domingo, 6 de julho de 2014

Bruno Nazário e o WOC 2014: "Estes atletas irão dar-nos muitas alegrias no futuro"



A presença na Final de Sprint do XXXI Campeonato do Mundo de Orientação Pedestre WOC 2014 transformou Tiago Romão e Tiago Gingão Leal em dois dos grandes protagonistas do primeiro dia da competição. No final de mais uma extraordinária jornada, registamos as palavras de Bruno Nazário, nas quais se reflete o viver e o sentir do selecionador nacional neste arranque dos Campeonatos e se faz a antevisão duma semana plena de emoções.


Dois atletas numa Final do Campeonato do Mundo constitui, uma vez mais, um grande momento para a Orientação portuguesa. Qual a importância e o significado deste resultado?

Bruno Nazário (B. N.) - É o fruto do trabalho dos atletas. Já no campeonato da Europa tivemos uma excelente prestação no Sprint e isto é revelador de que será nesta disciplina que temos mais potencial no curto prazo. É um bom indicador para dois atletas que são jovens e sabem que têm um longo caminho a percorrer para chegar ao topo mundial. Os resultados na final não foram os esperados, um pouco fruto do cansaço, do pouco tempo de recuperação que houve entre as séries qualificatórias e a Final, mas são coisas que se afinam e estes atletas irão dar-nos muitas alegrias no futuro.

Contava que Portugal pudesse chegar à Final com dois atletas ou a sua ambição ia um pouco mais além?

B. N. - Sinceramente, contava com os cinco atletas que estão a participar – os três homens e as duas senhoras – na Final. Se analisarmos a prova das senhoras, facilmente percebemos que a Mariana Moreira não entrou por não ter conseguido localizar uma passagem inferior escondida por trás das muitas tendas que se alinhavam na rua central de Burano. Perder 1:41 só num ponto para o melhor parcial tirou-lhe a hipótese de ir à Final, ela que estava claramente lá. Para a Vera Alvarez ia ser mais difícil garantir o apuramento, ia ser muito à justa, mas perder tempo logo para o primeiro ponto por causa dum cão acabou por não ajudar. E o João Mega parece-me indiscutível que, depois daquilo que fez no ano passado e já este ano na Final do Campeonato da Europa, toda a gente na comunidade da Orientação esperava que ele estivesse na Final. Mas, tal como o Tiago Romão e o Tiago Leal, trata-se de atletas muito jovens e com muito trabalho pela frente.

Pedia-lhe um breve comentário, em termos gerais, acerca deste início da competição.

B. N. - O treinador está sempre enfiado na Quarentena e eu não sou a melhor pessoa para fazer essa avaliação mas a primeira impressão é boa e, em termos organizativos, está a ser bastante positivo. Os locais escolhidos para as duas provas de Sprint são lindíssimas e o único reparo vai para o facto de não ter havido a possibilidade de um bocadinho mais de tempo de recuperação entre as duas provas. Ouvimos muitos atletas a dizer que, a partir dum certo ponto, “acabou-se a gasolina” e isto tem a ver com o pouco tempo de recuperação, a impossibilidade de fazer uma alimentação cuidada e outro género de condicionalismos que nos foram impostos.

Sem pôr em causa a justiça da vitória do Søren Bobach, aquilo que sabemos – e ele afirma-o publicamente, mesmo antes da prova – é que há um conhecimento prévio do mapa muito profundo. Em que medida é que isto promove a memorização em detrimento da orientação, desvirtuando em certa medida aquilo que é a essência da própria modalidade?

B. N. - Isto é trabalho de casa, é um trabalho de preparação que os nossos atletas também fazem. Para que as pessoas em geral possam ter uma noção, já havia um mapa de Burano que eu consegui encontrar no twitter, mas não contente com isso o Tiago Romão pegou no mapa, redesenhou-o e passou horas e horas no Google Street View a estudar Burano ao pormenor. Foi pena não termos conseguido preparar tão bem a Final, mas eu também desenhei alguns percursos e eles acabaram por ser bastante coincidentes. Enfim, é um trabalho que toda a gente faz hoje em dia, utilizam-se ferramentas que estão ao alcance de todos mas há uma coisa que talvez não tenha sido muito percetível e na qual a organização esteve muito bem: Ao longo do percurso havia vedações temporárias e ruas cortadas, aspetos fundamentais para “baralhar” um pouco a questão do óbvio das opções, sobretudo neste tipo de casos em que o mapa já é público. A não ser assim, passa realmente a ser uma questão de memória e não de navegação.

Fazendo a antevisão dos próximos dias, vamos ter já na segunda feira uma novidade absoluta em termos de Campeonatos do Mundo, com a realização da Estafeta Mista de Sprint. Portugal será um dos protagonistas deste momento histórico e aquilo que gostaria de lhe perguntar tem a ver com as expectativas quanto à prestação da nossa equipa. Top-15? Top-20?

B. N. - É um pouco inglório para nós porque nunca participámos numa competição internacional deste formato. Trata-se duma estreia e, daí, não haver uma expectativa minimamente balizada, ou seja, apontar para um top-15 ou um top-20. É algo ainda em aberto. Mas eu acho que a nossa mais-valia reside na grande solidez da nossa equipa e vamos ver.

E quanto ao resto dos Campeonatos?

B. N. - Este ano, outra das grandes novidades é não termos qualificatórias, ou seja, os atletas entrarão na final direta, tanto na Distância Longa como na Distância Média. Daí que talvez possamos dizer que um bom resultado será um top-45, o que equivaleria teoricamente a uma antiga final. Mas são situações diferentes, é um primeiro ano e no qual os objetivos não podem ser traçados com o rigor que seria desejável. Isto para além dos terrenos, que serão muito, muito complicados.

Acompanhe os Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre WOC 2014 em http://www.woc2014.info/woc.php.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

Sem comentários: