quinta-feira, 15 de maio de 2014

Zoltán Miháczi: "Se queremos progredir temos de despertar o interesse dos mais novos"



A seleção da Hungria foi uma das grandes revelações dos recentes Campeonatos da Europa de Orientação de Precisão, que tiveram lugar em Palmela. Do excelente conjunto de resultados, destaque para Zoltán Miháczi e para o seu 9º lugar final na vertente de TempO. É ele o convidado de hoje do Orientovar, recordando uma semana de emoções fortes.


Para começar, uma questão muito simples: Quem é Zoltán Miháczi?

Zoltán Miháczi (Z. M.) - Nasci em Budapeste, em 1967. Foi aí que cresci e é onde ainda vivo, nos arredores da cidade. Sou colaborador duma importante companhia de Sistemas de Telecomunicações internacional e trabalho na área operacional. Faço Orientação Pedestre desde os 10 anos e pratico atualmente tanto a vertente Pedestre como a de Precisão. Sou membro da presidência da Sociedade Húngara de Orientação desde 2002, sendo neste momento o Vice-Presidente. O ponto de viragem da Orientação de Precisão na Hungria teve lugar em 2005, quatro anos antes dos Campeonatos do Mundo em Miskolc, e eu fiz parte desses primeiros e históricos momentos. Até ao momento, a minha participação em grandes competições internacionais resumia-se aos Campeonatos do Mundo de 2008, em Olomouc, na República Checa. Nos anos mais recentes, tive a oportunidade de participar nalgumas competições de Orientação de Precisão na Itália, Eslovénia e Portugal. Habitualmente consigo posicionar-me nessas provas próximo das medalhas, apesar da forte concorrência (Remo, Kreso,...).

Esteve recentemente em Portugal, tendo participado no ETOC 2014. Que objetivos tinha traçado para esta competição?

Z. M. - Em Olomouc classifiquei-me no 28º lugar mas recordo-me de, na altura, ter ficado muito insatisfeito com a minha prestação. Depois disso, com algumas participações em provas na Hungria de permeio, só voltei a competir ao mais alto nível nestes Europeus. Daí que, sem objetivos específicos traçados, a minha vontade centrava-se em fazer melhor que em 2008. Com a minha pouca experiência internacional e desconhecendo os meus adversários, não poderia esperar muito mais de mim próprio.

Como é que decorreu a preparação para os Campeonatos da Europa?

Z. M. - A seleção húngara baseou a sua preparação para o ETOC em exercícios teóricos e algumas práticas de campo. Graças a isso, penso que conseguimos uma prestação muito uniforme em termos de equipa. Encontrámos terrenos muito semelhantes aos de Vale de Barris nas proximidades de Budapeste, numa área aberta mas com muita vegetação e que usámos para treinar a competição de PreO. Infelizmente não tivemos a possibilidade de nos prepararmos para o TempO.

Sendo assim, então o seu 9º lugar final na competição de TempO tem ainda mais valor. Estava à espera? Onde é que residiu o segredo?

Z. M. - A Hungria nunca tinha chegado antes com um atleta a uma Final de TempO e eu queria ser o primeiro (agora, também a Fruzsina Biró o conseguiu). Habitualmente, desenrasco-me bem a resolver problemas que exijam rapidez na perceção e decisão e é por isso que gosto de pontos cronometrados. Eu sabia que, para chegar à Final, precisava de estar muito concentrado e evitar o pânico a todo o custo. Na qualificação cometi um grande número de erros e daí o último lugar na minha série entre os dezoito que passaram à final. Foi cá uma pressão... Na Final tinha de ter a cabeça fria e resolvi a minha primeira estação demasiado rápido. Percebi que era importante abrandar e isto condicionou o resto da minha prova. Apesar dos pontos serem mais difíceis na Final, acabei por conseguir um resultado idêntico ao da qualificação (210.5 segundos e 6 respostas erradas contra 211 segundos e as mesmas respostas erradas), ao passo que os outros competidores tiveram uma percentagem de erros significativamente superior.

E quanto ao PreO? Já percebemos que o 21º lugar acaba por se enquadrar plenamente nos seus objetivos...

Z. M. - É típico na minha maneira de ser fazer as coisas a correr e o PreO não foge à regra. Apostei numa prova estável e fui bem sucedido no primeiro dia, ainda para mais com boas e rápidas respostas nos pontos cronometrados a abrir as melhores expectativas. Na minha opinião, um bom orientista de Precisão deve ter a habilidade suficiente para adequar o seu raciocínio ao do traçador de percursos e no segundo dia penso que consegui fazê-lo ao longo de todo o percurso. Mas acabei por não aprender grande coisa com os erros do primeiro dia e mudei de ideias algumas vezes mesmo antes de registar as respostas. Poderia ter feito muito melhor mas estou francamente satisfeito com o meu 21º lugar.

A seleção da Hungria esteve muito bem nestes Campeonatos, revelando-o e à Fruzsina com uma enorme consistência e com o Miksa Láber a demonstrar uma tremenda evolução. Qual o atual momento da Orientação de Precisão no seu País?

Z. M. - Fizemos a nossa preparação em conjunto e foi em conjunto que vivemos esta semana dos Campeonatos da Europa, competindo, analisando e partilhando tudo o resto. Sentimos um grande orgulho pelos resultados alcançados. Os bons resultados da Fruzsina não são de agora, mas o Miksa, apesar de não ter um grande historial neste desporto, está agora mais consciente daquilo que está em causa na Orientação de Precisão e vai colocando a fasquia em patamares cada vez mais elevados. Infelizmente, são muito poucas as provas que conseguimos organizar na Hungria. Temos um leque muito reduzido de traçadores com a necessária experiência e que estão a par das tendências e da evolução da modalidade em termos internacionais. Para irmos mais longe, precisamos de competir nos países vizinhos, por um lado, e por outro temos de tornar a Orientação de Precisão mais popular e de apostar no desenvolvimento ao nível do treino.

Como avalia o ETOC 2014? Consegue indicar o melhor e o pior?

Z. M. - Nos últimos sete ou oito anos visitei Portugal com o intuito de competir no Portugal O' Meeting. As provas portuguesas são habitualmente bem organizadas e o ambiente é bastante amigável. Desta vez, para além de tudo isso, deparámo-nos com bons mapas e com problemas emocionantes. Contámos com todo o apoio e ajuda por parte da organização. Face a tudo isto, é difícil apontar algo de menos bom. Talvez o processamento e a publicação dos resultados tenha sido um pouco lento. Mas no final isso não constituiu um problema.

Qual o atual momento da Orientação de Precisão?

Z. M. - Os regulamentos da Orientação de Precisão – com o forte contributo das Federações escandinavas – têm vindo a tornar-se cada vez mais precisos, mais claros. Vejo isto como algo de muito positivo, acrescentando-lhe a ênfase que o TempO está a ter neste movimento. Trata-se duma vertente muito mais atrativa, tanto para os jovens como em termos de mediatização. Se queremos progredir temos de despertar o interesse dos mais novos. Isto é algo que ainda não conseguimos na Hungria.

Vamos vê-lo dentro de dois meses no Campeonato do Mundo, em Itália? Quais os seus objetivos?

Z. M. - A minha presença nos Mundiais deste ano é ainda uma incerteza, mas gostaria de poder participar em duas provas que terão lugar em Zagreb e Jesenik para melhorar o meu nível. Aproveito para agradecer esta oportunidade e, em particular, deixar uma palavra de apreço aos competidores irlandeses e portugueses pela ajuda dada em Palmela.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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