Porquê Portugal nesta altura da
temporada?
Jonas Vytautas Gvildys (J. V. G.) -
A temporada terminou para mim. Foi a minha irmã quem sugeriu virmos
a Portugal e, bom... cá estou.
Só pelo prazer da diversão (!?) …
J. V. G. - Sim, só pela
diversão. Bem, eu gosto da Orientação, desempenha um papel
importante na minha vida. Os nossos pais também fazem Orientação,
eu comecei a fazer Orientação praticamente desde que nasci, é uma
questão familiar.
Entretanto, cresceu como orientista
e os seus projetos adquiriram outra dimensão e outra ambição,
creio eu. Só assim se compreende o seu 10º lugar atual no ranking
mundial de Sprint. O que tem a dizer sobre a atual temporada?
J. V. G. - Globalmente, esta foi
uma boa temporada. Os Campeonatos do Mundo são sempre a competição
mais importante e desta vez, em Itália, encontrámos terrenos muito
diferentes daqueles que temos na Lituânia. A verdade é que não
temos as mesmas possibilidades – dinheiro para viagens, entenda-se
– que outros países e não pudemos preparar os Campeonatos da
forma que gostaríamos. Tivemos um Campo de Treino em Itália antes
dos Campeonatos, evidentemente, mas penso que não foi o bastante
para prepararmos convenientemente as distâncias de floresta.
Mas conseguiu um belo resultado na
final de Sprint...
J. V. G. - O Sprint é uma
distância na qual me sinto à vontade, os meus objetivos passam
sempre pelo melhor resultado...
É uma distância mais fácil (?)
...
J. V. G. - Sim, mais fácil e
não tão prestigiante. Ganhar o título mundial de Sprint não é o
mesmo que ganhar o título mundial de Distância Média ou de
Distância Longa. Mas sim, em Veneza alcancei o melhor resultado da
temporada, apesar de não ter ficado muito satisfeito porque sei que
puderia ter feito melhor. Uma prova de Sprint vive muito do fator
sorte. Todos podem chegar ao top-3 e todos podem queixar-se de ter
cometido imensos erros, “se eu fizesse menos vinte segundos
ganhava”, se, se... E o mesmo aconteceu comigo. Fiquei um pouco
dececionado – ainda hoje fico, quando penso na prova –, mas o 9º
lugar foi o meu melhor resultado e o melhor momento da temporada.
Outro grande momento foi o 5º lugar
na final de Distância Média dos Mundiais de França, em 2011. É
esse o momento mais alto da sua carreira até à data?
J. V. G. - Sim, podemos dizer
que sim. Fiz, certamente, melhores provas, provas limpas, embora de
caráter local, no meu País. Mas esta foi uma boa prova e num evento
doutra dimensão. Depois disso estive lesionado, sobretudo em 2013, e
não voltou a ser possível treinar a 100%. É por isso que não
estou no meu melhor agora. É necessário mantermos um nível de
treino e competição muito alto ao longo de vários anos se queremos
chegar aos melhores resultados. Acredito que conseguirei melhorar no
futuro, assim o espero (risos).
Falou acerca do melhor momento da
temporada. E quanto ao pior?
J. V. G. - É certamente o
momento atual, por razões de saúde. Fui operado há três semanas e
tive de parar completamente durante dezasseis dias. Entretanto
recomecei com sessões de jogging muito simples, muito devagarinho,
sem qualquer tipo de pressão e estou a recuperar.
Mas conseguiu ser segundo
classificado no Sprint noturno...
J. V. G. - Foi uma verdadeira
surpresa. Senti-me terrivelmente mal durante toda a prova, não puxei
minimamente. Como corri muito devagar, não foi difícil fazer as
opções mais corretas, mas foi uma prova muito exigente. Muitos
degraus (risos)... Foi dura fisicamente, mas gostei muito da prova,
do ambiente, desta bonita cidade. É a primeira vez que visito o
Porto, não conhecia a cidade – aterrei aqui um par de vezes, mas
sempre para seguir viagem para o Sul – mas é realmente muito
bonita.
E Portugal?
J. V. G. - Portugal é o local
perfeito para preparar uma época. É realmente muito bom no Inverno
pelo facto de não haver neve e de podermos correr em terrenos muito
técnicos. Também há imensos terrenos de enorme dureza aqui. Espero
poder regressar a Portugal já este Inverno, para o Portugal O'
Meeting. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tornar isso
possível.
No início da nossa conversa referiu
que esta vinda a Portugal tinha sido por culpa da sua irmã mais
nova. Como é que acompanha a carreira da Tekle?
J. V. G. - É uma atleta
bastante boa. Se se mantiver determinada e em busca dos seus sonhos,
tudo pode acontecer. Mas tem muito trabalho pela frente. Estas coisas
não são tão simples quanto se possa pensar, ninguém começa a
treinar hoje e consegue um resultado importante logo à primeira. A
Orientação exige muita dedicação e trabalho no duro.
Como é ser-se orientista na
Lituânia?
J. V. G. - O principal desporto
na Lituânia é o Basquetebol, ninguém quer saber do resto. Diríamos
que 90% da população é aficionada pelo Basquetebol. Mas não nos
podemos queixar. Procuramos captar a atenção dos orgãos de
comunicação social, sobretudo por altura dos Campeonatos da
Lituânia e noutras importantes competições. Não posso dizer que
estes tempos são os mais difíceis mas não é fácil encontrar quem
se disponha a organizar eventos. Espero que as coisas possam mudar no
futuro.
Falando do futuro, a Estónia em
2017 e a Letónia no ano seguinte serão palco dos Campeonatos do
Mundo e eu acredito que é para essa altura que apontam já as suas
atenções. É verdade?
J. V. G. - Sim, provavelmente é
verdade. Nessa altura estarei com 29 anos, a idade perfeita neste
tipo de desporto. Penso que poderá ser esse o meu momento porque
estarei a correr em terrenos que são muito parecidos com aqueles que
temos na Lituânia, podemos preparar convenientemente as competições
e sem ter de fazer grandes viagens. Penso que irão ser duas belas
competições e espero alcançar os melhores resultados.
Vamos então cruzar os dedos e rezar
para que, até lá, não hajam lesões (!) …
J. V. G. - Isso é o mais
importante para um orientista, não haver lesões. Pode facilmente
torcer-se um tornozelo e aí percebemos o que é correr na
floresta... Isto não é o asfalto!
Agora que está de regresso ao seu
País, foram uma boa experiência estes três dias da Porto City Race
2014?
J. V. G. - Absolutamente.
Principalmente no último dia, foi muito bom poder correr já mais
rápido, embora sentisse ao longo de toda a prova que as coisas ainda
não estão bem. Foi muito tempo de paragem, sem treinar, e consigo
perceber isso agora. Lutei durante toda a prova, dei o meu melhor,
mas foi duro. Não foi uma prova muito técnica e foi possível
correr bastante rápido nalgumas partes do mapa. O desnível não era
grande mas senti cada degrau (risos). Foi um bom final de temporada.
Gostava de deixar um voto para a
próxima temporada?
J. V. G. - Espero que a
Orientação se torne um desporto mais popular. Pessoalmente,
tentarei dar o meu melhor nos Mundiais de 2015, em Inverness, e
espero manter-me afastado das lesões.
Saudações orientistas.
Joaquim Margarido
Sem comentários:
Publicar um comentário