quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

José Angel Nieto Poblete: História duma ilusão não programada



Espanhol de nascença, orientista do mundo, José Angel Nieto Poblete colocou no coração o rumo da América do Sul e o objetivo de fazer chegar a Orientação a todos os cantos desse Continente, do lado de lá do Atlântico. E de que maneira! Veja como...

Por Joaquim Margarido


“Há mais de trinta anos que conheço este desporto, tendo realizado a minha primeira prova em Fevereiro de 1984. Mapa à escala 1:25000, balizas de madeira suportando o sistema de controlo que mais não era do que um selo, chegando ao fim todo manchado de tinta, vestimenta clássica de ex-jogador de Futebol, calção e camisola de manga corta (quase estilo ye-yé) e sapatilhas normais. Nunca vi aquele como um sistema rudimentar, pelo contrário era para mim a último grito tecnológico dum novo desporto - essa sim, a grande novidade – chamado Orientação. A partir desses momentos, tudo o que de novo surgia era bem vindo e desfrutava-se como algo verdadeiramente belo e original ao mesmo tempo e que cabia num jogo que lutava pela sua afirmação numa altura em que não havia praticamente nada. Era tudo de tal forma novo que o sonho duma prova terminava rapidamente e agora era tempo de esperar para ver onde, e não muito longe, seria a próxima.”


Comum a muitos daqueles que deram os primeiros passos na Orientação naqueles loucos anos 80, este relato introdutório de José Angel Nieto Pobleto leva-nos ao encontro dum homem que, desde a primeira hora, se apaixonou pela Orientação. Mais do que uma prioridade, a divulgação e dinamização da Orientação transformou-se num verdadeiro ideal de vida, carregando a sua bandeira e espalhando o seu perfume por muitos países onde esta era uma modalidade praticamente desconhecida. É com ele que embarcamos nesta viagem que cruza o Atlântico, ligando a sua Espanha natal a um vasto leque de países da América do Sul, onde tem sido o grande obreiro da apresentação e desenvolvimento deste desporto.


Dois pilares, uma montanha de projetos

Nascido há 52 anos em Ciudad Real, no coração da província de Castilla – La Mancha, José Angel Nieto Poblete foi desde sempre um sonhador. Aos 7 anos sonhava ser jogador de futebol. Do Real Madrid, claro. Mais tarde, aos 16 anos, os pés assentes no chão, deixaria para trás o Futebol para ingressar na Academia Militar, onde fez carreira. Admirador confesso da obra de Cervantes, soube colher nela a bondade e o altruísmo das personagens, assumindo-se claramente um D. Quixote, mas não desdenhando ser, igualmente, um Sancho Pança. A sua cidade, que ama e sente, pela qual trabalha, outorgou-lhe o título de Pandorgo 2007, o “representante da cidade”. Daí que não espante ter sido como um “homem de causas” que abraçou a Orientação. Com ilusão e entusiasmo. Enquanto colhia informação e aprendia mais sobre a modalidade, crescia no seu íntimo o desejo de introduzi-la na sua cidade, na sua província, na sua região. Pertencia, em definitivo, ao grupo dos sonhadores que trabalhavam para que a Orientação em Espanha fosse uma realidade. Faces duma mesma moeda, a organização e a competição foram, no seu caso, matérias indissolúveis desde sempre. Com base nelas se desenvolveram os aspetos orgânicos e funcionais que permitiram levar por diante o projeto de criação da Federação Espanhola de Orientação. Sem mácula. Com orgulho.

José Angel Nieto Poblete envolveu-se integralmente com a Orientação, ocupando desde o início lugares de enorme responsabilidade, nomeadamente o desenvolvimento da Secção de Competição da FEDO, atual ranking nacional. Integrou igualmente a Comissão Técnica e, ao lado de outro nome preponderante da Orientação em Espanha, José Samper, participou na 3ª edição da Taça dos Países Latinos, em França, em 1997. Este primeiro contacto com o certame viria a revelar-se determinante no futuro, nele se encontrando os pilares dos atuais projetos. Presente em todas as edições, à exceção de 2004, José Angel viria a ser eleito em 2005, com o apoio de todos os países, Secretário-Geral da Taça dos Países Latinos, cargo que ocupa ainda.


Uma competição mais aberta, com mais países”

Profundo conhecedor da “mecânica” inerente à Taça dos Países Latinos, José Angel Nieto Poblete abraçou o cargo de Secretário-Geral com enorme ilusão, apresentando um programa com uma preocupação fundamental, a de se estabelecer, futuramente, uma competição mais aberta, com mais países. A Taça dos Países Latinos é uma evento internacional no qual, de acordo com os seus próprios Estatutos, podem participar todos os países de origem Latina. Todavia, até à data da sua tomada de posse, apenas o Brasil e uma ou outra representação esporádica do outro lado do Oceano tinham participado numa competição que sempre se realizara no espaço Europeu. Indo ao encontro dos países Latinoamericanos, o novo projeto implicava, indiscutivelmente, que eles tivessem igualmente a oportunidade de organizar competições.

