segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Ricardo Pinto: "Não gosto de cometer o mesmo erro duas vezes"



Ricardo Pinto alcançou em Itália o melhor resultado de sempre dum atleta português na vertente de PreO em Campeonatos do Mundo de Orientação de Precisão. Em Entrevista ao Orientovar, o atleta paralímpico analisa as suas prestações e projeta o futuro.


À partida para o Campeonato do Mundo, fez questão de apontar como grande objetivo o top-20. Depois do extraordinário 16º lugar alcançado, gostaria de lhe perguntar o porquê de acreditar que um resultado desta envergadura estivesse ao seu alcance.

Ricardo Pinto (R. P.) - Aquilo que eu realmente disse foi que ambicionava entrar no top-20. Pensar numa medalha nesta altura estava fora das minhas expectativas, mas fazia todo o gosto em chegar ao top-20. Respondendo agora à questão, não havia nada que me dissesse que o top-20 era possível, mas também não havia nada que me dissesse o contrário. Tudo aquilo que fui aprendendo ao longo deste tempo, fez-me ver que a distância que me separa dos melhores atletas mundiais não é assim tão grande. Pareceu-me que o top-20 era uma meta concretizável e fiz tudo para lá chegar.

O resultado alcançado é o fruto de dois dias de provas intensamente disputadas. Quais os momentos-chave da sua prestação?

R. P. - O primeiro dia correu-me maravilhosamente bem. Julgo que consegui fazer uma boa leitura do terreno e uma adequada gestão do tempo, pelo que as sensações no final da prova, antes mesmo de saber os resultados, foram muito boas. Já no segundo dia as coisas não correram extamente da mesma forma. Tinha a noção de ter dado algumas respostas erradas, embora verificasse mais tarde que os pontos errados não foram propriamente aqueles que pensava. Nomeadamente em relação ao último ponto, tive sempre a plena noção de que tinha acertado a resposta e, afinal, estava errado. Tenho a certeza que contei bem as balizas – aliás, contei-as três vezes -, fui dizendo a mim mesmo “delta, delta, delta...” e depois assinalei “echo”. Não sei como é que fiz uma coisa destas, foi uma pena.

Ficou afastado da Final de TempO. O que é que falhou aqui?

R. P. - O problema é que, de alguma forma, não consigo ainda controlar a minha ansiedade relativamente ao TempO. Chego a uma altura em que só quero é “despachar” a coisa e acabo por me “enterrar” ainda mais. Curiosamente, já não acontece o mesmo nos pontos cronometrados do PreO, onde estou muito mais à vontade e respondo com maior certeza que no TempO. O facto de não haver resposta “zero” nos pontos cronometrados do PreO faz, no meu caso, toda a diferença. Em Itália, houve ainda um aspeto que me foi muito desfavorável e que teve a ver com o facto de ter feito a qualificatória toda com um pneu furado. Sem querer com isto encontrar desculpas, pensar também na roda e não apenas na prova acabou por ser muito prejudicial.

A sua pontuação no segundo dia foi determinante na conquista do 9º lugar de Portugal na competição por Equipas. Estava igualmente à espera dum lugar no top-10?

R. P. - Sinceramente, não tinha qualquer expectativa relativamente ao lugar que poderíamos alcançar. Sabia que as coisas poderiam correr bem, que se eu fizesse um bom resultado os outros também o fariam. Acho que este é um bom resultado, mas poderia ter sido melhor se eu não tivesse falhado um ou outro ponto.

A questão dos “ses” agora pouco interessa – outros participantes terão igualmente razões de queixa -, mas ser o único entre os 20 primeiros a falhar os pontos 8 e 18 no segundo dia e, assim, ver fugir a oportunidade de conseguir um lugar no pódio, é realmente frustrante. Já pensou nisso?

