terça-feira, 29 de abril de 2014

Nuno Pires: "Pessoalmente foi o cumprir dum objetivo"


Membro da Comissão de Orientação de Precisão da Federação Portuguesa de Orientação e um dos principais pilares desta jovem disciplina no nosso País, Nuno Pires protagonizou em Palmela, juntamente com João Pedro Valente, um dos momentos mais altos da participação portuguesa no ETOC 2014. A sua presença na Final de TempO foi mais uma achega na afirmação de Portugal no panorama da Orientação de Precisão mundial. Disso e muito mais nos fala o atleta e técnico, numa longa Entrevista que vale a pena ler com atenção.


Agora que os ecos dos Campeonatos da Europa de Orientação de Precisão se vão esgotando, começaria por lhe perguntar quais as imagens que guarda na memória de forma mais marcante.

Nuno Pires (N. P.) - Se fizer um exercício para recordar todo o ETOC 2014, há com toda a certeza alguns momentos que vão prevalecer como fotos do meu álbum de memórias. Para começar, a primeira reunião da equipa no Pinhal Novo, na véspera do Model Event. Será fácil perceber porque foi tão especial, já que tenho a noção que nos próximos anos não será possível juntar uma seleção Portuguesa de Precisão com 10 elementos equipados a rigor e a participar num Campeonato desta envergadura. Foi em Portugal, tinhamos a possibilidade de os inscrever e levar à competição este número simpático de atletas, com dignidade e limitações de orçamento, num esforço da FPO em nos proporcionar as condições possíveis na atual conjuntura, e apesar da nossa pouca experiência, estarmos com um espiríto de competição e motivação idêntico a qualquer grande seleção, mas sem a pressão dos resultados e os focos da imprensa apontados à cabeça.

Depois, lembro-me da madrugada do Model Event, ainda no alojamento, ao espelho, e já equipado com as cores nacionais, do orgulho de ser português e puder representar o meu país, por esforço, sacrifício pessoal, familiar e mérito. A seguir, no carro, no trajeto para o Vale de Barris, a ouvir no rádio e cantar bem alto “Happy”, do Pharell Williams, porque era assim que me sentia. Algo que me recordo também como uma imagem deste ETOC foi a possibilidade de almoçar diariamente no local de competição com todo o grupo, permitindo ainda no rescaldo das provas analisar cada prestação individual, trabalhar e discutir aspetos técnicos, dando alento aos menos afortunados e congratulando os que mais se destacaram a cada dia, sempre em prol dum bem comum.

Claro que o momento alto da minha participação foi a prestação na Qualificatória do TempO, que me deu acesso à final. Neste dia, o que me fica na memória foi a surpresa de aparecer inicialmente em oitavo lugar, mas já com um número de atletas classificados que dificilmente me colocaria fora dos 18 apurados. A conta foi fácil de fazer e consistiu em perceber quantos nórdicos ainda não tinham acabado e pensar no pior cenário possível, o que não se veio a verificar. Lembro-me da ansiedade do João Pedro Valente, durante cerca de duas horas a aguardar que os resultados se tornassem finais e que conseguisse o apuramento. Ele estava no fio da navalha por segundos, e a cada funcionamento da impressora o gume ficava mais aguçado. Essa imagem não vou esquecer, quando ele confirmou a presença na Final, e que em troca deste momento, ambos falhámos o desfile das Nações em Palmela por meros cinco minutos. Valeu o grande abraço que demos quando a alegria o tomou de assalto, para compensar a nossa falta.

Da final do TempO, recordo a zona da Quarentena, da ausência quase total de atletas latinos, das trocas de olhares que procuravam disfarçar o nervosismo generalizado, do respeito evidente pelas grandes figuras mundiais da modalidade, que agora já reconhecia, e a sensação inversa, da minha intromissão num grupo tão restrito de nomes importantes, do achar que estariam a perguntar “Quem é este português?”, nem que seja uma vez na vida. A ida a pé para a primeira estação, num grupo com a presença do famoso Remo Madella, ou seja, quem mais perto de mim ficou no resultado geral da Qualificatória. Depois guardo, não a imagem mas o filme da Final, a disfrutar o momento, a arriscar demasiado na primeira estação, a perceber se conseguiria manter uma rapidez de resposta e paralelamente alguma certeza nas decisões. No final, o resultado ficou abaixo da minha expetativa, visto que tinha apontado como objetivo depois da Qualificatária a entrada no top 20, que seria uns furitos acima do apuramento, mas ainda dentro duma visão realista.

Como alguém do grupo de seleção já escreveu, para primeira experiência internacional, ir à final, entre cerca de cem atletas e ficar em 33º só pode ser considerado um excelente resultado e de balanço positivo. E eu estou de acordo com essa opinião, pese embora pudesse ter encontrado outro equilibrio no compromisso velocidade de resposta vs acertos, obtendo um score mais baixo, não tão causticado pelas penalizações por decisões erradas.

Esse seu apuramento [e do João Pedro Valente] para a final não deixa de constituir um feito histórico e que nos coloca num patamar deveras interessante, para quem está a dar os primeiros passos nesta disciplina. Estava à espera que isso acontecesse? Onde residiu o segredo de tão excelente resultado?

N. P. - Pessoalmente, e apesar o ter previamente expresso em casa e ao grupo de seleção, em tom de brincadeira, era o meu objetivo chegar à Final, ou melhor, participar nos dias todos de competição, o que implicava tal feito. Não houve segredo, houve um trabalho essencialmente mental, de apuro de concentração, que herdo dos meus tempos de basquetebolista, treino de reação, em computador, para lidar com a pressão das respostas, algum treino de TempO, na Internet, para me adaptar ao conceito, estudo de mapas, principalmente duma prova realizada precisamente num campo de golfe, com vista a criar um modelo mental fiável e próximo do que poderia ser o cenário real da prova. Além disto, a minha preparação para o Europeu já vem sendo trabalhada desde o POM 2013, em Idanha-a-Nova, onde comecei a melhorar as minhas competências técnicas na Orientação de Precisão, com vista a uma possível participação. O TempO surgiu como uma variante onde acho que até tenho um perfil mais adequado, e por isso tentei estar mais preparado especificamente para esta variante e onde estabeleci os meus objectivos.

Relativamante ao apuramento do João Pedro Valente, sendo eu membro da CT da FPO para a Orientação de Precisão e co-responsável pela lista de atletas selecionados, sempre achei que a nossa grande hipótese de levar pelo menos um atleta à final do TempO passaria maioritariamente por ele, sem desprimor para todos os outros. Apesar de não termos tido atletas em número suficiente a preencher os critérios de seleção para o Europeu, a lista final de convocados entrou em linha de conta com os melhores resultados do ano passado e o potencial que cada um dos atletas chamados encerrava. Mesmo sem participações em TempO para comprovar o meu feeling, sempre fiquei com a sensação que a forma cirúrgica como o João apareceu, chegou e venceu o CN de PreO da Tocha indiciava que era uma pessoa criteriosa, metódica, com conhecimento específico da modalidade e que teria uma grande capacidade de adaptação ao formato do TempO. E não me enganei, pelo que me congratulo por ter ajudado a dar esta oportunidade ao João e ele a ter agarrado com unhas e dentes.

Quer falar-nos um pouco daquilo que foram, também, os dois dias de competição de PreO?

N. P. - Do primeiro dia do PreO, lembro-me de aparecer lá bem em cima no topo da classificação preliminar com 18 pontos certos em 20, 18 segundos nos cronometrados, para mais tarde perceber que o nível era de tal forma elevado que com um resultado tão bom como este que em qualquer prova nacional daria para ficar em primeiro ou segundo, numa jornada do Europeu, somente chegava para o 22º lugar provisório ao cair do primeiro dia de competição. O segundo dia do PreO não me traz boas recordações, apenas a imagem duma prova serena, com confiança nas decisões, mas que no final ficou muito aquém do dia anterior. Contava com um resultado idêntico, para ficar pelo menos no top 30, mas os erros em excesso e a melhoria geral de resultados da maior parte dos atletas atirou-me para o 66º lugar entre 81 atletas.

Fiquei algo desconsolado no final da competição, não tanto pelo resultado individual alcançado, mas por não ter contribuído mais para o resultado por equipas. Outros colegas fizeram bem melhor mas não estavam escalados para as equipas que Portugal constituiu. Com tempo, terei de ganhar experiência como atleta de PreO, para ganhar alguma consistência que me faltou neste Europeu. Penso que terei de separar o Nuno-traçador-de-percursos do Nuno-atleta. Ambos têm margem de progressão, mas o segundo tem seguramente mais.

Como avalia o nível competitivo, técnico e organizativo do ETOC 2014?

N. P. - Acho que o nível competitivo foi alto, e seria leviano da minha parte dizer que os resultados no PreO foram demasiado equilibrados como resultado de alguma facilidade dos percursos, olhando somente para a classificação dos trinta primeiros na classe Aberta ou do top 10 dos Paralímpicos. Diz-se que 'a ocasião faz o ladrão', pelo que à qualidade do mapa, às características do terreno com um número enorme de elementos verdes a ajudar na sua leitura, criou um potencial de competitividade sem margem de manobra para erros. Mesmo que planeados com vista a maximizar a dificuldade dos desafios propostos em cada ponto, quem falhasse um que fosse, estava praticamante a hipotecar a possibilidade duma medalha. E os melhores estiveram quase em pleno em ambos os dias, confirmando a sua reputação. No TempO, foi uma prova com uma aura brutal de competitividade, pelo espaço em si, que sendo arquitetado de raiz para outros fins que não a Orientação, colocou em pé de igualdade atletas de qualquer proveniência.

Tecnicamente acho que o ETOC também esteve num patamar elevado. Era de esperar que, apesar da prova ser realizada em Portugal, se notasse um forte envolvimento dos supervisores internacionais nesta componente, principalmente no PreO, que aliada ao essencial do evento made in Portugal (mapa, percurso e terreno) nivelaram por cima este Campeonato. Vê-se que o Alexandre Reis se dedicou e preparou a base duma grande prova e acredito que apenas algumas arestas tenham sido limadas após a grande fatia do seu trabalho. Relativamante ao TempO, o mapa era excelente e cuidadosamente cartografado. Tecnicamente, a exigência deste formato poderia desvalorizar esse trabalho inicial, mas creio que nada foi deixado ao acaso. Da Qualificatória para a Final, houve uma seleção de locais de dificuldade crescente, o que motivou o aumento de erros num terreno complexo de analisar à velocidade exigida para boas prestações.

No aspeto organizativo, houve algumas areias na engrenagem que foram identificadadas no dia do Model Event e que tiveram resposta da equipa do ETOC 2014, mesmo no que respeita a pormenores nos mapas dos pontos cronometrados e do TempO. Inicialmente, foi perceptível o desconforto de algumas seleções pela notória inexperiência de alguns elementos no controlo do TempO, mas na competição estiveram seguros. Acredito que na Final tenham estado envolvidas mais pessoas sem nenhuma ligação à Orientação de Precisão do que todos os Atletas portugueses que a praticam atualmente. Em suma, Portugal pode orgulhar-se de ter organizado o ETOC 2014, sendo que o nevoeiro que pairou na Qualificatória de TempO foi apenas e só resultado de condições climatéricas e nada teve a ver com algumas nuvens que andaram pela zona de Palmela.

Não posso deixar de mencionar a sua excelente intervenção na segunda e última reunião de Team Leaders, onde deixou antever a ideia que as regras valem o que valem consoante os casos. O que é que está mal no meio disto tudo e de que forma pode ser corrigido?

N. P. - Para quem, como eu, segue fielmente as Guidelines internacionais no planeamento de provas com vista a minimizar a subjetividade de alguns pontos no PreO e prepara ao pormenor a montagem dos percursos, fiquei algo incomodado por ter falhado um ponto no primeiro dia, devido a um deslize na colocação duma baliza ao lado de um elemento de vegetação, teoricamente numa das oito direções possíveis. Para mim, haveria todas as razões para que o ponto fosse anulado, porque não está especificada a margem de erro máxima de azimute admissível na montagem, que era visível a olho nu e à bússola. Apenas e só está definido que se a colocação da baliza levar uma parte dos atletas a serem enganados de forma grosseira e idêntica, essa deve ser a decisão a tomar por voto de maioria dos mesmos, após analisar a situação. Claramente demonstrei que se a baliza estivesse no lugar certo, teria uma colocação relativa ao elemento e distinta da visível no terreno, o que recebeu o apoio de algumas seleções de segunda linha que também identificaram o problema e se sentiram injustiçados pela mesma razão. No entanto, isto acontece após a prova, e as classificações, a serem recalculadas, afetavam essencialmente as chamadas seleções de primeira, que naturalmente não se manifestaram nesse sentido, por conflito de interesses. Ficou no ar o peso enorme dos países nórdicos no seio da Orientação de Precisão.

Dois dias depois, numa conversa com o Martin Fredholm - e já com o PreO terminado e os ânimos mais esfriados -, foi-me explicado que há algumas situações que, embora as Guidelines da IOF em vigor prevejam, não são seguidas à risca na Suécia ou Finlândia, ou seja, há algumas dicas adicionais que procuram evitar este tipo de problemas, inclusivamente seguindo conceitos de sinalética e afastamentos de balizas mais vulgares e praticados no TempO, e que a natural evolução das Guidelines internacionais por arrasto às melhores práticas dos países nórdicos ainda não se refletem no papel. Não fiquei totalmente convencido com esta explicação. Para mim, regras são regras e as Guidelines internacionais deviam ter sido respeitadas por todos, porque havia um lapso na montagem que tinha um enquadramento, uma saída definida, airosa e justa, e que foi desvalorizada por quem mais responsabilidade tem tido na evolução da modalidade. No entanto, há claramente todo um historial, um know-how que as seleções de topo (ou de primeira) têm e deve ser respeitado, mas que não deve colocar de parte a opinião sustentada do resto do pelotão. Cabe-nos trabalhar e evoluir para ganhar o estatuto no terreno e encurtar este intervalo. Isto é como no futebol, não há nada como uma boa polémica para animar os adeptos.

Que conclusões retira destes quatro dias de competição ao mais alto nível?

N. P. - Pessoalmente foi o cumprir de um objetivo, o culminar de um trajeto de cerca de um ano onde fiz uma aposta na presença neste ETOC 2014, traduzido em prestações competitivas condizentes com aquilo que é a realidade da minha Orientação de Precisão neste momento. Não fiz mais porque o tempo de preparação não pôde ser maior, por razões pessoais bem mais importantes e que estão agora no topo das minhas prioridades. Se ainda consigo conciliar a vida pessoal com a prática da Orientação de Precisão, é porque tenho um apoio familiar enorme. Se há uns meses atrás dissesse à boca cheia que estava nos meus planos a ida à Final do TempO, provavelmente ninguém acreditaria. Em suma, concluo que, se tiver um pouco mais de dedicação, poderei um dia aparecer com um resultado de maior destaque. Mas prefiro não pensar em nada a médio prazo, tendo em conta as dificuldades de participação em provas no estrangeiro.

