Pedia-lhe que falasse de todo o
processo de seleção até ao dia em que viu o seu nome ao lado da
Raquel Fernandes e do João Pedro Jaber como os três primeiros
brasileiros a estarem presentes num Mundial de Juniores.
Gelson Andrey (G. A.) - O dia
12 de agosto de 2013 foi um grande dia para todos os atletas deste
país porque ninguém imaginara que um trabalho dessa envergadura
pudesse ocorrer ao nível junior. O que oficializou verdadeiramente
esta equipa foi a produção da nossa camisola, de modo que no
Campeonato Sul Americano os 23 atletas selecionados já estavam todos
uniformizados, como uma verdadeira equipa. Este acontecimento foi
marcante e serviu de incentivo a todos os atletas juniores a treinar
diariamente, aumentando muito o nível das categorias elites.
Tentámos fazer alguns projetos e rifas para conseguir apoio para a
equipa e assim levar os principais atletas ao mundial, mas as coisas
não funcionaram. Desse modo, o processo de seleção acabou por
simplificar-se, resumindo-se a “quem tem dinheiro e vontade pode
participar”. Dessa forma, eu, por ser atleta da Força Aérea
Brasileira e com empréstimo de dinheiro dos meus pais, o João Pedro
Jaber, com rifas e também com um empréstimo dos seus pais, e a
Raquel Fernandes, com o patrocínio da Radix, que é o mesmo
patrocinador do seu clube, conseguimos ser os primeiros Brasileiros a
participar num Campeonato do Mundo de Juniores.
O que é que sabia - ou julgava que
sabia - acerca da Orientação na Europa e, em particular, ao nível
Junior?
G. A. - Sabia que a Orientação
na Europa é de outro nível e que estaria ao lado de atletas dum
patamar semelhante ao dos principais brasileiros do escalão Elite.
Mas ao ver esses atletas correndo no meio da floresta ou passando no
ponto de espectadores percebi que eles são incríveis, muito mais
rápidos do que imaginava. Tive a oportunidade de conversar com
alguns atletas e também fiquei encantado porque alguns deles vieram
dialogar conosco e explicaram algumas opções, o que nos motivou
muito. O mais impressionante foi que, procurando depois os resultados
deles, vimos que estavam nos lugares de topo, como por exemplo a Sara
Hagstrom e o Malin Leandersson. Houve outros dois atletas que me
impressionaram muito: o Finlandês Miika Kirmula, correndo no meio
dos verdes a um ritmo muito forte, e o belga Tristan Bloemen, na
prova de Sprint.
Estar na Bulgária já foi uma
medalha para si ou, realmente, estava à espera de conseguir melhores
resultados do que aqueles que acabou por alcançar?
G. A. - Sim, foi uma Medalha.
Primeiro, porque concretizei um sonho; e segundo, porque aprendi
muito sobre o que é ser um atleta de nível mundial e qual o patamar
da Orientação na Europa. Saí do Brasil e parti para cada percurso
com o pensamento na vitória, mesmo tendo muitas pessoas dizendo que
isso era impossível e era um pensamento errado, mas acho que quando
pegamos no mapa devemos fazê-lo com o coração. Mas, claro, aquilo
que leva o atleta a competir é a emoção de conseguir um lugar
entre os primeiros. Pessoalmente, tenho a noção que os meus
resultados não foram bons. Acho que poderia ter feito melhor nas
minhas opções. Mas o que me consola é o quanto aprendi neste
evento e o quanto isso poderá ser-me útil no próximo ano na
Noruega.
Como é que viveu o dia a dia da
competição no plano desportivo? Qual o impacto com o desafio
técnico dos mapas e os terrenos e como fez a gestão das provas e da
recuperação física entre elas?
G. A. - Cada dia constituiu uma
superação e uma nova experiência. O primeiro impacto que tive foi
a quarentena no Sprint, porque foi a minha primeira quarentena. Todas
as janelas estavam fechadas e até para se ir à casa de banho havia
um mapa. Ainda num piso do ginásio, os atletas aqueciam a um ritmo
monstruoso. No mapa de Sprint não senti dificuldade técnica,
achei-o parecido com os do Brasil e até porque gosto muito de
desenhar mapas urbanos. Mesmo assim cometi um erro absurdo porque vi
as pessoas gritando. No prova de Distância Longa senti muito a parte
física, após passar a passagem obrigatória vi que estava no meu
limite, ainda com 1h17 de prova - o melhor tempo até ao momento - e
ainda faltava o outro mapa com 3.500 m. Neste percurso
impressionou-me a grande variedade de terreno, aquelas regiões de
pedras, uma zona cheia de detalhes de água e com grande detalhe de
relevo também. Não cometi grandes erros, mas perdi tempo na saída
dos pontos porque demorava a escolher a melhor opção por causa da
quantidade de informação. Nos dois percursos médios o que
complicou foi a parte técnica e aquele relevo “maluco”, e o que
me ajudou foi a caminhada com o Luis Silva, de Portugal, no Model
Event. Ele transmitiu-nos muita informação e isso ajudou-me a fazer
algumas boas opções. Estes percursos foram os mais difíceis para
mim até hoje, porque eram muitos detalhados e não me permitiram
selecionar algo que pudesse facilitar a minha navegação. A minha
melhor prova foi a Estafeta, mesmo sendo desclassificado por ter
“picado” um ponto próximo ao meu. Nesta prova senti-me muito bem
e estava fluido na navegação porque o terreno era mais fácil, mais
parecido com o do Brasil.
A “aventura europeia” não
terminou na Bulgária. Quer falar-me dos ensinamentos retirados?
