terça-feira, 8 de julho de 2014

Nuno Pires e o WTOC 2014: "No TempO podemos chegar mais perto dos nórdicos e mais rapidamente"



Passada a primeira grande competição do XI Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão WTOC 2014 - e com ela as emoções do TempO e esse fantástico 9º lugar do Luís Gonçalves (!) - é tempo de olhar para a competição de PreO que terá o seu epílogo no próximo dia 11 de Julho e cujo Model Event do primeiro dia teve lugar já esta manhã. São muitos e variados, pois, os assuntos em cima da mesa e acerca dos quais trocámos impressões com Nuno Pires, o Responsável da delegação portuguesa presente em Lavarone.


Agora já mais a frio, está completamente recuperado das emoções do dia de ontem? (risos)

Nuno Pires (N. P.) - Foi realmente um dia bastante intenso. Ao início as expectativas eram idênticas para todos, mas após as séries qualificatórias cada um de nós tinha uma noção muito precisa daquilo que teria corrido menos bem. Pessoalmente, senti muita dificuldade nas Estações 5 e 6, penalizei claramente ao repetir respostas na mesma estação e sabia que muito dificilmente alcançaria um lugar na Final. O que é certo é que errei demasiado, ao contrário do Luís Gonçalves.

E depois na Final foi aquilo que já todos sabemos.

N. P. - Sim, uma alegria muito grande. Valerá a pena referir que essa alegria foi partilhada entre todos e também com o António Hernandez que tem estado connosco em todos os momentos. Aliás, no espaço de prova, portugueses e espanhóis andam sempre muito próximos e trocam impressões amiúde. Isto é bastante proveitoso, as nossas comitivas fundem-se e a partilha aumenta em termos de ideias e conhecimentos. Houve igualmente outras seleções que se associaram ao nosso especial momento, principalmente do Leste da Europa, demonstrando curiosidade em perceber como é que o Luís chegou onde chegou. Curiosidade e carinho, um sorriso que deixa transparecer uma mensagem de apreço para com quem surge a intrometer-se no espaço dos países que normalmente dominam esta disciplina.

Há algo de fortuito neste 9º lugar do Luís Gonçalves?

N. P. - Não sei responder muito bem a esta questão... Mas não, acho que não. O Luís é uma pessoa que já anda na Orientação há muito tempo, é um atleta que integra os quadros da Elite nacional de Orientação Pedestre, tem qualidades técnicas acima da média e o facto de ser muito novo e com muita rapidez de reação faz com que tenha o perfil ideal para o TempO. Curiosamente, dada a complexidade dos terrenos e dos desafios nesta prova, o Luís, claramente, adoptou uma estratégia que se revelou muito melhor do que a estratégia de muitas das chamadas “metralhadoras nórdicas”. Ou seja, eles estão habituados a “disparar” em cinco ou seis segundos e, neste caso, responder corretamente e duma assentada a todas as questões era humanamente impossível. Daí ele ter tido uma performance tão boa e ter alcançado um resultado que ninguém estava à espera.

Que impacto pode ter este resultado no desenvolvimento futuro desta disciplina em Portugal?

N. P. - Bem, isto prova que o TempO é, claramente, uma disciplina a trabalhar no futuro. Eu gostaria de ver mais competições de TempO no calendário oficial de provas em Portugal, talvez encontrar uma solução que permitisse encaixar o próprio TempO no ranking da Taça de Portugal de TrailO, uma solução híbrida, não sei. Temos que pensar, mas é como ainda ontem dizia o Antonio Hernandez, usando uma analogia com aquilo que se passa na Orientação Pedestre: os portugueses nunca irão poder bater-se de igual para igual com os nórdicos nas distâncias longas, mas já conseguimos ter resultados aproximados no Sprint. Transpondo para a Orientação de Precisão, no TempO podemos chegar mais perto dos nórdicos e mais rapidamente, ao passo que no PreO ainda temos um largo caminho a percorrer.

O Luís Gonçalves alcançou um resultado histórico, já o sabemos, mas não foi o único português à partida nesta competição. A diferença é que tanto o Nuno como o Ricardo ficaram pelo caminho, não atingindo as finais. O que é que falhou?

N. P. - No caso do Ricardo, eu não diria que as coisas falharam. A questão é que, para o nível técnico do Ricardo, estes desafios revelaram-se dum grau de dificuldade superior àquilo a que está habituado. Mas isso passou-se igualmente comigo. Perante este mapa e este tipo de floresta, tanto eu como o Ricardo fomos incapazes de tomar decisões com segurança. É muito fácil sermos arrastados para o erro por questões que se prendem com aquilo a que eu chamaria “ilusão de óptica”. É fácil sermos enganados. Claramente, os desafios foram colocados num patamar tendente a dificultar sobremaneira as tomadas de decisão e temos de reconhecer que a planificação deste TempO foi muito criteriosa. A chave do sucesso poderia estar no acerto no primeiro desafio em cada estação e, por arrasto, respostas acertadas nos restantes desafios. Mas devo reconhecer que, nesse particular, não estivemos bem.