Quanto à prestação da seleção, em termos globais, tenho um misto de sensações boas e menos boas. Primeiro, acho que estivemos muito bem no PreO, principalmente na classe Aberta. Todos os novatos nestas andanças tiveram pelo menos um dos dois dias brilhantes, ou ambos com uma prestação homogénea. O que se pode apontar de mau quando o Luis Leite faz 19 pontos certos em 20 no segundo dia e fica no 34º lugar? Ou quando o Claúdio Tereso faz 17 pontos em cada dia e no geral fica em 54º? Já para não falar no Jorge Baltasar, o melhor de todos os lusos no PreO, cujo 43º lugar final, se revelou a outra aposta ganha da CT no grupo de Seleção. Poucas pessoas sabem mas o Jorge não participou no TempO, porque estava metido até ao pescoço na prova do Sprint do EOC 2014, mas esteve sempre connosco a acompanhar o grupo e relevou a frieza necessária para atingir o resultado mais relevante no PreO. Relativamente à classe Paralímpica, foi notória a nossa falta de experiência face à concorrência. As pontuações em si ficaram um pouco abaixo do esperado em número de acertos, resultantes de algum nervosismo, que podemos trabalhar e controlar no futuro e pelo facto dos nossos atetas não terem um historial prévio na Orientação, o que só se consegue combater com a prática da modalidade e a promoção de um conjunto de atividades como estágios ou workshop dedicados a estes atletas tão singulares.

No geral, fomos um grupo coeso, animado, e onde também há que destacar o espírito voluntarioso do acompanhante do Ricardo, o Serafim, que também foi o motorista de serviço e do acompanhante do Júlio, o Homero, que tudo fizeram para acelerar ao máximo as cadeiras de rodas, quando necessário, em prova. Uma palavra para o José Laiginha Leal, no seu primeiro ano de Orientação, e que apesar das suas limitações de progressão, fez questão de gerir o tempo de prova em autonomia total, com uma assinalável abnegação e desgaste físico que supostamente não existe na Orientação de Precisão, mas que era patente pelo estado de transpiração com que chegava ao final dos percursos.

Como responsável pela Comissão Técnica de Orientação de Precisão da Federação Portuguesa de Orientação, que significado poderá ter o ETOC para a Orientaçao de Precisão portuguesa?

N. P. - Vou ser muito sincero. Este ETOC 2014 é um evento que dificilmente se repetirá em Portugal no que respeita à dimensão, organização e recursos envolvidos. Arrisco dizer que, aparentemente, parece um exagero de meios, mas é ao fim ao cabo o necessário para que tudo corra bem. Pessoalmente, apenas vi envolvimentos pontuais de atletas da Orientação Pedestre nesta iniciativa, e os poucos que lá estavam já estão seguramente a trabalhar nos seus clubes. Não houve um interesse particular em criar mais sinergias para a atual comunidade orientista disseminar a Orientação de Precisão nos diversos clubes portugueses. O grosso dos recursos foi recrutado entre estudantes para tarefas específicas de controlo e não serão de certeza agentes mobilizadores e promotores da modalidade no futuro. Assim sendo, não considero que o ETOC 2014 possa funcionar como alavanca da Orientação de Precisão. Adicionalmente, considero que não houve uma cobertura mediática ao mesmo nível do EOC, e pelo que li na imprensa, há lapsos e imprecisões nas notícias difundidas, o que indicia que, ou a redação das mesmas não foi cuidada, ou a informação passada da organização do evento para a imprensa, não foi realizada da maneira mais correta.

No entanto, acho que o TempO pode crescer após o ETOC, pelo aliciante de ser, com as devidas diferenças, a versão Sprint da Orientação de Precisão. Há mais adrenalina envolvida e, se olharmos para a faixa etária dos atletas de topo, parece óbvio que cativa um público mais jovem, fugindo ao estigma de que a Orientação de Precisão é coisa de velhos e deficientes. O PreO deverá procurar o seu espaço próprio, mas é preciso que os clubes ajudem a materializar um minimo de oito a dez provas ao longo do ano, com qualidade. Sem iniciativa, será complicado levar este barco a bom porto. A CT da FPO está alerta para esta realidade e vamos tentar dinamizar o TempO com a organização do I Campeonato Nacional, no final de Maio, nas Dunas de Cantanhede, para ver a recetividade da comunidade Orientista ao novo formato. O “depois do ETOC” será apenas em 2015, quando o calendário de provas regressar à normalidade e soubermos se há condições para ter uma época com provas de PreO e TempO devidamante encaixadas no calendário da Pedestre e que permita um crescimento sustentado da modalidade na classe Aberta, e que mais Paralímpicos apareçam a competir.

Quais os seus objetivos para aquilo que resta da temporada?

N. P. - Tenho dois objetivos em mente. O primeiro é organizar com sucesso o Dunas Trail-O, a 31 de Maio, que consiste numa etapa de PreO e outra de TempO, nas Dunas de Cantanhede, sendo que tem o aliciante da prova de PreO ser uma etapa da Taça de Portugal, da prova de TempO atribuir o primeiro título nacional individual absoluto, e as duas em conjunto funcionarem como critério de apuramento para as vagas no WTOC 2014 que levarão a Itália o melhor atleta Paralímpico e o melhor atleta de classe Aberta resultantes desta jornada dupla de Orientação de Precisão. O segundo objetivo é estar no WTOC 2014 como Team Leader de Portugal e em simultâneo como atleta. Lá, espero voltar a repetir a proeza de chegar à Final do TempO e conseguir algo mais do que atingi neste ETOC no PreO.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Orientação para Invisuais chega a Portugal



Torres Vedras assistiu à estreia, no nosso país, da Orientação para Invisuais. Partindo duma iniciativa do Académico de Torres Vedras e integrada na Feira da Saúde daquela cidade, a experiência revelou-se deveras interessante e com enorme potencial.


Como que a provar que são muitas as barreiras que permanecem erguidas em torno da deficiência e do acesso às práticas mais comuns do dia a dia, a Orientação para Invisuais é uma disciplina de Desporto Adaptada com reduzidíssima expressão em todo o mundo. Às dificuldades logísticas inerentes à montagem dum percurso desta natureza, junta-se um público-alvo reduzido em termos de número e com necessidades e especificidades muito próprias, o que torna inviáveis as organizações destas atividades se, porventura, um dos objetivos é alcançar algum retorno financeiro.

Num gesto notável que releva do papel social dos clubes e instituições, quaisquer que elas sejam, o Académico de Torres Vedras lançou mãos à obra e levou a cabo uma tarde dedicada à Orientação onde, para além de percursos promocionais de Orientação Pedestre e de Orientação em BTT, dedicou uma atenção especial ao Desporto Adaptado, alargando o leque de ofertas à Orientação de Precisão, Orientação Adaptada e Orientação para Invisuais. Um “cinco em um” que se louva e aplaude, ao encontro do desporto para todos e que exalta o princípio “todos diferentes, todos iguais”.


Sair de casa e do sofá para praticar um desporto novo”

Estreia absoluta no nosso país, a prova de Orientação para Invisuais consistiu num percurso tipo labirinto, marcado com cordas no chão, ao longo do qual a progressão pode ser acompanhada sensorialmente com os pés, correlacionando-a com as marcas num mapa em relevo, possível de ler com os dedos. Invisual desde muito novo, o Afonso foi uma das pessoas que participou ativamente na iniciativa, tendo destacado “a oportunidade de sair de casa e do sofá para praticar um desporto novo”. Com uma venda especial nos olhos, João também experimentou a nova modalidade e, “apesar do desconforto de estar completamente às escuras”, confessou surpresa por perceber que “os sentidos estão muito mais alerta, sentimos os nós nos pés e ganhamos confiança porque sabemos que estamos a seguir no bom caminho.”

