sábado, 7 de março de 2015

Ronaldo Almeida: "É um erro enorme continuarmos a aceitar que haja apenas um ponto de vista para a Orientação brasileira"



No início de cada temporada, Portugal transforma-se numa espécie de “Meca” para orientistas do Mundo inteiro e, nos últimos anos, alguns brasileiros têm-nos honrado com a sua presença. Ronaldo Almeida é uma dessas personalidades e conversou com o Orientovar no final do primeiro dia do Portugal O' Meeting. Uma conversa que é também um desabafo e um desafio.


Voltou a escolher Portugal nesta altura do ano. Qual o sentido desta sua opção?

Ronaldo Almeida (R. A.) - A qualidade dos mapas e o tipo de treino que podemos fazer são, nesta altura do ano, melhores em Portugal do que em qualquer outra parte do Mundo. Tive oportunidade de comparar com outros Países, mas o volume de treino e a qualidade do trabalho levam-me a afirmar que, nesta altura do ano, o melhor lugar do Planeta para qualquer orientista é aqui.

Ainda assim, não são muitos os atletas brasileiros que nos visitam. Quando é que vamos assistir ao “boom” da sua vinda a Portugal?

R. A. - Os brasileiros ainda têm um pouco de receio de sair do País. Muitos acham que a Orientação na Europa é difícil demais, que não estão preparados para este tipo de embate, que não é possível. Mas isso é porque ainda não vieram. Quem vem a primeira vez vai querer voltar novamente.

Mesmo tendo em conta a diferença de terrenos, o treino em Portugal é proveitoso para o resto da temporada no Brasil?

R. A. - Sim, muito proveitoso. Eu estou a competir na Elite e os meus resultados podem não ser muito bons, mas os ensinamentos que se retiram de cada percurso são excecionais. Sou técnico duma equipa no Brasil e estou aqui também numa missão de acompanhamento de alguns dos nossos melhores atletas e a intenção é que eles aproveitem essas oportunidades para poderem ter um ano muito positivo no Brasil.

Como é que está a Orientação no Brasil?

R. A. - A Orientação no Brasil está melhor a cada ano que passa, mas infelizmente essa evolução é bem mais lenta do que aquilo que os atletas que vêm para o exterior gostariam que fosse. Sabemos que as melhores opções para a evolução da Orientação brasileira não acontecem e não compreendemos porquê. Há muito para fazer, muito para melhorar. Temos atletas juniores muito bons, algo que não acontecia há uns anos atrás e alguns deles estão mesmo a começar já a sua temporada internacional. Esperamos que, dentro de alguns anos, o Brasil possa ser reconhecido não apenas pelos eventos que possa organizar mas também pelos resultados alcançados nos grandes confrontos internacionais.

Parece-me perceber nas suas palavras que a Orientação no Brasil continua a ser uma Orientação muito fechada sobre si mesma.

R. A. - Sim. Há coisas que esperamos que sucedam tal como observamos nas grandes provas internacionais. Em países com muito menos tempo de Orientação que o Brasil, tive a oportunidade de perceber que a modalidade tem evoluido de forma muito mais rápida e isso deixa-nos tristes. Sabemos que há muita gente a trabalhar imenso, mas vamos descobrir o que é que está a travar a Orientação brasileira, resolver os assuntos que tiverem de ser resolvidos e andar com a Orientação para a frente para ser mais reconhecida.

Tivemos em 2014, precisamente no Brasil, o primeiro evento internacional com a chancela da IOF em toda a América do Sul. O que é que o Brasil aproveitou desse Campeonato do Mundo de Veteranos?

R. A. - Para os atletas brasileiros, o intercâmbio com atletas de todo o Mundo foi muito bom. Conversar com pessoas que estão muito envolvidas na Orientação, que são elas mesmas diretores de outros clubes, perceber as possibilidades da Orientação, não ficar nessa “mesmice” que a gente observa no Brasil, agarrados a coisas muito tradicionais, sem mudanças, isso foi o que de melhor o Campeonato do Mundo de Veteranos nos trouxe. Ficou esse legado e ficou a vontade de alguns dirigentes organizarem eventos dentro duma filosofia nova, igual àquela que existe nos países onde a modalidade tem tido um desenvolvimento fulgurante.

Muito recentemente, o Ronaldo viu-lhe negada a possibilidade de concorrer aos Órgãos de Direção da Confederação Brasileira de Orientação com uma lista própria, num processo controverso. Quer explicar o que se passou?

R. A. - Percebemos que algumas medidas administrativas foram tomadas de forma errada pela Confederação Brasileira de Orientação. Gostaria de sublinhar que a Confederação tem, no passado, um trabalho fantástico e se a Orientação no Brasil é hoje aquilo que é, à atual Direção o deve. Mas se muitas coisas boas foram feitas, muitas outras coisas boas deixaram de ser feitas. Ganhámos e perdemos, mas temos de perceber que o número de vitórias, de ações boas, está a diminuir a cada ano que passa no Brasil. Os países à nossa volta esperam resultados e eventos bem diferentes daqueles que temos oferecido, os atletas de Elite, principalmente, estão a ter um reconhecimento muito inferior àquele que na realidade merecem e algumas provas nacionais deixam muito a desejar, apresentando erros técnicos inaceitáveis. A comunidade orientista brasileira agradece muito à atual Direção aquilo que fez até hoje, mas dezasseis anos duma única administração basta. É um erro enorme continuarmos a aceitar que haja apenas um ponto de vista para a Orientação brasileira, que o poder continue centralizado numa única pessoa. Muitas das ações são unilaterais e não ajudam a comunidade orientista como um todo, mas só um grupo restrito. Isto tem que mudar.

E para mudar as coisas, o Ronaldo e a sua lista apresenta-se como uma alternativa, alguém que não se quer impôr mas que reclama apenas o direito de poder ir a sufrágio.

R. A. - Exatamente. Pedimos apenas que seja posto de lado qualquer entrave administrativo que possa haver, que as coisas sejam feitas de forma bem clara e que as pessoas possam realmente optar pelo caminho a seguir. Posso dizer-lhe que mais de metade dos dirigentes brasileiros gostariam de uma mudança, mas infelizmente a atual administração impede que isso aconteça.

Vamos ter que esperar mais quatro anos?

R. A. - Não sabemos. Interpusémos uma ação judicial na última semana, recorremos à Justiça brasileira e vamos aguardar pelo resultado da nossa ação. Pode acontecer dentro de algumas semanas, mas pode igualmente levar anos até termos uma decisão. Mas algo irá acontecer, necessariamente, e esperamos apenas que aos orientistas possa ser dada a liberdade de votar, de escolher o caminho a seguir com a próxima Direção.

Para terminarmos a nossa conversa, pedia-lhe que formulasse um desejo para todos os orientistas brasileiros.

R. A. - Desejo sinceramente que os atletas sejam muito mais reconhecidos do que aquilo que são hoje e que as nossas instituições, as Federações regionais, sejam muito mais valorizadas do que elas são. Só dessa forma conseguiremos desenvolver atividades que tornem a Orientação mais conhecida na sociedade brasileira.


Saudações orientistas

Joaquim Margarido

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