sábado, 9 de maio de 2015

Ricardo Pinto: "Não coloco a competição em primeiro plano"



Àqueles que acompanham de perto a Orientação Adaptada, não passou certamente despercebida a participação da Cercivar em todas as etapas da competição disputadas até ao momento. Timoneiro do projeto e um entusiasta desta disciplina, Ricardo Pinto falou ao Orientovar, deixando claro a importância deste tipo de atividades.


Assistimos este ano a uma participação regular da Cercivar na Taça de Portugal de Orientação Adaptada. Porquê esta disciplina?

Ricardo Pinto (R. P.) - Desde logo, pela prática do desporto e pelos benefícios acrescidos que representa no desenvolvimento do ser humano. Mas sobretudo por se tratar da Orientação, um desporto que obriga as pessoas a pensar. É um tipo de actividade importantíssima dirigida a pessoas com défices cognitivos reconhecidos e que, para além do exercício físico associado, ajuda a que desenvolvam mais as suas capacidades intelectuais.

Percebe-se que há uma grande satisfação por parte dos atletas e que procuram aperfeiçoar-se de prova para prova. Os atletas têm uma perceção clara desta realidade, que estão melhor agora do que estavam no início, por exemplo?

R. P. - Os atletas têm essa perceção, claramente, e querem sempre fazer mais e melhor. São atletas como qualquer outro atleta dito “normal”. Embora eu tente incutir neles a ideia de que o importante é participar e acertar no maior número de respostas possível, deixando para um lugar secundário a questão do tempo gasto a fazer a prova, na prática passa-se sempre tudo ao contrário, ou seja, a preocupação deles é correr o mais rápido possível.

Há um espalhar da semente pelos restantes utentes da Cercivar? Ou, dito de outra forma, a Cercivar tem mais utentes com capacidade para estar aqui?

R. P. - Temos um número bastante grande de atletas que também poderiam vir. A sua não participação acaba por ter um pouco a ver com a capacidade logística da própria instituição. O transporte condiciona o número de participantes e não há disponibilidade de pessoas para me acompanharem, estando limitados a uma única viatura. Neste momento estou a apostar apenas em seis atletas, no próximo ano poderei alargar este número a oito, que é a lotação da nossa carrinha, mas mais do que isso é complicado.

Para a Cercivar está a ser um passo em frente (!) …

R. P. - Mais gente a federar-se e a competir é, sem dúvida, um passo em frente para a Cercivar, mas também para a Orientação Adaptada. Tenho-me apercebido que, para já, apenas nós e o Clube Gaia estamos a participar duma forma regular, mas acredito que mais clubes e mais instituições vão aparecer e, tal como nós, virão engrossar o número de atletas a competir e a conviver nas provas.

O que é que faz com que, como disse, apenas dois clubes estejam a participar regularmente nas competições? O que é que está a falhar?

R. P. - Não se trata apenas da Orientação Adaptada, é uma questão transversal a todas as modalidades e verifica-se, de há uns anos para cá, uma diminuição no número de participações das instituições. Isto deve-se à conjuntura económica que o nosso país atravessa, ou seja, cada vez mais as instituições enfrentam dificuldades financeiras, têm de fazer cortes e, para muitas delas, é quase impossível trazerem os seus atletas ao fim de semana. Mas talvez este não seja o único aspeto que determina um baixo índice de participação e a própria divulgação das provas podia ser melhor. Nós estamos inseridos no meio, procuramos informar-nos, também há quem nos informe e não sentimos tanto as eventuais falhas, mas admito que outras instituições menos atentas a este particular fenómeno da Orientação Adaptada fiquem completamente à margem do que se vai fazendo.

Regressando aos seus atletas, faz com eles algum tipo de treino específico?

R. P. - O treino é feito nas aulas de Educação Física e trabalho basicamente a parte da identificação dos pictogramas, porque é aí que noto que eles têm mais dificuldade. Não trabalho muito a questão da Orientação propriamente dita, até porque consigo perceber que, quando em prova eles estão um bocado mais desorientados, lá vão apanhando “boleia” dos outros, ou andam ali às voltas e acabam por encontrar o ponto, mas vão chegando lá.

Esses treinos são abertos aos restantes utentes da Cercivar ou o trabalho é limitado a este grupo de seis atletas?

R. P. - O treino é aberto a todos e todos aproveitam. Para uns é bastante positivo, para outros nem tanto, dependendo da capacidade cognitiva de cada um. Já fiz inclusivamente uma brincadeira no espaço da Cercivar, não apenas para eles mas também para todos os funcionários, e isso acaba por ser excelente.

Concorda com o modelo da Taça de Portugal que restringe à região norte a realização das seis etapas?

R. P. - Para nós é óptimo porque, geograficamente, são locais perto de Ovar. Mas é claro que isto limita a participação a instituições que estão longe da área metropolitana do Porto e que, eventualmente, poderiam até estar interessadas em participar. Uma solução poderia passar por criar circuitos regionais e esse seria um modelo que se me afigura mais justo.

A próxima etapa será precisamente em Ovar e será o Campeonato Nacional. Algum segredo bem guardado para podermos ter um Campeão Nacional da Cercivar?

R. P. - (risos) Não vou por aí. Normalmente não coloco a competição em primeiro plano e não costumo fabricar campeões. É claro que se me aparecer um atleta com um nível adequado à prática desta disciplina, naturalmente que o trabalho, mas não é esse o meu principal objectivo. O meu objectivo é mesmo que eles participem, que gostem desta disciplina e que aproveitem as oportunidades que têm. Mas se houver a possibilidade de termos um campeão, melhor ainda.

Para concluir, pedia-lhe um desejo para a Orientação Adaptada em Portugal.

R. P. - Que continue a crescer. A Cercivar vai fazer os possíveis para continuar a dar o seu contributo e que mais instituições possam aparecer. Quanto mais participantes, melhor!


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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