G. A. - Posso dizer que aprendi
uma nova orientação. A qualidade dos atletas impressionou-me muito
e com quem conversei consegui ver a grande diferença do treino
realizado por eles e por mim, assim podendo acrescentar e retirar
varias ações do meu dia, o que poderá trazer evolução. A
navegação em terrenos mais ricos mostrou-me a grande importância
de valorizar mais a bússola e simplificar na leitura do mapa.
Daquilo que viu e sentiu, quais as
grandes diferenças entre a realidade dos países mais evoluídos e a
realidade brasileira?
G. A. - Na minha opinião, a
grande diferença do Brasil para os grandes países da orientação
está nos terrenos. Como o nosso País é grande, vamos aos poucos
encontrando áreas cada vez melhores e mais ricas em detalhes e ao
mesmo tempo rápidas como vemos nos mapas europeus. Temos também
pouco apoio externo para o nosso desporto, apoio esse que seria
fundamental para o crescimento dos atletas através da organização
de melhores eventos (mapas, impressão e traçado de percursos) e da
preparação dos atletas. Isso aumentaria, com toda a certeza, o
nível competitivo dos atletas brasileiros em Campeonatos Mundiais.
Entretanto, no regresso ao Brasil,
foi possível vê-lo pela primeira vez num pódio de Elite do CamBOr,
graças ao 5º lugar na prova de Distância Longa da II Etapa. Como
avalia este resultado fantástico?
G. A. - Foram vários os fatores
que influenciaram este resultado. Já treino há muitos anos, mas
nada igual a este treino focado com o objetivo no Mundial, em que
consegui trabalhar simultaneamente a técnica e a corrida. Este ano
mudei-me para Curitiba, onde comecei a trabalhar a parte física com
a Equipiazza que é um grupo de corrida de rua, cross e montanha, que
me fez evoluir muito com o ótimo trabalho realizado pelo Marco e
Letícia. E treinando semanalmente com mapas de qualidade, abri mais
a mente e evoluí na capacidade de leitura do mapa. Mas isso só
aconteceu por causa de dois mapas excelentes próximos de casa
produzidos pelo meu pai, um da Fazenda Contras e outro da Fazenda
Colina do Sol, e que possibilitaram que em qualquer momento pudesse
estar na floresta. Além disso, a convivência e conversas com
atletas experientes e a participação em Campeonatos fora do país
abriram-me muito a mente e fizeram-me criar um pouco de
responsabilidade na hora de participar em provas importantes, tal
como a segunda etapa do Brasileiro e, em especial, o percurso de
Distância Longa.
E agora? Há todo um caminho a
percorrer, teve uma experiência internacional extremamente valiosa e
tem um longo percurso à sua frente como orientista. Já pensou nesse
futuro?
G. A. - Sim, penso, e como
penso! Antes de qualquer treino ou prova dou comigo a pensar onde
posso chegar e quanto tempo isso vai levar. Mas estou bastante
contente este ano porque tive uma grande evolução que me
impressionou muito. Se continuar assim, acho que vou chegar onde
quero em pouco tempo, mas tenho a certeza que isso vai ocorrer se
continuar com o bom trabalho que venho fazendo. Sei isso porque, se
queremos ser um dos melhores, devemos treinar com os melhores e com
certeza hoje estou lado a lado com as pessoas que são as melhores do
meu país e que têm muito conhecimento para me transmitir. Tenho
muita vontade de passar um tempo na Europa, mas isso é muito difícil
para mim presentemente. Entretanto, um dia quero fazer um intercâmbio
para aprender e treinar com os melhores do mundo e quando voltar para
o Brasil poder continuar aquele mesmo treino e transmitir a
experiência adquirida às outras pessoas que têm o mesmo objetivo.
Como é que vê o atual momento da
Orientação no Brasil?
G. A. - Vejo que a orientação
brasileira na parte civil está em evolução. Sinceramente acho que
caminhamos devagar, mas estamos crescendo aos poucos. Conseguimos ter
Campeonatos Regionais muito bons, e Nacionais também. Mas depois
falhamos nalguns eventos, ou porque os organizadores pensam à
maneira antiga e são refratários à inovação, ou então as
pessoas com experiência estão afastadas das funções mais
importantes, como por exemplo na produção dos mapas. Mas no meio
militar a Orientação está em acelerada evolução. As Forças
Armadas estão investindo na contratação de atletas novos e vão
colher bons frutos no futuro. Além disso, os eventos militares são
excelentes e estão a um nível muito alto pois selecionam muito bem
os locais e principalmente os organizadores.
Pelo que disse antes, percebi que
tenciona estar em Rauland, na Noruega, para os Mundiais de Juniores
de 2015?
G. A. - Sim, quero participar
nos Mundiais de 2015 e já estou a planear a minha viagem. Será o
meu último mundial na categoria Junior, e quero preparar-me muito
mais do que este ano para poder elevar bem alto o nome do meu País.
Aos jovens brasileiros que se estão
a iniciar na Orientação, que mensagem deixaria?
G. A. - A Orientação é um
desporto difícil e pouco divulgado no nosso País, mas se você
sonha em ser atleta desse maravilhoso desporto corra atrás do sonho!
O Brasil precisa de atletas dedicados e com vontade de levar a nossa
bandeira a cada canto do Mundo onde houver um evento de Orientação.
[Foto gentilmente cedida por Andrey
Gelson]
Saudações orientistas.
Joaquim Margarido

1 comentário:
O futuro da Orientação do Brasil depende de jovens como o Andrey. Apesar das dificuldades que ainda encontramos, estes jovens possuem uma rede informações e incentivos que não tínhamos alguns anos atrás.
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