quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Svetlana Mironova: "A Orientação é a minha vida e eu quero continuar, melhorar"



A sua presença nos Campeonatos do Mundo esteve em dúvida quase até ao limite, mas Svetlana Mironova nunca deixou de acreditar. No final, uma medalha de bronze com laivos dourados e um par de belos momentos, aqui recordados com intensidade e paixão.


Como é que decorreu a sua preparação para os Campeonatos do Mundo?

Svetlana Mironova (S. M.) – Este foi um ano complicado. Tinha planeado um conjunto de Campos de Treino na Escócia mas lesionei-me mesmo antes do início e acabei por passar esses primeiros momentos a caminhar apenas. A lesão acabou por se prolongar por muito tempo e tanto eu como o meu treinador chegámos a ponderar a minha não participação nos Campeonatos do Mundo. Mas decidimos que deveríamos tentar. Tivemos que introduzir alterações nos treinos de maneira a que o meu joelho tivesse tempo para recuperar mas, ao mesmo tempo, procurámos seguir o plano de treinos o mais à risca possível. Foi necessário planear muito cuidadosamente cada treino! Algumas semanas antes do WOC a dúvida permanecia sobre se seria capaz de competir ou não, mas o meu treinador voltou, de novo, a fazer com que eu acreditasse em mim.

Quer falar-me da sua medalha de bronze na prova de Distância Longa? Pelo que acabou de dizer, posso depreender que este era um resultado que não estava à espera.

S. M. – Sim, tal como referi antes, participar no WOC estava fora de questão a três meses do seu início. Mas eu queria tanto correr. Sinceramente, chegar ao bronze este ano foi muito mais difícil do que a conquista da medalha de ouro no ano passado. Não são muitas as pessoas que estão por dentro daquilo que eu passei, mas aquelas que me acompanharam de perto são unânimes em referir que esta medalha “está pintada a ouro”. Na verdade esta medalha de bronze é muito importante e representa uma vitória sobre mim mesma e sobre a minha lesão.

E quanto ao 13º lugar na Final de Sprint? Que recordações guarda dessa prova?

S. M. - Na realidade este é o meu melhor resultado de sempre numa final de Sprint em Campeonatos do Mundo! Apenas tenho um resultado melhor do que este e que foi o 7º lugar nos Europeus de 2012. Este ano fui seleccionada para todas as provas individuais e para a Estafeta de floresta, mas tive de pensar muito bem naquilo que mais queria: correr todas as provas ou correr boas provas. A minha lesão obrigou-me a optar. Em conjunto com o meu treinador, decidimos abdicar da Distância Média, tendo assim algum tempo mais de recuperação antes da Estafeta. Penso que foi uma boa decisão. Construímos o programa do WOC “em escada”, a aumentar de prova para prova em termos de exigência física, desde a Qualificatória de Sprint até à Distância Longa. Sabia que não tinha hipóteses de vencer a prova de Sprint e a minha intenção foi correr uma prova perfeita em termos de navegação, à maior velocidade possível em ambiente urbano. Mesmo tendo cometido um erro que me custou 12 segundos, estou bastante satisfeita porque o meu desempenho foi melhor do que o do ano passado, mesmo estando em pior forma física (em 2014 fiquei abaixo do top 20). Gosto das provas de Sprint, são dinâmicas e têm muita beleza. E estou certa que a Distância Média também está à minha espera.

Como sentiu o “mp” na Estafeta?

S. M. - Foi realmente uma má surpresa! A equipa feminina da Rússia nunca tinha sido desclassificada anteriormente na Estafeta. Tivemos um bom começo com a Natalia [Vinogradova], ela foi muito rápida e, mesmo com um erro muito grande, conseguiu passar o testemunho na segunda posição. Eu sabia que teria, acima de tudo, de correr uma prova limpa, sem erros. Mas entretanto aconteceu um problema – o meu SI “touch free” partiu-se após o primeiro ponto. No segundo ponto perdi alguns segundos a tentar perceber o que é que estava errado e a partir daí tive de validar cada passagem pelos pontos da forma convencional. Sabia que, por este motivo, estava a perder tempo e teria de ser ainda mais rápida. Finalmente consegui manter o segundo lugar e a diferença para a equipa terceira classificada (não falo nas dinamarquesas, elas foram extremamente rápidas). Algo aconteceu com a Tatiana [Ryabkina], não sei o quê, ela é a atleta mais experiente na equipa… Mas as coisas acontecem, isto é uma Estafeta e é sempre imprevisível. Ficámos em choque quando ela terminou a prova, mas interiorizei rapidamente que não havia nada a fazer e seria mais importante guardar essas energias e emoções para a prova de Distância Longa. Pura e simplesmente esqueci. Fiquei satisfeita com a minha prova no segundo percurso porque percebi que conseguia correr tão depressa como outras atletas bastante fortes e isso foi para mim o mais importante nesse dia.