R. P. - Sim, fiz essa análise. Devo dizer que no ponto 8 tinha o tempo muito controlado e acabei por me precipitar. Foi um erro não ter tido o discernimento de aferir o centro do círculo de outra posição. Se assim fosse, teria facilmente percebido que a resposta correta era “Bravo” e não “Alfa”. Já quanto ao ponto 18, confesso que olhei um milhar de vezes para o terreno e não consegui identificar a cota. Portanto, se não havia cota, a resposta óbvia era “zero”. Penso que se tivesse perdido ali mais um minuto, teria respondido corretamente à questão. O problema é que o meu tempo estava todo contado, nessa altura faltariam sete minutos para o tempo limite, havia ainda os pontos 19 e 20 para responder e eu já não podia gastar mais tempo. Tenho consciência que passei ao lado dum resultado brutal mas não vale a pena lamentar-me. Os erros estão feitos e agora não há volta a dar. Na certeza porém, eu não gosto de cometer o mesmo erro duas vezes e raramente faço isso. Portanto, só tenho de estar com os olhos bem abertos numa próxima.

Esta foi a sua terceira participação consecutiva em Campeonatos do Mundo. Consegue fazer uma análise comparativa em relação a cada uma destas três edições?

R. P. - Em 2012, na Escócia, basicamente fui às cegas. Não sabia o que era a Orientação de Precisão e fui aprender. Foi uma experiência fantástica, fundamental para que eu me agarrasse “com unhas e dentes” a esta disciplina. Na Finlândia, no ano passado, os resultados acabaram por ficar aquém das expectativas. Muito honestamente, pensei que sabia mais do que aquilo que realmente sabia. Entretanto, aprendi muito nos últimos tempos. A qualidade técnica das provas em Portugal aumentou de forma muito substancial e isso fez com que os meus conhecimentos fossem crescendo. Reconheço que as prestações nas várias provas da Taça de Portugal ficaram aquém do esperado, mas aprender com os erros foi extremamente importante. Daí que, chegar a Itália, deparar-me com bons mapas e terrenos e ver provas com um grau de exigência não superior àquilo a que estava habituado, acabou por ser determinante nos bons resultados alcançados. Aliás, gostaria de louvar o esforço das organizações portuguesas em elevar o nível qualitativo das suas provas, sobretudo esta temporada. Diria mesmo que tivemos provas da Taça de Portugal ao nível dum Campeonato do Mundo.

Ao relação às restantes equipas, há algum aspeto que gostaria de destacar?

R. P. - Fiquei bastante surpreendido com o resultado da Jana Kostová. É uma excelente atleta e estava à espera que ela pudesse repetir aquilo que fez na Finlândia, onde foi a campeã do Mundo. Ter ficado à frente dela deixa-me orgulhoso, naturalmente, mas penso que ela vale muito mais do que aquilo que demonstrou em Itália. Isto permite-me reforçar a ideia de que na Orientação de Precisão tudo é possível. Até os melhores falham. Gostaria, também, de destacar o excelente trabalho que está a ser desenvolvido em Espanha e os bons resultados alcançados no Campeonato do Mundo. A Croácia tem um conjunto muito forte e foi uma justa vencedora da competição por Equipas, enquanto a Rússia foi, para mim, a grande desilusão, apesar de ter apresentado uma equipa composta exclusivamente por atletas paralímpicos. Individualmente, a vitória do Martin Jullum no TempO não me surpreendeu particularmente.

E quanto ao ambiente no seio da equipa portuguesa. Sei que, para além do enorme espírito de entreajuda, aprendeu com o Nuno Pires 20.000 anedotas acerca de cadeiras de rodas. Quer partilhar uma connosco?

R. P. - (Risos) Não tenho memória duma em especial, mas é verdade que o espírito de entreajuda e a forma de estar no seio do grupo foi excelente. Aprendi imenso com o Nuno, o Luís Gonçalves e o João Pedro Valente, reuniamos antes das provas, analisávamos as nossas prestações, antecipávamos o dia seguinte e isso foi muito proveitoso. O Nuno Pires fez um ótimo trabalho, foi um excelente team leader e isso foi crucial para os nossos resultados.

Por onde passam agora os objetivos em termos de futuro?

R. P. - Este ano, o objetivo passa por segurar a liderança na Taça de Portugal e chegar novamente à vitória. De resto, os objetivos são os mesmos de sempre: Participar no maior número de provas possível e continuar a evoluir. Penso, também, que as vitórias são importantes mas não são o mais importante. Mais importante é aquilo que eu possa dar à Orientação de Precisão. Temos ainda um caminho muito longo a percorrer na divulgação desta disciplina e devemos partilhar aquilo que temos e sabemos. Só assim poderemos continuar a crescer.

[Imagem de Arquivo]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido
  

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