quinta-feira, 24 de julho de 2014

Miguel Silva: "Terá lógica deixar-me de fora dos quatro atletas selecionados num WOC em que 50% das provas são de Sprint?"



Miguel Silva é o convidado de hoje do Orientovar. Com ele se recordam os momentos mais importantes dos recentes Campeonatos do Mundo de Orientação, se partilha a mágoa da ausência do maior evento do calendário internacional, se regressa a Penedono ao encontro do título nacional de Sprint reconquistado cinco anos depois, se aborda o momento atual da nossa Orientação e se projeta um futuro que não passa apenas pela Orientação.


Acompanhou, ainda que à distância, o Campeonato do Mundo de Orientação WOC 2014. Dum modo geral, com que ideia ficou destes Campeonatos?

Miguel Silva (M. S.) - Acho que uma das principais razões para querer participar num WOC é o facto de termos quase a certeza de que irá ser uma prova com mapas fidedignos, percursos minuciosamente estudados e uma estrutura organizativa que apoia os atletas nas suas necessidades. Pelo feedback que obtive, acho que este WOC não foi exceção. Esperava que os mapas de Sprint fossem mais técnicos e ouvi alguns atletas a queixarem-se disso. Os mapas da Distância Média, Longa e Estafeta, em terreno alpino, pareceram-me interessantes e com percursos desafiantes.

Em termos competitivos, quer destacar algum resultado em especial que o tenha surpreendido?

M. S. - No Sprint, acho que ninguém esperava o domínio dinamarquês, o que mostra a importância da preparação de uma prova de Sprint. Já há alguns anos corriam rumores de que as melhores seleções cartografavam todas as áreas de Sprint previamente à prova. Nos últimos anos isso tornou-se recorrente e agora penso que quase todas as seleções o fazem, melhor ou pior, conforme os seus recursos. Não sei até que ponto isso não estraga o espírito da competição; talvez as organizações devessem não divulgar as áreas de sprint até uns dias antes da prova ou fornecer o mapa a todos antes do evento. Ainda no Sprint, o sétimo lugar do Yannick Michiels, mostra o potencial da nova geração de sprinters, que perante as suas capacidades físicas, facilmente chegarão ao topo da tabela.
Na Longa, destaco a impressionante parte final de prova realizada pelo Thierry Gueorgiou, em que ganhou vários segundos por split e que acabaram por lhe valer o título. Destaco também o oitavo lugar do Gernot Kerschbaumer, alguém que se tem dedicado muito à Orientação nos últimos anos e que viu o seu esforço recompensado. Nas mulheres, penso que todos estavam à espera do duelo Judith/Tove, mas uma russa Svetlana Mironova levou a melhor. Na Estafeta, houve sprints emocionantes e surpreendentes, em que Kyburz ganhou a Gueorgiou e Lundanes a Bostrom.

Analisando, em particular, a prestação da nossa seleção, que balanço faz?

M. S. - Considero que mantivemos o baixo nível dos últimos anos, para os quais eu também contribuí. Claro que seria mais fácil e politicamente correto eu dizer que foi mais um bom WOC, mas acho que temos que ser ambiciosos, ver o que podemos melhorar e ir mais além. Ainda não encontrei o ranking das seleções, mas penso que provavelmente descemos de divisão nos masculinos e que para o ano teremos apenas um atleta em cada final. Ressalvo que neste momento todos os atletas de seleção estão mais ou menos nivelados e que não considero que eu obteria resultados melhores que aqueles que foram alcançados pelos meus colegas.

Falando um pouco de si, apareceu em grande em Penedono, onde recuperou um título - o de Campeão Nacional de Sprint - que lhe fugia há cinco anos, mas de resto tem sido visto muito pouco nas provas este ano. Imagino que as exigências da profissão não lhe deixem grande margem para ir a todas...

M. S. - Há anos em que as provas e a vida extra-desportiva encaixam perfeitamente. Há outros, como este, em que isso não acontece e temos que fazer escolhas. No Costa Alentejana Omeeting, Trofeu OriMargem Sul e ALOT estive em cursos médicos onde tive que apresentar trabalhos. No POM estive na organização. Apenas no Campeonato Ibérico, em Soria (em que quase nenhum português participou), estive a participar em provas de montanha, nomeadamente na Zegama Aizkorri nos Pirinéus. Durante o RA4 estive a participar na Jukola, tendo ficado alguns dias a treinar na Suécia. Nos Campeonatos de Longa e Sprint, por constrangimentos do calendário de férias da minha namorada, estive de férias com ela porque era essencial para manter o equilíbrio pessoal/desportivo.

Fale-me desse título nacional de Sprint e do sabor que ele teve.

M. S. - A vitória soube bem mas é apenas o culminar de um processo de treino que, por si só, me dá uma imensa satisfação. No dia-a-dia não treino para os títulos, uma vez que isso é esgotante do ponto de vista psicológico. Treino para melhorar a minha performance, para descobrir onde é o limite e para socializar, uma vez que muitas das pessoas mais interessantes que conheço são desportistas. No entanto, é sempre uma vitória amarga, por terminar por ali e não ter tido a oportunidade de marcar presença em palcos mais competitivos.

Sim, é um facto que é o Campeão Nacional de Sprint, é o segundo atleta português com melhor média no ranking da Taça de Portugal na presente temporada e conseguiu o apuramento para a Final do Campeonato da Europa, no passado mês de Abril. Sente-se injustiçado por não ter sido chamado, desta vez, à seleção?

M. S. - Na verdade, esta época fui o melhor português em todos os sprints em que participei à exceção de dois: o do NAOM em que fui segundo melhor e o do EOC onde não me encontrava bem fisicamente devido a uma tendinopatia do Tendão de Aquiles e a uma virose que apanhei durante a competição. Terá lógica deixar-me de fora dos quatro atletas selecionados num WOC em que 50% das provas são de Sprint? Poder-se-ia dizer que seria muito fraco na floresta, mas fiquei quase sempre no top-3 português nas provas em que participei. Fizeram-me saber de que teria ficado de fora devido à minha falta de dedicação à modalidade e de apenas me interessar por corridas de montanha. De facto, já durante o EOC, foi sugerido por um atleta e discutido em seleção se eu deveria sequer integrar a segunda equipa da estafeta devido à minha falta de dedicação à modalidade. A verdade é que há inúmeros exemplos de atletas de Orientação de topo que são, concomitantemente, atletas de topo em Corridas de Montanha. A verdade, é que me tornei mais rápido na Orientação ao ter começado a treinar mais específico para a Corrida de Montanha.

Se, mais uma vez, tivesse treinado durante uma época inteira só com um título ou um apuramento em mente, estaria destroçado. Assim, acabei por participar nos Campeonatos do Mundo de Skyrunning em Chamonix, onde fui 26º a correr ao lado de muitos atletas em que via apenas em posters ou filmes, onde conheci pessoas espetaculares e de onde vim com a certeza de que um top-10 mundial é facilmente alcançável. Claro que isso abriu novas possibilidades e, como não prevejo que para as próximas épocas tenha mais tempo disponível para a modalidade de Orientação que este ano, o que me impossibilitará de competir a nível internacional, tem toda a lógica que despenda cada vez mais tempo na corrida de montanha.

Como avalia o atual momento da Orientação em Portugal?

M. S. - Não estamos bem por nos faltar um plano a longo prazo. Estamos a perder atletas a cada prova e a voltar ao núcleo duro de atletas de há 10 anos atrás. Os pequenos clubes não se conseguem impor e existe uma migração constante de atletas para os grandes clubes. A Orientação tem tudo para se tornar num desporto emergente no século XXI, mas ainda não o conseguimos tornar apelativo em Portugal. Qual a razão? Há inúmeras respostas possíveis mas aquela que eu considero primordial é a de que falhamos no marketing. Precisamos de mais trabalho do tipo que faz o Fernando Costa com o Orievents. Isto à primeira vista poderá parecer fútil e superficial, mas a criação de uma imagem e de um “sonho” pode trazer inúmeros atletas a uma prova, por motivos do domínio do sub-consciente. Esses atletas dão nome à prova e fazem número. Esse número irá interessar a empresas que se querem promover em grandes grupos. Essas empresas irão investir na modalidade fazendo-a crescer, resultando numa Federação com mais atletas e mais dinheiro. Deste maior grupo de atletas irá resultar uma seleção mais competitiva que também será apoiada por uma Federação com mais dinheiro.

Já vi este ciclo acontecer vezes sem conta com outras modalidades. A Corrida de Montanha, também agora chamada de Trail, é um exemplo recente deste fenómeno que, embora sem um organismo central, viu as provas e as marcas desportivas apostarem no marketing, resultando num enorme interesse por parte dos atletas e empresas. O resultado? A maioria das provas esgotadas com meses de antecedência. Nós, na Orientação, conseguimos manter estruturas organizativas de provas extremamente complexas que mobilizam centenas de voluntários (haverá alguma modalidade com igual exigência?), mas ainda não conseguimos singrar porque não damos importância ao marketing, essencial na sociedade contemporânea.

E quanto às outras disciplinas?

M. S. - Sinceramente, acho que estamos a crescer ao contrário, numa base que não é sustentável por muito tempo. A distribuição sustentável de atletas em qualquer modalidade deve começar numa pirâmide com uma base alargada de simpatizantes e praticantes esporádicos, que estreita para um grupo federado, que estreita para um grupo de alto rendimento que, por sua vez, estreita para uma seleção nacional. No BTT temos o Davide Machado, um atleta excecional, e toda uma restante modalidade com poucos atletas e pouca visibilidade. No TrailO, quase não temos provas em Portugal mas investimos numa seleção para ir a provas internacionais. Na minha opinião, dever-se-ia investir na base da pirâmide para, daqui a cinco anos, termos vários atletas excecionais a participar nestas vertentes nas provas internacionais. Mas não deixa de ser apenas a minha opinião, existindo muitos mais rumos viáveis. Ressalvo apenas que a modalidade de Orientação em Portugal tem um modelo único baseado no voluntariado, em que inúmeras pessoas gastam uma significativa parte do seu tempo a trabalhar para um bem comum, sendo pessoas que admiro. Temos que ter a noção de que, perante o que o estado português investe no desporto, já chegamos bastante longe.

No plano desportivo, até onde vai a ambição do Miguel? Vamos continuar a vê-lo a fazer Orientação por muito tempo?

M. S. - No plano desportivo a minha ambição é a de chegar o mais longe possível, conforme as restantes vertentes da minha vida permitirem. Eu faço Orientação há mais de 16 anos e o primeiro Portugal O' Meeting em que participei foi em 1999. Pratico este desporto há muitos anos, tenho grandes amigos neste meio e dá-me um imenso prazer navegar no meio da floresta. Por tudo isto, tenho a certeza que continuarei a participar em provas para o resto da minha vida. No entanto, como só vivo uma vez, não quero limitar a minha vida a este desporto, nem tão pouco ao meio desportivo. Continuarei a participar em provas de Orientação, assim como continuarei a investir em tornar-me um melhor médico, em tornar-me um melhor corredor de montanha e em tornar-me uma melhor pessoa, através do investimento nas várias vertentes da minha formação e nas relações pessoais com os que me rodeiam.


Saudações desportivas.

Joaquim Margarido

1 comentário:

Anónimo disse...

Bela entrevista: ponderada, focada no essencial e sem rodeios. Pratico Orientação desde 2011, pelo que não tenho um histórico de comparação, mas parece-me que a questão do n.º de praticantes em Portugal é essencial para a sustentabilidade da mesma. Obrigado Miguel Silva e Joaquim Margarido. Saudações Orientistas. PL GDUA