quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Jonas Vytautas Gvildys: "Pode facilmente torcer-se um tornozelo e aí percebemos o que é correr na floresta"



Agora que a temporada caminha rapidamente para o seu final, foi possível assistirmos a um belo evento de Orientação num local verdadeiramente único. A Porto City Race 2014 chamou à segunda maior cidade do País um total de 750 participantes, entre os quais se contou o lituano Jonas Vytautas Gvildys. É ele quem nos deixa algumas das suas impressões, abordando a presente temporada e também o futuro próximo.


Porquê Portugal nesta altura da temporada?

Jonas Vytautas Gvildys (J. V. G.) - A temporada terminou para mim. Foi a minha irmã quem sugeriu virmos a Portugal e, bom... cá estou.

Só pelo prazer da diversão (!?) …

J. V. G. - Sim, só pela diversão. Bem, eu gosto da Orientação, desempenha um papel importante na minha vida. Os nossos pais também fazem Orientação, eu comecei a fazer Orientação praticamente desde que nasci, é uma questão familiar.

Entretanto, cresceu como orientista e os seus projetos adquiriram outra dimensão e outra ambição, creio eu. Só assim se compreende o seu 10º lugar atual no ranking mundial de Sprint. O que tem a dizer sobre a atual temporada?

J. V. G. - Globalmente, esta foi uma boa temporada. Os Campeonatos do Mundo são sempre a competição mais importante e desta vez, em Itália, encontrámos terrenos muito diferentes daqueles que temos na Lituânia. A verdade é que não temos as mesmas possibilidades – dinheiro para viagens, entenda-se – que outros países e não pudemos preparar os Campeonatos da forma que gostaríamos. Tivemos um Campo de Treino em Itália antes dos Campeonatos, evidentemente, mas penso que não foi o bastante para prepararmos convenientemente as distâncias de floresta.

Mas conseguiu um belo resultado na final de Sprint...

J. V. G. - O Sprint é uma distância na qual me sinto à vontade, os meus objetivos passam sempre pelo melhor resultado...

É uma distância mais fácil (?) ...

J. V. G. - Sim, mais fácil e não tão prestigiante. Ganhar o título mundial de Sprint não é o mesmo que ganhar o título mundial de Distância Média ou de Distância Longa. Mas sim, em Veneza alcancei o melhor resultado da temporada, apesar de não ter ficado muito satisfeito porque sei que puderia ter feito melhor. Uma prova de Sprint vive muito do fator sorte. Todos podem chegar ao top-3 e todos podem queixar-se de ter cometido imensos erros, “se eu fizesse menos vinte segundos ganhava”, se, se... E o mesmo aconteceu comigo. Fiquei um pouco dececionado – ainda hoje fico, quando penso na prova –, mas o 9º lugar foi o meu melhor resultado e o melhor momento da temporada.

Outro grande momento foi o 5º lugar na final de Distância Média dos Mundiais de França, em 2011. É esse o momento mais alto da sua carreira até à data?

J. V. G. - Sim, podemos dizer que sim. Fiz, certamente, melhores provas, provas limpas, embora de caráter local, no meu País. Mas esta foi uma boa prova e num evento doutra dimensão. Depois disso estive lesionado, sobretudo em 2013, e não voltou a ser possível treinar a 100%. É por isso que não estou no meu melhor agora. É necessário mantermos um nível de treino e competição muito alto ao longo de vários anos se queremos chegar aos melhores resultados. Acredito que conseguirei melhorar no futuro, assim o espero (risos).

Falou acerca do melhor momento da temporada. E quanto ao pior?

J. V. G. - É certamente o momento atual, por razões de saúde. Fui operado há três semanas e tive de parar completamente durante dezasseis dias. Entretanto recomecei com sessões de jogging muito simples, muito devagarinho, sem qualquer tipo de pressão e estou a recuperar.

Mas conseguiu ser segundo classificado no Sprint noturno...

J. V. G. - Foi uma verdadeira surpresa. Senti-me terrivelmente mal durante toda a prova, não puxei minimamente. Como corri muito devagar, não foi difícil fazer as opções mais corretas, mas foi uma prova muito exigente. Muitos degraus (risos)... Foi dura fisicamente, mas gostei muito da prova, do ambiente, desta bonita cidade. É a primeira vez que visito o Porto, não conhecia a cidade – aterrei aqui um par de vezes, mas sempre para seguir viagem para o Sul – mas é realmente muito bonita.

E Portugal?

J. V. G. - Portugal é o local perfeito para preparar uma época. É realmente muito bom no Inverno pelo facto de não haver neve e de podermos correr em terrenos muito técnicos. Também há imensos terrenos de enorme dureza aqui. Espero poder regressar a Portugal já este Inverno, para o Portugal O' Meeting. Vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para tornar isso possível.

No início da nossa conversa referiu que esta vinda a Portugal tinha sido por culpa da sua irmã mais nova. Como é que acompanha a carreira da Tekle?

J. V. G. - É uma atleta bastante boa. Se se mantiver determinada e em busca dos seus sonhos, tudo pode acontecer. Mas tem muito trabalho pela frente. Estas coisas não são tão simples quanto se possa pensar, ninguém começa a treinar hoje e consegue um resultado importante logo à primeira. A Orientação exige muita dedicação e trabalho no duro.

Como é ser-se orientista na Lituânia?

J. V. G. - O principal desporto na Lituânia é o Basquetebol, ninguém quer saber do resto. Diríamos que 90% da população é aficionada pelo Basquetebol. Mas não nos podemos queixar. Procuramos captar a atenção dos orgãos de comunicação social, sobretudo por altura dos Campeonatos da Lituânia e noutras importantes competições. Não posso dizer que estes tempos são os mais difíceis mas não é fácil encontrar quem se disponha a organizar eventos. Espero que as coisas possam mudar no futuro.

Falando do futuro, a Estónia em 2017 e a Letónia no ano seguinte serão palco dos Campeonatos do Mundo e eu acredito que é para essa altura que apontam já as suas atenções. É verdade?

J. V. G. - Sim, provavelmente é verdade. Nessa altura estarei com 29 anos, a idade perfeita neste tipo de desporto. Penso que poderá ser esse o meu momento porque estarei a correr em terrenos que são muito parecidos com aqueles que temos na Lituânia, podemos preparar convenientemente as competições e sem ter de fazer grandes viagens. Penso que irão ser duas belas competições e espero alcançar os melhores resultados.

Vamos então cruzar os dedos e rezar para que, até lá, não hajam lesões (!) …

J. V. G. - Isso é o mais importante para um orientista, não haver lesões. Pode facilmente torcer-se um tornozelo e aí percebemos o que é correr na floresta... Isto não é o asfalto!

Agora que está de regresso ao seu País, foram uma boa experiência estes três dias da Porto City Race 2014?

J. V. G. - Absolutamente. Principalmente no último dia, foi muito bom poder correr já mais rápido, embora sentisse ao longo de toda a prova que as coisas ainda não estão bem. Foi muito tempo de paragem, sem treinar, e consigo perceber isso agora. Lutei durante toda a prova, dei o meu melhor, mas foi duro. Não foi uma prova muito técnica e foi possível correr bastante rápido nalgumas partes do mapa. O desnível não era grande mas senti cada degrau (risos). Foi um bom final de temporada.

Gostava de deixar um voto para a próxima temporada?

J. V. G. - Espero que a Orientação se torne um desporto mais popular. Pessoalmente, tentarei dar o meu melhor nos Mundiais de 2015, em Inverness, e espero manter-me afastado das lesões.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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