quinta-feira, 12 de março de 2015

Mikhail Vinogradov, Parte II: "O baixo nível das organizações é um dos problemas maiores da Orientação"



Depois de ter feito a apresentação de Mikhail Vinogradov, o Orientovar dá hoje a conhecer o restante teor da conversa mantida com o treinador. Nela se aborda um vasto leque de assuntos sobre o presente e o futuro da Orientação, mostrando um peculiar ponto de vista em muitos aspetos, baseado numa argumentação sólida e objetiva.


Quais os atributos mais importantes num orientista de Elite?

Mikhail Vinogradov (M. V.) - Acredito que sejam a tolerância à alta carga de treino e à dor, a paciência na altura dos problemas típicos (lesões, progressão lenta em termos das performances), uma atitude profissional ao nível do detalhe e a manutenção do enfoque na sua evolução.

No caminho dum atleta rumo à excelência, o que é inato e o que é adquirido?

M. V. - É difícil definir uma proporção exata no caso da Orientação. Na verdade, em qualquer desporto, o sucesso depende de várias condições, nomeadamente genéticas, ambientais (incluindo um bom ambiente social e apoio económico), de saúde, das qualificações do treinador e do carácter do atleta. Sem qualquer uma destas condições, ter sucesso no desporto é praticamente impossível.

Prefere trabalhar com os mais novos ou com atletas já experientes?

M. V. - A minha intervenção é dirigida ao desporto de elite. O trabalho com os mais novos exige outro tipo de abordagem.

Espreitando o seu blog, percebemos que os melhores resultados foram alcançados nas provas de Estafeta. Até que ponto é que a Estafeta merece da sua parte uma especial atenção?

M. V. - A principal razão pela qual vê um elevado número de medalhas nas provas de Estafeta tem a ver com o facto de ser mais fácil alcançar um resultado de topo nestas provas do que nas distâncias individuais. A segunda razão é porque eu era o treinador principal do Halden SK e o meu trabalho era ganhar Estafetas. Na verdade, a Estafeta é sempre um acontecimento importante, qualquer que seja a modalidade desportiva e encerra um grande número de particularidades. Acredito que o facto de ter aprendido a dominar alguns fatores importantes e a conseguir que os meus atletas vencessem todos os tipos de Estafetas é um sinal disso. Na qualidade de treinador pessoal, de um clube ou duma selecção, alcancei vitórias nos Jogos Mundiais, Campeonatos da Europa, Campeonatos do Mundo, Mundiais de Juniores, Tiomila (masculino e feminino), Jukola, Venla e 25Manna. “Quando Alexandre viu a grandeza dos seus domínios chorou por não haver mais mundos para conquistar” (risos).

Nos últimos tempos, tem-se manifestado contra algumas decisões da Federação Internacional de Orientação. Mas será um “crime” trabalhar no sentido de dar uma maior visibilidade e expressão à Orientação? Não há nada que valha a pena nas iniciativas de Brian Porteous? Nem mesmo a Estafeta Mista de Sprint?

M. V. - Não tenho qualquer relação de proximidade com as pessoas que fazem parte dos quadros da Federação Internacional de Orientação. Não conheço Brian Porteous nem sei quais são as suas iniciativas. Gosto da Estafeta Mista de Sprint e fui desde sempre um apoiante de novos eventos no programa dos Campeonatos do Mundo. Mas qual é a ideia de acabar com as qualificatórias de Distância Média e de Distância Longa? Foi uma atitude que conduziu à criação de quotas para os vários países e que acarreta a definição de protocolos baseados em Rankings Internacionais questionáveis. Uma das razões teve a ver com a possibilidade dos atletas mais cotados poderem participar no programa completo dos Campeonatos do Mundo. Mas quem são os atletas de topo que participam em todas as provas do programa? Penso que nenhum. E estou certo que seria possível introduzir a Estafeta Mista de Sprint no programa dos Campeonatos do Mundo sem ter de recorrer a este tipo de alterações desprovidas de sentido. E já agora, que sentido faz enviar uma delegação à Conferência da Agência Mundial Anti-Dopagem, na África do Sul? Primeiro, não creio que o doping seja o problema número um da Orientação e depois acho que foi um dispêndio de dinheiro enorme e absolutamente desnecessário (e, afinal, a Conferência foi transmitida on-line para o mundo inteiro).

