sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Ana Paula Campos: "Se calhar havia outros treinadores que mereciam mais do que eu"



É já no próximo dia 12 de Novembro que tem lugar a 19ª Gala do Desporto, uma iniciativa da Confederação do Desporto de Portugal e que visa premiar os melhores desportistas portugueses do ano nas categorias de atleta masculino, atleta feminino, jovem promessa, treinador e equipa. Enquanto aguardamos pelo dia 30 de Outubro e pela divulgação dos nomes que passam às votações finais, procuramos conhecer um pouco melhor Ana Paula Campos, a personalidade indicada pela Federação Portuguesa de Orientação na categoria “Treinador do Ano”.


Se, de alguma forma, o “ser diferente” valesse votos, Ana Paula Campos integraria, seguramente, o lote final de cinco candidatos ao título de “Treinador do Ano” da Confederação do
Desporto de Portugal. A razão é simples: ela é a única mulher entre os 30 nomes indicados pelas 27 Federações concorrentes ao prémio. Nascida em Lourenço Marques (Moçambique) em 29 de Junho de 1968, Ana Paula da Silveira Serra Campos é licenciada em Ensino de Educação Física e Mestre em Ciências do Desporto (Gestão Desportiva) pela FCDEF-UP. Treinadora da modalidade no âmbito do Desporto Escolar, onde se tem notabilizado (foi a responsável pelas equipas de Selecção de Iniciados e Juvenis Femininos nos últimos Campeonatos do Mundo de Desporto Escolar ISF 2013), acumulando as funções com as de atleta da modalidade Orientação e de organizadora / coordenadora de eventos.

Foi nesta última qualidade que o Orientovar a encontrou, no preciso momento em que, na Falperra (Braga), chegava ao fim a Taça de Portugal de Orientação de Precisão 2014. Uma etapa organizada pelo Clube de Orientação do Minho e que teve em Ana Paula Serra Campos um dos seus elementos preponderantes, ao assinar (juntamente com Manuela Marques) o desenho dos pontos. Esse foi o mote para o início duma conversa ao encontro do momento presente da modalidade no nosso País e onde é possível perceber que “Perseverança”, “Voluntarismo” e “Carácter”, as três palavras-chave escolhidas por Ana Paula Campos para se definir como desportista e como pessoa, podiam igualmente ser “Paixão”, “Coerência” e “Talento”. E “Humildade”!


Vale a pena organizar uma prova de Orientação de Precisão?

Ana Paula Campos (A. P. C.) - (risos) É muito difícil, sobretudo para quem não tem experiência na disciplina. Eu estive envolvida com a Manuela Marques nesta organização – aliás era impensável levar isto por diante só com uma de nós – e nenhuma das duas domina a Orientação de Precisão. Por conseguinte, o envolvimento e o investimento teve de ser muito maior, implicou estudo e uma maior dedicação. Por outro lado, este mapa [da Falperra] pode ser muito interessante para a Pedestre mas não estava minimamente preparado para a Precisão - não estava com a “precisão” devida (risos) -, o que implicou ajustes sucessivos desde o início. Tivemos que mexer em imensas coisas, coisas que para a Pedestre são insignificantes mas que tiveram aqui de ser trabalhadas quase ao pormenor, o que foi muito complicado. Mas aprendemos muito da disciplina, certamente, porque fomos obrigadas a ler. E aprendemos também muito com o Luís [Nóbrega], que supervisionou o nosso trabalho.

Podemos depreender, então, que o balanço é positivo.

A. P. C. - Vale a pena organizar uma prova destas, sem dúvida, mas o investimento é muito grande para um número de participantes que, em Portugal, é ainda reduzido. Se os números fossem outros seria muito mais gratificante, naturalmente. Mas rejeito a ideia de que se deva deixar de fazer, porque senão ficamos pior.

O que fazer para cativar mais participantes?

A. P. C. - Já tenho refletido sobre isto e não sei muito bem. Acho que o futuro desta disciplina passa muito pelo investimento de duas ou três pessoas que se especializem realmente nesta disciplina e que possam colmatar a falta de elementos com saber ou experiência dentro dos clubes. Os clubes têm os mapas e os terrenos, têm os recursos humanos mas depois esbarram na falta de domínio das muitas particularidades da Orientação de Precisão. É preciso alguém dedicado a 100% que possa dar uma ajuda.