Já hoje tivemos o Model Event de PreO e, presume-se, mais relevante em termos de desafios do que o sucedido com o Model Event de TempO. Quer falar-nos um pouco desta vossa manhã em Forte Verle?

N. P. - Foi um Model Event com dez pontos, mais uma estação cronometrada com dois desafios. O terreno era muito aberto e com poucas zonas de floresta, mas com muitas depressões - reminiscências da I Guerra Mundial -, o que faz com que o mapa tenha uma complexidade acrescida em relação aos elementos naturais. A facilidade de leitura do terreno e a proximidade das balizas em relação aos pontos de observação fazia com que o nível de dificuldade técnica não fosse muito elevado, mas havia algumas pequenas “armadilhas” às quais era necessário estar atento. Genericamente portámo-nos bem, não cometemos grandes erros e tivemos percentagens de acertos sempre acima dos 80%. Mas pensamos que amanhã a profusão de elementos individuais será muito superior e estamos igualmente à espera de desafios muito mais complexos. Aliás, se acontecer aquilo que aconteceu no TempO, teremos novamente uma enorme desproporcionalidade entre o Model e a prova “a sério”. Mas vamos ainda analisar com calma o Model Event e esperar que amanhã as coisas corram bem e nos abram boas perspetivas para o segundo dia de competição.

Quando fala em boas perspetivas, fala em quê? O Luís Gonçalves já assumiu um objetivo dentro do top-25. E quanto aos restantes?

N. P. - Não falámos ainda entre nós de objetivos individuais. O Luís apontou para o top-25 e eu estou convencido que ele será capaz de alcançar esse objetivo. Mas também sabemos que um ponto a mais ou a menos pode fazer variar a nossa classificação em muitas posições. Acredito que, neste tipo de terrenos, haja mais gente a errar do que no Campeonato da Europa e um ponto ou dois errados não façam tanta mossa assim na classificação final, mas ainda assim...

Dum modo geral, como é que está a ver estes Mundiais do ponto de vista do Responsável pela nossa seleção. As responsabilidades acrescidas têm-lhe tirado muitas horas de sono?

N. P. - O ambiente no seio da nossa seleção é excelente e de grande entreajuda. Tenho procurado retirar de cima dos atletas todo e qualquer fator que os possa desestabilizar antes das provas e também tenho tentado manter-me calmo e resolver os problemas, felizmente poucos, que têm surgido – um farol fundido na viatura, problemas mecânicos com a cadeira de rodas do Ricardo. É justo referir que temos podido contar com a colaboração inestimável de todos os funcionários do Hotel onde nos encontramos alojados, têm-nos ajudado a encontrar as melhores soluções para as pequenas coisas que eventualmente vão surgindo, nomeadamente na coordenação dos nossos horários com os horários do próprio Hotel.

E a organização? Está a corresponder aos altos padrões que sempre são de esperar num evento desta grandeza?

N. P. - Até agora diria que a organização tem estado ao nível duns Campeonatos do Mundo. É verdade que nem tudo tem corrido “sobre rodas” e o mau tempo que se tem feito sentir também não ajuda. Mas penso que em termos técnicos o evento está a ter uma qualidade excelente. O Supervisor internacional, sueco, é uma pessoa extremamente conhecida e conceituada no sei da Orientação de Precisão. É uma pessoa fria, mas é uma pessoa com quem se pode falar e que tem sempre sabido escutar e responder às questões que lhe tenho colocado. Teremos dentro de meia hora a segunda reunião de Responsáveis de Equipa e, muito sinceramente, não estou à espera que sejam levantadas grandes questões relativamente ao Model Event e que possam vir a influenciar o planeamento da prova de amanhã.

Em duas palavras, qual o seu maior desejo?

N. P. - Bem, não serão duas palavras, mas três: Um grande resultado! Espero um grande resultado de um dos grandes atletas portugueses que aqui estão. Amanhã já teremos connosco o reforço do João Pedro Valente na Classe Aberta e acho que ele vai ser uma excelente surpresa, como foi uma excelente surpresa o Luís Gonçalves no TempO.

Acompanhe o XI Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão WTOC 2014 em http://www.woc2014.info/wtoc.php.

[Foto gentilmente cedida por Nuno Pires]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido
 

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