sábado, 27 de dezembro de 2014

Orientação em BTT: Revista do Ano internacional


Dinamarca, Suécia e Polónia constituiram os três principais polos competitivos da Orientação em BTT na temporada que agora termina. Foi aí que a Elite mundial marcou presença massiva, foi aí que se concentraram os momentos das grandes decisões. De Birkerød a Białystok e Supraśl, um olhar sobre o que de melhor aconteceu em 2014, numa disciplina onde espectacularidade e emoção são faces duma mesma moeda.

Por Joaquim Margarido


Agregando os três maiores eventos internacionais da temporada, a Taça do Mundo de Orientação em BTT rumou pela primeira vez ever à Dinamarca, onde teve lugar a ronda inaugural desta edição 2014. Às gratas recordações dos Campeonatos da Europa e Campeonatos do Mundo de Juniores, aí disputados em 2009, à reconhecida qualidade organizativa e ao desafio dos terrenos em torno de Birkerød, juntava-se a natural ansiedade do início de cada temporada, com as primeiras pedaladas “a sério” a permitirem fazer um ponto da situação no tocante à preparação de Inverno e a merecerem a devida atenção em ajustes e correções. Expectativas ao rubro, pois!

Ao triunfarem na etapa de Sprint, o russo Anton Foliforov e a finlandesa Marika Hara abriram a temporada da melhor forma, estabelecendo na perfeição a ponte entre a conquista da Taça do Mundo overall 2013 e uma edição de 2014 a iniciar-se sob os melhores auspícios. A etapa de Distância Longa teve em dois atletas finlandeses - Pekka Niemi e Ingrid Stengård -, os grandes vencedores. Vitórias seguramente saborosas em ambos os casos, quer por ser a primeira de Niemi em etapas pontuáveis para a Taça do Mundo, quer por representar, para Stengard, o regresso ao lugar mais alto pódio de onde esteve afastada praticamente dois anos. Composta por Marika Hara, Pekka Niemi e Jussi Laurila, a Finlândia venceu a etapa de Estafeta Mista que encerrou a competição, impondo-se a uma França onde, a par de Gaëlle Barlet, despontam com enorme fulgor os jovens Cédric Beill e Baptiste Fuchs.

Mas a história desta primeira ronda da Taça do Mundo de Orientação em BTT 2014 não se faz apenas de vencedores. Nomes como os do noruguês Hans Jørgen Kvåle ou da britânica Emily Benham, das russas Svetlana Poverina e Olga Vinogradova ou do dinamarquês Erik Skovgaard Knudsen, entre muitos outros, merecem figurar numa segunda linha, a um pequeno passo do ouro. Com o avançar da temporada, uns viriam a confirmar o seu bom momento e a chegar mais alto. Outros nem tanto...


Um novo record de participantes

Já o mês de Julho caminhava para o final quando, duma assentada, 16.000 orientistas do mundo inteiro apontaram os caminhos do Norte da Europa. Só uma grande competição mundial como o O-Ringen tem tal poder e carisma, reforçados este ano pelo facto de se estar a comemorar o 50º aniversário do evento. Rivalizando com as suas “irmãs” da Pedestre e do TrailO, a Orientação em BTT figurou em lugar de destaque no Programa, sendo a primeira disciplina a “entrar em campo” e igualmente com três etapas pontuáveis para a Taça do Mundo. A par dos 124 atletas inscritos nas classes de Elite, a grande referência vai para os 644 participantes nos três dias de competição aberta, o que faz do O-Ringen MTBO 2014 a mais participada competição de sempre da história da Orientação em BTT mundial.

Vencendo as etapas de Distância Média e de Distância Longa, Anton Foliforov deu um passo de gigante rumo à revalidação da vitória na Taça do Mundo overall. A grande surpresa na competição masculina veio da Estónia, com Lauri Malsroos a bater de forma clara Hans Jørgen Kvåle, vencendo a etapa de Sprint e conquistando o seu primeiro triunfo ever na Taça do Mundo. Vencendo tudo o que havia para vencer, Emily Benham cotou-se como o denominador comum de todas as etapas do setor feminino. Por margens claras na Distância Média e na Distância Longa, por escassos três segundos sobre Ingrid Stengård no Sprint, os triunfos da atleta britânica transportaram-na à liderança da Taça do Mundo, transformando-a na principal favorita aos títulos mundiais, a cinco semanas da sua disputa.


O ano da Rússia

A Polónia foi palco, nos últimos dias de Agosto, da 12ª edição dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT. Com todos os focos apontados para Białystok e Supraśl, a competição daria a conhecer os novos campeões mundiais nas distâncias Média, Longa, Sprint e Estafetas, etapas todas elas pontuáveis para a Taça do Mundo.

Oferecendo, a título de “prólogo”, uma Estafeta de Sprint Mista que os russos Tatiana Repina e Ruslan Gritsan levaram de vencida, a competição “a sério” teria o mais emocionante desfecho da história dos Campeonatos do Mundo, com um épico Sprint a creditar Hans Jørgen Kvåle e Anton Foliforov com o mesmo tempo final e a atribuir, ex-aequo, a medalha de ouro. Depois das medalhas de prata em 2009 e 2011, Marika Hara conquistou o seu primeiro título mundial de Sprint, batendo por clara margem a jovem russa Tatiana Repina. Colocando quatro atletas masculinos e três femininos nas sete primeiras posições das respetivas tabelas, a Rússia mostrava-se firmemente decidida a vingar os resultados da passada temporada, na qual ficara afastada do ouro pela primeira vez desde 2004.

