quarta-feira, 11 de março de 2015

Mikhail Vinogradov, Parte I: "O amor é a melhor das inspirações!"



Em 2004 apaixonei-me por aquela que viria a ser a minha mulher – Galina Galkina (Vinogradova, a partir de 2005). Foi este o ponto de viragem na minha vida, no desporto e na minha carreira”. É desta forma que começa uma interessante conversa com Mikhail Vinogradov, ao longo da qual iremos conhecer melhor o homem e o treinador.


Em 2004, Mikhail Vinogradov trabalhava como Assistente da cadeira de Economia na Universidade. Entre os seus passatempos favoritos, contavam-se a corrida de fundo e o xadrez. Tal como muitos Russos, Mikhail sabia da existência da Orientação, embora nunca a tivesse praticado. Passo a passo, acabou por se embrenhar na vida desportiva de Galina: Como companheiro de treino, especialista em recuperação, treinador mental e, mais tarde, treinador pessoal.

No ano seguinte, Mikhail começou a embrenhar-se na Orientação. Leu imenso sobre a modalidade, falou com atletas e procurou aprofundar os conhecimemtos específicos sobre esta nova entidade. “Na minha opinião, o elemento chave para o sucesso na Orientação, tal como no xadrez, é a efetividade das opções tomadas e a implementação dum algoritmo. Surpreende-me que os orientistas russos não pensem desta forma. Além do mais, não são capazes de explicar aquilo que fazem na floresta durante as provas!”, acrescenta. Para ele, outra “situação chocante” tem a ver com o facto de “muitos treinadores russos acreditarem que se podem aplicar programas de treino de corrida à Orientação. Na minha opinião, isto é profundamente errado. A Orientação é um desporto diferente e que implica métodos de treino diferentes”, conclui.


Uma nova abordagem

“Percebi que tinha de trilhar o meu próprio caminho na Orientação”, diz Mikhail, referindo-se às suas primeiras abordagens à modalidade. Começou por ler tudo o que havia sobre fisiologia do desportista, biomecânica, psicologia, geomorfologia, biologia molecular e, de cada vez que tinha uma dúvida, questionava os autores, dentre eles alguns dos melhores cientistas desportivos a nível mundial. O Australiano John Hawley e o americano Michael Joyner são figuras de referência para o treinador Russo, pelo apoio prestado. Também Vyacheslav Kostylev, treinador de Tatiana Ryabkina, desempenhou um importante papel na tomada de consciência duma nova filosofia para Orientação por parte de Mikhail Vinogradov. Ele recorda: “Passámos centenas de horas a trocar mails e em encontros pessoais.”

Baseado naquilo que foi aprendendo, Mikhail Vinogradov desenvolveu uma série de novas ferramentas e exercícios. “Fui um dos primeiros treinadores a elaborar um plano de treino especialmente vocacionado para as provas de Sprint”, assume. Quando Mikhail conheceu Galina, os resultados habituais da atleta situavam-se em torno do top-20, raramente alcançando o top-10. O primeiro grande sucesso da carreira de treinador de Mikhail Vinogradov teve lugar nos Mundiais da República Checa, em 2008, com a atleta a conquistar o 4º lugar na Final de Sprint e a chegar à medalha de prata na prova de Estafeta, tendo feito o melhor tempo entre todas as atletas que correram o primeiro percurso.


Um enorme desafio

Em 2009 foi oferecida a Mikhail Vinogradov a possibilidade de se juntar à Seleção Nacional Russa de Orientação, como voluntário, e em 2011 assumiu a função de treinador principal da turma norueguesa do Halden Skiklubb. “O Halden Skiklubb foi uma verdadeira rampa de lançamento da minha carreira como treinador de alto nível”, recorda. Acabou por se tornar treinador profissional a 100%, dispendendo todo o tempo livre na melhoria das suas aptidões. Nessa altura, era fácil encontrá-lo na floresta em busca de boas pernadas para os treinos e competições do seu clube. Teve uma série de encontros com atletas, fez trabalho de análise, aprendeu a maneira de pensar dos melhores atletas, estudou Norueguês e continuou a ler imenso material específico relacionado com a Orientação. Também aqui, deixa uma palavra de agradecimento a Lacho Iliev, Bjørn Axel Gran, Marius Bjugan e Emil Wingstedt. “Ajudaram-me imenso na minha adaptação a um novo País e a uma nova profissão”, reconhece.

Mikhail Vinogradov passou dias e noites a pensar na forma como derrotar o Kalevan Rasti e o Tampereen Pyrinto. “Durante o principal período de preparação, no Inverno e na Primavera, dormia apenas um par de horas por noite”, recorda. Mas tão dura empresa acabou por ser bem compensada!Antes do período em que Mikhail treinou o Halden SK, o clube havia ganho a Jukola em 2010, mas perdera três atletas chave no ano seguinte. Mesmo assim, conseguira um segundo lugar na Tiomila e uma vitória fantástica na Jukola, com uma formação renovada. Com Mikhail, em 2012, o Halden SK fez história na Orientação escandinava, vencendo quatro das maiores estafetas de clubes do Mundo: Tiomila, nos escalões masculino e feminino, Venla e 25Manna.


O regresso à Rússia

Em 2012, uma nova administração do Halden SK decidiu dispensar os serviços de Mikhail Vinogradov. Ainda hoje, ele busca uma razão para aquela decisão: “Na verdade, tanto quanto sei, todos os treinadores do Halden SK, antes ou depois de mim, mantiveram-se no lugar durante três anos pelo menos e continuo sem perceber o porquê de me terem afastado. Não consigo entender os motivos que levaram a que o meu trabalho de sucesso fosse interrompido desta forma abrupta”, considera. Reconhecendo que a oferta para um treinador de Orientação é escassa, Mikhail Vinogradov decidiu deixar a Noruega e regressar à Rússia.

No ano passado, finalmente, conseguiu uma colocação iminentemente ligada ao desporto de alta competição. Ele desempenha hoje as funções de especialista no Comité Olímpico da Rússia e lidera uma equipa de especialistas no Centro Despostivo de Tecnologias Inovadoras e Exercícios de Treino para Equipas. A sua ligação direta à Orientação mantém-se no papel de treinador pessoal de Galina Vinogradova e de Valentim Novikov e ainda de supervisão de Olga Vinogradova ao nível do treino físico e mental. “Consegui aquilo que sou hoje graças ao meu amor por Galina. Deixei a minha antiga profissão, mudei de País, passei dez anos da minha vida a ajudar a Galina a ser cada vez melhor. O amor é a melhor das inspirações!”, conclui.

Não perca a segunda parte do artigo, a publicar amanhã. Aí, iremos perceber quais as opiniões de Mikhail Vinogradov acerca do atual momento da Orientação.

[Foto gentilmente cedida por Natalia Vinogradova]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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