terça-feira, 22 de julho de 2014

WOC 2014: A análise de Bruno Nazário



Dois atletas na Final de Sprint do primeiro dia foi tudo quanto de mais positivo a seleção portuguesa conseguiu arrecadar nos Campeonatos do Mundo de Orientação WOC 2014, que decorreram em Itália. A despromoção de Portugal à terceira divisão, na categoria masculina, surge como corolário lógico deste magro saldo duma semana de altíssimo nível competitivo. E constitui também o ponto de partida para uma conversa, em jeito de análise, com Bruno Nazário, o selecionador nacional de Orientação Pedestre.


“Quando se desce de divisão, o balanço não pode ser positivo”. Foi com estas palavras que o selecionador nacional de Orientação Pedestre, Bruno Nazário, começou por se referir à participação portuguesa nos Campeonatos do Mundo de Orientação WOC 2014, que tiveram lugar em Itália. Lembrando que “estávamos dependentes de desempenhos excecionais nas disciplinas de floresta o que, infelizmente, acabou por não acontecer”, Nazário admite ter consciência que a tarefa da manutenção era “muito difícil”.

Mas será a terceira divisão o espelho da realidade da Orientação portuguesa? A resposta não se faz esperar: “Esta é a realidade portuguesa, como é a realidade espanhola, australiana, irlandesa... E é a realidade belga, que tem 'apenas' o 7º melhor atleta do Mundo no Sprint.” Sem pretender desculpar-se com o novo formato dos Campeonatos do Mundo no tocante às disciplinas de floresta como a causa desta situação, Nazário não deixa de apontar o dedo à Federação Internacional de Orientação, afirmando ser esta, sobretudo, “a realidade que a IOF quer”. Relembrando a sua intervenção na Conferência de Presidentes, Bruno Nazário acrescenta que “esta é uma realidade que, de certa forma, mata os países em vias de desenvolvimento. Veja-se o caso da Bélgica, precisamente, que tem um atleta [Yannick Michiels] claramente superior aos restantes. Que motivação podem ter esses outros atletas, sabendo que só poderão correr se ele não quiser? Isto é altamente penalizador para um grande número de países, países esses que contribuem em muito para as atividades da IOF e que, a meu ver, estão a ser castrados no seu desenvolvimento competitivo. Mas temos de saber viver com esta realidade.”


Vamos querer regressar à segunda divisão em 2015”

Olhando para a forma como decorreu o Campeonato do Mundo WOC 2014, Bruno Nazário refere que “quando se possuem terrenos fabulosos como aqueles onde tiveram lugar as provas, é quase impossível que as coisas corram mal”. Embora reconhecendo que “nem tudo foi perfeito”, aquele responsável considera que “foi um bom Campeonato, um Campeonato que prova que, mesmo em países não tão desenvolvidos em termos da competição, é possível levar a cabo um Campeonato do Mundo com muita qualidade e bem organizado”, afirma. Quanto às grandes figuras destes Mundiais, Judith Wyder surge em lugar de destaque - “conquistou uma medalha em todas as distâncias em que participou e isso é do outro mundo” -, enquanto nos homens Nazário começa por referir o nome do francês Thierry Gueorgiou - “ganhou a Distancia Longa, que para mim continua a ser a distancia-rainha dos Campeonatos” - mas sente-se mais inclinado para eleger Søren Bobach como a grande figura masculina, “pelo efeito surpresa e pelo que isso tem de importante para a própria modalidade, mostrando a muitos atletas que é possível chegar ao topo.”

Agora que o WOC 2014 acabou, viva o WOC 2015 a ter lugar nas Terras Altas da Escócia, na primeira semana de Agosto do próximo ano. E se é verdade que, por essa altura, todos estaremos mais velhos um ano, não é menos verdade que isso é visto pelo selecionador nacional como “uma vantagem muito grande para Portugal”. Lembrando que a equipa portuguesa que disputou a prova de Estafeta Mista de Sprint nestes Mundiais era a que apresentava a média de idades mais baixa entre as 36 seleções presentes, Nazário mostra-se esperançado “numa grande evolução dos nossos jovens, assim mantenham a mesma motivação e vontade de trabalhar demonstradas até aqui”. Apesar das dificuldades, a ambição e motivação intrínsecas podem fazer com que a reviravolta se venha a operar já em Inverness: “São muitos os países com a mesma ambição, mas estamos lá para fazer o nosso melhor. Vamos querer regressar à segunda divisão em 2015”, conclui.


Os que sobem e os que descem

Passando em revista a “dança” dos lugares, percebe-se que a Espanha acabou por ser a seleção que mais teve a perder nestes Mundiais, vendo as suas equipas masculina e feminina relegadas para a terceira divisão. Ainda no sector feminino, a Hungria acompanhou a Espanha na descida, enquanto Nova Zelândia e Japão ascenderam à segunda divisão. No sector masculino, Austrália e Irlanda foram as equipas promovidas à segunda Divisão, por troca com Portugal e Espanha. Já no tocante à primeira Divisão, Letónia em masculinos e Grã Bretanha em femininos foram despromovidas, trocando de posições com a Ucrânia e a Letónia, respetivamente.

Recorde-se que são em número de oito os países com assento na primeira divisão, enquanto na segunda divisão militam 14 países. Todos os restantes englobam o vasto leque de presenças na terceira divisão. Em termos práticos, cada país da terceira divisão participará com um atleta nas provas de Distância Média e de Distância Longa dos Campeonatos do Mundo de Orientação do próximo ano e nos anos seguintes, aumentando esse número para dois no que se refere aos países da segunda divisão e sendo de três no caso da primeira divisão e no tocante ao país organizador dos Campeonatos, independentemente da divisão onde milita.

[Foto: FPO / facebook.com/fporientacao]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido
  

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