quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Gelson Andrey: "Quando pegamos no mapa devemos fazê-lo com o coração"



O processo de seleção levado a cabo pela Confederação Brasileira de Orientação com vista à participação duma seleção no Campeonato do Mundo de Juniores de Orientação Pedestre JWOC 2014 serve de ponto de partida para a conversa com uma das grandes esperanças da Orientação brasileira da atualidade. Gelson Andrey, o convidado de hoje do Orientovar, abre o jogo.


Pedia-lhe que falasse de todo o processo de seleção até ao dia em que viu o seu nome ao lado da Raquel Fernandes e do João Pedro Jaber como os três primeiros brasileiros a estarem presentes num Mundial de Juniores.

Gelson Andrey (G. A.) - O dia 12 de agosto de 2013 foi um grande dia para todos os atletas deste país porque ninguém imaginara que um trabalho dessa envergadura pudesse ocorrer ao nível junior. O que oficializou verdadeiramente esta equipa foi a produção da nossa camisola, de modo que no Campeonato Sul Americano os 23 atletas selecionados já estavam todos uniformizados, como uma verdadeira equipa. Este acontecimento foi marcante e serviu de incentivo a todos os atletas juniores a treinar diariamente, aumentando muito o nível das categorias elites. Tentámos fazer alguns projetos e rifas para conseguir apoio para a equipa e assim levar os principais atletas ao mundial, mas as coisas não funcionaram. Desse modo, o processo de seleção acabou por simplificar-se, resumindo-se a “quem tem dinheiro e vontade pode participar”. Dessa forma, eu, por ser atleta da Força Aérea Brasileira e com empréstimo de dinheiro dos meus pais, o João Pedro Jaber, com rifas e também com um empréstimo dos seus pais, e a Raquel Fernandes, com o patrocínio da Radix, que é o mesmo patrocinador do seu clube, conseguimos ser os primeiros Brasileiros a participar num Campeonato do Mundo de Juniores.

O que é que sabia - ou julgava que sabia - acerca da Orientação na Europa e, em particular, ao nível Junior?

G. A. - Sabia que a Orientação na Europa é de outro nível e que estaria ao lado de atletas dum patamar semelhante ao dos principais brasileiros do escalão Elite. Mas ao ver esses atletas correndo no meio da floresta ou passando no ponto de espectadores percebi que eles são incríveis, muito mais rápidos do que imaginava. Tive a oportunidade de conversar com alguns atletas e também fiquei encantado porque alguns deles vieram dialogar conosco e explicaram algumas opções, o que nos motivou muito. O mais impressionante foi que, procurando depois os resultados deles, vimos que estavam nos lugares de topo, como por exemplo a Sara Hagstrom e o Malin Leandersson. Houve outros dois atletas que me impressionaram muito: o Finlandês Miika Kirmula, correndo no meio dos verdes a um ritmo muito forte, e o belga Tristan Bloemen, na prova de Sprint.

Estar na Bulgária já foi uma medalha para si ou, realmente, estava à espera de conseguir melhores resultados do que aqueles que acabou por alcançar?

G. A. - Sim, foi uma Medalha. Primeiro, porque concretizei um sonho; e segundo, porque aprendi muito sobre o que é ser um atleta de nível mundial e qual o patamar da Orientação na Europa. Saí do Brasil e parti para cada percurso com o pensamento na vitória, mesmo tendo muitas pessoas dizendo que isso era impossível e era um pensamento errado, mas acho que quando pegamos no mapa devemos fazê-lo com o coração. Mas, claro, aquilo que leva o atleta a competir é a emoção de conseguir um lugar entre os primeiros. Pessoalmente, tenho a noção que os meus resultados não foram bons. Acho que poderia ter feito melhor nas minhas opções. Mas o que me consola é o quanto aprendi neste evento e o quanto isso poderá ser-me útil no próximo ano na Noruega.

Como é que viveu o dia a dia da competição no plano desportivo? Qual o impacto com o desafio técnico dos mapas e os terrenos e como fez a gestão das provas e da recuperação física entre elas?

G. A. - Cada dia constituiu uma superação e uma nova experiência. O primeiro impacto que tive foi a quarentena no Sprint, porque foi a minha primeira quarentena. Todas as janelas estavam fechadas e até para se ir à casa de banho havia um mapa. Ainda num piso do ginásio, os atletas aqueciam a um ritmo monstruoso. No mapa de Sprint não senti dificuldade técnica, achei-o parecido com os do Brasil e até porque gosto muito de desenhar mapas urbanos. Mesmo assim cometi um erro absurdo porque vi as pessoas gritando. No prova de Distância Longa senti muito a parte física, após passar a passagem obrigatória vi que estava no meu limite, ainda com 1h17 de prova - o melhor tempo até ao momento - e ainda faltava o outro mapa com 3.500 m. Neste percurso impressionou-me a grande variedade de terreno, aquelas regiões de pedras, uma zona cheia de detalhes de água e com grande detalhe de relevo também. Não cometi grandes erros, mas perdi tempo na saída dos pontos porque demorava a escolher a melhor opção por causa da quantidade de informação. Nos dois percursos médios o que complicou foi a parte técnica e aquele relevo “maluco”, e o que me ajudou foi a caminhada com o Luis Silva, de Portugal, no Model Event. Ele transmitiu-nos muita informação e isso ajudou-me a fazer algumas boas opções. Estes percursos foram os mais difíceis para mim até hoje, porque eram muitos detalhados e não me permitiram selecionar algo que pudesse facilitar a minha navegação. A minha melhor prova foi a Estafeta, mesmo sendo desclassificado por ter “picado” um ponto próximo ao meu. Nesta prova senti-me muito bem e estava fluido na navegação porque o terreno era mais fácil, mais parecido com o do Brasil.

