terça-feira, 6 de maio de 2014

Tomislav Varnica: "Tenho de reconsiderar os meus gostos"



Tomislav Varnica é oculista de profissão e, através dos seus olhos, soube encontrar o caminho para os belíssimos resultados alcançados nos recentes Campeonatos da Europa de Orientação de Precisão, levados a cabo em Palmela. Tempo agora de recuperar os momentos altos dessa participação e de olhar mais além, rumo a Itália e ao Campeonato do Mundo.


Antes de mais, gostaria de saber algo acerca de si. Será que é possível, de forma sucinta, dar-nos alguns apontamentos biográficos?

Tomislav Varnica (T. V.) - Nasci no dia 8 de Julho de 1978 em Šibenik, uma pequena cidade na costa do Adriático. Depois de completar o ensino primário mudei-me para Zagreb, onde vivo ainda. Entretanto, formei-me na Escola Técnica de Ótica, frequentei durante algum tempo a Faculdade de Direito e estou neste momento na Faculdade de Cinesiologia. Trabalho como oculista num Instituto de Ótica. Pouco tempo depois de ter chegado a Zagreb, inscrevi-me no Clube de Orientação Vihor, ao qual pertenço desde então. O meu primeiro contacto com a Orientação de Precisão teve lugar em finais de 2005, graças a Zdenko Horjan. Em 2007 tivemos a primeira edição da Taça (quatro competições na Croácia e ainda duas ou três na Eslovénia), a qual ganhei. E voltei a ganhá-la na última temporada.

Esteve recentemente em Portugal, tendo participado no ETOC. No início da temporada, vir a Portugal fazia parte dos seus objetivos?

T. V. - O primeiro grande objetivo da temporada era (e é) qualificar-me para os Europeus e para os Mundiais. Com a minha vitória na Taça da Croácia, no início do passado mês de Outubro, soube desde logo que tinha o apuramento garantido para Portugal. Quanto à Itália, ainda há algum trabalho pela frente.

Como é que se preparou para os Campeonatos da Europa?

T. V. - A minha preparação consistiu em convencer o meu patrão a dar-me férias precisamente nesta altura do ano (risos). Além disso, participei nos dois dias do Lipica Open, na Eslovénia, e passei algum tempo a recolher e a analisar mapas de Portugal.

Estava à espera de chegar à final de TempO?

T. V. - Devo começar por dizer que não gosto de TempO. Apenas porque não me sinto confortável nesta vertente. No último Campeonato do Mundo, na Finlândia, a equipa da Croácia era constituída por quatro elementos e apenas três podiam participar nas qualificatórias de TempO. Então, o Ivo Tišljar quis saber como é que iamos resolver o assunto. E eu simplesmente respondi que “saltava fora”, afinal nem gostava de TempO. A qualificatória de Palmela foi a minha sexta prova desde sempre no TempO e foi uma surpresa total ter chegado à Final. Uma bela surpresa, devo dizer. Afinal, tenho de reconsiderar os meus gostos (risos). Como se pode bem ver, não tinha quaisquer expectativas no tocante a uma qualificação. Não obstante, foi muito bom abrir os Campeonatos Europeus da melhor forma e com o menor número de erros possível. Na Final, o meu objetivo era subir alguns lugares – o que consegui (!) -, mas acabei por responder erradamente demasiadas vezes, o que impediu que me sentisse totalmente satisfeito.

E quanto ao PreO? Estava nos seus planos conseguir chegar ao final na 16ª posição?

T. V. - Os meus planos passam sempre por conseguir a melhor posição possível nas grandes (e nas pequenas) competições. Graças a uma boa prestação no segundo dia, consegui alcançar os meus objetivos. Assim, estou satisfeito com a forma como as coisas correram no PreO, não esquecendo, contudo, que tive um primeiro dia menos bom.

A turma da Croácia esteve muito bem nestes Europeus, revelando uma vez mais a sua enorme consistência. Que avaliação faz do estado da Orientação de Precisão no seu País?