Esta ideia surgiu reforçada com a medalha de ouro de Ruslan Gritsan na prova de Distância Média, uma vitória que permitiu ao atleta russo recuperar um título que lhe fugia há nove anos (!) e que faz dele, a partir deste momento, o atleta masculino mais “dourado” da história dos Campeonatos do Mundo de Orientação em BTT, com seis medalhas de ouro individuais, ultrapassando em definitivo o australiano Adrian Jackson, cinco vezes Campeão do Mundo. No sector feminino, a sueca Cecilia Thomasson voltou a afirmar-se como uma das maiores especialistas mundiais femininas de Orientação sobre duas rodas, conquistando o título mundial de Distância Média após ter chegado à medalha de ouro na prova de Sprint dos Mundiais de 2013.

Mas foi na Distância Longa, a “prova-rainha” dos Campeonatos, que a Rússia se mostrou ao melhor nível, com Anton Foliforov a recuperar um título conquistado em 2010 e Olga Vinogradova a sagrar-se campeã do Mundo pela primeira vez na sua carreira. Vinogradova viria a estar de novo em lugar de destaque ao conquistar, juntamente com Tatiana Repina e Svetlana Poverina, o título mundial de Estafeta feminina, um feito apenas conseguido anteriormente pela Rússia no já distante ano de 2006. Com um último percurso demolidor, o bi-campeão mundial (Sprint e Distância Média) em 2013, Tõnis Erm, ofereceu à Estónia o seu primeiro ouro numa Estafeta em Campeonatos do Mundo, subindo ao lugar mais alto do pódio na companhia de Lauri Malsroos e Margus Hallik. A Finlândia quedou-se com a medalha de prata, tanto no setor masculino como no feminino,


Foliforov e Benham conquistam Taça do Mundo

O evento da Polónia permitiu, igualmente, conhecer os Campeões do Mundo 2014 nas categorias Master e Junior e recebeu mais uma edição da European MTB Orienteering Youth Cup. No tocante ao Campeonato do Mundo de Juniores, as vitórias dos suecos Kajsa Engstrom (Distância Média) e Oskar Sandberg (Sprint) somam-se ao ouro de Cecilia Thomasson e permitem afirmar a Suécia, em definitivo, como um dos países com maior força no panorama da Orientação em BTT mundial. Outra excelente performance coube ao neo-zelandês Tim Robertson, medalha de ouro na prova de Distância Média e medalha de prata na prova de Sprint, após ter-se sagrado, algumas semanas antes, Campeão do Mundo de Juniores de Sprint na vertente de... Pedestre! A checa Veronika Kubinova alcançou o título mundial de Distância Média, enquanto os títulos de Distância Longa couberam ao austríaco Andreas Waldmann e à finlandesa Ruska Saarela. Russia em masculinos e República Checa em femininos conquistaram os títulos de Estafeta, com Kubinova a cotar-se como a figura maior dos Campeonatos.

Os Campeonatos do Mundo permitiram encerrar em definitivo as contas da Taça do Mundo de Orientação em BTT 2014, com Anton Foliforov e Emily Benham a conseguirem segurar o primeiro lugar. Aquém das expectativas em termos de resultados, Emily Benham acabou por conquistar a medalha de bronze no Sprint e a medalha de prata Distância Média, resistindo estoicamente ao assédio de Marika Hara, vencedora da Taça do Mundo nas três temporadas anteriores. Triunfando em cinco das oito etapas individuais pontuáveis para a Taça do Mundo, Anton Foliforov foi, ao contrário do sucedido na temporada passada, um vencedor tranquilo, renovando uma conquista que premeia a regularidade ao mais alto nível.

Um número de pequeno países no contexto da Orientação em BTT mundial têm um ou outro nome muito forte – o Lituano Jonas Maiselis ou o português Davide Machado são apenas dois exemplos – e a ordem estabelecida começa a ser posta em causa. Os resultados já não são dominados em exclusivo por um grupo restrito de individualidades. As provas tornaram-se mais emocionantes, o desafio é maior e a imprevisibilidade dos resultados é total. A velocidade e as aptidões dos melhores atletas evolui de ano para ano. O futuro da Orientação em BTT é brilhante e promete.


Atenções viradas para o resto do Mundo

O primeiro embate em 2015 está marcado para Miskolc, na Hungria, nos três primeiros dias de Maio. Seguir-se-ão os Europeus em Portugal e os Mundiais na República Checa. Para 2016, a Federação Internacional de Orientação recebeu o maior número de candidaturas à organização das duas rondas da Taça do Mundo ainda em aberto – Portugal será palco dos Campeonatos do Mundo nesse ano -, naqueilo que constitui um record desde a criação do certame em 2010. Este número crescente de candidaturas permite não apenas ter um mais vasto leque de escolhas no que à variedade de terrenos diz respeito, mas igualmente em termos das regiões onde as provas poderão vir a ser disputadas. É possível virmos a assistir a uma ronda da Taça do Mundo nos Estados Unidos ou na África do Sul, na Indonésia ou no Brasil, nos próximos anos? O desenvolvimento da Orientação em BTT na Europa está consolidado e é agora tempo de fazer com que as grandes competições façam incidir a sua atenção sobre o resto do Mundo!

[Foto de Nigel Benham. Consulte o artigo original em http://www.orienteering.org/edocker/orienteering-world/2014/. Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação]

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