segunda-feira, 9 de março de 2015

Thierry Gueorgiou: "Nada bate a experiência!"



Após paragem forçada no início do ano devido a lesão, Thierry Gueorgiou começa agora a dar os primeiros passos no regresso à boa forma. O Orientovar falou com ele e procurou perceber de que forma este percalço poderá condicionar uma temporada que, em boa verdade, não começou ainda.


Foi uma das mais notadas ausências neste início de temporada em Portugal, sobretudo depois de ter sido dado como certo no Portugal O' Meeting 2015. Afinal, o que aconteceu?

Thierry Gueorgiou (T. G. ) - Aconteceu que por alturas do Ano Novo estava a treinar em Alicante, como tem sido habitual nos últimos anos. Durante um treino noturno em velocidade de competição, bati com força numa raíz com o dedo grande do pé direito. Apesar das dores, consegui completar os cerca de dez minutos de treino que faltavam mas quando arrefeci as dores eram insuportáveis, o dedo estava azulado e deixei de poder caminhar. Na manhã seguinte fui ao Hospital de Alicante e ao Rx verificou-se que o dedo apresentava várias fraturas. O jogo tinha acabado por algumas semanas.

Como é que acompanhou o Portugal O' Meeting a partir de casa? Que tal a vitória do Aaro Asikainen?

T. G. - Nessa altura passei imenso tempo no Ginásio, andando de bicicleta, remando ou fazendo aparelhos e fui acompanhando o Portugal O' Meeting no meu telemóvel através do Live Video. É claro que fiquei muito satisfeito por ver um atleta do Kalevan Rasti a ganhar o POM. O Aaro sempre demonstrou enorme potencial e penso que tem ainda mais para mostrar. Espero que ele mantenha esta atitude durante a Primavera. Também apreciei muito as performances do Fredo [Frédéric Tranchand] e do Lucas [Basset]. A cada ano que passa, percebe-se que estão mais próximo do topo e tenho uma vontade imensa de voltar a ter condições para, rapidamente, estar a treinar de novo com eles. Estou certo que eles vão querer mostrar-me que eu estou velho para estas coisas, mas estou preparado para dar o meu melhor e mostrar-lhes que ninguém bate a experiência!

Voltando a si e ao processo de recuperação, como é que estão a correr as coisas?

T. G. - Bem, eu já passei por situações destas um par de vezes ao longo da minha carreira (fraturas de esforço em 2005 e em 2012) e sei, portanto, que a palavra-chave é “paciência”. Temos pela frente ainda muito tempo até às primeiras provas importantes da temporada e o meu grande objetivo é, para já, estar preparado para correr a Tiomila, em Maio. Comecei a correr há três semanas atrás numa passadeira anti-gravidade, com apenas 20% do meu peso corporal e vou começar agora a correr na floresta, de novo com um primeiro Campo de Treino em Alicante, mas apenas no terreno macio das Dunas. Tenho mais Campos de Treino planeados para breve (Madrid, Inglaterra, Escócia), mas aí já em superfícies mais duras. O mais importante por agora, contudo, é não olhar para a escadaria toda, mas concentrar-me apenas no próximo degrau. Tal como referi, trata-se sobretudo de ter paciência e mostrar força mental. Penso que o pior já passou e acabo por não me poder queixar visto haver lesões com tempos de recuperação bem mais prolongados. E, afinal, há imensas competições interessantes noutras modalidades a passar na televisão a toda a hora...

De que forma é que isto pode afetar a sua temporada?

T. G. - Em qualquer momento, mesmo não podendo correr, tenho comigo um mapa da Escócia. É uma forma de me lembrar continuamente o porquê da minha demanda. Com o vasto leque de opções em termos de treino que tenho à minha disposição, penso que consegui balancear bem as coisas, mas ainda vou precisar de algumas semanas até que os músculos específicos para uma boa corrida voltem a funcionar novamente. Neste momento, ao dar uma corrida na floresta, sinto-me como o Bambi no gelo. Força mental e atitude positiva, resume-se tudo a isso neste momento – portanto, duvido que esta lesão possa afetar a minha temporada em termos competitivos e saberei estar preparado quando for preciso!

Falhou o Portugal O' Meeting, habitualmente o seu primeiro “check-point” da temporada. Para quando prevê, então, a primeira avaliação mais séria do seu estado de forma?

T. G. - É claro que se pudesse ter tido opção, teria começado a minha temporada no POM, afinal seguindo uma tendência das anteriores temporadas em que a competição se inicia demasiado cedo. Tenho pelo menos a vantagem de me sentir super fresco no que respeita à leitura de mapas e procurarei manter esta avidez pelo maior período de tempo possível. O meu regresso às provas será, provavelmente, na JK, em Inglaterra, se tudo decorrer de acordo com o planeado. Mas é a Tiomila que tenho em mente neste período de reabilitação e é aí que espero estabelecer o primeiro termo de comparação comigo mesmo.

Campeonatos do Mundo. Que emoções suscitam estas três palavrinhas tão simples?

T. G. - As de sempre. É aquilo que toma conta da maior parte dos meus pensamentos e a minha preocupação vai no sentido de perceber de que forma é que posso lá chegar bem preparado. Também sei que esta deixará de ser uma preocupação dentro de pouco tempo, o que me deixa ainda mais motivado.

Quais os grandes objetivos para estes Campeonatos do Mundo: Renovar o título de Distância Longa e recuperar os títulos de Distância Média e de Estafeta?

T. G. - Bom, é sempre mais fácil falar do que concretizar, de facto... A Distância Média é o meu grande objetivo. Tenho lutado pela recuperação desse título desde 2011 e penso que estarei bastante motivado no dia 4 de Agosto para o conseguir. A chave do sucesso estará em encontrar o balanço adequado entre uma atitude ofensiva mas controlada. No fundo, será usar a energia dos últimos anos mas sem cair em excessos. Como a Distância Longa será a última prova, será o “tudo por tudo” e o terreno parece ser o mais interessante de todos quantos o WOC tem para oferecer. Quanto à Estafeta, mesmo tendo perdido para o inimigo o nosso mestre das Estafetas, os mais novos estão a trabalhar muito bem e talvez possamos vir a ter de novo uma boa oportunidade.

Dado o cenário hipotético de três medalhas de ouro nas três provas referidas, consideraria neste caso colocar um ponto final na sua carreira?

T. G. - Cenário hipotético, como disse, e uma resposta muito difícil. Seria tentador, obviamente. Sempre vi a Orientação como a combinação perfeita entre o prazer de fazer algo que realmente adoro (leia-se “dia a dia”) e as minhas performances (leia-se “resultados”). Tudo isto está profundamente relacionado entre si e é difícil identificar qual dos dois se sobrepõem ao outro. Procuro estabelecer como princípio que os resultados não devem afetar qualquer tomada de decisão importante e que deverá ser mais uma questão de sentimento interior. Doutra forma, não seria fácil sentir-me tranquilo enquanto compito.

Uma última nota, um desejo para todos os orientistas do mundo inteiro neste início de temporada.

T. G. - Preservem a força e a saúde para poderem tirar o máximo prazer dos momentos simples com um mapa nas mãos – não há maior sensação de liberdade!


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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