Mentor desta nova disciplina e responsável pela organização e montagem do percurso, Luís Sérgio confessa que a iniciativa surgiu há sensivelmente dois anos e partiu “dum interesse pessoal, da tentativa de fazer da Orientação uma modalidade ainda mais inclusiva.” Salientando que “cativar as pessoas é a maior dificuldade”, aquele responsável faz questão de referir que “não há qualquer dificuldade em montar um percurso desta natureza, é algo que se pode fazer de forma rudimentar, basta apenas haver vontade.” Quanto ao balanço, Luís Sérgio considera-o muito positivo: “Para um invisual é, de facto, uma mais valia ter a noção do espaço onde se insere, mesmo que esse seja um espaço artificial, criado por nós. Há um potencial muito interessante nesta vertente e que tem a ver com os cascos urbanos das cidades onde, eventualmente, poderão ser criados mapas tácteis, conjugando-os com áudio-guias. Isso é já uma realidade aqui, em Torres Vedras, e acaba por ser uma forma diferente de mostrar a cidade - no fundo, um tipo de oferta turística paa pessoas invisuais (!) -, tendo como ponto de partida a Orientação.” Efetivar, do ponto de vista da competição, aquilo que não passou duma simples experiência, “é viável, é muito interessante, mas teremos de pensar mais um bocadinho”, diz Luís Sérgio.

Refira-se, a terminar, que os dois animadores da ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal presentes na atividade, mostraram-se muito interessados e, futuramente, não é de excluir que possamos assistir a novos e mais consistentes desenvolvimentos nesta área. Veja as fotos em https://plus.google.com/u/0/photos/108054301526873509793/albums/6006980240996108753.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Duas ou três coisas que eu sei dela...



1. Os problemas surgidos no decurso dos Campeonatos da Europa de Orientação Pedestre, realizados em Palmela, vieram levantar a questão sobre como garantir a necessária qualidade nos eventos organizados pela Federação Internacional de Orientação. Na sua página, aquele organismo publica hoje uma entrevista com Mikko Salonen, onde o Presidente da Comissão de Orientação Pedestre da Federação Internacional de Orientação revela as suas preocupações sobre o assunto [a entrevista pode ser lida em http://orienteering.org/foot-orienteering-commission-chair-on-event-quality/]. Entre outras questões, Salonen destaca a necessidade de “rever o papel do Supervisor Internacional e analisar o processo de seleção das entidades organizadoras”. Para aquele responsável, “no curto prazo, vamos, naturalmente, estar em contato com todos os Supervisores Internacionais de eventos futuros e incentivá-los a pedir ajuda, logo que eles sintam que as coisas não estão a correr como deveriam.” Apesar dos problemas, a organização portuguesa merece “um agradecimento pelos seus esforços e esperamos vê-los de novo em mais eventos no futuro”, conclui Salonen.


2. O Litoral Alentejano volta a acolher, uma vez mais, uma grande competição nacional de Orientação em BTT. Com efeito, é já este fim de semana que nos municípios de Grândola e Santiago do Cacém têm lugar os Campeonatos Nacionais de Orientação em BTT 2014, numa organização conjunta do Clube da Natureza de Alvito, do Clube de Orientação e Aventura do Litoral Alentejano e da Federação Portuguesa de Orientação. O programa abre hoje com a disputa dos títulos nacionais de Distância Longa, seguindo-se as provas de Estafetas e de Sprint, ambas no sábado, encerrando com a prova de Distância Média, no domingo. O evento - que integra as comemorações do 40º aniversário do 25 de Abril de ambos os municípios – conta com um total de 123 atletas inscritos, em representação de 19 clubes nacionais. Mais informações em http://cnsobtt2014.coala.com.pt/.


3. Braga, Entroncamento, Funchal, Marateca, Oeiras, Santo Tirso, Vila Pouca de Aguiar e Viseu são alguns dos locais onde se assinalará, no próximo dia 3 de Maio, o Dia Nacional da Orientação. Com percursos de caráter promocional e abertos a todos, as iniciativas pretendem a chamar a atenção da modalidade num contexto geral do desporto em Portugal, contando para tal com o forte apoio da Federação Portuguesa de Orientação. Da Caminhada orientada no Jamor (CPOC) às etapas do Desporto Escolar Sul (Escolas Secundárias de Palmela e Pinhal Novo), passando pela etapa da Taça de Portugal de Orientação Adaptada na cidade dos Jesuítas (TST) ou pela inauguração da nova sede do CO Viseu – Natura, é todo um conjunto de vontades ao serviço da Orientação que sai à rua neste dia, procurando erguer a sua bandeira mais alto ainda. O programa completo poderá ser consultado no Calendário de Provas da Federação Portuguesa de Orientação, em http://www.orioasis.pt/oasis/shortcut.php?action=shortcut_events_all_info&.


4. A Orientação Adaptada é presença destacada na mais recente Newsletter da Associação Nacional do Desporto para a Deficiência Intelectual. No seu nº 30 (Abril 2014), a “Anddiletter” dá conta do início da cooperação institucional entre a ANDDI – Portugal e a Federação Portuguesa de Orientação, “para a organização de ações conjuntas de promoção e divulgação da Orientação Adaptada”. Do conjunto de ideias expressas no documento, destaque para a “criação de uma Taça de Portugal ANDDI de Orientação Adaptada, com um circuito de etapas, aproveitando a oportunidade em provas da FPO” e ainda para a necessidade de “proporcionar formação específica a técnicos das Instituições / Clubes filiados na ANDDI, e interessados no desenvolvimento e na prática desta modalidade, pioneira em termos mundiais.” Tudo para ler em http://www.anddi.pt/.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

quarta-feira, 23 de abril de 2014

João Pedro Valente: "Devo sentir-me satisfeito com a minha prestação no TempO"



Foi a grande surpresa dos Nacionais de Orientação de Precisão 2013, ao arrebatar o primeiro título da história da jovem disciplina em Portugal. Mais recentemente, brilhou a grande altura nos Europeus de Palmela, garantindo um lugar entre os 36 finalistas da competição de TempO. E como se não bastasse, sagrou-se este fim de semana Campeão Nacional de Espanha. Falamos de João Pedro Valente, um homem dividido entre Portugal e Espanha, mas também – percebemo-lo agora! - entre a Pedestre e a Precisão.


Agora que os ecos dos Campeonatos da Europa de Orientação de Precisão se vão esgotando, começaria por lhe perguntar como se preparou para esta competição.

João Pedro Valente (J. P. V.) - Com as poucas possibilidades de participar em provas em Portugal, a minha unica preparação foi no computador. Por um lado, ler de novo toda a documentação disponível, compilada pelo Nuno Pires, especialmente as Guidelines de Trail-O para a Elite, analizando todos os exemplos e visualizando as técnicas a usar em cada caso. Por outro lado, pratiquei com os jogos de TempO que há na net, uma primeira vez em fevereiro, repetindo as jogadas na semana antes do ETOC.

A qualificatória de TempO viria a constituir um feito histórico, com dois portugueses apurados para a grande Final, um dos quais o João Pedro Valente, precisamente. Estava à espera? Onde residiu o segredo de tão excelente resultado?

J. P. V. - Realmente não estava à espera. Eu penso que a modalidade de TempO é para gente mais jovem, com boa capacidade para ver e analizar o mapa de forma rápida, julgando eu que, sendo a primeira vez que fazia uma prova deste tipo, iria ter poucas hipóteses de vir a ser bem sucedido. O problema nao é tanto acertar, mas sobretudo a rapidez em acertar, que nesta modalidade é fundamental. De qualquer maneira o “segredo” é, sem dúvida, a grande experiência em ler mapas, conseguida depois de tantos anos a correr provas de Orientação. A prova começou mal para mim - provavelmente o choque da estreia na primeira estação foi grande -, o que me levou a dar um grito para dentro a caminho da segunda estação. E a partir daí as coisas foram bastante melhor.

