sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Mariana Moreira: "Acho que ninguém estava à espera de encontrar um terreno assim"



O ano de 2014 consagrou-a como a “rainha” da Orientação em Portugal, levando-a à conquista de quatro títulos nacionais e da Taça de Portugal. Pelo meio ficam as primeiras participações internacionais no escalão Elite e ainda a sua marca na mais importante prova do calendário regular nacional, assinando o percurso do terceiro dia do Portugal O' Meeting, um dos mais aclamados do ano entre a comunidade orientista mundial. Com Mariana Moreira traçamos hoje um balanço da época que agora chega ao fim.


É quase do senso comum pensar-se que quem assina um traçado de percursos do POM se arrisca a ganhar o “Percurso do Ano”. Essa hipótese passou-lhe pela cabeça?

Mariana Moreira (M. M.) - É verdade que nos últimos dois anos o POM foi o grande vencedor do “Percurso do Ano”, mas não foi de todo com esse principal objetivo que aceitei ser a traçadora de um dos dias do POM. Este ano pudemos observar muitos percursos de grande qualidade nos mais variadíssimos eventos em todo o mundo e sabia que era muito pouco provável o mesmo evento vencer pelo terceiro ano consecutivo. Ainda assim, acho que posso falar em nome do CPOC e dizer que saber que o Thierry Georgiou considerou que pare ele este terceiro dia do POM foi o melhor percurso do ano, ou que a Annika Billstam elegeu os terrenos de todos os dias do POM como os melhores em que correu em 2014, foi para nós um grande orgulho.


Ao traçar aquele percurso em particular, que objetivos tinha em mente?

M. M. - Como em todos os percursos que até hoje tracei (não foram assim tantos), o principal objetivo foi sem dúvida tentar criar o maior desafio possível para os atletas. Neste percurso em particular, a ideia foi tentar criar logo à partida um “choque inicial” com um percurso com muitos pontos e mudanças de direção naquela área inicial que de facto era muito, muito desafiante. Acho que ninguém estava à espera de encontrar um terreno assim quando no dia anterior, e mesmo ali ao lado, tinham corrido num “Arcozelo muito mais aberto e maioritariamente amarelo”.

Relativamente à descoberta do espaço, esta não foi minha. Já tínhamos decidido com bastante antecedência quem iriam ser os quatro traçadores das quatro etapas de floresta do POM mas só decidimos quem traçaria cada dia quando o desenho dos mapas já estava avançado. Fiquei então encarregue de traçar os percursos neste pedaço Oeste do mapa total do Arcozelo. Teve de haver uma grande articulação entre os traçadores das três últimas etapas, já que a parte final dos três dias era a mesma e obviamente não fazia sentido repetir pontos nem pernadas. Trabalhei então em conjunto com a Raquel Costa e o Tiago Aires (também cartógrafos do mapa) e chegámos às melhores soluções possíveis. Foram várias as versões criadas para os vários percursos, principalmente porque ao início a área do mapa deste terceiro dia era bastante mais limitada e ao longo do tempo fomos descobrindo zonas para onde expandir o mapa, e assim os percursos foram sendo mudados e adaptados.


Tem pena de não o ter corrido?

M. M. - Sinceramente, acho que no fundo acabei por desfrutar muito mais do mapa do que qualquer outra pessoa (com a exceção dos cartógrafos ,claro) já que foram muitas as horas que ali passei a escolher os locais dos pontos, a testar pernadas, a colocar e recolher estacas ou mesmo a fazer filmagens. É obviamente uma abordagem diferente e noutro contexto gostaria de ter tido o desafio de “correr a sério” neste mapa, mas neste caso considero que tive uma oportunidade diferente.


Os resultados deste terceiro dia foram ao encontro das suas expectativas?

M. M. - Abordando os resultados pelos tempos realizados - já que quando definimos as distâncias o fazemos com base nos tempos previstos dos vencedores -, posso dizer que os resultados foram os expectáveis. Falando de algumas prestações, no lado masculino não houve grandes surpresas mas no escalão feminino nunca esperei ver (e em tempo real pelo GPS) a Simone Niggli ou a Annika Billstam a perderem tanto tempo logo no início.


A Distância Média do WOC acabou por ser um vencedor justo?

M. M. - Penso que sim, considero que seria justo ganhar qualquer um dos que acabaram por ficar no top. Obviamente que um bom percurso de um Campeonato do Mundo numa votação pública teria grandes hipóteses de vencer. Como atleta tive o prazer de poder correr esta Distância Média e por experiência própria pude comprovar o quão especial e desafiante era.


Olhando para a temporada que agora termina, a Mariana quase fez um pleno inédito, falhando apenas o título nacional de Sprint. Como é que viu o seu desempenho ao longo da época? E em termos internacionais?

M. M. - A nível nacional foi sem dúvida uma das minhas melhores épocas, se não mesmo a melhor a nível dos resultados em si, tendo apenas faltado controlar um ponto no sprint (curiosamente este era já o único título que tinha vencido a nível individual sénior, em 2012). Mas infelizmente este aspeto também se deve um pouco ao facto da concorrência ser cada vez menor. A nível internacional estreei-me este ano em campeonatos internacionais a nível sénior mas não o fiz como gostaria. No Campeonato da Europa fiz duas boas qualificatórias mas depois falhei muito na prova em que tinha apostado mais, no Sprint em Palmela. Também no Campeonato do Mundo a minha principal aposta era o sprint e aqui voltei a falhar logo na qualificatória em Burano, tendo cometido um erro de 1’30 num ponto já perto do final, o que não me permitiu ser apurada para a final, que era o meu grande objetivo.


Bruno Nazário cedeu o lugar à frente da seleção a Hélder Ferreira. Qual a sua apreciação?

M. M. - Foi exatamente há dez épocas atrás que iniciei a minha “carreira internacional” no EYOC 2005 e fi-lo precisamente com o Bruno Nazário como selecionador dos jovens. Posso então considerar que foi ele um dos impulsionadores para eu hoje ainda “aqui andar”. Naturalmente que abandonar este projeto não deve ter sido uma decisão fácil e sinceramente tenho pena que tal tivesse de acontecer mas compreendo a decisão, ainda para mais depois de se estar dez anos dedicado a um projeto e o trabalho não ser “reconhecido”. Infelizmente não foi a primeira vez que um caso destes ocorreu, e as prioridades acabam por se alterar. Tivemos no início deste mês o primeiro estágio da seleção sénior com vista a preparar a época de 2015 e neste momento apenas posso desejar boa sorte ao Hélder.


Como avalia o atual estado da Orientação portuguesa?

M. M. - Se há poucos anos atrás achava que a modalidade estava a crescer, agora é fácil verificar precisamente o contrário (basta olhar para os números de participantes das últimas provas). Não estamos a conseguir cativar novos atletas e muitos dos que há três ou quatro épocas atrás eram “participantes regulares” estão a deixar de ter a capacidade, e em alguns casos mesmo a deixar de ter a vontade, de ir a grande parte dos eventos. Uma das razões poderá mesmo ser a crise geral que o país enfrenta mas isso não pode justificar tudo. Por exemplo, vemos cada vez mais as inscrições nas corridas de massas e nos trails a esgotarem, o que significa que as pessoas continuam a investir e mantêm a vontade de praticar atividade física ao ar livre.

A estratégia da Federação não esteve nestes últimos tempos, de facto, bem traçada, ou pelo menos não esteve a ser bem aplicada. Felizmente recentemente já se pôde observar uma maior preocupação quanto a este assunto e espero realmente que se tomem medidas e que a esta tendência e esta queda de participantes se altere.


O que faria para inverter a tendência negativa?

M. M. - Não é fácil apresentar medidas concretas e daí ser necessário o contributo de todos os interessados para que se possa chegar às melhores soluções. Em princípio a minha dissertação de mestrado recairá de certa forma sobre esta temática pelo que espero poder contribuir para melhorar o estado atual da modalidade.


Quais os seus objetivos em relação à próxima temporada?

M. M. - Ainda não defini concretamente os meus objetivos a nível de resultados mas certamente que passarão principalmente pelo sprint do WOC. A nível nacional espero ter novamente uma época regular, espero que o nível aumente (mais atletas a participar e a treinar) e, mais a curto prazo, espero ter boas prestações nas primeiras provas da época (POM e WRE’s).


Agora que estamos a chegar ao final do ano, quer deixar um voto para 2015?

M. M. - Apenas que em 2015 a orientação volte a crescer, que quem tem objetivos e trabalha para eles os possa alcançar e, acima de tudo, que sejam todos felizes de mapa na mão.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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