quarta-feira, 18 de junho de 2014

Orientação em Cuba: Nos caminhos da esperança



Com determinação, imaginação e muita paixão se escreve o atual momento da Orientação em Cuba. Auxiliados por Fidel Bonilla Machín, Dotmaro Valdés Camacho e José Angel Nieto Poblete, ficamos a conhecer um pouco da história da Orientação naquela ilha das Caraíbas, desde o seu início, na década de 70, até aos nossos dias.


Corria o ano de 1972 quando a Orientação chegou a Cuba. Trazida pelos partisanos da brigada búlgara “Georgi Dimitrov” e dinamizada por Atanas Georgiev, atual Presidente da Federação de Orientação da Bulgária, depressa a Orientação colheu o maior interesse junto das autoridades do país, que nela reconheceram um enorme valor, tanto ao nível educacional como do ponto de vista recreativo.

No início da década de 70, a aposta na Educação constituía uma prioridade para a Governo de Cuba e eram dados passos importantes com a construção de Estabelecimentos de Ensino Politécnico por todo o País. Daí que o surgimento da Orientação em Cuba tenha sido um acaso feliz, surgindo no sítio certo e no momento exacto. A modalidade foi particularmente acarinhada desde o início e incluída rapidamente nos Círculos de Recreação Turística do curso escolar de 1972/1973, recaindo sobre os estudantes dos Centros Politécnicos e Pré-Universitários a missão de levar por diante a sua implementação e desenvolvimento.


Os primeiros anos

Tal como sucedeu com todos os outros desportos, também a Orientação em Cuba atravessou várias fases no seu processo de crescimento e consolidação, nomeadamente no que diz respeito à melhoria dos meios utilizados, à aquisição de competências técnicas e à organização de eventos. Dos momentos iniciais com a brigada búlgara, até ao início dos anos 80, pode falar-se dum processo ascensional vertiginoso e de enorme relevância.

Se atentarmos nos primórdios da Orientação em Cuba, vemos que as provas eram de um dia apenas. Não existiam categorias nem escalões etários, não havia um ciclo de preparação que tornasse possível a obtenção de resultados positivos de forma consistente. Treinava-se, é um facto, mas a falta de conhecimentos técnicos colocava os competidores num mesmo patamar de oportunidade e assistia-se com frequência à vitória de ilustres desconhecidos.

Sob a tutela da Direção Nacional de Recreação do INDER – Instituto Nacional do Desporto, Educação Física e Recreação, em Agosto de 1973 é levado a cabo o primeiro encontro dos Círculos de Recreação Turística. O ano de 1974 começa com o incremento da atividade nos Círculos. É nesta altura que os nomes de Henry Godofredo Caballero, Manuel Pimentel e Dotmaro Valdés Camacho, entre outros, assumem um papel relevante na promoção e dinamização deste desporto. As exigências técnicas permanecem arredadas das várias iniciativas mas a vontade de fazer mais, de fazer melhor, é enorme. Adivinha-se um primeiro ponto de viragem.


O auge

Em Maio de 1974, durante o I Encontro Inter-Escolas Provinciais de Educação Física, o Parque Lenin recebe a primeira prova de Orientação em Cuba com um mínimo de requisitos técnicos: Mapa, bússolas e pontos de control. Dois meses depois, num evento promovido pelos Círculos de Recreação Turística, tem lugar a primeira prova de Estafetas e no mês de Agosto disputa-se a primeira prova juvenil de caráter nacional, independentemente das provas de Recreação Turística, com Dotmaro Valdés Camacho e Alejandro Emilio Ramos Rodríguez a assinarem o traçado de percursos. Ainda em 1974 é criada a Federação Cubana de Orientação e quatro anos mais tarde, em 1978, Cuba adere à Federação Internacional de Orientação na qualidade de membro provisório, estatuto que mantém até aos dias de hoje.