Desta forma, conseguiu que em 2006, na Bélgica, fosse aprovada a realização da 15ª edição da Taça dos Países Latinos em Santa Cruz do Sul, no Brasil. Itamar Torrezan foi um grande colaborador neste objetivo, materializado em 2009 por José Otávio Dornelles, o Presidente da Confederação Brasileira de Orientação. Os resultados foram positivos e o rumo estava traçado. Era fundamental repartir o protagonismo também com os países Latinoamericanos. No final dessa edição, José Angel propõe a Víctor Pérez, na altura Vice-Presidente da Federação Uruguaia de Orientação, que aceitasse o testemunho e fizesse com que a competição regressasse ao outro lado do Atlântico. O desafio é aceite e o Uruguai começa a preparar essa nova aventura. Seguem-se várias participações nas edições seguintes da Taça dos Países Latinos com o objetivo de adquirir experiência e conhecimentos, tendo o passo decisivo sido dado no passado dia 24 de Novembro, em Punta del este e Piriápolis, com a organização da 20ª edição. Uma edição que representa um marco dessa nova etapa e cuja aposta assenta na organização da Taça dos Paísese Latinos, de forma alternada, nos dois Continentes.


Completar o mapa

Não é possível estabelecer um padrão neste trabalho de aproximação de José Angel Nieto Poblete a cada um dos países visitados. Cada um tem as suas idiossincrasias, as suas formas de ver o desporto, as suas particularidades. Por esse motivo não é estranho que a Orientação tenha entrado em cada um deles de diversas formas: através da escola, por particulares, a nível militar, pela Universidade, pelas instituições...

Do trabalho sustentado no Uruguai à reunificação duma Argentina dividida, da esperança chamada Costa Rica à certeza da Orientação no Chile, da revitalização no Equador à emoção em Cuba, passando pelo lançar da semente no Paraguai, Bolívia, Guatemala, República Dominicana ou Haiti, são milhares e milhares os quilómetros percorridos até hoje, centenas de cursos e competições realizadas, dezenas de mapas desenhados e um sonho que, todavia, aguarda a sua concretização plena: o de plantar uma bandeira em cada lugar de cada país da América Latina. Os contactos com os demais países vão sendo mantidos e os próximos passos de José Angel parecem querer levá-lo à Venezuela ou à Colômbia. Belize, El Salvador, Nicarágua e Panamá representam desafios mais complexos. Com o Perú, pretende-se que fique completo o mapa Sul-Ameicano, mas aqui as dificuldades parecem ser maiores e nem o apoio do próprio Comité Olímpico Espanhol logrou entreabrir, até hoje, uma pequena porta que fosse.


Lágrimas e sorrisos

As dificuldades deste trabalho são muitas. Ter tudo programado e, de súbito, ser obrigado a recorrer à sua experiência como professor, como desportista, como organizador é uma contingência à qual José Angel Nieto Poblete há muito se acostumou. As oportunidades surgem quando menos se espera e não se podem perder. No espaço de uma simples hora podem ocorrer, de forma sucessiva, uma conversa num colégio, a entrevista com um Ministro, uma conferência de imprensa e uma palestra num grande auditório. Pelo meio – a parte mais delicada - há que buscar financiamento para os projetos, o dinheiro praticamente arrancado “a ferros”, a provar que para José Angel não há missões impossíveis.

E a história como que se repete. Deixar para trás um país com a ideia de que foi apenas “mais um”, que não voltará, é algo que não está no espírito deste verdadeiro embaixador da Orientação. Nem pouco mais ou menos! Ao lançar a semente, José Angel já só pensa nos frutos desse trabalho. Frutos que se estendem do plano desportivo ao plano social, com a certeza de que, acima de tudo, se encontra o resultado daquilo que é, verdadeiramente, o desporto e que resulta no relacionamento entre as pessoas. Todos aqueles que algures, por um momento que fosse, com ele se relacionaram, são hoje parte da sua enorme família. Uma família onde cabem, por igual, o Ministro e a criança que, após três horas de caminho para vir à escola, descalça, não para de sorrir ao ouvir a palavra Orientação.


O grau de ilusão por este desporto é igual em toda a parte, é enorme”

O caminho de José Angel ainda agora começou, mas o “primeiro volume” das suas histórias termina aqui. É justo, pois, dar-lhe a palavra neste momento: “Realmente não se pode dizer que um país aposta mais do que outro, ou que num país se gosta mais da Orientação do que noutro. Não! O grau de ilusão por este desporto é igual em toda a parte, é enorme. O grande problema reside nos meios para desenvolve-lo, as reais possibilidades de praticá-lo, o tempo, o espaço... a vida!”

E este é apenas um resumo daquilo que é, de momento, o projeto de introdução e desenvolvimento desportivo levado a cabo por José Angel Nieto Poblete na América Latina. Um projeto que se reveste duma intensidade que apenas superficialmente foi abordada nestas linhas, mas que inclui um enorme conjunto de episódios sérios ou caricatos, com muitas alegrias mas também com alguns dissabores. Ainda José Angel, em discurso direto: “Acima de tudo persigo os meus objetivos com a ilusão do primeiro dia, aquele dia de Fevereiro de 1984 em que fiz a minha primeira prova de Orientação e no qual me apaixonei por este extraordinário desporto. A perspetiva talvez seja agora outra mas permaneço fiel às minhas origens e recordarei sempre, como exemplo, após tantos e tantos cursos ministrados, uma frase de um dos meus alunos no Haiti: 'Professor, não nos deixe sós' ”.


[Foto de José Angel Nieto Poblete. Consulte o artigo original em http://www.orienteering.org/edocker/orienteering-world/2014/. Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação]

Sem comentários: