quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Saara Ocidental: Uma dura realidade que a Orientação ajuda a amenizar



O acampamento de refugiados saaráuis de Wilaya de Bojador foi palco, no início de novembro, do I Campeonato de Orientação do Saara Ocidental. Um evento que constitui um marco importante num projeto em crescimento, aqui apresentado com a preciosa ajuda de Alfonso Bustillo, o seu principal mentor e obreiro.


No âmbito do programa da Artifariti 2014 – Encontros Internacionais de Arte e Direitos Humanos do Saara Ocidental, teve lugar no passado dia 8 de novembro, no acampamento de refugiados de Wilaya de Bojador, o I Campeonato de Orientação do Saara Ocidental. Traçado muito simples, saída em massa por equipas e percurso livre, com 15 pontos de controlo, foi este o desafio lançado a 80 crianças saaráuis, às quais se juntou uma dezena de adultos de várias nacionalidades.

Nascido em Logroño em 1979, licenciado em Educação Física e Bombeiro de profissão, Alfonso Bustillo conheceu a Orientação há 16 anos. É ele o grande obreiro dum projeto que não se resume a mapas e balizas e que teve na vontade de contactar com a realidade dos acampamentos de refugiados na antiga colónia espanhola o seu ponto de partida. Mas esta demanda não se esgotava na observação e no conhecimento. Bustillo queria levar algo com ele, algo entendido como válido e que pudesse representar um património para o futuro: “Se fosse médico ou engenheiro, certamente levaria outras coisas; mas sou orientista e levei-lhes um pouco daquilo que sei”, comenta. Para a preparação da viagem - uma iniciativa da Associação de Amigos do Saara, de Sevilha, com vista à participação na Artifariti 2014 -, Alfonso Bustillo contou com o apoio do seu clube, o Club Riojano de Orientación en la Naturaleza, conseguindo angariar meios que lhe permitiram oferecer 20 balizas, 20 bússolas, alguns livros e material desportivo e ainda algum dinheiro que foi doado a instituições locais.


Objetivos cumpridos

Ao integrar o programa da Artifariti 2014, Bustillo entendeu que a prova deveria ter, não apenas um caráter lúdico – uma mescla de arte e desporto -, mas reivindicativo, ao mesmo tempo. Daí ter idealizado um percurso com um traçado singular, como o próprio explica: “As equipas deviam encontrar 15 balizas, cada uma delas com o nome duma cidade saaráui ou cidade amiga do povo saaráui; a ideia era a de simular os nómadas saaráuis deslocando-se livremente no seu país, de cidade em cidade, sem muros a dividi-los nem minas antipessoais a ameaçá-los.” No final, os objetivos foram plenamente alcançados, dando a conhecer a Orientação aos professores de Educação Física, legando para a posteridade um mapa e difundindo a dura realidade do povo saaráui, em particular junto dos amantes da Orientação.

Mas este foi apenas o início do projeto e Bustillo sonha em regressar no próximo ano: “Os contactos mantidos com as autoridades desportivas locais e com professores e monitores dos Escuteiros de Bojador permitiram-me perceber as peculiaridades locais e penso estar em condições de puder desenvolver um trabalho mais específico e melhor adaptado ao projeto”, diz. Trabalhar na formação de professores que se mostrem interessados e terminar o desenho do mapa de todo o acampamento (num total de 10 km2), são os próximos passos. Com muito trabalho a fazer, conhecimentos para partilhar e experiências por viver, lugar a um desejo: “Gostaria que se organizasse anualmente uma prova de Orientação, do género da Maratona do Saara, que animasse a vida desportiva dos acampamentos e que servisse para mostrar ao mundo a injusta situação do povo saaráui”, diz Alfonso Bustillo.

A terminar, um agradecimento muito especial a Mohamed Bougleida, Diretor-Geral dos Desportos da República Árabe Saaráui Democrática, aos diversos professores e monitores dos Escuteiros de Bojador, a todo o pessoal que trabalha na Escola de Arte de Bojador e a alguns artistas participantes na Artifariti 2014, bem como ao acolhimento do povo saaráui e a Suhaya y Esgaller, a “família” de Alfonso Bustillo durante a sua estadia africana. E ainda uma imagem que tão cedo não se apagará da memória de Bustillo, “a da saída em massa com dezenas de meninos e meninas saaráuis, o futuro deste povo, correndo - quais nómadas! - livre e despreocupadamente numa terra que é sua.”

[Foto: Alfonso Bustillo / facebook.com/orientacron]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

1 comentário:

Alfonso Bustillo disse...

Gracias Joaquim. Con mis mejores deseos de paz para el pueblo marroquí y paz y libertad para el pueblo saharaui.