Se, de alguma forma, o “ser
diferente” valesse votos, Ana Paula Campos integraria,
seguramente, o lote final de cinco candidatos ao título de
“Treinador do Ano” da Confederação do
Desporto de Portugal. A razão é
simples: ela é a única mulher entre os 30 nomes indicados pelas 27
Federações concorrentes ao prémio. Nascida em Lourenço Marques
(Moçambique) em 29 de Junho de 1968, Ana Paula da Silveira Serra
Campos é licenciada em Ensino de Educação Física e Mestre em
Ciências do Desporto (Gestão Desportiva) pela FCDEF-UP. Treinadora
da modalidade no âmbito do Desporto Escolar, onde se tem
notabilizado (foi a responsável pelas equipas de Selecção de
Iniciados e Juvenis Femininos nos últimos Campeonatos do Mundo de
Desporto Escolar ISF 2013), acumulando as funções com as de atleta
da modalidade Orientação e de organizadora / coordenadora de
eventos.
Foi nesta última qualidade que o
Orientovar a encontrou, no preciso momento em que, na Falperra
(Braga), chegava ao fim a Taça de Portugal de Orientação de
Precisão 2014. Uma etapa organizada pelo Clube de Orientação do
Minho e que teve em Ana Paula Serra Campos um dos seus elementos
preponderantes, ao assinar (juntamente com Manuela Marques) o desenho
dos pontos. Esse foi o mote para o início duma conversa ao encontro
do momento presente da modalidade no nosso País e onde é possível
perceber que “Perseverança”, “Voluntarismo” e “Carácter”,
as três palavras-chave escolhidas por Ana Paula Campos para se
definir como desportista e como pessoa, podiam igualmente ser
“Paixão”, “Coerência” e “Talento”. E “Humildade”!
Vale a pena organizar uma prova de
Orientação de Precisão?
Ana Paula Campos (A. P. C.) -
(risos) É muito difícil, sobretudo para quem não tem experiência
na disciplina. Eu estive envolvida com a Manuela Marques nesta
organização – aliás era impensável levar isto por diante só
com uma de nós – e nenhuma das duas domina a Orientação de
Precisão. Por conseguinte, o envolvimento e o investimento teve de
ser muito maior, implicou estudo e uma maior dedicação. Por outro
lado, este mapa [da Falperra] pode ser muito interessante para a
Pedestre mas não estava minimamente preparado para a Precisão - não
estava com a “precisão” devida (risos) -, o que implicou ajustes
sucessivos desde o início. Tivemos que mexer em imensas coisas,
coisas que para a Pedestre são insignificantes mas que tiveram aqui
de ser trabalhadas quase ao pormenor, o que foi muito complicado. Mas
aprendemos muito da disciplina, certamente, porque fomos obrigadas a
ler. E aprendemos também muito com o Luís [Nóbrega], que
supervisionou o nosso trabalho.
Podemos depreender, então, que o
balanço é positivo.
A. P. C. - Vale a pena organizar
uma prova destas, sem dúvida, mas o investimento é muito grande
para um número de participantes que, em Portugal, é ainda reduzido.
Se os números fossem outros seria muito mais gratificante,
naturalmente. Mas rejeito a ideia de que se deva deixar de fazer,
porque senão ficamos pior.
O que fazer para cativar mais
participantes?
A. P. C. - Já tenho refletido
sobre isto e não sei muito bem. Acho que o futuro desta disciplina
passa muito pelo investimento de duas ou três pessoas que se
especializem realmente nesta disciplina e que possam colmatar a falta
de elementos com saber ou experiência dentro dos clubes. Os clubes
têm os mapas e os terrenos, têm os recursos humanos mas depois
esbarram na falta de domínio das muitas particularidades da
Orientação de Precisão. É preciso alguém dedicado a 100% que
possa dar uma ajuda.
Orientação de Precisão e Desporto
Escolar. Pode haver aqui algum tipo de sinergias?
A. P. C. - Depois de ter um
primeiro contacto com a Orientação de Precisão, achei que podia
ser muito interessante para trabalharmos com os mais novos as
questões relacionadas com a sinalética. Só que as especificidades
são tantas que se tornam obstáculos muito significativos. A começar
pelo investimento de tempo na preparação dum treino desta natureza.
