segunda-feira, 28 de julho de 2014

SOW 2014: João Moura, um português nas alturas



Fértil em grandes eventos de Orientação um pouco por toda a Europa, a semana que passou teve na Swiss Orienteering Week uma das manifestações mais relevantes e participadas. Relevantes, pela qualidade técnica dos eventos e pelo ambiente natural deslumbrante, com o celebrado Matterhorn em pano de fundo. Participadas porque a soma de quase cinco mil atletas presentes em Zermatt apenas foi batida pelos vinte milhares de participantes no O-Ringen. Entre os presentes no SOW 2014, destaque para a figura de João Moura, atleta e dirigente do Clube de Orientação de Viseu – Natura, um dos cinco portugueses que rumaram à Suiça na passada semana. O Orientovar foi ao encontro do atleta com algumas questões, sendo agora possível beber nas suas palavras um pouco do muito que o evento teve para oferecer.


Com o O-Ringen e o Swiss Orienteering Week a decorrerem na mesma altura, foi difícil optar?

João Moura (J. M.) - Ambas são provas com excelente reputação e aquilo que à partida não parece ser uma escolha fácil, para mim foi quase que óbvia. Nem pensei sequer em ir ao O-Ringen em detrimento da Swiss Orienteering Week, uma vez que este ano tive a sorte da prova ser realizada em Zermatt, onde tenho familia a residir. E este foi mesmo o motivo maior da minha vinda ao SOW deste ano, porque conseguiria aliar duas coisas muito importantes para mim, a família e a Orientação.

Quais as expectativas à partida para a Suiça? O que é que sabia - ou julgava que sabia - acerca deste grande evento?

J. M. - As informações que eu tinha sobre os SOW anteriores eram muito limitadas, nunca tinha acompanhado ao pormenor nenhuma das edições anteriores, daí que à partida, em termos de Orientação propriamente dita, estava com algum receio. Por um lado porque nunca tinha corrido a uma altitude tão elevada e não tinha a certeza da reação do meu corpo a esta mudança e por outro tinha receio que o terreno e a organização das provas fosse totalmente diferente dos nossos eventos portugueses. Em termos turisticos, tinha um feedback excelente por parte dos meus familiares residentes em Zermatt, que me transmitiam que eu iria gostar mesmo desta zona de montanha. E foi o que acabou por acontecer, é mesmo um sitio de uma beleza rara ao qual eu fiquei imensamente surpreendido e apaixonado.

Estar no centro dum grande evento como este é, exatamente, o quê?

J. M. - Desde que saí do Aeroporto Sá Carneiro, no Porto, até que aterrei propriamente em Genebra e viajei para Zermatt, senti-me um verdadeiro atleta, quase que utopicamente uma estrela. Viajei orgulhosamente com o equipamento oficial do meu clube e fiz questão de colocar no meu equipamento emblemas com a bandeira portuguesa. Senti mesmo que iria representar não só o meu clube, mas também o meu país. E foi este um sentimento que me acompanhou durante toda a minha estadia em Zermatt. Ter aproximadamente 5000 atletas representantes de quase todos os pontos do mundo no mesmo ambiente que eu foi mesmo magnífico, e nem por isso me sentia inferior por pertencer a uma das nações com menos representantes neste evento. E fiz questão de, em todas as etapas, levar comigo uma bandeira portuguesa presa nas costas da minha camisola de competição.

Mas, basicamente, o “ritual” é o mesmo das nossas provas portuguesas, no entanto a diferença é que estamos rodeados de milhares de pessoas de culturas e línguas diferentes. Também tive a sorte da comitiva portuguesa nesta prova ser constituida por mais quatro atletas “veteranos”, apesar de só conhecer à priori o Manuel Dias, logo depois do primeiro dia fiquei a conhecer os restantes três atletas e criou-se logo uma empatia e ambiente fantástico entre nós.

Como foi feita a gestão do seu dia a dia?

