quinta-feira, 5 de junho de 2014

Tuomo Markelin: "Vamos assistir a uma grande evolução da Orientação de Precisão nos próximos dez anos"



Elemento integrante da “melhor seleção do Mundo”, Tuomo Markelin visitou e competiu em Portugal no passado mês de Abril. Duma semana repleta de aventuras – vale a pena ler também as suas memórias em www.etoc2014.tumblr.com –, aqui fica um balanço deveras interessante.


Começamos com uma pergunta fácil: Quem é Tuomo Markelin?

Tuomo Markelin (T. M.) - Nasci em 1968, em Helsínquia, onde ainda vivo. A minha tetraplegia está relacionada com um acidente de Esqui aos 18 anos. Tenho o Mestrado em Economia e Administração e trabalho por conta própria. A minha primeira experiência na Orientação de Precisão teve lugar em 2008, quando decidi experimentar esta disciplina, depois de ter ouvido o meu amigo e colega de equipa, Ken Gammelgård, falar dela. Não possuía qualquer noção relativa à Orientação mas o conceito pareceu-me bastante interessante. Senti, desde logo, uma atração muito grande e, aos poucos, fui participando em eventos e aprendendo cada vez mais. Até hoje não alcancei um resultado digno de nota, sendo a participação no Campeonato da Europa de Orientação de Precisão, este ano, o ponto alto da minha carreira até ao momento.

Foi fácil conseguir “carimbar o passaporte” para poder estar presente nos Campeonatos da Europa, em Palmela?

T. M. - Sinto um grande orgulho em ter sido escolhido para representar a Finlândia nos Campeonatos da Europa ETOC 2014. O facto de não haver muitos atletas paralímpicos a participar em eventos de âmbito nacional na Finlândia acabou por facilitar as coisas. Vamos lá a ver: Eu estou ainda no início da minha jornada no TrailO. Mas estou a aprender aos poucos e o ETOC este ano proporcionou-me as melhores lições tidas até hoje.

Como é que se preparou para as competições?

T. M. - O ETOC 2014 foi calendarizado muito cedo, deixando pouca margem de manobra em termos de preparação. É preciso perceber que nós temos este “pequeno” problema: a neve. Se, com efeito, são muitos os detalhes de terreno encobertos devido à neve, então é um desperdício sair de casa e tentar fazer um percurso. Conseguimos organizar-nos para termos duas sessões de treino de TempO mas foi tudo. É possível fazer alguns percursos virtuais na Internet mas não consegui encontrar, até ao momento, grande utilidade neles. Portanto, a prova de Model Event foi extremamente válida!

Como avalia os seus resultados no ETOC?

T. M. - Participei no ETOC com o intuito de adquirir o máximo de experiência possível, não medalhas. E foi precisamente isso que aconteceu. Foi o meu primeiro evento internacional. Sobretudo, consegui perceber aquilo que se sente ao participar numa (importante) prova em condições não óptimas (para entender melhor estas minhas palavras, recomendo a leitura do meu blogue). Em termos de resultados, aquilo que mais me agradou foi o “regresso” no PreO, dia 2. Isso mostrou-me que há uma curva de aprendizagem, mesmo no decurso da própria prova.

Pertencer a uma seleção como a da Finlândia, integrar um grupo onde pontificam alguns dos nomes maiores do nosso desporto, celebrar os títulos europeus do Jari Turto e do Antti Rusanen... que significado tem tudo isto para si?

T. M. - Sinto-me orgulhoso e honrado por pertencer à melhor selecção de TrailO do Mundo. Tenho ao meu lado os melhores competidores para poder aprender com eles – e eles estão sempre disponíveis para dar os melhores conselhos. Jari, Antti, Pinja, Pekka, Lauri... uau, eles são fantásticos! Levam a Orientação de Precisão realmente a sério mas nunca perdem o sentido de humor. Mereceram em absoluto as medalhas conquistadas e sinto-me particularmente feliz por ter tido o privilégio de celebrar com eles!

Dum modo geral, como avalia este ETOC 2014? Podem os portugueses estar orgulhosos do trabalho desenvolvido?

T. M. - Visto ser novo nestas andanças dos Campeonatos da Europa ou Campeonatos do Mundo, é-me impossível comparar o ETOC 2014 com outros eventos da mesma dimensão. Achei muito bons todos os percursos de PreO, foi um refrescantemente novo tipo de terreno para mim. O TempO foi mais duro, sublinhado pelo facto de não estar devidamente focado na prova (sim, aquele Event Centre e o transporte para a prova deram-me cabo dos nervos). A divulgação dos resultados foi demasiado lenta e o banquete oficial teria sido melhor apreciado se servido no último dia, como inicialmente programado. Dum modo geral, sobretudo tendo em conta que o evento foi organizado na sua maioria por voluntários, o ETOC foi um sucesso. É preciso paixão, a qual, obviamente, vocês têm e muita. Obrigado!

E quanto a Portugal? Parece que ficou fã do nosso país...

T. M. - E quanto a... ahh, Portugal! (risos) Sem o ETOC e sem vocês, pessoal, o quanto eu teria perdido. Foi a primeira vez que visitei o país e consegui ver um pouco de Setúbal (e os arredores) e Lisboa. Dois sítios realmente muito diferentes. Setúbal e toda a zona costeira é idílico e muito tranquilo, enquanto Lisboa é uma cidade movimentada e barulhenta. Gostei deste contraste. Muitas das minhas experiência estão relatadas no meu blogue (ainda estou a trabalhar a parte de Lisboa).

A Orientação de Precisão segue no bom caminho?

T. M. - A Orientação de Precisão é um desporto muito novo e ainda com uma base de sustentação ao nível do número de competidores bastante pequena. Como desporto novo que é, podemos ainda perceber uma evolução muito rápida, graças ao enorme entusiasmo dos participantes. Na Finlândia, o tema que mais se tem discutido recentemente tem a ver com a “tolerância zero”. Deve ser aplicada ou não? Se sim, com que margens? A sua aplicação deve ser definida, de forma concreta, nas Regras da Federação Internacional de Orientação ou deverão ser os organizadores a aplicá-la como muito bem entenderem? E esta é apenas uma das questões. Outras certamente se colocarão no futuro. Vamos assistir a uma grande evolução da Orientação de Precisão nos próximos dez anos. Só espero que este crescimento atraia as atenções duma audiência mais vasta!

E quanto ao seu futuro? Vamos vê-lo a competir nos Campeonatos do Mundo dentro de um mês?

T. M. - Quanto ao meu futuro, certamente que também eu continuarei a evoluir. Infelizmente, não poderei estar presente no WTOC 2014, sendo as razões exclusivamente de ordem financeira (eu necessito de dois assistentes e nem a Federação Finlandesa de Orientação nem outras organizações relevantes conseguem os fundos para custear a deslocação). Em Setembro devo viajar até à Dinamarca, para participar nos Campeonatos Nórdicos. Mas competirei na Finlândia, tanto quanto possível, durante este ano. E veremos depois o que me espera em 2015.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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