sexta-feira, 9 de maio de 2014

Stefano Raus: "O melhor foram os acompanhantes de guarda chuva"



Chegou como um ilustre desconhecido mas, no adeus os Campeonatos da Europa de Orientação de Precisão 2014, levou pousados nele os olhos de todos. A sua magnífica prestação na competição de TempO – o primeiro “não nórdico” atrás duma verdadeira “armada sueco-finlandesa” - puseram em evidência as suas qualidades e a enorme margem de progressão que possui. Um futuro radioso adivinha-se para o jovem atleta.


A primeira questão é sempre a mais simples. Pode dizer-me, muito sucintamente, quem é Stefano Raus?

Stefano Raus (S. R.) - Nasci há 19 anos em Trento, onde ainda resido. Estudo no Colégio Científico de Trento e estou no último ano. A minha primeira competição de TrailO teve lugar há dois anos numa prova da Taça de Itália, em Monte Prat, após uma prova de Orientação Pedestre. Decidi experimentar o TrailO porque queria conhecer todas as diciplinas da Orientação e esta foi a oportunidade de alcançar esse objetivo. Participei até hoje em muito poucas provas e daí os meus resultados no TrailO serem irrelevantes, mas devo confessar que gosto imenso do jogo online do Marco Giovannini. Na Orientação Pedestre consegui alguns resultados interessantes nos escalões mais jovens e participei no EYOC em 2011. Também integrei os trabalhos do Grupo de Seleção júnior até ao Verão passado, numa altura em que fui forçado a parar por ter torcido o tornozêlo três vezes.

Recentemente esteve em Portugal para participar nos Campeonatos da Europa de Orientação de Precisão. Esta participação estava nos seus planos no início da temporada?

S. R. - Honestamente, não. Sobretudo porque nunca estive certo de poder vir a ser convocado para a seleção e só percebi que essa era a realidade quando li a convocatória na página da Federação Italiana de Orientação. As minhas primeiras participações em provas de TempO foram exclusivamente online, no jogo promovido pela página trailo.it, e os resultados obtidos foram bons. Assim, no final do ano passado, o selecionador nacional falou comigo, disse-me que eu tinha talento e que se participasse em duas competições importantes no início da temporada, em Milão e Lipica, teria lugar na equipa. A verdade é que não participei em nenhuma delas, a primeira porque tive nesse mesmo dia o exame de Traçador de Percursos de Orientação Pedestre e depois, em Lipica, preferi correr a prova de Pedestre. Mesmo assim, o treinador decidiu apostar em mim e fui selecionado. Penso que foi uma aposta ganha e estou-lhe muito grato por ter acreditado em mim!

Como é que se preparou para os Campeonatos da Europa?

S. R. - Foi a primeira vez que estive em Portugal mas acompanhei de perto, nos últimos anos, o EYOC, os Mundiais de Desporto Escolar e o Portugal O' Meeting. Esta foi também a minha prova de TempO “ao vivo” e quando soube da convocatória procurei na internet o Palmela Village para saber exatamente qual o tipo de terreno com que poderia contar. Com o Google Maps desenhei o meu próprio mapa do Campo de Golfe e procurei adivinhar onde iriam ser colocados os pontos. Sei agora que fiz um bom trabalho. Mesmo sem as curvas de nível, é possível perceber imensas coisas.

Terminar na oitava posição – na verdade, ser o primeiro “não sueco ou finlandês” na classificação final – foi um resultado fantástico. Estava à espera deste resultado?

S. R. - Não, meu objetivo era apenas chegar à Final. Se eu tivesse ido a Portugal apenas pelo TempO e não me tivesse qualificado para a Final, julgo que ao regressar a Itália tanto eu como o treinador éramos enviados diretamente para a prisão. Os níveis de ansiedade, tanto antes como durante a qualificação, foram muito altos e nem sabia, sequer, como pronunciar corretamente as letras. Tanto na qualificação como na Final optei por apontar as respostas, perdendo assim alguns segundos. Na Final, senti-me bem ao longo de toda a prova, tentei dar o meu melhor dentro das possibilidades e, finalmente, consegui perceber o meu real valor e também que tenho uma boa margem de progressão em termos de futuro.

Porque é que não competiu no PreO?

S. R. - Gosto realmente do TempO e fui selecionado apenas para essa competição por não ter resultados de vulto nas competições nacionais de PreO. No TempO posso facilmente competir e perceber os desafios colocados porque aprendi na Pedestre a olhar e a decidir muito rapidamente. No PreO, penso que aquilo que mais conta é a experiência e também perceber a ótica do traçador, predicados que eu não tenho. Por outro lado a Itália tem bons executantes de PreO, como o Elvio e o Remo. Mas gostaria de dizer que, por detrás dos nossos resultados, está, evidentemente, a bela equipa em que me inseri. E mesmo se alguns de nós perderam o avião e só chegaram a Palmela no dia do Model Event, vivemos grandes momentos todos juntos!

Globalmente, como avalia o ETOC 2014? Consegue indicar o melhor e o pior?

S. R. - Sei que os organizadores tiveram alguns problemas com o EOC, mas penso que o ETOC esteve bem organizado. Talvez alguns elementos da organização, nalgumas estações, tenham sido demasiado amigáveis, mas isso não me incomodou muito. Mesmo antes da última estação nas qualificatórias começaram a falar do Benfica – Juventus mas eu disse-lhes que torcia pelo AC Milan. Os portugueses devem sentir-se orgulhosos do trabalho feito, tudo estava previsto. O melhor foram os acompanhantes de guarda-chuva: Corri o risco de me espetar contra uma árvore mas apenas vi as balizas quando já estava sentado e isso foi muito excitante.

O TrailO caminha no bom sentido?

S. R. - Bom, não é fácil dizer. Mas acho que, pelo menos em Itália, se organizarem provas de TrailO nas proximidades ou imediatamente após um evento de Orientação Pedestre, o número de participantes irá aumentar. E talvez haja também um maior conhecimento desta disciplina. Quando regressei de Portugal, muitos amigos perguntaram-me como é que tinha corrido e quiseram saber o que é o TempO. Uma última coisa: Penso que há nos jovens orientistas um enorme potencial em termos do TempO, é só preciso criar as condições, convidá-los e depois se verá.

Vamos vê-lo a participar nos Campeonatos do Mundo que se irão realizar no seu País?

S. R. - Na verdade não sei. Fui convidado para traçar uma prova de Sprint dos 5 Dias de Itália, em Levico, onde será a final de TempO e isso constitui um impeditivo. Para além disso, nos últimos anos, fiz alguns treinos nas florestas de Alberè di Tenna, co mapas muito antigos. Mas conheço bem os espaços... e a minha namorada tem uma casa de férias nas proximidades! Agora tenho de me preparar a sério para os exames finais, que terminarão uma semana antes do Campeonato do Mundo. Portanto, veremos o que me está reservado. Mas espero que tudo corra bem com a organização, uma vez que os recursos materiais e humanos existem em grande número.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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