quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Lucas Basset: "É impossível descrever aquilo que senti!"



Lucas Basset formou, juntamente com os búlgaros Kiril Nikolov e Ivaylo Kamenarov, o trio de atletas que conseguiu garantir uma presença em todas as finais dos Campeonatos do Mundo de orientação WOC 2015, o que por si só seria já digno de nota. Mas se a isto juntarmos as surpreendentes medalhas conquistadas pelo francês na Distância Média e na Estafeta, então temos notícia. Disso dá conta o Orientovar na conversa que manteve com o atleta, no rescaldo da competição.


Como é que decorreu a sua preparação com vista aos Campeonatos do Mundo? Que objetivos tinha traçado?

L. B. - O treino com vista aos Campeonatos do Mundo teve início em Setembro, com um primeiro Campo de Treino na Escócia com a selecção francesa. Tive imediatamente boas sensações quanto aos terrenos e sentia a minha motivação a crescer mais e mais a cada dia que passava. Durante este Campo de Treino, consegui ainda bater o Thierry [Gueorgiou] pela primeira vez. Ele seria, talvez, o único atleta que eu nunca tinha vencido numa competição individual ou num treino cronometrado e isso constituiu, também, um golpe motivador. Depois disso treinei sempre muito bem e não me lesionei nem adoeci durante todo o Inverno. No mês anterior ao WOC senti que estava em boa forma e após o nosso último Campo de Treino, duas semanas antes do início dos Campeonatos, percebi que podia encarar como plausível um lugar no top 10 na Distância Média. Mas apenas isso.

Quer recordar essa fantástica medalha de prata precisamente na Distância Média, apenas a três segundos da medalha de ouro? Presumo que não estaria mesmo à espera deste resultado.

L. B. - Do ponto de vista técnico foi uma grande prova. Alguns segundos perdidos aqui e ali, alguns metros afastado da linha de progressão mais rápida, mas sem cometer erros no ataque aos pontos. Estiveram sempre no local onde previra que estivessem e a minha velocidade pareceu-me boa, embora não me sentisse assim tão bem ao longo de toda a prova. Talvez por puxar demasiado (risos). Chegado ao fim, senti-me radiante por ver que tinha feito uma boa prova no Dia D, aquele que realmente contava. Quando o Daniel Hubmann terminou a sua prova, ficando à minha frente por apenas três segundos e dizendo ao “speaker” que tinha feito uma grande prova, foi então que as coisas começaram a tomar sentido na minha cabeça: “Que raio é que se passa aqui?”. É impossível descrever aquilo que senti!

E quanto à medalha de bronze na Estafeta? Que recordações conserva dessa prova?

L. B. - Tendo em conta as alterações que fizemos no tocante à formação da equipa - depois do Thierry ter abdicado da sua presença um mês antes do WOC, de ter sido substituído pelo Philippe [Adamski] que entretanto também se lesionou no início dos Campeonatos e com o Vincent [Coupat] a saltar para a equipa 15 horas antes do início da prova -, não sabíamos muito bem o que esperar. Mas soubemos manter a cabeça fria, correr o mais depressa e o mais a direito que podíamos e o resultado acabou por ultrapassar as nossas expectativas. Ver o Vincent levar as mãos à cabeça, incrédulo, na altura em que o Fredo [Frederic Tranchand] cruzou a linha de chegada numa posição que nos dava a medalha de bronze foi o máximo!

Sente-se satisfeito com o 9º lugar na prova de Distância Longa?

L. B. - A Distância Longa foi uma espécie de bónus, já mesmo antes de começar o WOC mas ainda mais depois das provas de Distância Média e de Estafeta terem corrido tão bem. Na verdade sinto-me muito satisfeito por ter sabido refocalizar-me, ter sabido evitar erros e, especialmente, por ter sido capaz de sentir tanto prazer com esta prova. Senti-me realmente um privilegiado durante a prova. A correr num terreno de rara beleza e num percurso deveras exigente, já com duas medalhas ao pescoço, terminar no top 10 foi a cereja no topo do bolo! Mantive sempre a calma e consegui correr a um ritmo confortável. Nunca imaginei que a minha velocidade pudesse estar tão próxima da dos vencedores, o que me deixa mais surpreendido com o meu resultado na Longa do que propriamente na Média e na Estafeta.

Que motivação é que estes resultados acarretam em termos de futuro?

L. B. - Evidentemente, quando experimentamos sensações de tal forma extraordinárias, queremos que esses momentos se repitam, o que constitui uma motivação para treinar no duro a pensar já em 2016. Ao mesmo tempo, tem-se quase a sensação do dever cumprido e podia, portanto, colocar já um ponto final na minha carreira (risos). Estou a brincar, claro!

E quanto à equipa de França. Dum modo geral, que resultados destacaria?

L. B. - Bem, penso que devemos estar satisfeitos com os resultados alcançados. Com o Thierry vencendo a Distância Longa e com o Fredo tão perto das medalhas, julgo que acabámos a semana da melhor maneira. Ficámos um pouco desiludidos com as nossas prestações na prova de Sprint, mas rapidamente ultrapassámos isso. Gostava de agradecer a toda a equipa que fez um trabalho excelente ao longo de toda a semana e, obviamente, nos momentos de preparação que antecederam os Campeonatos. Um agradecimento especial também ao Philippe, muito infeliz neste que foi o seu último Campeonato do Mundo e que acabou por se ver impedido de correr uma única prova para a “despedida”. Ainda assim esteve sempre conosco, apoiando-nos da melhor forma que lhe foi possível e festejando os nossos resultados como se fossem seus. Um grande companheiro!

Como avalia este WOC 2015 dum ponto de vista técnico e organizativo?

L. B. - Para mim foram uns Campeonatos fantásticos e saboreei cada momento. Gostei imenso de todas as provas de floresta e diverti-me com os terrenos escolhidos. Sobretudo a Distância Longa, é algo para mais tarde recordar. Também fiquei muito surpreendido pela positiva com a Estafeta Mista de Sprint, com percursos excelentes. Pelo facto de me ter divertido, não posso queixar-me muito da organização, mas nem tudo foi perfeito. Algo que gostaria de sublinhar é que o Sprint não foi tão bom como deveria. Deixar-nos à vontade a conhecer a zona de prova não é bom para a modalidade e fiquei particularmente desapontado com um traçado tão simples, sem qualquer recurso a vedações artificiais. Porque é que os organizadores não proibiram, pura e simplesmente, o acesso à zona de prova. Os orientistas não são batoteiros, se era isso que temiam.

Se lhe pedisse para eleger um momento – o grande feito destes Campeonatos -, sobre quem recairia a sua escolha?

L. B. - Gostaria, evidentemente, de poder escolher algo que ninguém estava à espera e que foi a nossa medalha de bronze na prova de Estafeta. Mas tenho de reconhecer como grande feito dos Campeonatos a “facilidade” com que a Dinamarca chegou ao ouro, tanto na Estafeta Feminina como na Estafeta Mista de Sprint. Impressionante!

Numa altura em que a época se inclina para o final, que objetivos traça para o que resta da temporada?

L. B. - Não irei participar na ronda final da Taça do Mundo uma vez que estarei, muito provavelmente, com a equipa militar de França nos Jogos Mundiais Militares que terão lugar na Coreia do Sul. Digamos que será esse o meu próximo objectivo desta temporada.

[Foto: World of O / twitter.com/worldofo]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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