Entretanto, assiste-se a um crescimento exponencial de eventos organizados um pouco por todo o país. Os competidores são distribuídos por escalões etários, passa-se dos eventos de um dia para eventos de vários dias, um número apreciável de mapas é criado e surge a cronometragem eletrónica. A rivalidade entre Universidades é enorme e inusitada num desporto tão jovem e a preparação dos atletas está agora subordinada a planos de treino aos diferentes níveis. São levados a cabo seminários nacionais e iniciativas tendentes ao desenvolvimento, proteção e estabilidade da Orientação. Sobretudo, percebe-se um esforço enorme da Federação de Orientação de Cuba no sentido de alinhar os seus regulamentos de competições e os fundamentos técnicos com as diretrizes da Federação Internacional de Orientação. A massificação do desporto atinge o auge.

O contacto internacional surge de forma lógica neste contexto de crescimento da modalidade. Esta é a “etapa de ouro”, conforme a define Dotmaro Valdés Camacho e cujos momentos altos recorda: “Conseguimos inserir-nos na esfera internacional, participando em várias provas nacionais organizadas na República Democrática Alemã, na Taça da Bulgária, nos 5 Dias de Jicin, na antiga Checoslováquia e no O-Ringen, na Suécia, para além de termos organizado um evento internacional, em Cuba, onde participaram atletas de todos os países socialistas militares.”


O período da consolidação

Se a década de 70 assistiu ao lançamento da Orientação em Cuba, ficando marcada por um assinalável crescimento da modalidade um pouco por todo o País, a década de 80 é a da consolidação. O reforço dos apoios do Instituto Nacional do Desporto, Educação Física e Recreação fazem com que, em cada temporada, sejam levados a cabo cinco eventos de âmbito nacional e que a participação internacional esteja sujeita a processos de seleção, com cerca de 15 atletas masculinos e femininos a representarem Cuba no estrangeiro em, pelo menos, quatro competições anuais. 

Pinar del Rio, Sancti Spíritus, Taguasco ou Las Tunas recebem eventos memoráveis. Nomes como os de Edel Reina, José Antonio Medero,Yalay Ramos ou Mayelin Gómez destacam-se no capítulo competitivo, enquanto Enrique Martín e Ariel García Pérez desenvolvem um extraordinário trabalho de promoção. Alheia à aparente contradição entre prática competitiva ou atividade recreativa, a Orientação em Cuba reforça-se mais e mais, preparando-se para o grande salto qualitativo... que acabará por não dar.


Retrocesso

O Período Especial, em Cuba, foi um largo período de crise económica, resultante do colapso da União Soviética en 1991 e do recrudescimento do bloqueio norte-americano à ilha a partir de 1992. A depressão económica vivida durante o Período Especial fez-se sentir de forma particularmente severa no início e até meio da década de 90, com o PIB a contrair-se 36% no período de 1990-93. A Orientação, como todas as atividades em Cuba, não escapou à crise, entrando numa espiral recessiva que se irá manter por largos anos.

Presidente em exercício da Federação de Orientação de Cuba, Fidel Bonilla Machín fala desses momentos em que a prioridade era “defender os princípios mais elementares da sociedade socialista”, mas lembrando que a modalidade se mantive viva durante essses momentos particularmente difíceis “graças ao imenso entusiasmo de todos aqueles que continuavam ligados à Orientação e o reconhecimento da importância da modalidade no desenvolvimento integral de professores, treinadores, técnicos e estudantes”.


No presente

Orientistas de alto nível e resultados em eventos internacionais é algo que não existe em Cuba. Mas essa não é uma prioridade do Instituto Nacional dos Desportos, Educação Física e Recreação, a de investir nesta modalidade até ao alto rendimento como sucede com o Boxe, Basebol, Voleibol e outras modalidades. Mas é inegável uma importante massificação, desenvolvendo-se um elevado número de eventos e atividades de promoção e ensino. Estuda-se, aprende-se, pratica-se e compete-se em todas as escolas primárias e secundárias do país.

Hoje, são cerca de 1200 os praticantes regulares de Orientação em Cuba, estando a modalidade implantada fundamentalmente em 9 das 15 Províncias que compõem o País. O total de pessoas que, anualmente tomam contacto com a modalidade, ascendem a mais de uma centena de milhar, distribuíndo-se pelas atividades de lazer, percursos permanentes, aprendizagem de base e cursos de ensino. Fidel Bonilla Machín faz o ponto da situação: “Analiza-se a modalidade em todos os detalhes, revêem-se os estatutos da Federação Cubana de Orientação e trabalha-se nas propostas de acordo com as linhas orientadoras definidas pelo Partido Comunista de Cuba, criam-se percursos permanentes em cada combinado desportivo, trabalha-se em planos de estudo objetivos, busca-se a superação a todos os níveis e ambiciona-se incluir a Orientação no programa de estudos de Educação Física”.

O Presidente da Federação Cubana de Orientação deixa ainda uma referência a José Angel Nieto Poblete, Vice-Presidente da Federação espanhola de Orientação, referindo-se a ele como “um amigo que, nos últimos quatro anos, tem colocado todo o seu interesse e dedicação na Orientação em Cuba”. E explica: “Primeiro, inteirando-se acerca do funcionamento do sistema desportivo cubano e depois ministrando cursos e seminários, preparando provas e gerindo contactos com organismos nacionais e internacionais.” E a terminar: “São muitos os orientistas deste país que o conhecem e que estão gratos pelo trabalho que vem desenvolvendo”, diz.


José Angel Nieto Poblete, o senhor Embaixador

Orientista apaixonado e dirigente empenhado, o espanhol José Angel Nieto Poblete é um verdadeiro Embaixador da Orientação, em particular no continente sul americano. Chile, Costa Rica, Panamá, Uruguai, Guatemala e Cuba são apenas alguns dos países que visita de forma recorrente e nos quais se percebe, ao nível da promoção e dinamização do nosso desporto, a sua marca distintiva e da Federação Espanhola de Orientação. Daí que o seu ponto de vista se revele fundamental para a compreensão do atual momento da Orientação em Cuba.


“Em Cuba, a Orientação é um desporto muito popular, praticado em toda a ilha há bastantes anos e parte integrante dos programas escolares. A situação económica em Cuba, contudo, fez com que a prática desportiva da Orientação resvalasse para níveis muito baixos, sendo o seu conceito entendido, atualmente, como uma atividade recreativa. Mas os amantes deste desporto trabalham com enorme ilusão, procurando retomar os níveis que, em termos históricos, de tradição e popularidade, lhe são devidos.

A minha colaboração com a Federação Cubana de Orientação tem-se centrado no esforço de reiniciarmos o processo Federativo, de acordo com as novas linhas determinadas pelo Governo. procuramos aproveitar o trabalho que se vai desenvolvendo nas Províncias, partindo do processo de massificação para chegar à criação de clubes. Há uma grande escassez de mapas de qualidade mas o trabalho feito com os parcos recursos de que se dispõe é de valorizar. Sobretudo, faz-se apelo a uma enorme imaginação, de tal forma que as balizas, os picotadores e os mapas são fabricados artesanalmente. Desta forma é possível continuarmos a assistir à realização de eventos, um pouco por todo o lado.

Tudo isto faz com que prossigamos a nossa aposta em Cuba, procurando que o País esteja o melhor preparado possível para enfrentar qualquer tipo de competição em qualquer momento. Na minha anterior visita a Cuba, em janeiro e fevereiro deste ano, desenhei o mapa de La Habana Vieja e agora mesmo estou de regresso para fazer a revisão do mapa. A nossa expectativa é de que, em janeiro de 2015, possamos organizar aqui uma competição de caráter internacional, a qual constituiria, sem dúvida, uma montra fantástica do nosso desporto e garantiria a sua projeção definitiva em Cuba. Espero que tudo corra bem, que a promoção do evento funcione em pleno e que o turismo ligado à Orientação possa aproveitar esta oportunidade verdadeiramente única.


Leia a Reportagem na versão original inglesa em http://orienteering.org/edocker/inside-orienteering/2014-3/InsideOrient%203_14p.pdf. Publicação devidamente autorizada pela Federação Internacional de Orientação.

[Foto gentilmente cedida por José Angel Nieto Poblete]


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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