Quer falar-nos um pouco daquilo que foi, depois, a Final, mas também dos dois dias de competição de PreO?

J. P. V. - Na Final, as coisas não correram como teria desejado. Pensava eu que, já com a experiência de uma prova (risos), podería corrigir alguns dos erros da qualificação, nomeadamente o stress da primeira estação e talvez conseguir um resultado melhor. Mas desta vez estava mais nervoso ainda, também cometi o mesmo erro estúpido no primeiro ponto da primeira estação, mas desta vez não recuperei tão bem. Sobretudo houve uma estação na qual fiz um erro na análise do mapa, o que levou a que falhasse quatro pontos só aí e estragasse o resultado. Apesar disto, devo sentir-me satisfeito com a minha prestação no TempO, porque ir à Final foi um feito importante para mim e para o Nuno.

Na modalidade de PreO, estava à espera de bastante melhor. Acho que esta vertente se adapta melhor às minhas condições, mas as coisas não correram muito bem, fundamentalmente por falta de experiência. A minha análise leva-me a admitir que o proceso de aprendizagem não é linear, antes tem altos e baixos. Temos de incorporar novas formas de analizar os pontos e saber avaliá-las sobretudo quando dão respostas discordantes e isto, que será positivo a longo prazo, pode dar resultados menos bons a curto prazo e acho que foi algo deste género que sucedeu comigo. Dos seis pontos que falhei na soma dos dois dias, penso que quatro deles (e também a penalização por tempo) teriam sido facilmente corrigidos se algumas ideais estivessem mais assentes na minha cabeça e assim já teria tido um resultado final muito bom. Também é preciso estar consciente da importância dos pontos cronometrados, uma vez que, com tantos empates em respostas certas, o resultado pode facilmente variar vinte posições em função das prestações nestes pontos.

Que balanço retira destes quatro dias de competição ao mais alto nível?

J. P. V. - O balanço é óptimo, obviamente. Não só dupliquei toda a minha experiência prévia em provas de Orientação de Precisão, como, ao estar imerso no seio da equipa, em que se analizavam todos os detalhes, a experiência foi ainda mais proveitosa.

Que avaliação faz do nível competitivo, técnico e organizativo do ETOC 2014?

J. P. V. - Acho que o ETOC a nivel organizativo correu muito bem, numa modalidade que rara vez foge à polémica num ou noutro ponto. Desta vez não houve nenhum ponto anulado o que é muito significativo em relação ao trabalho da equipa organizativa. Por outro lado, acho que a modalidade precisa de incorporar meios electrónicos de picotagem para evitar as grandes esperas na divulgação dos resultados. Esperemos que a Federação Internacional de Orientação avance depressa nesta questão.

Entretanto, ainda com a “mão quente”, seguiu para Antequera onde acabou por se sagrar Campeão Nacional de Espanha 2014. Pedia-lhe que falasse um pouco dessa prova e daquilo que representa para si este título.

J. P. V. - A prova de Antequera foi concebida como o pontapé de saída para a Orientação de Precisão em Espanha. Já tinha havido outro Campeonato há dois anos, mas não teve continuidade. Agora há na FEDO um responsável empenhado em puxar pela modalidade e acho que desta vez as coisas irão em frente. Talvez por isto, a prova era bastante simples, pensada para que os 100 participantes não tivessem grandes dificuldades e gostassem da experiência. Acho que isto foi conseguido. Da prova gostei da rapidez com que consegui responder os pontos cronometrados (a experiência do ETOC notou-se) e sobretudo de partilhar o podio com o meu filho. Divertido foi quando o speaker anunciou no pódio da Precisão os irmãos Valente (risos).

Do seu ponto de vista, que significado poderá ter o ETOC para a Orientação de Precisão portuguesa?

J. P. V. - Acho que cada vez há mais orientistas interessados em Portugal na Precisão, está a deixar de ser aquela coisa estranha que os orientistas acham piada ver os outros fazer. Julgo que se deve trabalhar no sentido de trazer mais orientistas de Elite à Orientação de Precisão, levá-los a experimentar, porque acho que a maioria gostaria, sobretudo da vertente de TempO.

A finalizar, quais os seus objetivos para aquilo que temos ainda de temporada 2014 pela frente?

J. P. V. - O objetivo seguinte é a qualificação para o WTOC. Será aí que vou pôr toda a minha energia, uma vez que ainda não sei se poderei estar presente no Campeonato Nacional. E, obviamente, também continuar a angariar experiência, participando em todas as provas que puder.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

sábado, 12 de abril de 2014

Campeonato da Europa de Orientação de Precisão 2014: Tudo a postos!



Integrou a seleção nacional presente nos Campeonatos do Mundo de Orientação de Precisão 2013, naquela que foi a sua estreia numa competição desta natureza. A responsabilidade técnica ao nível da cartografia e do traçado de percursos dos Campeonatos da Europa que agora se iniciam implicou, porém, que em Vuokatti tivesse a necessidade de assumir a dupla figura de competidor e de observador. No dia em que “começam a aquecer os motores” com a realização do Model Event, Alexandre Reis abre-nos as portas dum sonho tornado realidade, ajudando-nos a vislumbrar – ainda que apenas ao de leve - os recantos deste pequeno grande mundo chamado ETOC 2014.


Quando olha para a sua participação no Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão WTOC 2013, quais as imagens que lhe surgem na ideia de forma mais clara?

Alexandre Reis (A. R.) - A primeira grande imagem tem a ver com a própria participação em si. Estive presente num Campeonato do Mundo duma modalidade que gosto muito mas numa das suas disciplinas que, até então – e não tenho qualquer problema em assumi-lo –, nunca me tinha despertado interesse. Fui aos Campeonatos do Mundo quase por obrigação e acabei por gostar muito. Depois há esse olhar muito mais refinado sobre a cartografia que é algo que passa quase despercebido a quem faz Orientação Pedestre. Daí eu ter sido, em certa medida, desleixado face ao necessário rigor na leitura do mapa e na interpretação do terreno, o que acabou por se refletir no meu desempenho. Finalmente, há a questão dos atletas paralímpicos e o desmistificar dessa ideia que a Orientação de Precisão é só para pessoas com mobilidade reduzida. Neste aspeto, aquilo que mais me agradou foi perceber que competimos realmente em pé de igualdade e não foi por se deslocar em cadeira de rodas que este ou aquele atleta teve mais dificuldade em resolver os problemas. Isto foi dum grande ensinamento para mim, já que esta questão da participação em pé de igualdade só é real se devidamente salvaguardada pelo traçador de percursos.

A sua presença em Vuokatti não teve apenas a ver com a competição...

A. R. - Sim, é verdade. Não posso dissociar a minha participação em Vuokatti daquela que era a minha missão de observação na qualidade de futuro responsável pela cartografia e percursos do Campeonato da Europa 2014. Aliás, se não fosse assim, nunca teria participado nestes Mundiais. Mas porque foi assim - e porque não gosto de entrar nas coisas de ânimo leve - tentei perceber a mecânica desta disciplina e dediquei-me de corpo e alma aos Campeonatos. Devo confessar que não fiquei satisfeito com o resultado – apesar de esta ter sido a minha estreia e de não dominar minimamente a mecânica do TrailO, julgo que poderia ter feito melhor – mas deu para aprender com os erros. Se tudo tivesse corrido muito bem, talvez os pequenos pormenores tivessem passado despercebidos e a minha presença não tivesse sido tão proveitosa.