T. V. - Devo dizer que os resultados alcançados pela Croácia nestes últimos anos são, para mim, uma enorme surpresa. Desde logo porque, no total, temos apenas cinco provas de Orientação de Precisão anualmente. Depois, porque somos apenas oito competidores a levar esta coisa do TrailO a sério, e mais uns dez ou quinze para “compôr o ramalhete”. E finalmente porque a nossa Federação não morre de amores pela Orientação de Precisão.

Duma forma geral, como avalia o ETOC? Consegue apontar o melhor e o pior destes Europeus?

T. V. - O ponto mais fraco do ETOC foi a primeira reunião de responsáveis de equipa. Senti que o Supervisor estava um pouco perdido e que o responsável pela organização não estava particularmente seguro quanto ao seu papel. Foi patente nos outros responsáveis de equipa o embaraço pela situação. Mas tudo mudou dum dia para o outro. A primeira reunião foi mais proveitosa para os organizadores do que para os atletas. Em quatro dias de competição, tenho apenas a apontar duas situações menos bem conseguidas: o lento processamento dos resultados e a lentidão com que foram publicados os resultados e demais informações na página do evento, se compararmos com aquilo que ia sucedendo com o Campeonato da Europa de Orientação Pedestre. Os percursos foram muito interessantes e desafiantes, tal como é de esperar em eventos com esta dimensão. Gostaria ainda de destacar uma situação que, realmente, me impressionou – os voluntários. Sempre com um sorriso, sempre prontos a ajudar, no final da semana ainda eramos cumprimentados na nossa própria língua. Portanto, um enorme OBRIGADO a todos os voluntários. E também à Organização. Gostei muito do ETOC e de Portugal. Penso que Portugal deve estar orgulhoso daquilo que fez!

Como organizador do Campeonato do Mundo em 2015, de que forma ter estado em Portugal foi importante?

T. V. - É sempre importante estar presente nas grandes competições. São momentos em que aprendemos bastante. Quando estamos a preparar-nos para um evento desta magnitude, vamos dando conta dos pequenos pormenores, as folhas de soluções, a hierarquia nos pontos cronometrados, coisas assim. Mas devo dizer que não faço parte da Comissão organizadora do WTOC 2015. A menos que não consiga qualificar-me (risos).

A Orientação de Precisão está no bom caminho?

T. V. - É difícil dizer se está ou não no bom caminho. Quer-me parecer que a Federação Internacional de Orientação não sabe muito bem o que fazer com a Orientação de Precisão, onde deve colocá-la. Na minha opinião, os Campeonatos do Mundo de Orientação Pedestre e de Orientação de Precisão não se deveiam dissociar. As cerimónias de entrega de prémios são ridículas. As cerimónias da competição de TrailO deviam ser primeiro que as de Pedestre. Foi muito triste ver, na Finlândia, o Jari ou a Marit receberem as muito merecidas medalhas em frente a vinte e tantas pessoas quando, dez minutos antes, aquela Arena estava completamente cheia. Isto também diz muito acerca do pessoal da Pedestre. É uma vergonha que não consigam dispensar mais dez ou quinze minutos do seu tempo para aplaudir os seus colegas. Outro aspeto tem a ver com as constantes mudanças nos Regulamentos, cada ano há uma coisa nova. Andamos à deriva? E quanto à atenção da Comunicação Social, qual atenção? A IOF não quer saber da Orientação de Precisão, os atletas não querem saber da Orientação de Precisão, porque é que a Comunicação Social se haveria de interessar por nós? A Taça da Europa parece uma boa ideia, mas será uma boa ideia termos todas as provas a decorrer no Norte da Europa?

Vamos vê-lo nos Mundiais do próximo Verão? Quais são os seus objetivos?

T. V. - Tal como referi no início desta Entrevista, a Itália está definitivamente debaixo de olho. Ainda preciso de garantir a qualificação mas acredito que estou no bom caminho. Assim, se chegar a Itália, o meu objetivo será fazer melhor, sempre melhor. E fazer melhor seria, digamos, repetir o segundo dia da prova de PreO em Palmela... e multiplicar isso por dois!


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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