É impossível. Mas mesmo que pensássemos em limitar o treino a três
ou quatro situações, as diferenças são muito grandes e a
exigência técnica em relação à Pedestre é enorme. O “entre”
na Precisão é exatamente “entre”, enquanto na Pedestre qual o
significado do “entre”? Mais para aqui ou mais para ali é
“entre” e é isso que conta. Enfim, a menos que alguém se
dedicasse inteiramente a isto... mas com grupos de cinquenta e muitos
alunos e a dar treino praticamente todos os dias torna-se inviável.
Maria Portela, Leonardo Ramalho,
Joana Fernandes, Maria Bernardino, João Magalhães, Rodrigo
Magalhães... o fruto dum trabalho que tem o seu reconhecimento na
indicação do seu nome pela Federação Portuguesa de Orientação
para o prémio “Treinador do Ano”, da Confederação do Desporto
de Portugal.
A. P. C. - Quando recebi a
notícia até “abanei”, porque acho que não faz sentido (risos).
Não faz sentido porquê?
A. P. C. - Custou-me um bocado a
digerir. Eu interpreto o prémio como um prémio anual. Se fosse um
prémio de carreira pelo reconhecimento do meu trabalho e do tempo
que tenho investido na modalidade, desde sempre, eu entendia. Agora,
resultados deste último ano, não há nenhum que se possa
verdadeiramente destacar. Se calhar havia outros treinadores que
mereciam mais do que eu, não sei... também não sei quais foram os
critérios. Mas custou-me a mandar o currículo, deve haver um engano
(risos)...
Mas ficou satisfeita (!?) …
A. P. C. - Naturalmente. Mas
entendendo-o como o reconhecimento da minha carreira, do trabalho que
tem sido feito ao longo dos últimos anos e não propriamente os
resultados deste último ano. Tenho os alunos que referiu com muito
bons resultados no Desporto Escolar e no Federado nos últimos dois
anos, não no último ano.
Como é que avalia o atual momento
da nossa Orientação?
A. P. C. - Sinto que a parceria
entre o Desporto Escolar e o Desporto Federado tem trazido bastantes
frutos. Basta ver que os atletas jovens que estão a mostrar
resultados vêm todos do Desporto Escolar. Esta parceria deve
manter-se e tem de ser reforçada e isso é uma responsabilidade da
Federação. Se assim o fizer, irá colher os frutos nos próximos
anos. De resto – e assumindo que não sou a pessoa mais entendida
no assunto -, penso que o nível técnico dos nossos eventos é muito
bom e a prova disso é o elevado número de atletas internacionais
que nos procuram. A única situação que me merece algum reparo é a
variação a que se assiste de ano para ano em termos do modelo da
Taça de Portugal. Na minha opinião, pela forma como a Taça de
Portugal está estruturada, neste momento não há suporte financeiro
que garanta a participação em tantas provas. São muitas provas,
não faz sentido. Não faz sentido! É necessário reduzir
drasticamente esse número. Temos as provas WRE concentradas num
mesmo período e depois temos as restantes. Mas, na minha opinião,
doze provas anuais era o “q.b.”. Há ali três ou quatro
seguidas, tudo bem, e depois tinhamos outras oito para o resto do
ano. Esta é a minha opinião.
Torneio .COMmapa, que futuro?
A. P. C. - É imprescindível
para os nossos miúdos, é para manter. É a forma de termos
competições regulares aqui próximo e a baixo custo. O objetivo
inicial passava pela divulgação junto da população local e,
simultaneamente, aproveitarmos para o treino dos nossos atletas duma
forma mais formal. O nosso dilema reside no facto de fazermos as
provas aqui no sentido da promoção da modalidade mas em mapas onde
os miúdos treinam semanalmente ou então sairmos daqui, deixar um
bocadinho de parte a divulgação e irmos para longe, onde temos
mapas muito interessantes, como o Gerês, a Cabreira ou Paredes de
Coura. Mas é difícil conciliar as duas coisas. Provavelmente
optaremos por trazer para a cidade eventos mais mediáticos, como o
Dia Nacional da Orientação e levaremos os restantes para fora.
Saudações orientistas.
Joaquim Margarido
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