Erros esses - e rasteiras, como aquelas das pedras no primeiro dia (risos) - que vai agora tentar passar aos competidores no ETOC (!?) .

A. R. - Não foi só a pedra, foi também a casa e o poço. Caí nas três rasteiras... (risos). Fiquei surpreendido com esse tipo de problemas lá na Finlândia, mas não, não é essa a filosofia deste ETOC, sobretudo porque os dois Supervisores Internacionais [Knut Ovesen e Ola Wiksell] não são apologistas desse tipo de problemas. Confesso que ainda tentei avançar com exemplos destes em duas ou três situações, mas não iremos por aí. E não me peça para adiantar muito mais do que isto porque não posso (risos).

Quais os passos mais importantes desta sua caminhada como responsável técnico do ETOC 2014?

A. R. - Num primeiro momento, fui abordado pelo Presidente da Federação Portuguesa de Orientação, Augusto Almeida, no sentido de saber se eu estarei disponível para assumir a cartografia e o traçado de percursos do ETOC, no caso de vir a ser necessário. É claro que se me perguntasse se estaria interessado, teria provavelmente dito que não. Mas como “apenas” pretendeu saber se estaria disponível e como disponibilidade pressupõe ajuda, percebi que ele estaria, eventualmente, com alguma dificuldade em encontrar alguém, pelo que me disponibilizei para ajudar. Fiz, contudo, questão de vincar a minha total inexperiência na disciplina, embora sabendo que não nascemos ensinados em nada. Iria ter, certamente, muito trabalho pela frente, mas decidi aceitar o desafio de levar por diante o projeto. A minha participação no Campeonato do Mundo surge precisamente desta necessidade de aprofundar conhecimentos. Depois da vinda da Finlândia, começou então uma fase intensiva de trabalho de campo, durante a qual tive a felicidade de ter cá, por três ou quatro vezes, a presença dos Supervisores. Foram dias e dias a palmilhar o terreno, a tirar e a pôr balizas, a ver dum lado e do outro, a corrigir aqui e a eliminar acolá... Fizémos um trabalho constante, um trabalho de equipa, pelo que neste momento não seria justo aceitar o exclusivo de ter sido eu o traçador do Campeonato da Europa. As ideias partiram sempre de mim, mas a relação foi de total interajuda e a participação deles acabou por ser fundamental na melhoria das ideias, até chegarmos a um produto final de qualidade, assim o dirão os atletas. A última fase, considerada a mais simples, teve a ver com o TempO e realmente os desafios são interessantes e num terreno muito agradável.

Na altura de planear os pontos, em que medida é que ter assinado também a cartografia foi importante?

A. R. - Diria que facilita muito. Quer queiramos, quer não, cartógrafo e traçador de percursos têm sempre um olhar crítico sobre o trabalho um do outro. Se eu vou para o terreno, o meu olhar sobre os erros num mapa feito por mim ou por outra pessoa é um olhar necessariamente diferente. Resumidamente, quando somos, em simultâneo, cartógrafos e traçadores de percursos, conseguimos ser mais pró-ativos do que se formos apenas traçadores. Este “dois em um”, esta possibilidade de dar “mais um toquezinho” na cartografia, acaba por ser fundamental em determinadas circunstâncias.

Sem pretender que levante em demasia a “ponta do véu”, que tipo de terrenos são estes onde irão decorrer os Campeonatos da Europa?

A. R. - O terreno tem um relevo-padrão mais ou menos constante. Apenas poderei dizer que será o relevo, juntamente com a vegetação, a servir de base aos percursos. Em todo o caso, o Model Event será bastante representativo do tipo de terreno e vegetação que se irá encontrar e traduzirá aquilo que irá ocorrer no decurso da competição.

Numa altura em que a contagem decrescente decorre a uma rápida velocidade, há algo que o aflija ou assuste?

A. R. - Eu estou confiante, mas é óbvio que quem desenha mapas ou traça percursos está sempre “com o coração nas mãos” até à chegada do último atleta. Aliás, até à chegada dos primeiros (!)... se o primeiro e o segundo chegarem e não disserem nada, nós já começamos a descarregar um bocadinho a pressão (risos). No entanto, salvo uma intervenção externa em pontos vitais, do género lavrar um terreno ou cortar uma árvore, não creio que haja algo que me aflija ou assuste. Os pontos são pacíficos. Oferecer problemas, sim, mas problemas com uma resolução segura e que não ofereçam dúvidas, é essa a nossa filosofia. E isto deixa-me confiante.

É talvez uma questão algo abstrata mas não hesito em tentar colher a sua opinião: A Orientação de Precisão em Portugal será a mesma depois do ETOC?

A. R. - Para mim não é fácil fazer o antes, já que a minha participação em provas de Orientação de Precisão antes do Mundial de 2013 é nula e depois disso tenho apenas a participação em Gouveia, há cerca de um mês. Contudo, após o que me foi dado ver no POM e por aquilo que vou ouvindo, acho que as coisas estão a mudar. Após uma ou duas experiências no estrangeiro, percebe-se que o intercâmbio de ideias vai começando a criar novas exigências e o ETOC deverá constituir mais um passo em frente – e um passo significativo (!) – em todo este processo. O grande problema em Portugal, até há bem pouco tempo, teve a ver com a subjetividade. Os atletas da Pedestre, por exemplo, apesar de serem muito “generalistas” a navegar, não gostam de subjetividade. A partir do momento em que deixamos de ter subjetividade e passamos a ter coisas exatas, rigorosas, penso que o gosto por esta disciplina vai crescer e o número de praticantes irá aumentar.

A terminar, qual o seu maior desejo?

A. R. - É óbvio que todos gostamos de ouvir palavras sinmpáticas mas, no final, se não disserem mal já fico contente (risos). Agora mais a sério: O meu maior desejo é... são dois! Um é que os atletas saiam de Portugal satisfeitos com a competição e outro é que este evento seja mais um contributo para a imagem de Portugal como organizador de eventos de excelência, mesmo numa disciplina que está a dar os primeiros passos.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Søren Saxtorph: "Estou à espera de bons mapas"



Chega hoje ao fim um conjunto de dez entrevistas nas quais, pela voz de alguns dos vultos maiores da Orientação de Precisão a nível mundial, procurámos fazer uma antevisão do ETOC. Depois de John Kewley, Marit Wiksell, Kreso Kerestes, Ivo Tisljar, Hana Dolezalova, Pinja Mäkinen, Remo Madella, Agata Ludwiczak e Martin Jullum, chega agora a vez deo dinamarquês Søren Saxtorph nos deixar o seu testemunho.


O ETOC está já aí e eu gostaria de começar por lhe perguntar o que tem feito desde o Verão e os Mundiais de Vuokatti.

Søren Saxtorph (S. S.) - Desde os últimos Campeonatos do Mundo estive por três vezes na Suécia e no Nordic Match, na Finlândia. O único resultado que me lembro foi nos Campeonatos de TempO da Suécia, tendo ficado em 9º lugar mas onde apenas os oito primeiros passavam à final – enfim, eu não sou sueco, logo também não poderia ter ganho :-) Não fui muito rápido, apesar dos poucos erros.

Sente-se “confortável” com os Campeonatos tão cedo esta temporada?

S. S. - Não me sinto preparado para os Campeonatos, mas estou à espera de bons mapas, como aliás penso que tem acontecido nos Campeonatos dos últimos anos. Na verdade não espero grandes resultados – como sempre acontece, aliás – porque estou dependente duma cadeira de rodas e são muitos os fatores que podem condicionar a competição e a concentração, nomeadamente as condições do trilho e a visibilidade a partir dum ponto baixo.

Há um par de anos atrás, a Orientação de Precisão era algo novo em Portugal e agora cá estamos nós, nas vésperas de organizarmos os Campeonatos da Europa. Gostava de ouvir os seus comentários a este propósito.

S. S. - É muito entusiasmante poder ir a Portugal, até porque nunca estive aí antes. E é realmente fantástico que o vosso País tenha aceitado o desafio de organizar o ETOC.

Que tipo de evento espera?

S. S. - Estive a ver os mapas antigos e parece que vamos ter de observar de cima para baixo, o que se torna por vezes difícil para quem está numa posição baixa. Prefiro olhar para cima. Mas também sei que o Supervisor (o Knut Ovesen, tanto quanto julgo saber), é extremamente correto e rigoroso nestas circunstâncias. Espero, portanto, boas e justas provas.

Consegue indicar os grandes candidatos aos títulos europeus?

S. S. - Na Classe Paralímpica, espero outros, que não os Suecos, a conquistarem uma medalha. Michael Johansson parece ser o grande favorito, na minha opinião. Eu gosto dos Suecos, mas para termos uma cerimónia de entrega de prémios mais colorida eu espero que haja atletas doutros países no pódio. Quanto à Classe Aberta e ao TempO, penso que o Martin Jullum conseguirá, pelo menos, algumas medalhas.

Qual o grande objetivo desta temporada? 2014 será o seu “ano de ouro”?

S. S. - As minhas únicas expectativas este ano não estão nas medalhas, uma vez que também teremos os Campeonatos da Europa no Sul do continente. Mas espero dar o meu melhor e que a Dinamarca conquiste algumas medalhas.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Martin Jullum: "Estou muito confiante na possibilidade de termos em Portugal um grande evento"



A estreia de Martin Jullum na alta roda da Orientação de Precisão teve lugar em Miskolc, no decorrer dos Mundiais de 2009. Desde essa altura, habituámo-nos a vê-lo nos lugares cimeiros das tabelas classificativas em Europeus e Mundiais. O atleta norueguês é precisamente o nosso convidado de hoje e deixa-nos as suas impressões em jeito de antevisão aos Campeonatos da Europa de Orientação de Precisão que arrancam já amanhã, em Palmela.


O que tem feito desde os Mundiais da Finlândia?

Martin Jullum (M. J.) - Após uma prestação desconsoladora em Vuokatti, onde acabei por me ver perdido naquilo que foi o estilo do traçador e senti como um desperdício de tempo todo o trabalho prévio de preparação técnica, precisava mesmo de me afastar. Regressei à competição após uma boa pausa no Verão e deu para acabar bem a temporada, naquilo que teria sido um ano em grande não fosse esta “nódoa” dos Mundiais. Para além disso, gastei uma quantidade imensa de horas nos meus estudos universitários.

Não lhe soa estranho o nome de Portugal como organizador do ETOC 2014?

M. J. - De maneira nenhuma. Eu sei que os portugueses estão muito empenhados em aprender e possuem excelentes terrenos para a prática da Orientação de Precisão. Também sei que levam o trabalho organizativo muito a sério, o que acaba por ser, talvez, o mais importante. Na minha opinião, o tempo empregue no desenho dos percursos e na organização é a chave para uma boa competição e, na verdade, estou muito confiante na possibilidade de termos em Portugal um grande evento.

É a primeira vez que vem a Portugal? Que conhecimento tem deste país?

M. J. - Sim, será a primeira vez no Continente. Sei que Portugal é um “pequeno irmão” da Espanha e que estão habituados a organizar excelentes eventos durante a temporada de Inverno.

Como é que se preparou para esta competição?

M. J. - Não me concentrei muito no estilo do traçador como fiz nos Mundiais de Vuokatti, por um lado porque sei muito pouco acerca do traçador e também porque “estraguei” tudo em Vuokatti visto que o traçador decidiu mudar de estilo com vista aos Campeonatos do Mundo. Os percursos dos Campeonatos, sejam eles Europeus ou Mundiais, são sempre algo de verdadeiramente especial e não podem sequer ser comparados com outros de eventos regulares, por maior que seja a sua qualidade. Também os mapas da área [de Vale de Barris] que foram disponibilizados são tão antigos que não tem grande interesse o seu estudo em detalhe. Durante o Inverno estive envolvido no planeamento dos percursos para o Norwegian Spring TrailO, que terá lugar na semana imediatamente a seguir ao ETOC [aviso: prometo eventos de altíssima qualidade e que podem ser consultados em http://norwegianspring.no/dok/2014/INVITATION_NORWEGIAN_SPRING_TRAILO_2014.pdf]. Nas últimas semanas treinei algumas técnicas que acredito possam ser importantes em Portugal e procurei apurar a forma de estar, pensar e trabalhar no decorrer das provas.

Que tipo de provas espera?

M. J. - Um misto entre os percursos dos Mundiais da Hungria e de França, com um “cheirinho” de Suécia no que respeita à mentalidade do traçado de percursos.

Consegue indicar os grandes candidatos aos títulos europeus?

M. J. - Penso que chegou a vez do Antti Rusanen, mas é pouco comum que o favorito venha a ser o vencedor...

PreO ou TempO?

M. J. - Acredito que as minhas possibilidades no tocante a uma medalha de ouro sejam maiores no PreO, ao passo que as hipóteses num lugar do pódio serão maiores no TempO. Penso na vitória no PreO como a vitória numa prova de Distância Longa – e aí está encontrado o Rei dos Campeonatos, aconteça o que acontecer. Quanto a vencer o TempO, é como vencer a prova de Sprint – o “soco” de adrenalina deve ser fantástico.

Pessoalmente, o que consideraria o resultado perfeito?

M. J. - Uma foto minha no lugar mais alto do pódio com a medalha de ouro à volta do pescoço.

Qual o grande objetivo da temporada?

M. J. - Conseguir boas prestações nas doze competições internacionais onde tenciono marcar presença. Tudo o mais será apenas treino. Se as coisas correrem como tenciono, as melhores prestações surgirão nos Campeonatos do Mundo, em Itália.

Quer fazer um voto para os Campeonatos da Europa ETOC 2014?

M. J. - Um mapa exato, com pontos de controlo justos e exigentes e onde não seja necessário adivinhar os limites do zero. E, claro, o resultado perfeito já referido atrás!


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Agata Ludwiczak: "O ETOC será a minha próxima lição importante"



Contra ventos e marés, a Polónia teima em manter viva a chama do TrailO. Agata Ludwiczak é um dos rostos mais visíveis da disciplina naquele País de Leste e a única representante da Polónia nos Europeus de Palmela. A poucos dias do início da competição, fomos ao seu encontro e auscultamos as suas expectativas e ambições.


É bom vê-la de regresso às grandes competições. Foi difícil conseguir o apuramento para o ETOC em Portugal?

Agata Ludwiczak (A. L.) - Não foi fácil. Não temos muitos competidores na Polónia e esta não é uma disciplina particularmente popular entre nós, pelo que não tive grandes problemas em “carimbar o passaporte”. Mas tive de organizar a parte económica e todas as necessidades para mim e para os meus acompanhantes e, aí sim, não foi nada fácil :)

O que sentiu ao saber que os Europeus de 2014 iriam ser disputados em Portugal? Soou-lhe estranho?

A. L. - Estranho? Porquê estranho? Bem sei que não há em Portugal um grande historial no tocante ao TrailO, mas acredito na vossa capacidade organizativa. Foi uma decisão corajosa. Desejo sorte a Portugal e espero uma grande competição.

É a primeira vez que vem a Portugal? O que é que sabe deste país?