J. M. - Neste aspecto tive a vida facilitada, porque estar em casa de familiares portugueses tem muitas vantagens. Nunca me senti sozinho e tinha sempre o apoio de alguém que já conhecia a forma de funcionamento da própria cidade de Zermatt que tem características muito próprias. Mais importante que isso, a minha alimentação não variou muito, almoçava e jantava sempre comida portuguesa. Nos primeiros dias em que cheguei tive a necessidade de ir até à montanha participar num dos muitos treinos cronometrados que a organização do SOW proporcionou aos atletas, e tentar perceber a reacção do meu organismo à altitude, para que durante as etapas conseguisse gerir fisica e mentalmente este handicap. E, realmente, senti muita diferença neste primeiro contacto com esta altitude, perdia o folego rapidamente e tinha que ser bastante cuidadoso com a minha hidratação. Tive a sorte de, nos primeiros dias após a minha chegada, as condições meteorológicas serem bastante favoráveis, mas isso não aconteceu quando o evento propriamente dito começou. Muita chuva, frio e muito nevoeiro na maioria das etapas de montanha, sendo que a organização teve que trocar a etapa 3 com a etapa 5 em virtude destas condições meteorológicas adversas que se fizeram sentir. Na etapa 3 tive a minha estreia em terrenos com neve, na verdade nunca tinha corrido sob estas condições, o que me condicionou a prestação porque, por um lado, a leitura do terreno não é tão perceptivel e por outro, claramente, corria a “passo de caracol”, com medo de escorregar, enquanto que os restantes atletas corriam sobre a neve a uma velocidade quase que normal.

Em termos organizativos, julgo que estavam preparados para dar seguimento ao evento sob quaisquer condições meteorológicas, apesar de que normalmente em Portugal quando chove as organizações preocupam-se bastante com o bem-estar do atleta e nestes casos fornece toda uma logística para que, por exemplo, se possa guardar os pertences em algum sítio onde não chova, o que não se verificou aqui na Suiça. A propósito disso até questionei um membro da organização se não iriam existir tendas nas arenas onde poderíamos guardar as nossas mochilas, ao que ele me respondeu que isso era um problema do atleta e não da organização, respostas estas às quais, normalmente, não estamos habituados em Portugal.

Em termos competitivos, que balanço faz da sua prestação? Foi positivo?

J. M. - Sim, eu considero que foi positivo. Fiz o 18º lugar em 125 atletas no meu escalão, HB. Tive o azar de me lesionar a duas semanas de voar para a Suiça com uma fasceíte plantar (inflamação muscular na plantas dos dois pés) que me causou dores e grande desconforto durante toda a semana de prova. Mas é claro que eu tenho a noção que não sou nenhum atleta de elite e que estava a competir num escalão “inferior” ao que corro em Portugal (H21A). Que em termos técnicos tinha alguns pontos pouco desafiantes, sendo que se fosse agora fazer novamente a inscrição ter-me-ia inscrito no escalão HAK (mais técnico que o HB). Mas quando me inscrevi para o SOW em Janeiro tive algum receio de que não me conseguisse adaptar às caracteristicas do terreno e às condições meteorológicas e que assim sendo não me conseguisse divertir tal como me diverti a competir.

E quanto ao resto? A julgar pelas "selfies" com alguns dos melhores atletas mundiais, dá para perceber que essa diversão extravasou para for a das provas, num ambiente de grande descontração e partilha...

J. M. - Sim, isso é verdade! Não sei se era pelo facto de os atletas suiços estarem a correr em “casa”, mas a verdade é que em todos os atletas de topo com quem eu tive o privilégio de trocar impressões notava-se claramente um grande à vontade pela parte deles em falar comigo e a maioria achava piada em eu pedir para tirar a famosa “selfie” com eles. Mas esta oportunidade de conversar e tirar fotos com a maioria das minhas referências orientistas (tanto masculinas como femininas), foi mesmo uma sensação muito boa e que me deixa ainda mais motivado para continuar a treinar e a evoluir na modalidade em Portugal.

Tem algum episódio engraçado para nos contar?

J. M. - Na verdade tive dois episódios engraçados que envolveram os irmãos Hubmann. Logo no primeiro dia de competição (etapa prólogo de Sprint urbano, em Zermatt, só para os escalões de Elite), encontrei o Daniel Hubmann na arena e claro está, pedi-lhe se poderia tirar uma foto com ele, ao que ele me responde muito sério em inglês: “Claro, mas são 5 €”, e eu por momentos fiquei chocado porque só conhecia a faceta “séria” do atleta, e respondi-lhe: “Eu já sabia que era tudo muito caro na Suiça, mas ao menos pediste-me Euros e não Francos Suiços”, obviamente que tirei uma foto com ele e ainda nos rimos um pouco. A outra situação ocorreu, curiosamente, no último dia, na cerimónia de entrega de prémios. Fui ter com o Martin Hubmann para ele autografar o meu dorsal e ele estava a beber um copo grande de um líquido que aparentemente parecia cerveja. Obviamente meti-me com ele sobre esse facto e ele explicou-me que não era cerveja mas sim um sumo tradicional suíço, que eu desconhecia, e disse-lhe que nunca tinha provado, ao que ele me responde que eu não poderia sair da Suiça sem provar aquilo e deu-me do copo dele para provar. Senti-me mesmo num ambiente de grande descontração que normalmente não estou habituado quando estes atletas vêm às nossas provas.

