quinta-feira, 2 de abril de 2015

Hanka Doležalová: “Penso que a única coisa que a Orientação em BTT e a Orientação de Precisão têm em comum são as rodas!”



A Atleta do Mês de Abril da Federação Internacional de Orientação representou o seu País, em Campeonatos do Mundo, em duas disciplinas: Orientação em BTT e Orientação de Precisão. Hanka Doležalová começou a sua carreira na Orientação em BTT, mas um brutal acidente nos Mundiais de 2010 impediu-a de voltar a pedalar e a andar. Mas não foi preciso muito tempo para que Hanka encontrasse uma nova disciplina: a orientação de Precisão. E rapidamente passou a fazer parte da seleção nacional. Mas é ela própria que confessa que os seus conhecimentos da Orientação em BTT de pouco serviram na Orientação de Precisão: “Penso que a única coisa que a Orientação em BTT e a Orientação de Precisão têm em comum são as rodas!”


Nome: Hanka Doležalová
País: República Checa
Disciplina: Orientação de Precisão
Momentos altos na carreira: Campeonato da Europa de PreO – 22º lugar; Campeonato da Europa de TempO 2014 – Qual. 42º lugar. Campeonato do Mundo de PreO 2014 – 28º lugar. Taça da Europa de Orientação de Precisão 2014 (não oficial) – 35º lugar.


Texto e foto de Joaquim Margarido

É um quente dia de Julho do já distante ano de 2010. Em redor da pequenina aldeia de Avelelas, no extremo Nordeste de Portugal, jogam-se as qualificatórias de Distância Longa do Campeonato do Mundo de Orientação em BTT. Para as participantes na prova feminina o objectivo resume-se a terminar a prova e não fazer “mp”. Mas eis que de repente tudo se precipita. Hanka Doležalová, atleta da República Checa, tem uma saída de estrada, a roda dianteira fica presa e a atleta passa por cima da bicicleta, caindo de costas numa vala. Um vôo que irá significar uma viragem de 180 graus naquilo que fora, até então, a vida e os sonhos da atleta. “Não consegui controlar este bloqueio súbito da roda e caí de costas na vala. De imediato, percebi que não sentia as pernas nem a parte inferior do tronco, não conseguia mexer-me e estava com dificuldade em respirar. Procurei gritar o mais alto que podia e esperar que alguém me ouvisse. Felizmente, a Anke [Danowski] e a Melanie surgiram de imediato, mas ainda esperei bastante tempo pela ambulância. Era um dia quente e senti uma sede insuportável.”

Hanka foi evacuada em ambulância, primeiramente para o Hospital de Chaves e depois para o Centro Hospitalar do Porto, onde foi intervencionada à coluna já na madrugada do dia seguinte. De manhã, os noticiários televisivos davam conta do acidente e avançavam com prognósticos. Quanto a esses, há muito que a atleta os percebera: “Compreendi imediatamente, no fundo daquela vala, que o destino estava traçado. Limitei-me a esperar para ver”, recorda.


Sempre mais, sempre melhor

A Orientação em BTT sempre foi algo deveras importante na vida de Hanka Doležalová. Em Portugal, a atleta disputava o seu segundo Campeonato do Mundo no seio da Elite e, para si, este era o desporto nº 1. Ainda Junior, treinava já com a selecção nacional sénior da República Checa e os resultados começavam a surgir. Enquanto Junior, aos três lugares no top 10 dos Mundiais 2008 (4º lugar no Sprint, 6º na Distância Média e 9º na Distância Longa), Hanka Doležalová juntou a medalha de ouro na Estafeta, ao lado de Michaela Maresova e de Hana Hancikova.

No ano seguinte, já no escalão de Elite, a atleta viria a conseguir o 11º lugar na Distância Média dos Campeonatos da Europa (North Zealand, Denmark) e o 13º lugar na mesma distância dos Campeonatos do Mundo (Ben Shemen, Israel). O objectivo era progredir, entrar no top 10, chegar às medalhas, mas sobretudo desfrutar. “Acima de tudo, eu gostava de fazer Orientação em BTT”, afirma. O seu melhor resultado acabaria por surgir já em Portugal, com o 10º lugar alcançado na final de Sprint, três dias antes do acidente fatídico.

