sábado, 11 de julho de 2015

Carles Lladó: Um veterano muito influente



Esta entrevista começa com um sublinhado. Carles Lladó é o “o mais veterano dos veteranos da Península Ibérica”, mas é também “o mais veterano dos veteranos do Sul da Europa”. É ele próprio quem faz questão de me corrigir, colocando os pontos nos ii no início duma entrevista que decorreu em tom jovial e que vinca um dos mais fortes traços do seu caráter: a verdade. E foi com verdade que respondeu às minhas questões e que hoje se apresenta aos leitores da Inside Orienteering.


A manhã abre-se em tons de cinza. A brisa marinha sopra com força e ali, nas Dunas de Mira, junto à Costa Atlântica, o mês de Fevereiro faz questão de mostrar que o Inverno português pode não ser tão macio quanto se apregoa. A Arena do Portugal O' Meeting começa a encher-se quando me cruzo com ele. Desde 2012 que não o via e perguntava-me se se teria retirado das lides da Orientação. Mas não. Aí estava ele, preparado para mais um grande evento, um ar respeitável sob uma barba feita de branco, um olhar de menino atento a tudo o que se vai passando à sua volta. Após o abraço do reencontro e da correção já enunciada, a pergunta surge com naturalidade. Onde é que, aos 84 anos, se vai buscar energia para prosseguir com esta atividade toda e continuar a fazer Orientação? Carles não perde tempo a revelar o segredo: “Creio que isto é devido ao facto de ter praticado atividade física durante toda a minha vida e de conseguir manter os neurónios ativos.”

Carles Lladó y Badia nasceu em Igualada, Anoia, em 1931. Licenciado em Arquitetura e Urbanista diplomado em Instalações Desportivas, foi desde sempre uma figura multifacetada, repartindo a atividade profissional na área da escultura, desenho de jóias e industrial com a prática e promoção do desporto, especialmente da Orientação, e também com o ativismo político independentista. Iniciou a prática desportiva no Club Atlètic d'Igualada e, como Veterano, foi Campeão de Espanha de 110 metros barreiras e de Triplo Salto. Firme defensor do reconhecimento internacional do desporto catalão, foi um dos impulsionadores da Associação para a Delegação Olímpica da Catalunha, entidade que reclamava o reconhecimento do Comité Olímpico da Catalunha com vista à participação dos desportistas catalães nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992. Em 2003 foi galardoado com a medalha da Generalitat pelos seus contributos para a história desportiva da Catalunha.


Orientista aos 58 anos

A Orientação surgiria apenas aos 58 anos de idade. “Tenho pena por ter sido numa idade já muita tardia e, além do mais, só posso competir com pessoas da minha idade em grandes eventos internacionais, onde o meu escalão está contemplado. Nas outras provas sou obrigado a correr, por vezes, com pessoas a quem levo trinta anos de vantagem... ou de desvantagem”, refere, acompanhando esta última observação com uma sonora gargalhada. Mas esse é precisamente um dos motivos que o traz a Portugal ano após ano, a participar no Portugal O' Meeting. Mas não o único. Deixemos que ele próprio explique: “Eu pertenço a um clube, o Club Orientació Catalunya [COC], que está irmanado com um clube português, o Clube de Orientação do Centro [COC]. Este é um clube que colhe a minha maior simpatia e respeito e que está implementado numa região cujos terrenos são muito no género destes, terrenos que gosto muito por serem mais macios para correr”, explica.

Cabe aqui dizer que Carles Lladó não é “apenas” mais um membro do Club Orientació Catalunya. Ele é o seu fundador, tendo também fundado, em 1988, a Federação de Orientação da Catalunha e sido membro do Conselho Diretivo da União das Federações Desportivas da Catalunha entre 1992 e 1996. No ano de 2000, a Federação de Orientação da Catalunha instituiu um Prémio anual de Orientação com o seu nome, Troféu Carles Lladó.


O esforço valeu a pena”

- Como é que se sente no meio desta juventude?

“Foi há sensivelmente 27 anos que arrancámos com a Orientação na Catalunha e fizemo-lo a partir do zero. Hoje é uma satisfação ir às provas e ver como as coisas evoluiram. Ver o enorme grupo de crianças com 12 ou 14 anos que pratica ativa e regularmente esta modalidade dá-me um enorme prazer e leva-me a pensar que o esforço valeu a pena.”

- Considera-se uma referência, um modelo para os mais novos?

“Não um modelo mas uma peça mais – juntamente com a minha mulher e outros companheiros – no processo de construção da Orientação na Catalunha. É isto que verdadeiramente importa, do ponto de vista pessoal.”


Coisas boas e coisas más

Em quase três décadas de Orientação, entre as muitas experiências vividas por Carles Lladó, uma há que elege acima de todas as outras e essa tem a ver com a percepção de que a Orientação na Catalunha está em marcha. “Sem querer parecer pretensioso nas minhas palavras, isto é algo que me deixa particularmente orgulhoso porque é obra minha. Hoje há gente que eu não conheço e há gente que não me conhece e isso é muito bom.” Mas nem tudo são rosas e também há más experiências, uma das quais bem recente e que teve a ver com o facto de se ver obrigado a parar com a atividade física devido a uma síncope cerebral, em Fevereiro do ano passado. “Estive oito dias em estado de coma e acabei por recuperar, tomando comprimidos “a torto e a direito”, recorda. E acrescenta: “Hoje já começo a sentir-me um pouco melhor, mas é difícil suportar uma paragem tão longa, sobretudo porque sinto que, antes deste episódio, estava um pouco acima das minhas capacidades para a minha idade, quer do ponto de vista físico, quer mental, e agora sinto que estou abaixo delas.”