Esteve no “núcleo duro” de algumas das grandes organizações em Portugal nos três últimos anos, nomeadamente o POM 2012 e o MCO 2014. Ver o SOW 2014 com o olhar de quem organiza dá para perceber uma realidade muito diferente? Há aspectos que vivenciou e que valeria a pena “importar” para o nosso país?

J. M. - Os Suiços são, por natureza, pessoas com uma capacidade organizativa superior e este evento não foi excepção. Há efetivamente aqui uma realidade algo diferente e, apesar das coisas serem bem feitas tanto em Portugal como na Suiça, nota-se que a forma de trabalhar, de organizar e distribuir o trabalho é diferente. No entanto também se nota que as organizações portuguesas possuem mais capacidade para resolver pequenos incidentes que se desviem do “plano” inicial. Mas, na minha opinião, talvez a grande diferença seja na quantidade de voluntários a trabalhar no evento, o que permite que se preocupem em ter elementos da organização em quase todos os pontos de acesso à montanha para encaminhar os atletas (estações de comboio e teleféricos, por exemplo). Mas o que me surpreendeu mais foi o Boletim final do evento, que era um livro com mais de 100 páginas onde explicava tudo ao mais infimo pormenor da prova, como por exemplo: o esquema das partidas, o tempo que se demoraria a chegar aos eventos em forma de esquema a contar já com as viagens a pé e de funicular ou teleférico e com 30 minutos na arena para o atleta se equipar, se haveria ou não água nas partidas, se era aconselhado levar um casaco para as partidas, etc.

Acho que a grande importação que faria para Portugal era mesmo este modelo de boletim/livro com todas as informações necessárias. No entanto também importaria alguma noção de organização propriamente dita, porque em Portugal há uma necessidade de organizar ao máximo os poucos recursos humanos que possuimos, coisa que eu reparei que funcionava bem aqui. Cada voluntário tinha a sua identificação, a sua função na prova e um rádio portátil para comunicar na rede e receber/transmitir indicações ou informações. Por último, e tendo em conta o meu background profissional, uma das coisas que temos que urgentemente importar para os nossos eventos é o planeamento e a gestão da emergência. Cada etapa do SOW tinha vários postos de socorro espalhados pelo mapa e havia sempre um helicóptero pronto para qualquer evacuação de algum sinistrado e veiculos adaptados às condições de alta montanha, já para não contar com o posto médico montado na arena. É claro que falamos em realidades diferentes, mas podemos sempre aprender para conseguirmos sustentavelmente chegar à excelência organizativa nos nossos eventos portugueses.

Para aqueles que ainda não se decidiram por uma competição de Verão na Europa nos próximos anos, que argumentos avançaria para não perderem a próxima SOW, em 2016?

J. M. - Em 2016 a SOW irá ser organizada em Engadin St. Moritz e se a qualidade dos terrenos e a organização for similar, é um evento a ter em conta e que eu recomendo vivamente. Sinceramente este SOW 2014 foi o melhor evento em que eu já participei, só pecou por não ter trazido os meus atletas do COV-Natura para participarem comigo. Mas todo este ambiente vivido aqui, a descontração, a qualidade organizativa, a qualidade dos mapas e a preocupação com os pormenores, tornam este evento único e uma referência muito forte no mundo orientista.

E o João? Vai permanecer fiel ao SOW e continuar a rumar à Suiça para uma semana ao nível desta que acaba de chegar ao fim?

J. M. - Infelizmente ir até ao SOW acarreta despesas muito significativas e não está ao nível de todos, uma vez que há uma grande diferença entre a realidade económica portuguesa e a realidade económica suiça. Os preços são muito altos para o comum português nos artigos mais básicos. Eu só tive hipótese de ir este ano por ter a facilidade em termos de alojamento e alimentação facultados pela minha família residente em Zermatt. Daí que talvez não me possa dar ao luxo de poder voltar a competir tão cedo num evento destes na Suíça. Com muita pena minha, claro!

Para ficar a conhecer ao pormenor o dia a dia de João Moura em Zermatt e a sua experiência na Swiss Orienteering Week 2014, não deixe de visitar a sua página pessoal em http://joao-moura.blogspot.pt.

[Foto gentilmente cedida por João Moura]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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