Orientação de Precisão e Desporto Escolar. Pode haver aqui algum tipo de sinergias?

A. P. C. - Depois de ter um primeiro contacto com a Orientação de Precisão, achei que podia ser muito interessante para trabalharmos com os mais novos as questões relacionadas com a sinalética. Só que as especificidades são tantas que se tornam obstáculos muito significativos. A começar pelo investimento de tempo na preparação dum treino desta natureza. É impossível. Mas mesmo que pensássemos em limitar o treino a três ou quatro situações, as diferenças são muito grandes e a exigência técnica em relação à Pedestre é enorme. O “entre” na Precisão é exatamente “entre”, enquanto na Pedestre qual o significado do “entre”? Mais para aqui ou mais para ali é “entre” e é isso que conta. Enfim, a menos que alguém se dedicasse inteiramente a isto... mas com grupos de cinquenta e muitos alunos e a dar treino praticamente todos os dias torna-se inviável.

Maria Portela, Leonardo Ramalho, Joana Fernandes, Maria Bernardino, João Magalhães, Rodrigo Magalhães... o fruto dum trabalho que tem o seu reconhecimento na indicação do seu nome pela Federação Portuguesa de Orientação para o prémio “Treinador do Ano”, da Confederação do Desporto de Portugal.

A. P. C. - Quando recebi a notícia até “abanei”, porque acho que não faz sentido (risos).

Não faz sentido porquê?

A. P. C. - Custou-me um bocado a digerir. Eu interpreto o prémio como um prémio anual. Se fosse um prémio de carreira pelo reconhecimento do meu trabalho e do tempo que tenho investido na modalidade, desde sempre, eu entendia. Agora, resultados deste último ano, não há nenhum que se possa verdadeiramente destacar. Se calhar havia outros treinadores que mereciam mais do que eu, não sei... também não sei quais foram os critérios. Mas custou-me a mandar o currículo, deve haver um engano (risos)...

Mas ficou satisfeita (!?) …

A. P. C. - Naturalmente. Mas entendendo-o como o reconhecimento da minha carreira, do trabalho que tem sido feito ao longo dos últimos anos e não propriamente os resultados deste último ano. Tenho os alunos que referiu com muito bons resultados no Desporto Escolar e no Federado nos últimos dois anos, não no último ano.

Como é que avalia o atual momento da nossa Orientação?

A. P. C. - Sinto que a parceria entre o Desporto Escolar e o Desporto Federado tem trazido bastantes frutos. Basta ver que os atletas jovens que estão a mostrar resultados vêm todos do Desporto Escolar. Esta parceria deve manter-se e tem de ser reforçada e isso é uma responsabilidade da Federação. Se assim o fizer, irá colher os frutos nos próximos anos. De resto – e assumindo que não sou a pessoa mais entendida no assunto -, penso que o nível técnico dos nossos eventos é muito bom e a prova disso é o elevado número de atletas internacionais que nos procuram. A única situação que me merece algum reparo é a variação a que se assiste de ano para ano em termos do modelo da Taça de Portugal. Na minha opinião, pela forma como a Taça de Portugal está estruturada, neste momento não há suporte financeiro que garanta a participação em tantas provas. São muitas provas, não faz sentido. Não faz sentido! É necessário reduzir drasticamente esse número. Temos as provas WRE concentradas num mesmo período e depois temos as restantes. Mas, na minha opinião, doze provas anuais era o “q.b.”. Há ali três ou quatro seguidas, tudo bem, e depois tinhamos outras oito para o resto do ano. Esta é a minha opinião.

Torneio .COMmapa, que futuro?

A. P. C. - É imprescindível para os nossos miúdos, é para manter. É a forma de termos competições regulares aqui próximo e a baixo custo. O objetivo inicial passava pela divulgação junto da população local e, simultaneamente, aproveitarmos para o treino dos nossos atletas duma forma mais formal. O nosso dilema reside no facto de fazermos as provas aqui no sentido da promoção da modalidade mas em mapas onde os miúdos treinam semanalmente ou então sairmos daqui, deixar um bocadinho de parte a divulgação e irmos para longe, onde temos mapas muito interessantes, como o Gerês, a Cabreira ou Paredes de Coura. Mas é difícil conciliar as duas coisas. Provavelmente optaremos por trazer para a cidade eventos mais mediáticos, como o Dia Nacional da Orientação e levaremos os restantes para fora.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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