Regressando às primeiras pedaladas de mapa na mão, Hanka Doležalová referencia-as como parte da evolução natural do seus gosto pela Orientação, mas também pela BTT. Praticando Orientação desde criança, a bicicleta esteve sempre presente nas suas correrias e brincadeiras. “Tinha 12 anos quando experimentei a Orientação em BTT pela primeira vez e gostei imenso. De forma regular, comecei a praticar esta disciplina a partir dos 16 anos.” Nos poucos anos que levou de Orientação em BTT, Hanka não consegue destacar um momento que possa considerar como o melhor. “Foi uma festa fantástica”, recorda.


Primeiros passos duma nova vida

- A partir do momento em que teve início o longo processo de reabilitação, decidiu apagar a bicicleta das suas memórias ou as coisas não se passaram exactamente assim?

“Nunca. Os meus colegas visitavam-me com muita frequência nessa altura e eu sentia-me muito satisfeita com tudo aquilo que me contavam. Bebia com avidez todas as notícias e partilhava com eles alegrias e frustrações. Acima de tudo, aquele tinha sido o meu mundo.”

- Nesse processo de reabilitação, de que forma é que a sua atitude positiva e ganhadora acaba por ser importante na conquista de autonomia?

“É um processo longo e demorado. Só deixei o Hospital e regressei a casa ao fim de oito meses. Mas penso que no meu caso os progressos alcançados na minha reabilitação não têm tanto a ver com uma atitude competitiva mas sim com a minha própria natureza, com a minha maneira de ser.”


Experiências radicais

A natureza e maneira de ser de Hanka impediram-na de colocar de parte o desporto. A variedade de oferta ao nível do Desporto Adaptado na República Checa levou-a a experimentar uma vasta gama de modalidades, umas deveras atractivas, outras nem tanto. “Sempre gostei de explorar novas actividades. Já numa fase mais aguda da minha convalescença, seis meses após a lesão, costumava deslocar-me até às Montanhas Krkonoše, durante os fins de semana e fazer monoski. Vi nisso uma coisa perfeitamente normal. As actividades menos tradicionais são o meu adorado esqui aquático ou conduzir uma moto 4.” Mas a atleta também faz Cross Country em Esqui, durante o Inverno e participa numa competição de sobrevivência, de carácter anual: “É uma prova em parelha, com um tempo limite de 24 horas e que inclui dezasseis diferentes actividades.”

Numa curta deslocação a Portugal, em Maio de 2012, Hanka Doležalová pode experimentar a Vela Adaptada. “Foi uma experiência incrível, sobretudo pela sensação de liberdade”, recorda, acrescentando em tom de lamento: “É uma pena que na República Checa não existam grandes condições para prática deste desporto.”


A vez da Orientação de Precisão

Hanka Doležalová conheceu a Orientação de Precisão pela via da organização dum evento. “Há 18 anos que o meu clube organiza uma prova de Orientação de Precisão, mobilizando algumas pessoas com deficiência e eu dava o meu apoio na qualidade de assistente e de organizadora”, explica. Foi nessa altura que conheceu o atleta paralímpico Bohuslav Hůlka, pessoa que, juntamente com Jana Kosťová e outros, viria a ser determinante na aproximação da atleta à Orientação de Precisão após a lesão, culminando no seu ingresso na selecção nacional da República Checa. “Imediatamente após o acidente, começaram a aliciar-me. Diziam-me que devia experimentar a Orientação de Precisão porque era uma bem sucedida orientista”, recorda.

Uma das suas primeiras incursões nesta disciplina teve lugar na cidade do Porto, em Portugal. Convidada do DAHP – Núcleo de Desporto Adaptado do Hospital da Prelada, a atleta foi a madrinha do II Open de Orientação, participando igualmente na competição: “Creio que ter decidido aceitar o convite do DAHP e ter participado no Open da Prelada acelerou todo o processo de aproximação à Orientação de Precisão”, reconhece.


Se eu mandasse...

