sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Thierry Gueorgiou: "A Distância Longa foi uma prova redentora"



Thierry Gueorgiou dispensa apresentações. Ele é, tão somente, o melhor orientistas de todos os tempos, confirmando isso mesmo nos recentes Campeonatos do Mundo onde arrecadou o seu 13º título mundial, o quarto na Distância Longa. Mas as expectativas do “campeoníssimo” eram outras...


Como é que decorreram os momentos que antecederam os Campeonatos do Mundo. Sentia-se bem preparado?

Thierry Gueorgiou (T. G.) – A minha preparação este ano teve uma série de altos e baixos, sendo o ponto mais baixo a fratura do hallux em Janeiro. Como consequência dessa situação, tive de vencer algumas contrariedades relacionadas com lesões menores. Mas passei muito tempo em terrenos relevantes (cinquenta dias na Escócia) para estar bem preparado, mesmo tendo de abdicar da minha participação na Estafeta e ter assim mais tempo de recuperação para a prova de Distância Longa. Tomei esta decisão em conjunto com a equipa, duas semanas antes do início dos Campeonatos. A principal razão teve a ver com a preparação, ainda assim, abaixo do óptimo, mas também porque há um ditado francês que diz que “o perfeito é inimigo do bom”. Revisitando as últimas participações de duas lendas do nosso desporto em Campeonatos do Mundo, Emil Wingstedt correu todas as provas daquele que foi o seu último Mundial (Trondheim, 2010), tendo conseguindo como melhor um 6º lugar, enquanto Bjørnar Valstad, correndo apenas duas distâncias (Longa e Estafeta) no WOC em Västerås (2004), terminou a sua carreira com duas medalhas de ouro. Ainda por cima, percebi no ano passado que tinha contribuído para criar uma enorme onda emocional associada às minhas próprias expectativas no tocante à Distância Média e vinte e quatro horas com a cabeça liberta antes da prova de Distância Longa iriam, seguramente, fazer a diferença.

Pedia-lhe que recordasse essa fantástica medalha de ouro na prova de Distância Longa. Estava nos seus planos?

T. G. – A Distância Média era o meu principal objetivo para estes Campeonatos do Mundo, mesmo que os resultados dos últimos anos mostrassem que as minhas maiores hipóteses estariam, provavelmente, na Distância Longa. Mas, com toda a honestidade, após a tremenda desilusão com a prova de Distância Média, a Distância Longa foi uma prova redentora, mais do que qualquer outra coisa. Durante todo o percurso, tentei usar a minha frustração como fonte de energia. Talvez por isso o meu desempenho técnico nesse dia tenha ficado tão longe da perfeição (demasiado querer, muito pouco controlo). Mas senti-me realizado após a prova e muito contente por ter evitado outra séria dor de cabeça para o resto do Verão…

E quanto ao 7º lugar na Distância Média? Já falou atrás em desilusão e frustração…

T. G. – É tremendamente difícil analisar esta prova sem criticar a qualidade do mapa no penúltimo ponto. É verdade que não é inédito na história da Orientação acontecerem, aqui e ali, erros com o mapa e também vale a pena lembrar que o mapa é o mesmo para todos. Conseguir minimizar os riscos independentemente das circunstâncias é uma qualidade importante. Terei esta qualidade? Será, talvez, o aspeto onde deva fazer incidir as minhas atenções neste momento, em vez de me queixar ao mundo inteiro sobre os meus falhanços na Distância Média.

Estes resultados continuam a ser uma motivação em termos de futuro ou é agora tempo para parar?

T. G. – Realmente é muito difícil responder a isso. Uns dias, acordo de manhã a pensar que esta é a altura certa de dizer adeus. Noutros dias, acordo com a cabeça a fervilhar de novas ideias, de como mudar a minha forma de treino para conseguir manter o meu nível de competitividade. O que é uma realidade é ainda a minha profunda paixão pela Orientação e também o meu gosto por correr com os melhores, pelo que será sempre um prazer andar por aqui enquanto conseguir manter um nível suficientemente bom.

E quanto à selecção masculina de França? Globalmente, que resultados destacaria?

T. G. – Em termos de equipa, e não contando com o WOC 2011 em França que foi realmente especial, estes foram os nossos melhores Campeonatos do Mundo de sempre. Lucas [Basset] e Fredo [Frederic Tranchand] mostraram na passada semana que fazem já parte da nata da Orientação mundial! E isto é apenas o início. Daquilo que vejo durante os Campos de Treino, eles podem conseguir resultados ainda melhores, definitivamente. Estou particularmente orgulhoso do Vincent [Coupat], uma vez que ele tem treinado ao longo de todos estes anos duma forma muito profissional, mas nunca tinha conseguido mostrar de forma plena o seu enorme potencial. Demos-lhe uma oportunidade na Estafeta, ele aguentou firme toda aquela pressão e conseguiu. Também não posso esquecer de mencionar o Philippe [Adamski], impossibilitado de competir no seu último WOC devido a uma lesão nas costas, mas que ao longo de todos estes anos deu muito de si à equipa, com uma parte das medalhas a pertencer-lhe também. Sem esquecer a qualidade dos seus cozinhados durante a semana do WOC e que fizeram também a diferença…

Dum ponto de vista técnico e organizativo, como avalia o WOC 2015?

T. G. - Bem, se estou bem lembrado das palavras de boas-vindas do Diretor do Evento no Boletim, ele terá dito que os atletas sairiam da Escócia referindo-se a este como “o melhor WOC de sempre”. Por aquilo que mencionei atrás, pessoalmente, soa-me agora um bocadinho a presunção, apesar de ter apreciado imenso a atmosfera nas Arenas. E é também justo dizer que o facto de não ter havido passagem pela Arena nas distâncias de floresta fez com que a qualidade dos percursos aumentasse enormemente. Vamos acreditar que os futuros organizadores possam estar inspirados.

Se lhe pedisse um momento – o grande feito dos Campeonatos –, qual seria a sua escolha?

T. G. – Bem, talvez, talvez, Annika Billstam da Suécia ?! (risos)

A temporada caminha agora para o final. Algum objectivo especial para aquilo que resta?

T. G. – Na verdade, nem por isso. Quero apenas continuar a treinar bem e conseguir responder a todas as questões que tenho em mente nesta altura.

[Foto: World of O / facebook.com/WorldofO]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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