E quanto ao nível das organizações?

M. V. - O baixo nível das organizações é um dos problemas maiores da Orientação, sobretudo porque estamos a falar de Campeonatos da Europa e de Campeonatos do Mundo. Posso falar-lhe dos Campeonatos do Mundo WOC 2011, em França, como o exemplo mais flagrante duma má organização. Foi dada informação acerca da final de Sprint que acabou, na prática, por ser diferente, houve erros gravíssimos na previsão dos tempos para os vencedores (a preparação dum atleta que vai correr uma Distância Longa em hora e meia é diferente daquela cuja estimativa é para duas horas), verificaram-se inúmeras situações de choques eléctricos durante as provas de floresta e posso dizer que a Galina Vinogradova foi uma das vítimas durante a prova de qualificação de Distância Longa, sofrendo os efeitos do acidente durante largos dias, além de que não havia na Arena um médico que falasse inglês, os mapas era de fraca qualidade, os percursos das qualificatórias de Distância Média eram fraquíssimos, levando à formação de enormes “comboios”, e por aí adiante. Contei 12 ou 14 problemas ao nível organizativo com influência direta nos resultados e na verdade desportiva.

Já em 2014, foi-nos dado a ver um evento extremamente pobre do ponto de vista organizativo como foi o Campeonato da Europa em Portugal! Será que ninguém aprende com a experiência? Até parece que a IOF não tem consciência dos problemas. Encontramos regularmente problemas com a qualidade dos mapas, tal como aconteceu na final de Distância Média dos Campeonatos do Mundo WOC 2013, na Finlândia e na Distância Média e no Sprint dos Campeonatos do Mundo WOC 2014, em Itália. Do meu ponto de vista, é óbvio que após as competições algum especialista deveria analisar (e falar com os atletas) o nível da organização, os mapas, etc. e tirar conclusões relativamente ao futuro! E os organizadores dos futuros Campeonatos do Mundo deveriam ter em consideração essas informações. Poderia passar semanas a falar-lhe dos problemas relacionados com o trabalho da Federação Internacional de Orientação, mas a minha conclusão é a de que se trata duma estrutura de tal maneira conservadora que adotar novas medidas é uma missão impossível. Basta ver aquilo que se passou em torno da discussão da prova de Distância Longa dos Campeonatos do Mundo WOC 2011 para se perceber o que eu quero dizer.

Se tivesse nas suas mãos a possibilidade de alterar o estado de coisas, quais as suas atitudes no sentido de fazer da Orientação um desporto mais participado e sustentável?

M. V. - Desde logo, parava com as acções erradas de desenvolvimento da Orientação pelo Mundo fora (tais como os eventos da Taça do Mundo do outro lado do globo ou o convite a países exóticos para aderirem à IOF). Em vez de convidar o Nepal a integrar o conjunto de membros da Federação Internacional de Orientação, apostaria no desenvolvimento da Orientação em Países de grande dimensão como são a Alemanha, a Espanha ou a Polónia. Poderá encontrar alguns tópicos sobre estas matérias em http://vinogradovcoach.blogspot.ru/2013/11/i-agree-with-dadek-novotny-critics-of.html e em http://vinogradovcoach.blogspot.ru/2014/07/i-totally-support-niggli-concept-of-new.html. Sobre este assunto voltarei a escrever mais tarde, quando conseguir clarificar algumas das minhas ideias, tal como o fiz em relação aos meus artigos sobre Estatística no Desporto e Análise da Performance em Orientação.