Os primeiros tempos nesta disciplina foram tudo menos fáceis para a atleta. As enormes diferenças em relação às outras disciplinas são o motivo apontado por Hanka para justificar o seu desapontamento nesses primórdios. Mas afinal o que é que há de tão difícil assim na Orientação de Precisão? “Manter o sentido de orientação e conseguir evitar que ele se altere entre os vários exercícios de geodese que vão sendo efetuados”, explica a atleta.

Mas há outros aspectos sensíveis nesta disciplina, um dos quais Hanka Doležalová elegeria como aquele que, se tivesse poder para tal, mereceria a maior atenção e exigiria a definição duma regra própria: “Se eu mandasse, os percursos de Orientação de Precisão seriam obrigatoriamente traçados em caminhos asfaltados!” E explica porquê: “É a única maneira de conseguir manter-me focada no mapa e na minha orientação. De outra forma, acabo por gastar toda a minha energia na progressão, como vencer passagens estreitas, como transpor rochas, raízes e lama.”


Quatro questões breves

- Para muitos, treinar Orientação de Precisão permanece um mistério. Pode dizer-me algo acerca dos seus métodos de treino e quais os aspectos mais importantes na adequação a uma situação de competição?

Treinar Orientação de Precisão é, também para mim, um mistério. Não faço nenhum tipo de treino em especial. Tento adquirir experiência e progredir com a minha participação nas competições.

- De que forma é que os seus conhecimentos na Orientação em BTT foram importantes para a sua integração no seio desta nova disciplina?

Penso que a única coisa que a Orientação em BTT e a Orientação de Precisão têm em comum são as rodas!

- Quem são os atletas nesta disciplina que mais admira?

Os atletas de TempO, capazes de resolver uma estação em oito segundos.

- Qualquer pessoa pode praticar Orientação de Precisão?

Sim, qualquer pessoa pode fazê-lo. Só é necessário ser-se preciso.


Mundiais sim, mas...

Chamada em 2014 a representar pela primeira vez a selecção nacional checa, Hanka Doležalová teve prestações valorosas e, sobretudo, bastante auspiciosas, tanto nos Campeonatos da Europa, realizados em Portugal, como nos Campeonatos do Mundo, que tiveram lugar em Itália. Pese embora as boas recordações que guarda destas duas representações com a camisola da selecção, Hana elege como o melhor momento de 2014 a etapa da Taça da Europa de Orientação de Precisão (não oficial) 2014, disputada no seu país: “Foi uma prova limpa, sem erros, incluindo os pontos cronometrados”.

Já no tocante aos objectivos para 2015, a atleta mostra-se prudente e parca em palavras. Será este ano que vamos ver Hanka Doležalová pisar o pódio dum Campeonato do Mundo? “Primeiro que tudo, tenho de garantir a minha qualificação para os Mundiais”, diz.


Uma boa razão para continuar agarrada à Orientação de Precisão

Considerada como “uma excelente forma de ir a lugares que, doutra forma, não teríamos tanta facilidade em visitar estando numa cadeira de rodas”, a Orientação de Precisão tem, para a atleta, um valor acrescido, nesta particular altura da sua vida. A razão é simples: “Não tenho a certeza de estar agarrada à Orientação de Precisão mas tenho a certeza de me sentir definitivamente agarrada a um orientista de precisão”, diz, com um sorriso de orelha a orelha.

E deixa, a terminar, algumas palavras a todos aqueles que, devido a uma lesão do género que a vitimou, sentem o mundo desabar à sua volta: “Algumas portas fechar-se-ão, mas outras irão abrir-se.”


Perguntas e respostas

A questão colocada por Tove Alexandersson, a Atleta do Mês de Março, foi a seguinte: “Qual é o seu sítio preferido na República Checa e porquê?”

E a resposta de Hanka: “São muitos os meus locais preferidos na República Checa porque é um país muito variado. Mas o meu coração bate pelas Montanhas Krkonoše, onde vivo.”

Finalmente, a questão de Hanka Doležalová a Baptiste Fuchs, Atleta do próximo mês de Maio: Vai participar nos 5 Dias de Plzeň 2015? O que é que mais aprecia neste evento?


[Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação. O artigo pode ser lido no original em http://orienteering.org/i-think-that-the-only-thing-these-two-sports-have-in-common-is-wheels/]

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