando-nos na realidade portuguesa – e salvaguardando as diferenças relativas para qualquer um dos nomes citados atrás - como é que se “descobre” um orientista de excelência no nosso contexto? Consegue exemplificar com um caso concreto?

T. C. - Creio que a Escola tem desempenhando bem o seu papel na formação eclética dos jovens. Não podemos esperar que esta assuma a responsabilidade de trazer á luz potenciais talentos para a Orientação. Esta, pelos princípios da pluralidade e universalidade de acesso, apenas deve servir para o desenvolvimento dos skills básicos da Orientação. Falamos do Desporto Escolar, como se a Escola fosse a responsável por dar de mão beijada a matéria-prima. Creio que devem ser os Clubes a desenvolver esta identificação e cativação. Cabe aos Clubes estabelecer as sinergias essenciais para a cativação dos potenciais “excecionais”. Neste sentido, aprecio o trabalho feito pelo .COM – Clube de Orientação do Minho. Mas devo confessar que sinto alguma dificuldade em responder a esta questão, pois não temos um modelo um processo pensado e elaborada para dar resposta a esta questão. Sem ferir suscetibilidades, nem desvalorizar o trabalho de ninguém creio que ainda é muito “geração espontânea”.

Vemos com alguma admiração que são numa percentagem invulgarmente elevada os atletas portugueses de Elite que, ou são médicos, ou estão a cursar Medicina. A explicação para o facto está nas particularidades da própria modalidade e no seu apelo a uma atividade mental intensa, é isso, ou trata-se apenas duma coincidência sem significado?

T. C. - Não creio que se trata apenas de uma coincidência. Efetivamente, começa-se a dar passos importantes na resposta a esta questão. As evidências neste campo de estudo, nomeadamente, das Neurociências, tem vindo a expor um conjunto de evidências de uma associação positiva entre a prática de atividade física e a melhoria do desempenho intelectual/cognitivo. Na realidade, ainda não estão bem claros os mecanismos que se encontram subjacentes a este processo, sendo prematuro afirmar a 100% esta associação. No entanto, a questão que se deve colocar é saber se “seremos melhores atletas porque somos mais inteligentes, ou seremos mais inteligentes porque somos melhores atletas?” Avizinha-se um debate interessante neste campo de estudo. Numa outra perspetiva, e mais do senso comum, é o facto de que a formação desportiva incute e exige o desenvolvimento de um conjunto de valores ontológicos, como a dedicação, o rigor, a organização, etc., que, como sabemos, desempenham um papel importante na vida académica dos jovens e consequentemente no seu sucesso. Em suma, creio que, mais uma vez nesta questão, os fatores genéticos e a sua interação com o contexto onde o indivíduo se desenvolve podem eventualmente levar a que isto aconteça.

De que forma se interpenetram os percursos para a excelência pessoal e para a excelência na Orientação?

T. C. - Este é um processo/projeto que se desenvolve paralelamente. Um projeto único. Ao promover-se a excelência no desempenho na Orientação, há a necessidade e a exigência de se desenvolver um conjunto de valores, morais, éticos, deontológicos, próprios do desporto, que se transferem e se aplicam plenamente na convivência na sociedade. Simultaneamente, “porque nunca se deixa de ser homem”, há a formação individual de cada um, há a frequência da Escola, da formação profissional, na Universidade, a formação de outros atletas, da humildade, e fraternidade. Ilustrativo, é o referido por Telma Monteiro (atleta olímpica de judo), numa entrevista recente a um órgão de comunicação social referir que “ … o desporto torna-nos melhores cidadãos”. É um processo/projeto comum de desenvolvimento onde ambas as dimensões estabelecem uma relação “simbiótica” e complementam-se mutuamente para um objetivo comum: a excelência.

O seu estudo dirigiu-se apenas a atletas da área da Pedestre, mas se falarmos da Orientação de Precisão, por exemplo, os pressupostos no tocante à excelência alteram-se significativamente?

T. C. - Não creio que se alterem. Este será o meu próximo estudo. Recordemos que, partindo de uma perspetiva holística de compreensão deste fenómeno humano, a excelência no desporto é o resultado da conjugação harmoniosa entre um conjunto de fatores de ordem pessoal e contextual. Com efeito, é da interação bem-sucedida destes fatores que eventualmente se poderá desenvolver a excelência na sua globalidade. Logo, é um processo dinâmico e multidimensional (encerra as dimensões do desempenho e as dimensões da formação eclética do indivíduo), concretizando-se na excelência pessoal. Nesta ótica - e tratando-se de uma tarefa de realização -, os pressupostos são os mesmos para a aquisição, desenvolvimento de manutenção da excelência, quer para atletas da classe paralímpica, quer para atletas da classe aberta.

Eventualmente, será necessário começar a olhar com outros olhos para esta disciplina da Orientação. Reconhecer e promover as suas potencialidades, quer no toca à formação dos indivíduos (promoção dos valores da inclusão e integração), assim como o potencial de transfer para as outras disciplinas da Orientação no que toca às questões do desenvolvimento do fator técnico. Deste modo, creio ser importante desmistificar a disciplina, quer para o “pelotão” de atletas da Orientação, quer para população em geral. Com base no Special Eurobarometer 393, Discrimination in the E.U. in 2012, Portugal configura-se um dos países com uma elevada taxa de discriminação relativamente à pessoa com deficiência, logo estas atividades que envolvem pessoas com limitações causam alguma apreensão e estranheza. Assim creio que, particularmente em Portugal, fundamental se torna começar a desenvolver processos implícitos de formação de praticantes (paralímpicos, abertos), com um modelo estruturado que na minha ótica deve ser alavancado não só nas instituições acolhedoras de prestadoras de cuidados aos indivíduos com deficiência, mas igualmente nas Escolas - e porque não no Desporto Escolar? É aqui que se formam os indivíduos.

Creio que existe um longo caminho a percorrer, uma vez que lidamos com dimensões sociais, mas o caminho que a disciplina tem percorrido até aqui, do meu ponto de vista é positivo. Têm-se dado passos consistentes. Mas alerto: para se alcançar a excelência, são necessários muitos atletas para que apenas um saia. Nesta ótica é urgente formar atletas e regenerar a base com juventude que ainda não temos. É preciso fazer uma rutura com o paradigma atual e desmistificar a disciplina.

[Foto gentilmente cedida por Tadeu Celestino]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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