sábado, 22 de novembro de 2014

Orientação na Costa Rica: Uma bússola no paraíso



Na rubrica Norte Sul Este Oeste, viajamos este mês até à Costa Rica, ao encontro das duas Associações de Orientação existentes atualmente no País. Enquanto se aguarda a criação duma Federação nacional, percebemos os passos que vão sendo dados com vista a uma maior divulgação e prática da modalidade.

Por Joaquim Margarido


“Um espaço e um tempo onde novos e menos novos, de qualquer género, independentemente das suas competências físicas, praticam um mesmo desporto.” Era esta a percepção de Edwin Coto Vega, Coordenador do Curso de Educação Física da Sede do Atlântico da Universidade de Costa Rica, a propósito daquele a quem chamam “o desporto da floresta”. A 8.500 km de casa, em Espanha, os olhos abertos de espanto, a emoção à flor da pele, Edwin Vega tivera a oportunidade de vivenciar um evento de Orientação “a sério”. Aquilo que apenas concebera em teoria revelara-se em todo o seu esplendor e logo um milhão de ideias lhe fervilharam no cérebro, fazendo com que o grande sonho, o de implementar solidamente a modalidade na Costa Rica, pudesse estar a um passo de se materializar.

Edwin Vega não terá sido o único a acalentar este sonho. Com ele – e mesmo antes dele (!) - outros haviam pesado prós e contras, percebendo que este era um desafio tudo menos fácil. Sobretudo porque não há na Orientação o “imediatismo” que se reconhece noutros desportos, é uma modalidade que vive dessa ferramenta fundamental que são os mapas, requer terrenos adequados à sua prática, implica uma aprendizagem complexa e exigente. Por outro lado, tal como na generalidade dos países da América Latina, também aqui o Futebol leva o povo à loucura e os restantes desportos vivem debaixo deste “sufoco”, tendo pouca ou nenhuma expressão. Mas talvez a realidade costa-riquenha pudesse jogar a seu favor. O país apresenta uma das mais elevadas taxas de alfabetização de toda a América Latina, o empenho na defesa do meio ambiente – a Costa Rica ocupa o 5º lugar a nível mundial em matéria de performance ambiental – constitui, desde os anos 70 do século passado, uma verdadeira “causa nacional” e o costa-riquenho é, na sua essência, uma pessoa feliz (o mais recente relatório da New Economics Foundation coloca mesmo a Costa Rica na liderança do ranking dos países mais felizes do mundo). Era tempo de avançar!


O valor pedagógico da Orientação

Edwin Coto Vega merece um lugar de destaque na história da Orientação em Costa Rica por vários motivos. Para citar apenas um, foi por seu intermédio que a Sede do Atlântico da Universidade de Costa Rica acolheu, em 2007, um técnico espanhol que ministrou um curso introdutório à modalidade. Já anteriormente tinham sido feitas algumas tentativas para implementar a modalidade no País – é possível encontrar registos dum evento em 2003 e da colaboração regular entre o clube espanhol ORCA e a Universidade de Costa Rica a partir de 2005 -, mas há neste Curso de 2007 uma particularidade. Entre os formandos encontra-se Yeimi Jiménez Oviedo, atualmente com 36 anos, docente na Universidade de Costa Rica e promotora desportiva e recreativa naquela instituição. Ela revelar-se-á uma peça fundamental num processo em fase de crescimento, como veremos já de seguida.

Não se pode dizer que a Orientação se enraizou na Costa Rica desde a primeira hora. Foi semente que, após lançada, não germinou de forma espontânea e exuberante como sucede com os exemplares da flora deste País. O grande e decisivo salto ocorrerá apenas em 2011, na sequência do aparecimento do Curso de Ciências do Movimento Humano. As novas áreas de aprendizagem criadas são alvo duma nova atenção e dum maior aprofundamento. Ministrada exclusivamente em Turrialba, devido às excelentes condições naturais envolventes, a cadeira de Meio Natural inclui a Orientação no seu programa curricular, uma vez que foi unanimemente reconhecido o seu valor pedagógico, assente na versatilidade da modalidade na sua relação com a natureza e na bondade de poder adaptar-se a todas as idades de forma integrada. Esta situação vai obrigar Yeimi Oviedo a retomar a Orientação como assunto fulcral da sua atenção e, para tal, entra em contacto com a Federação Espanhola de Orientação. A base de trabalho daí resultante terá em José Angel Nieto Poblete, Vice-Presidente da FEDO e responsável pela área de Relações Internacionais, um interlocutor privilegiado.


Um desporto com pés e cabeça

Da primeira visita de José Angel Nieto Poblete a Costa Rica, em Junho de 2011, resulta em Yiemi Oviedo a certeza de que esta é uma modalidade que permite a alta competição em simultâneo com a prática recreativa e que, sobretudo, coloca as pessoas num mesmo espaço a praticar um mesmo desporto, de forma integrada, independentemente do género, idade ou condição física. Certeza reforçada quando, em Setembro desse mesmo ano, assiste em Petrer (Espanha) à Taça dos Países Latinos, juntamente com Francisco Solano, outro professor da Universidade de Costa Rica. “Foi maravilhoso ver as crianças realizarem os percursos com os pais ou com as mães e encontrar no mesmo terreno pessoas que tinham ali o primeiro contacto com a modalidade lado a lado com os atletas de elite”, recorda Yeimi.