Que motivação é que estes resultados acarretam em termos de futuro?

S. M. – Eu não colocaria a questão dessa forma. A Orientação é a minha vida e eu quero continuar, melhorar. Gosto de fazer isto da melhor forma. Precisamente porque gosto desta minha vida.

E quanto à seleção da Rússia? Que resultados destacaria?

S. M. – Foi um ano difícil para a nossa equipa, mas vejo que os meus colegas trabalham no duro. Estamos muito contentes com o desempenho na estafeta Mista de Sprint, onde alcançámos uma “impossível” medalha de bronze. Foi fantástico e estou muito orgulhosa da Galina [Vinogradova] que esteve espectacular no último percurso.

Como avalia o WOC 2015 dum ponto de vista técnico e organizativo?

S. M. - Bem… fantástico! Penso que foram os Campeonatos do Mundo com o maior destaque televisivo de sempre. Dum ponto de vista dos espectadores, foi muitíssimo bem organizado. Cada percurso foi traçado deixando a parte mais dura para o final, o que confere melhor visibilidade. Muitas cameras, operadores de camera à mão em corrida (mesmo em locais muito afastados da Arena na prova de Distância Longa!), penso que estas foram as mais interessantes transmissões televisivas de sempre. Outra situação foi o trajeto da Quarentena para a Pré-Partida na prova de Distância Longa. Uma das carrinhas caiu num buraco e foi impossível fazer deslocar outros autocarros, pelo que os atletas tiveram de enfrentar uma caminhada de 20 minutos. Mas o que é que se pode dizer acerca disto? Esta era a única forma de levar a cabo a prova naquele terreno verdadeiramente único. Portanto, nada a apontar!

Se lhe pedisse que referisse um momento – o melhor desempenho dos Campeonatos -, qual seria a sua escolha?

S. M. - O título do melhor desempenho dos Campeonatos, gostaria de o atribuir a um momento (um verdadeiro momento) de contemplação, quando atingi o ponto mais elevado do percurso na primeira pernada longa da prova de Distância Longa e pude apreciar a beleza da paisagem à minha volta – montanhas cobertas de florestas com pequenas manchas de neve não derretida apesar de estarmos em Agosto, um verde exuberante sob o brilho do sol. Apenas pude contemplar esta visão pelo espaço de um único segundo porque a minha prova não podia esperar, mas este pequenino segundo fez-me sentir a beleza natural do Norte da Escócia! (tenho pena dos atletas que tomaram a melhor opção nesta pernada, eles não puderam apreciar nada disto).

Sinceramente, gostaria de sublinhar que o terreno da prova de Distância Longa que nos foi oferecido este ano era realmente único. Desde logo, foi o terreno mais desafiante e exigente de todos quantos tivemos no WOC, um terreno sem trilhos, um piso extremamente duro. Foi realmente fantástico e mais fantástico ainda seria se tivéssemos a oportunidade de o correr para o tempo de uma hora e meia, tal como aconteceu na prova masculina. Portanto, gostaria de anunciar Glen Affric como o grande acontecimento deste WOC 2015!

A temporada aproxima-se do fim, pelo que lhe pedia que nos falasse dos seus próximos objectivos.

S. M. – Gostaria de dedicar este tempo à minha preparação para os Campeonatos Mundiais Militares do CISM, nos quais participarei este ano. Será uma viagem excitante e, assim o espero, também uma grande experiência.

[Foto: Team Russia Orienteering / facebook.com/TeamRussiaO]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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