A “aventura europeia” não terminou na Bulgária. Quer falar-me dos ensinamentos retirados?

G. A. - Posso dizer que aprendi uma nova orientação. A qualidade dos atletas impressionou-me muito e com quem conversei consegui ver a grande diferença do treino realizado por eles e por mim, assim podendo acrescentar e retirar varias ações do meu dia, o que poderá trazer evolução. A navegação em terrenos mais ricos mostrou-me a grande importância de valorizar mais a bússola e simplificar na leitura do mapa.

Daquilo que viu e sentiu, quais as grandes diferenças entre a realidade dos países mais evoluídos e a realidade brasileira?

G. A. - Na minha opinião, a grande diferença do Brasil para os grandes países da orientação está nos terrenos. Como o nosso País é grande, vamos aos poucos encontrando áreas cada vez melhores e mais ricas em detalhes e ao mesmo tempo rápidas como vemos nos mapas europeus. Temos também pouco apoio externo para o nosso desporto, apoio esse que seria fundamental para o crescimento dos atletas através da organização de melhores eventos (mapas, impressão e traçado de percursos) e da preparação dos atletas. Isso aumentaria, com toda a certeza, o nível competitivo dos atletas brasileiros em Campeonatos Mundiais.

Entretanto, no regresso ao Brasil, foi possível vê-lo pela primeira vez num pódio de Elite do CamBOr, graças ao 5º lugar na prova de Distância Longa da II Etapa. Como avalia este resultado fantástico?

G. A. - Foram vários os fatores que influenciaram este resultado. Já treino há muitos anos, mas nada igual a este treino focado com o objetivo no Mundial, em que consegui trabalhar simultaneamente a técnica e a corrida. Este ano mudei-me para Curitiba, onde comecei a trabalhar a parte física com a Equipiazza que é um grupo de corrida de rua, cross e montanha, que me fez evoluir muito com o ótimo trabalho realizado pelo Marco e Letícia. E treinando semanalmente com mapas de qualidade, abri mais a mente e evoluí na capacidade de leitura do mapa. Mas isso só aconteceu por causa de dois mapas excelentes próximos de casa produzidos pelo meu pai, um da Fazenda Contras e outro da Fazenda Colina do Sol, e que possibilitaram que em qualquer momento pudesse estar na floresta. Além disso, a convivência e conversas com atletas experientes e a participação em Campeonatos fora do país abriram-me muito a mente e fizeram-me criar um pouco de responsabilidade na hora de participar em provas importantes, tal como a segunda etapa do Brasileiro e, em especial, o percurso de Distância Longa.

E agora? Há todo um caminho a percorrer, teve uma experiência internacional extremamente valiosa e tem um longo percurso à sua frente como orientista. Já pensou nesse futuro?

G. A. - Sim, penso, e como penso! Antes de qualquer treino ou prova dou comigo a pensar onde posso chegar e quanto tempo isso vai levar. Mas estou bastante contente este ano porque tive uma grande evolução que me impressionou muito. Se continuar assim, acho que vou chegar onde quero em pouco tempo, mas tenho a certeza que isso vai ocorrer se continuar com o bom trabalho que venho fazendo. Sei isso porque, se queremos ser um dos melhores, devemos treinar com os melhores e com certeza hoje estou lado a lado com as pessoas que são as melhores do meu país e que têm muito conhecimento para me transmitir. Tenho muita vontade de passar um tempo na Europa, mas isso é muito difícil para mim presentemente. Entretanto, um dia quero fazer um intercâmbio para aprender e treinar com os melhores do mundo e quando voltar para o Brasil poder continuar aquele mesmo treino e transmitir a experiência adquirida às outras pessoas que têm o mesmo objetivo.

Como é que vê o atual momento da Orientação no Brasil?

G. A. - Vejo que a orientação brasileira na parte civil está em evolução. Sinceramente acho que caminhamos devagar, mas estamos crescendo aos poucos. Conseguimos ter Campeonatos Regionais muito bons, e Nacionais também. Mas depois falhamos nalguns eventos, ou porque os organizadores pensam à maneira antiga e são refratários à inovação, ou então as pessoas com experiência estão afastadas das funções mais importantes, como por exemplo na produção dos mapas. Mas no meio militar a Orientação está em acelerada evolução. As Forças Armadas estão investindo na contratação de atletas novos e vão colher bons frutos no futuro. Além disso, os eventos militares são excelentes e estão a um nível muito alto pois selecionam muito bem os locais e principalmente os organizadores.

Pelo que disse antes, percebi que tenciona estar em Rauland, na Noruega, para os Mundiais de Juniores de 2015?

G. A. - Sim, quero participar nos Mundiais de 2015 e já estou a planear a minha viagem. Será o meu último mundial na categoria Junior, e quero preparar-me muito mais do que este ano para poder elevar bem alto o nome do meu País.

Aos jovens brasileiros que se estão a iniciar na Orientação, que mensagem deixaria?

G. A. - A Orientação é um desporto difícil e pouco divulgado no nosso País, mas se você sonha em ser atleta desse maravilhoso desporto corra atrás do sonho! O Brasil precisa de atletas dedicados e com vontade de levar a nossa bandeira a cada canto do Mundo onde houver um evento de Orientação.

[Foto gentilmente cedida por Andrey Gelson]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

1 comentário:

Marco Aurélio disse...

O futuro da Orientação do Brasil depende de jovens como o Andrey. Apesar das dificuldades que ainda encontramos, estes jovens possuem uma rede informações e incentivos que não tínhamos alguns anos atrás.