Sensivelmente por esta altura, Ramiro Agustín Ojeda fixa residência na Costa Rica, nas margens do Caribe. Foi a paixão pela natureza e, em particular, pela fotografia, que o fizeram deixar para trás a sua Argentina natal. Mas uma palestra dada por José Angel Nieto Poblete na Universidade EARTH, tendo por base a Orientação, desperta em si uma enorme curiosidade. As frequentes saídas para “caçadas” fotográficas tinham feito da bússola uma companheira inseparável, mas a Orientação desportiva era muito mais do que isso, era um desporto com pés e cabeça. Ramiro Ojeda lembra que o impacto sentido foi “ao nível da massificação deste desporto na Europa, o alcance da atividade física para muitas pessoas, ao ar livre e respeitando a natureza.” E acrescenta: “Podemos falar de Futebol, mas a difusão da modalidade restringe-se às grandes estrelas, a contratos milionários e às Federações que atuam como verdadeiras empresas multinacionais. Não creio que exista outro desporto no mundo que permita a sua prática por todos, independentemente da idade ou de impedimentos de ordem física.”


Duas Associações, um mesmo propósito

São duas as Associações devidamente estruturadas atualmente existentes na Costa Rica e ambas são independentes do meio militar, uma situação invulgar no contexto da Orientação Latino-Americana, encontrando-se intimamente ligadas a estabelecimentos de ensino superior. Com sede em Turrialba, a Asociación Deportiva Turrialba de Orientación tem como Presidente Yeimi Jiménez Oviedo, Por seu lado, Ramiro Agustin Ojeda é o Presidnete da Asociación Deportiva Caribeña de Orientación con sede na Universidade EARTH em Guácimo.

Com uma visão coincidente e contributos que, embora veiculados de forma independente, se baseiam na complementaridade, ambas as Associações apresentam trabalho digno de nota. Em 2012, a Universidade de Costa Rica e o CATIE – Centro Agronómico Tropical de Investigação e Ensino, em Turrialba, receberam o primeiro Campeonato Nacional de Orientação, organizado pela Associação Turrialbeña, o mesmo sucedendo com a edição de 2013. No corrente ano, o III Campeonato de Orientação de Costa Rica foi organizado pela Associação Caribeña, saldando-se por um enorme sucesso e por uma participação que ultrapassou os 100 atletas distribuídos por onze escalões.


Massificar é a palavra de ordem

Um cartógrafo minimamente habilitado não encontraria grandes dificuldades em desenhar um mapa da região de Turrialba, de tal forma o verde intenso ocuparia a generalidade do espaço. A vegetação é muito abundante e a floresta pluviosa muito fechada abriga várias espécies de serpentes, algumas delas venenosas, o que representa um fator de ponderação acrescido no momento de planificar uma prova de floresta. Apesar de todos os condicionalismos, Yeimi Oviedo e os seus companheiros da Associação Desportiva Turrialbeña de Orientação estão determinados em levar por diante este projeto, baseando-o no Curso de Ciências do Movimento Humano e na formação na modalidade. “De momento, a aposta consiste na massificação, para que mais pessoas conheçam a Orientação e se interessem pela sua prática”, diz.

A visão de Ramiro Ojeda é coincidente, referindo que “de momento, a nossa tarefa consiste em conseguir que mais pessoas conheçam as nossas atividades, fazer com que não seja uma coisa rara ver uma baliza atrás duma árvore ou alguém a correr de mapa e bússola na mão.” Mas vai mais longe: “A realidade é que esta é uma modalidade importada e estranha. A influência do Futebol é muito forte na Costa Rica, monopolizando a imprensa, os elogios, a massificação e o investimento estatal e privado. Talvez em 2015, quando tiver lugar na Sede estatal da Universidade da Costa Rica a quarta edição do Campeonato Nacional, possamos ter alguma atenção por parte dos meios de comunicação social e, desta forma, conseguir que mais pessoas conheçam a Orientação”.


Federação no horizonte

Para o próximo ano, as duas Associações preparam a organização conjunta de provas de Orientação, com vista à elaboração dum calendário. Com o apoio inestimável da Federação Espanhola de Orientação, por intermédio de José Angel Nieto Poblete, projetam-se novos cursos e atividades no TEC - Tecnologico de Costa Rica, em Cártago e na capital, San José, nomeadamente a 4ª edição do Campeonato Nacional de Orientação, com Direção de Gerardo Corrales. O interesse demonstrado pela modalidade faz com que o Relações Internacionais da FEDO tenha em vista a realização de um Curso de Supervisores e a preparação duma atividade de Orientação de Precisão. Na Sede do Atlântico da Universidade de Costa Rica já se trabalha com OCAD e está prevista igualmente a realização dum curso de Cartografia.

Também já tiveram início os trabalhos de criação dum organigrama da futura Federação de Orientação de Costa Rica, nos quais José Angel Nieto Poblete foi assessorado por Alba Quesada Rodriguéz, Diretora Nacional do ICODER – Instituto de Costa Rica de Desporto e Recriação, e pela própria Ministra do Desporto, Carolina Mauri Carabaguías. Projetando o futuro, Ramiro Ojeda admite que “assim que consigamos unificar os critérios das Associações avançaremos para a criação duma Federação de forma a garantir o necessário suporte institucional.” Yeimi Oviedo vai um pouco mais longe e preconiza que, “uma vez consolidada a Federação Nacional, faremos os necessários contactos no sentido de garantirmos a nossa integração no seio da Federação Internacional de Orientação”.

[Fotos gentilmente cedidas por José Angel Nieto Poblete]


[Veja o artigo original em http://orienteering.org/edocker/inside-orienteering/2014-5/InsideOrient%205_14p.pdf. Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação]

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