No ano passado, o World of O agraciou um Veterano de 96 anos, Rune Haraldsson, com o prémio “The Orienteering Achievment 2015”. Carles Lladó apressa-se a congratular-se com esse facto, afirmando ver nessa distinção “um prémio a todos os Veteranos e um exemplo para toda a comunidade da Orientação. Não posso esquecer-me de ter visto, em Múrcia, nos Mundiais de Veteranos de 1996, um atleta a correr pela floresta, saltando por cima de troncos e descendo por reentrâncias enormes. Tinha 95 anos e causou-me uma profunda admiração. Acho que este prémio é inteiramente justo e que tem um enorme alcance. Eu não sei se conseguirei chegar aos 96 anos (risos).”


Orientação e olimpismo

Vivendo e sentindo intensamente a Orientação, Carles considera que a modalidade caminha no rumo certo, mas observa: “Aquilo que recomendaria é que se continuassem a fazer todos os esforços no sentido de tornar a Orientação uma modalidade olímpica. Talvez ainda não estejam reunidas todas as condições para podermos ser aceites, mas seria fabuloso que isso pudesse ser uma realidade no futuro.” Carles recorda a conversa tida com Juan Antonio Samaranch, onde o ex-Presidente do Comité Olímpico Internacional concordou que a Orientação tem, do ponto de vista do espetáculo, com uma boa produção televisiva, um potencial superior a muitos outros desportos. “E é por aí que temos que pegar”, conclui.

Aos “jovens” com 57 anos, ou seja, a todos aqueles que têm a mesma idade que tinha quando começou, Carles Lladó adverte para não ficarem em casa a olhar para a televisão, podendo a Orientação ser a grande alternativa a uma vida sedentária: “Muitos deles levam hoje 57 anos de vantagem em relação a mim, quando comecei, porque nessa altura eu não sabia absolutamente nada do que era a Orientação e hoje, felizmente, as pessoas conhecem o nosso desporto. Mas o meu conselho é que sejam mais ativos e que saiam de casa, não apenas para ir ao parque ver os outros jogar a petanca. Que sejam mais ativos e que se aventurem a fazer Orientação. Eu faço, a minha mulher com quase 80 anos faz também e acho que todos podemos fazer. É um desporto fabuloso, muito formativo, adequado a todas as idades e onde o companheirismo entre todos é excelente e algo que não se encontra com facilidade nos outros desportos”, afirma. Quanto à sua pessoa, enquanto orientista, o catalão não tem dúvidas: “Enquanto o corpo e a mente aguentarem, estarei por aqui!”


Testemunhos

“Durante muitos anos, viajámos com os nossos pais numa pequena furgoneta por essa Europa fora, participando nas provas de Orientação que tinham lugar durante o Verão. Carles e a sua mulher, Tere, também tinham uma furgoneta e coincidíamos em muitas dessas competições. Num desses Verões, corria eu ainda no escalão M12, recordo que Carles me ensinou, na praia, a interpretar as curvas de nível. Construímos “montanhas” com a areia da praia e ele, com o dedo, desenhava as curvas de nível. E assim, olhando de cima, conseguiu ver as mesmas formas que eram tão difícieis de perceber no mapa.

Ainda recordamos, com outros amigos, que muitos de nós começámos a praticar Orientação graças às provas que ele organizava. Os jovens eram uma presença constante! No início, na Catalunha, eramos as únicas crianças, mas graças ao seu esforço mais e mais crianças e jovens se foram juntando a nós. Inclusivamente, houve um ano em que Carles organizou uma Colónias de Férias de Verão de Orientação. Para mim foi a maior alegria, poder fazer Orientação com tantas outras crianças!”
Pol Ràfols


“Para mim, Carles foi e é um referencial em muitos aspetos da minha vida. Praticou Atletismo desde muito jovem, viajou pelo mundo inteiro duma forma muito humilde, é um homem muito exigente e muitas vezes crítico. Posso afirmar que foi graças a ele que a minha existência mudou, visto termos conhecido a Orientação e isso ser hoje um dos aspetos mais importantes da minha vida.”
Biel Ràfols


“Há já algum tempo que Carles insistia que tínhamos de experimentar essa coisa da Orientação. Até que um dia os meus pais se encheram de coragem e nos levaram até um pequeno lugar próximo de Barcelona. Eu fui com Tere e deram-me um mapa para que fosse olhando. Coloquei o dedo em cima e fui seguindo o percurso. Quando chegámos, disse-me: “Fazes isto muito bem!” E assim começou a história.”
Ona Ràfols


Este artigo pode ser lido no original em http://orienteering.org/wp-content/uploads/2012/02/InsideOrient-2_15.pdf. Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação.

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