A. L. - É a minha primeira vez em Portugal, sim, e estou bastante ansiosa. Procurei saber algumas coisas acerca deste país e tenho uma enorme curiosidade. Irei passar alguns dias no Porto, depois em Lisboa, espero visitar o Cabo da Roca e alguns outros locais antes do ETOC. E trago comigo uma pequena lista com aquilo que devo “absolutamente comer” :))) *

Como é que se preparou para a competição?

A. L. - Participei nalgumas provas locais e fiz treinos online de TempO.

Que tipo de evento espera?

A. L. - Penso que será um excelente evento com excelentes participantes, percursos difíceis, terrenos interessantes e bom tempo (tenho visto diariamente as previsões meteorológicas e fico muito contente com o anúncio de temperaturas a rondar os 22º – 24º C).

Consegue apontar os grandes candidatos aos títulos Europeus?

A. L. - Estou a torcer pelos nossos vizinhos e amigos Checos e (com um agradecimento muito especial) pelo Jahn Petersen, da Dinamarca.

PreO ou TempO?

A. L. - Genericamente, estou ainda a aprender, pelo que o ETOC será a minha próxima lição importante. Devido à minha deficiência, preciso de apoio com os mapas durante o TempO e isso deixa-me bastante nervosa, não consigo focar-me como desejaria... O PreO é mais fácil para mim, tenho mais tempo para tomar decisões.

Qual o grande objetivo da temporada?

A. L. - Manter a minha posição no ranking da Polónia e conseguir alcançar um bom resultado no ETOC.

Quer deixar um voto para o Campeonato da Europa?

A. L. - Exclusivamente para os organizadores: boa sorte!


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

* O Orientovar acredita que uma das especialidades inscritas na “short list” é, no Porto, a incontornável “Francesinha”

terça-feira, 8 de abril de 2014

Remo Madella: "O TempO é o único caminho"



Remo Madella é uma das personalidades mais respeitadas no mundo da Orientação de Precisão. Embora aparentemente insignificante, a sua prestação como traçador do percurso de PreO do Portugal O' Meeting 2012 acabou por se revelar decisiva na evolução desta disciplina no nosso país. Dentro de dias, Madella estará de novo em Portugal para competir nos Campeonatos da Europa e escutamos hoje as suas palavras.


Não é a primeira vez que está em Portugal este ano. Gostava de ouvir a sua opinião acerca da vitória na etapa de PreO do Portugal O' Meeting, no início do passado mês de Março?

Remo Madella (R. M.) - A minha presença no POM não foi, na verdade, pensada como fazendo parte da preparação para o ETOC. Encontrava-me no meio dumas fantásticas férias que incluiram Orientação Pedestre e umas boas pedaladas de bicicleta e foi-me dada a oportunidade de apreciar um dia de TrailO... então, aproveitei. No POM não tive quaisquer preocupações quanto ao estudo do terreno, dos mapas ou do traçado de percursos com vista ao ETOC, até porque em Palmela tudo será bastante diferente. E assim, procurei apenas divertir-me.

Tendo sido o responsável pelo traçado de percursos do POM 2012, acabou por entrar para a história da Orientação de Precisão em Portugal. Consegue notar algumas diferenças entre Viseu, em 2012, e o evento de Gouveia?

R. M. - Não é fácil encontrar semelhanças entre uma e outra prova porque a minha participação foi distinta (organizador em 2012 e competidor em 2014). Mas penso que posso dizer que o terreno foi muito melhor em 2014 (com aquelas rochas impressionantes e algumas áreas com detalhes interessantes), embora a informação previamente à prova fosse melhor em 2012 :-). Há contudo, seguramente, algo comum às duas competições: um mapa muito bom, no qual se pode confiar perfeitamente, e que em ambos os casos teve a assinatura de Tiago Aires & Raquel Costa.

O que sentiu ao saber que Portugal iria organizar o Campeonato da Europa de Orientação de Precisão em 2014?

R. M. - Penso que senti o quão grande era o desafio para Portugal, sobretudo não tendo qualquer experiência na alta roda do TrailO... todavia, com empenho, tudo se consegue.

Como é que se preparou para esta competição?

R. M. - Procurei marcar presença no maior número possível de provas neste curto início de temporada (a etapa do POM, duas etapas em Lipica e duas etapas em Milão) e tentei usar a minha experiência e o uso diário dos mapas. Acima de tudo, espero ter aprendido “mentalmente” com os erros do passado. Também tenho uma nova atitude (aprendi algo :-) e espero que isso me seja útil no decorrer das competições.

Que tipo de provas espera?

R. M. - Espero uma competição muito tática. Não temos qualquer tipo de conhecimento quanto ao estilo do traçador de percursos e da própria cartografia; está toda a gente à espera do Model Event para se situar.

Pode indicar os grandes candidatos aos títulos europeus?

R. M. - Penso que é muito claro apontar os grandes candidatos, sobretudo para mim que sou um grande adepto dos competidores nórdicos. No TempO: Pinja, Antti, Lauri, Marit, MartinJ. No PreO: os mesmos que no TempO e ainda outros suecos (Stig, Jens, Martin, Lennhart, William, Erik), finlandeses (Marko, Martti, Jari) e noruegueses (Lars Jacob, Geir).

PreO ou TempO?

R. M. - Perdi o interesse no PreO, o TempO é o único caminho. 90% dos traçadores de percursos (e infelizmente alguns Supervisores) falham na oferta de provas justas e tudo pode acontecer ao nível dos resultados. Daí que o PreO esteja a perder valor como um desporto de competição. Há formas de promover competições justas mas os traçadores parecem ignorá-las. Em Itália, costumo dizer: “O TempO nunca mente”. Portanto, em definitivo, TempO!

No seu caso, o que consideraria um resultado perfeito?

R. M. - O resultado perfeito seria ficar satisfeito com as minhas respostas e apreciar a competição. Habitualmente, quando fico satisfeito, os bons resultados vêm por acréscimo. Em todo o caso, gostaria de me classificar entre os 15 primeiros no TempO (o terreno parece ser ao meu jeito, mas sei que as coisas nunca são fáceis e no último ETOC não cheguei sequer a classificar-me para a Final onde, depois, os 15 primeiros lugares foram facilmente ocupados só por finlandeses, suecos e noruegueses).

Qual o grande objetivo da temporada? Ser campeão do mundo no seu próprio país?

R. M. - De maneira nenhuma. Nem sequer sei se estarei presente em Itália em 2014 ou na Croácia em 2015. O meu único grande objetivo, de momento, é estar presente na Suécia em 2016, quando os títulos de Estafetas forem disputados pela primeira vez. Após vários anos de preparação para os grandes eventos, à espera dum elevado número de competidores e de grandes esforços no sentido de explicar aos traçadores como deveria ser uma prova justa, penso que falhei. Não consegui grandes resultados, pessoalmente, e ainda constato um número cada vez mais reduzido de provas de PreO onde possa admitir que haja justiça no resultado, especialmente provas ao nível dos Campeonatos do Mundo. Estou, por isso, numa altura de inverter o rumo, procurar descontrair-me e gozar o meu TrailO hoje e no futuro. Procurarei tirar o maior partido daquilo que é extra-competição, mantendo as expectativas em baixo e sem me preocupar muito com os resultados.

Gostaria de formular um desejo para os Campeonatos da Europa?

R. M. - O meu desejo, como sempre, é que o ETOC ofereça percursos justos e onde as respostas não sejam determinadas pelo fator sorte. Desejo igualmente boa sorte aos fantásticos rapazes e raparigas do TempO que lutarão pela medalha de ouro com a sua velocidade louca; adorava ser parte interessada deste jogo na grande final para os poder acompanhar de perto (tal como em Vuokatti e em Selkie no ano passado) e, claro, tentar alcançar a melhor posição possível.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido