segunda-feira, 30 de junho de 2014

Luís Gonçalves: "O momento actual do TrailO deixa-me entusiasmado e, ao mesmo tempo, um pouco desconfiado"



Os resultados alcançados até ao momento na Taça de Portugal de Orientação de Precisão 2014 fazem de Luís Gonçalves uma das grandes sensações da temporada. Em vésperas da partida para Itália, onde representará o nosso país pela primeira vez numa grande competição internacional, o atleta sobe à tribuna do Orientovar para falar do seu interesse por esta vertente e projetar o futuro.


O seu gosto pelo TrailO é algo que surge de forma quase espontânea, relacionado com um momento preciso, ou é fruto dum processo de crescimento que se vem prolongando no tempo?

Luís Gonçalves (L. G.) - Até 2013, o meu envolvimento no TrailO foi, de certa forma, bastante reduzido. Ajudei um pouco nas organizações do CPOC (Parque Eduardo VII e Campeonato Ibérico em Gouveia) mas a participação foi quase nula, por ter dado preferência à vertente pedestre ou por ser difícil compatibilizar algumas provas com a agenda familiar. Mas o POM 2014 veio mudar radicalmente o meu gosto pelo TrailO. Por ter estado envolvido em toda a preparação (técnica e logística) dessa etapa e, principalmente, pela forma entusiasta e minuciosa como o Acácio me foi transmitindo as regras e técnicas, fiquei realmente motivado e preparado para as provas pós-POM. Com o resultado alcançado na prova do Parque das Nações, aliado à possibilidade de lutar pelo apuramento para WTOC, o meu gosto e o interesse por esta vertente aumentou ainda mais. Assim, se considerar o período desde final de 2013 até hoje, posso dizer que tem sido um processo evolutivo.

O que é que vê no TrailO que faz dele um desporto tão especial?

L. G. - Acima de tudo é uma vertente que permite que algumas pessoas (muitas vezes esquecidas) façam o nosso desporto, usufruam das nossas florestas e, mais importante que tudo, possam competir de uma forma menos desigual. O TrailO, sendo uma vertente quase exclusivamente técnica, faz com que exista uma maior exigência ao nível da leitura do mapa, na análise dos desafios que o traçador colocou e no equilíbrio entre a resposta certa e o tempo que demoramos a decidir (pontos cronometrados). E é claro que também pode ser vista como um excelente treino técnico para aqueles que procuram bons resultados na vertente pedestre.

O desenvolvimento da modalidade em Portugal e a forma como vem colhendo interesse junto da comunidade orientista, que comentários lhe suscita? Estamos no bom caminho?

L. G. - Diria que o momento actual me deixa entusiasmado e, ao mesmo tempo, um pouco “desconfiado”. Começando pela parte negativa, o TrailO continua a ser visto “de lado” por um grande grupo de atletas, alguns deles com muito peso na modalidade (por serem os nossos melhores atletas ou por serem reconhecidamente excelentes organizadores e/ou técnicos). Em parte é compreensível, não existe componente física e nem toda a gente tem de gostar. Mas por outro lado, se nunca experimentarmos uma prova a sério, como é que poderemos ter opinião e julgar? Para além disso, os custos de organização são elevados, sendo necessários mapas novos e caros (dado o detalhe necessário) e, mais que isso, o conhecimento técnico e supervisão ainda está muito concentrado. Será que o excelente impacto no ETOC 2014 permanecerá vivo para os anos seguintes?

Mas o mais importante é o que tem acontecido e que quero que continue a acontecer. É muito positivo ver a maioria dos maiores clubes envolvidos e dedicados nas organizações de TrailO, ver o crescimento exponencial do número de inscritos nas últimas provas, ver os mais jovens a participar (e de que forma!), ver os clubes como a DAHP e o CRN com mais atletas, ver a sinergia entre clubes (será o futuro da nossa modalidade?) e ver um grande conjunto de atletas com valor semelhante e que procuram evoluir. Os organizadores querem cada vez mais aumentar a qualidade das provas, procuram desafiar mais os atletas e naturalmente a exigência cresce. Aliás, basta olhar para as recentes provas da Taça da Europa na Lituânia (competição não oficial) e da Taça de Portugal (Lagoa da Vela) e relembrar (quem teve a oportunidade de lá estar) as excelentes palavras do Nuno Pires na Lagoa da Vela para perceber que só havendo evolução dos atletas/organizadores é que o TrailO vai crescer e consolidar-se em Portugal.

PreO ou TempO? Qual das duas vertentes colhe a sua preferência?

L. G. - Penso que as minhas características encaixam melhor no PreO, pois permite-me analisar os problemas com calma, abordar os desafios colocados pelos traçadores de diferentes perspectivas e gerir o tempo de resposta. No entanto, seguindo uma opinião que parece generalizada, o TempO poderá vir a ser o futuro do TrailO, talvez pelo facto de ser muito mais dinâmico, ser mais apetecível para os jovens e pela facilidade de a curto prazo ser possível o acompanhamento em directo.

Garantiu, por mérito próprio, um lugar na seleção portuguesa que estará presente no próximo campeonato do Mundo, em Itália. Como é encarada esta oportunidade?

L. G. - Estou bastante contente por poder representar a Orientação Portuguesa e Portugal no WTOC 2014! É um momento único que me vai permitir estar do outro lado das grandes competições internacionais e contactar com os melhores atletas de TrailO. Ao mesmo tempo, é uma grande responsabilidade porque muitos outros poderiam estar no meu lugar.

Consegue avançar um objetivo em termos de resultados pessoais no próximo WTOC?

L. G. - É difícil definir algo que seja minimamente realista, dado que poucas provas fiz e não tenho qualquer tipo de experiência internacional. A maioria das outras selecções tem atletas muito experientes, o que faz com que a competição seja muito apertada e exigente, e cada falha pode conduzir à perda de muitos lugares na classificação. De qualquer forma, a minha principal aposta passa pelo PreO, onde vou aproveitar o facto de serem provas longas (mais tempo para decidir por ponto) para tentar entrar no top25. Relativamente ao TempO, se participar, tentarei chegar à final apesar de ser muito difícil por ter dificuldade em responder rápido.

E quanto ao seleccionado português? O que é que poderemos esperar?

L. G. - Ainda não falámos sobre esse assunto mas, uma vez que todos eles participaram no último ETOC, melhorar os resultados que obtiveram nessa altura deve ser um dos seus objectivos. Na minha opinião, qualquer um deles, se for consistente, pode alcançar um resultado no top20 do PreO. A nossa selecção tem um valor muito equilibrado, o que poderá também permitir melhorar muito a classificação por equipas.

Mais do que um trail-orientista, o Luís continua a ser, acima de tudo, um dos nossos bons valores na orientação pedestre. Para o pessoal da pedestre, em particular, o que é que o “Luís-Gonçalves-trail-orientista” tem a dizer?

L. G. - Venham experimentar, aproveitem para treinar tecnicamente. Incentivem a realização de actividades de iniciação dentro dos vossos clubes ou mesmo actividades interclubes.

Vamos continuar a vê-lo empenhado e motivado a fazer TrailO por quanto tempo mais?

L. G. - Dentro da minha disponibilidade, vou continuar a participar e, além disso, contribuir para que o CPOC e outros clubes possam organizar provas com qualidade para que mais atletas possam participar.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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