terça-feira, 12 de agosto de 2014

Bohuslav Hulka: "Os melhores momentos estão relacionados com as excelentes pessoas que tenho conhecido"



Bohuslav Hulka é um dos nomes maiores da Orientação de Precisão a nível mundial. Se outros argumentos não existissem, foi ele quem, ao lado de Petr Krystek, levou pela primeira vez a bandeira da República Checa a um Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão. Estávamos em 2007, em Kiev, e nas sete edições seguintes Hulka foi presença constante nos maiores eventos do calendário internacional. Agora que o WTOC 2014 ficou para trás, é chegado o momento de fazer o balanço de quase uma década de atividade, tanto no plano competitivo, como no organizacional e institucional.


Numa altura em que está de partida da Comissão de Atletas de Orientação de Precisão da Federação Internacional de Orientação, começaria por lhe pedir que me falasse um pouco do que foi essa sua experiência?

Bohuslav Hulka (B. H.) - Vejo a Comissão de Atletas de Orientação de Precisão como uma oportunidade para uma via suficientemente bem estruturada e que permite aos atletas colaborarem no desenvolvimento desta disciplina. A minha ambição é a de que a Comissão seja uma espécie de amplificador das vozes dos atletas. Aceitei a nomeação na expectativa de que alguns atletas podessem ver em mim a pessoa certa com quem partilhar as suas opiniões, tornando-as audíveis e consideradas. Devo admitir que as coisas não foram fáceis de início. Imediatamente após a nomeação, assistimos a uma série de alterações nos Regulamentos para as quais não contribuimos minimamente. Também houve alguns lapsos de tempo demasiado grandes nas discussões via e-mail. Mas sinto que, entretanto, a situação melhorou imenso. O período que medeia entre o levantar duma questão e a resposta por parte da Comissão de Orientação da IOF é agora muito menor. As individualidades que compõem a Comissão de Atletas de Orientação de Precisão são respeitadas e proativas. Ver a Comissão de Atletas de Orientação de Precisão e a Comissão de Orientação de Precisão da IOF de mãos dadas comprova, igualmente, a seriedade do trabalho efetuado pela Comissão de Atletas. E há ainda um novo fenómeno, chamado “TrailO blogging”. Temos agora uma oportunidade extraordinária de escutar aquilo que muitos atletas têm a dizer a propósito desta disciplina. Um bom trabalho com resultados visíveis, graças a ti, Joaquim!

Consegue nomear alguns dos momentos mais importantes durante a sua estadia no seio da Comissão de Atletas de Orientação de Precisão?

B. H. - Mencionaria um par de tópicos: O nível qualitativo dos eventos e a satisfação dos competidores, a tolerância zero, o Campeonato do Mundo de Juniores de Orientação de Precisão, as condições ao dispôr dos atletas em cadeira de rodas e a elegibilidade paralímpica. Estes últimos dois assuntos tocam-me muito particularmente.

O que é que gostaria que tivesse acontecido e que – pelo menos por enquanto – não aconteceu?

B. H. - Os atuais critérios de elegibilidade paralímpica são, maioritariamente, baseados numa declaração – consegues percorrer uma dada distância dentro dum tempo limite ou não? Compreendo este aspeto como um dos pilares da Orientação de Precisão mas que, infelizmente, necessita de ser trabalhado e completamente alterado. Uma solução possível e muito particular poderá consistir na compensação das incapacidades motoras com a definição de diferentes tempos limite de prova. Penso que isto é perfeitamente viável, embora implique uma reformulação das regras de atribuição de elegibilidade paralímpica, tornando-as mais consistentes com outras regras já existentes, mais objetivas, justas e, claro, amplamente respeitadas.

Competiu num Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão pelo oitavo ano consecutivo, mas esta foi a primeira vez que alcançou uma posição dentro do top-6. O que é que sentiu quando ouviu o seu nome ser chamado para subir ao pódio?

B. H. - Na realidade, não fui chamado para subir ao pódio, devido aos degraus existentes, mas havia ali muita gente disponível para me ajudar a “trepar” lá para cima. E vejo isto como algo representativo daquilo que tem sido a minha carreira na Orientação de Precisão: Os melhores momentos estão relacionados com as excelentes pessoas que tenho conhecido.

Estava à espera deste resultado?

B. H. - Nos últimos dois anos (na Escócia e na Finlândia) tive resultados francamente maus e, desta vez, dei o meu melhor para conseguir um lugar na primeira metade da tabela. A partir daí foi tudo uma questão de pura sorte. Não considero a minha prestação no Campeonato do Mundo como algo de excecional. Cometi o mesmo número de erros que habitualmente cometo. No primeiro dia, tanto o encurtamento da prova como o ponto anulado só me favoreceram. Sou um individuo do género desconfiado e se a minha “tolerância zero” não fosse tão conforme ao segundo Model Event, as coisas poderiam ter corrido melhor ainda. No segundo dia cometi alguns erros desnecessários, mas não tantos assim se comparados com aqueles cometidos por muitos dos restantes competidores paralímpicos. De forma incrível, consegui terminar a prova dentro do tempo limite, assinalando exatamente as respostas que queria assinalar. Mas tenho a consciência que, se estivesse a competir na Classe Aberta, seriam muito poucos aqueles que ficariam atrás de mim. Comparando com aquilo que aconteceu com a minha amiga Jana [Kostová], Campeã do Mundo em 2013 e que, na Classe Aberta, teria sido 7ª classificada, percebe-se que estamos a falar de situações completamente diferentes.

Como é que avalia a organização italiana dos Campeonatos do Mundo?

B. H. - Dum modo geral, boa. Haveria alguns pontos que mereceriam ser mais trabalhados, mas infelizmente isto não se passa apenas no Campeonato do Mundo. Muitos Europeus e Mundiais levados a cabo anteriormente apresentaram o mesmo problema. Outro problema foi a lentidão no apuramento dos resultados. Não consigo compreender como é que, durante as competições nos países nórdicos, nomeadamente no O-Ringen, os resultados são publicados pouco após a chegada do último atleta e, tanto no ETOC como WTOC, foram precisas horas e horas para que os resultados aparecessem. Este tempo de espera leva a situações de indefinição e incerteza e, sobretudo, dá uma ideia desnecessária de que esta é uma disciplina complicada. Poderia falar ainda da falta de casas de banho acessíveis durante a prova. Neste WTOC este não foi um problema sério, mas a verdade é que a sua falta poderia ter resultado em experiências verdadeiramente desagradáveis para competidores com necessidades especiais, pelo que sinto que tenho o dever de mencioná-lo.

Durante a sua presença nos Europeus, em Portugal, tivemos oportunidade de trocar algumas impressões sobre a dificuldade de “recrutamento” de atletas Paralímpicos para a nossa disciplina. Já tem a solução para o problema?

B. H. - A Orientação de Precisão pode constituir uma oportunidade excelente para pessoas com e sem mobilidade reduzida puderem competir em pé de igualdade. Sinto-me imensamente feliz por poder competir com atletas como a Agata Ludwiczak, Søren Saxtorph, Ken Gamelgård ou Júlio Guerra, pessoas que têm de lidar com dificuldades muito maiores do que as minhas. Na república Checa, apresentamos a Orientação de Precisão a cerca de dez novos praticantes em cadeira de rodas todos os anos. Começamnos com provas de “Sprint” em cadeira de rodas e procuramos introduzir logo nessa altura uma ou duas estações de PreO ou TempO. Nos últimos tempos, alguns desportos mais radicais e a Orientação em BTT têm dado o seu contributo, adaptando igualmente as suas atividades a pessoas com mobilidade reduzida. Por outro lado, desempenhamos o papel de “relações públicas” junto dos orgãos de comunicação social – televisão, rádio e jornais -, procurando desta forma que a disciplina seja conhecida e respeitada. E como resultado de todo este esforço temos um novo competidor paralímpico a cada dois ou três anos. Isto é muito diferente quando queremos “vender” a Orientação de Precisão a pessoas provenientes da Pedestre ou cartógrafos, com todos os pré-requisitos para poderem vir a ser trail orientistas bem sucedidos. Quando, finalmente, tens um atleta com elegibilidade paralímpica minimamente promissor, ainda tens de trabalhar o aspeto psicológico, encorajando-o a prosseguir, a não desistir. E no caso dum tetraplégico, deves preparar-te para encontrar os necessários apoios que garantam uma assistência adequada ao atleta. Qual é a tua opinião – valeu a pena o esforço? Eu diria que valeu!

A Orientação de Precisão caminha no sentido certo?
B. H. - O ponto de partida desta disciplina é tudo menos fácil. Eu não conheço outro desporto que implique tanto trabalho na preparação duma competição. Não é fácil explicar ou compreender o que é isto da Orientação de Precisão. Por outro lado, a eliminação do fator físico relacionado com a velocidade faz vincar a ideia de que este não é um desporto “a sério”. O caráter inclusivo da competição entre pessoas com e sem mobilidade reduzida pode ser atrativo, mas os critérios de elegibilidade paralímpica não são suficientemente claros. O cerne desta disciplina parece ser a extrema “precisão” quando, na realidade, não o é. Há muitos aspetos subjetivos como a exactidão do mapa ou um traçado de percursos menos ortodoxo que acarretam reclamações, protestos, pontos cancelados e que, no final, arriscam a deixar no competidor sensações pouco agradáveis. Mas há, por outro lado, desenvolvimentos muito positivos: o TempO estabeleceu-se como uma justa e respeitada vertente, o formato de Estafeta parece muito promissor e é, seguramente, mais interessante e justo do que a Competição por Equipas. As cerimónias desenrolam-se (geralmente) na mesma altura que as cerimónias da Pedestre. O meu sonho é que a Orientação de Precisão possa vir a ter um patrocinador global (porque não, por exemplo, a IKEA ou o Google?) e cobertura televisiva dos acontecimentos mais importantes.

A temporada caminha para o final e suspeito bem que as suas atenções estejam já centradas na Croácia e nos próximos Campeonatos do Mundo. Que tipo de evento espera?

B. H. - Se não houver mais desastres naturais do género furacões, inundações, terramotos, etc., o WTOC 2015 vai ser um evento fantástico, sem dúvida. A equipa de traçadores é do melhor que há e os Supervisores são excelentes. Mas confesso que as minhas atenções já vão um pouco mais além, em 2016, com um Supervisor do WTOC de nacionalidade checa e especialmente com o Campeonato da Europa disputado no meu país. A “jogar em casa”, seria excelente alcançar um bom resultado.

Já tem planos para a sua carreira no médio e longo prazo? Por quanto tempo mais vamos vê-lo a fazer Orientação de Precisão?

B. H. - Penso que qualquer pessoa pode praticar este desporto até aos 110 anos, mas eu não gostaria de o fazer de forma contínua. Se conseguir encontrar coragem suficiente, irei fazer uma pausa durante alguns meses ou mesmo anos em busca do equilíbrio entre uma enorme motivação e o levar as coisas de forma mais tranquila. Caso não venha a ser bem sucedido nesta minha demanda, só posso pensar que vou continuar a chatear-te nos próximos 70 anos.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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