É interessante falar em Estatística no Desporto porque é algo que tinha para lhe perguntar. Qual é a sua opinião acerca desta matéria?

M. V. - Penso que tanto a Estatística no Desporto como a Análise da Performance em Orientação são matérias interligadas e que representam um passo importante no sentido de elevar a Orientação a um novo patamar. Estas são matérias importantes não apenas para os treinadores ou os atletas, mas também para os meios de comunicação social e para o público em geral. Posso dar-lhe um exemplo: Durante os Jogos Mundiais 2013, o speaker referia-se à medalha conquistada por Nadiya Volynska como “uma enorme surpresa”. Para mim era óbvio que a atleta Ucraniana era uma das grandes favoritas. Baseei a minha previsão numa análise cuidada das provas da atleta em 2013. Com um bom modelo estatístico, é fácil ter acesso a uma certa dinâmica de resultados deste ou daquele atleta em particular, quais as suas hipóteses num particular tipo de terreno ou evento, estabelecer a relação dos resultados de sucesso e de vitórias entre dois ou mais atletas do mesmo nível, etc.

Se atentarmos nas diferenças entre o Ténis e a Orientação, talvez consigamos perceber melhor esta questão. As partidas de Ténis são, como todos sabemos, bastante longas. Como é que os espectadores conseguem estar a olhar para os tenistas durante duas, três ou mesmo quatro horas? A verdade é que algo acontece numa partida de Ténis a cada minuto que passa! E é precisamente este “algo que acontece a cada minuto” que falta à Orientação, visto ser impossível cobrir com câmaras de filmar toda uma floresta. Isto significa que, na Orientação, temos igualmente de preencher os tempos mortos com uma locução profissional baseada nas Estatísticas e nas opiniões de especialistas e ainda num conjunto de gráficos bem concebidos e apelativos que remetam para a análise das performances dos atletas.

Orientação nos Jogos Olímpicos. Quer comentar?

M. V. - É um objectivo enganador e sou contra. Neste momento, acredito que a Orientação é um desporto limpo (chamo desde já a atenção para o artigo “Doping na Orientação”, a publicar no próximo mês no meu blogue, em http://vinogradovcoach.blogspot.ru/, com um elevado conjunto de resultados positivos e estimativas face às políticas anti-doping correntemente adotadas pela Federação Internacional de Orientação). Além do mais, quase toda a gente acredita no “Fair Play” na Orientação (não exactamente 100%, mas quase). Tudo isto desapareceria com a entrada da Orientação nos Jogos Olímpicos. Veríamos a actual geração (que acredita no Fair Play) abandonar gradualmente as suas posições. Com o doping, passaríamos a assistir ao acesso ilegal a áreas proibidas, tentativas de corrupção para tomar conhecimento prévio dos percursos e quedar-nos-íamos ao mesmo nível nojento do Ciclismo, do Corta-Mato ou do Halterofilismo. O actual movimento olímpico está a milhas de distância dos ideais do Barão Pierre de Coubertin e assistimos hoje a escândalos tremendos de doping no Quénia, nos Estados Unidos, na Rússia, situação atestada pela corrupção declarada em várias Federações Internacionais. Acredito no Fair Play, tal como os meus atletas acreditam. Mas atletas com uma moral mais restrita irão aparecer. Precisamos realmente disto?

Como treinador, quais são os seus projectos e objectivos no curto prazo?

M. V. - Como já referi, sou o treinador pessoal da Galina Vinogradova, do Valentin Novikov e acompanho a Olga Vinogradova nos aspectos relacionados com o treino físico e mental. Todos os meus projectos e objectivos estão directamente relacionados com o treino e as prestações destes três atletas.

Pensando em termos de futuro, aceita partilhar connosco o seu maior desejo?

M. V. - Desejo que todos os orientistas se mantenham saudáveis, sem lesões e se divirtam a praticar o nosso desporto!

[Foto gentilmente cedida por Mikhail Vinogradov]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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