sábado, 31 de maio de 2014

Marina Borisenkova: "É possível que o meu ouro esteja mais à frente!"



Passo a resumir: A Orientação de Precisão é o meu desporto, a minha paixão, a minha vida. Mas há muitas questões que não consigo compreender e explicar a mim própria.” Marina Borisenkova, medalha de bronze pela Russia na competição por equipas dos Campeonatos da Europa ETOC 2014, apresenta-se hoje na tribuna do Orientovar. Com muitas certezas... e alguns pontos de interrogação!


Gostaria de começar por lhe pedir que se apresentasse.

Marina Borisenkova (M. B.) - Nasci e vivo na Russia, numa das suas mais bonitas e antigas cidades, Pskov, na fronteira noroeste do país. Aos 23 anos, uma cirurgia que não correu bem fez com que acabasse numa cadeira de rodas. Antes do acidente, praticava Atletismo. Quase imediatamente após a cirurgia, em 2000, comecei a praticar Orientação de Precisão e foi selecionada para participar nos Campeonatos da Rússia. Tinha apenas uma vaga ideia do que era uma baliza ou um azimute, mas fiquei agarrada ao TrailO e foi impossível escapar-lhe. Para mim, ter a sorte de combinar a beleza dum ambiente natural, com a exigência física e mental e a luta pela vitória é uma felicidade. Apaixonei-me pelo TrailO e este amor permanece até aos dias de hoje!

Agora tenho uma série de prémios conquistados na Russia. Em 2006 consegui uma boa prestação e ingressei na sekleção nacional, participando no meu primeiro Campeonato do Mundo, na Finlândia. Há cinco anos atrás nasceu o meu filho, Ilya, e foram momentos de enorme alegria! Mas treinar e competir em diferentes eventos tem-se tornado cada vez mais difícil, apesar da enorme ajuda que a minha mãe e o meu marido, Alexander, me dão. É graças a eles que continuo agarrada ao TrailO.

Esteve recentemente em Portugal, tendo participado no ETOC. Pode falar-me um pouco do processo de seleção?

M. B. - O ETOC em Portugal representou, para a seleção russa, o início da temporada de competição. De Dezembro a Março, as condições atmosféricas impedem-nos de competir e, portanto, o processo de seleção baseou-se nos resultados dos Campeonatos da Rússia da temporada passada e outros resultados já nesta época. Nos Campeonatos da Rússia temos mais de sessenta atletas a competir na Classe Paralímpica, pelo que pode perceber-se que conseguir um lugar na seleção não é tarefa fácil.

Como é que se preparou para os Europeus?

M. B. - Primeira grande competição da temporada, os Campeonatos da Europa tiveram lugar demasiado cedo, fazendo com que a nossa preparação não fosse a melhor. Tivemos algumas sessões de treino em Abril, mas na nossa região há ainda muita neve o que nos impede de fazer longas viagens. Portanto, os meus principais treinos foram teóricos, analisando distâncias e mapas dos últimos anos. Eu sabia que o Knut Ovesen seria o Supervisor Internacional e, daí, ter estudado atentamente a que distâncias ele habitualmente traça, tentando perceber as suas ideias e desafios. Mas a melhor forma de treino tem a ver com a participação nas provas e a análise detalhada das nossas prestações, daí que a minha presença nas grande competições do Outono, na Letónia, Lituânia e Rússia tenham sido fundamentais.

Terminar a competição de PreO na 14ª posição era aquilo que estava à espera?

M. B. - Terminar em 14º lugar entre atletas tão fortes é muito bom. É claro que cada um de nós sonha com a medalha de ouro e eu não fujo à regra. Mas é possível que o meu ouro esteja mais à frente! Em Portugal, o meu desempenho teve a ver com diversos fatores: o tempo, a visibilidade das balizas, a possibilidade de me deslocar em longas distâncias, a capacidade de ler o mapa em movimento, uma atitude certa e um pouco de sorte. Resultado: uma excitante e recompensadora medalha de bronze! Na Orientação de Precisão, os resultados dependem com frequência da qualidade do mapa e do traçado de percursos. Quanto maior for a qualidade destes dois fatores, maior é a igualdade de circunstâncias em termos da competição em si. Os problemas são para ser resolvidos, não para se adivinhar!

E quanto ao TempO?

M. B. - Gosto do ritmo. Pronta e acertadamente. Mas há aspetos relacionados com esta disciplina para os quais é difícil encontrar respostas. Por exemplo, porque é que os percursos não se dividem por classes, Aberta e Paralímpica? Nas últimas competições tem-se notado um aumento da diferença de oportunidades dadas aos atletas da Classe Aberta e àqueles que competem em cadeiras de rodas. Na abordagem às estações, por exemplo, um atleta de pé (sobretudo se for alto) consegue ter uma imagem muito mais abrangente do terreno do que um atleta em cadeira de rodas. As preocupações daqueles que se deslocam em cadeira de rodas têm a ver com o terreno, sim, mas em termos de falhas, para não caírem. Nos Campeonatos do Mundo de 2013, na prova de TempO, os atletas em cadeira de rodas foram obrigados a um esforço tremendo para subirem colinas e atravessarem zonas de areia solta, a pulsação a chegar às duzentas batidas por minuto o que, convenhamos, não é a melhor condição para depois responder aos problemas. E isto acabou por ficar muito bem demonstrado nos resultados obtidos pelos atletas em cadeira de rodas durante a qualificação, basta ver quantos deles chegaram à Final. Portanto, na minha opinião, deveria haver duas Classes no TempO, Aberta e Paralímpica. Definitivamente!

Olhando para as classificações, vemos Finlândia e Suécia, Suécia e Finlândia, e... Rússia. Que significado tem o terceiro lugar alcançado na competição por Equipas, com dois atletas Paralímpicos?

M. B. - Foi um tremendo sucesso. Especialmente porque, entre os 18 participantes das seis equipas presentes no pódio, houve apenas três em cadeira de rodas e dois deles eram da Rússia. O que é significativo e particularmente valoroso! Penso que o facto de a nossa equipa ter alcançado o terceiro lugar pode ser um exemplo para muitas crianças na Rússia. Ficar numa cadeira de rodas não significa que a pessoa deva desistir ou ser uma espécie de marginal, não é nenhuma fatalidade. No meu país, como em muitos outros, podemos ver que os resultados têm a ver, principalmente, com o desenvolvimento do desporto na Rússia, com a atitude e com o atleta. Temos resultados e é isso que é importante!

Dum modo geral, que avaliação faz do ETOC 2014? Consegue indicar o melhor e o pior?

M. B. - Portugal foi um dos mais belos países que visitei até hoje. Tem montanhas, um mar enorme e verdadeiro, um céu muito azul, um cabo no fim do Mundo – Cabo da Roca – e deliciosas tangerinas! Dos Europeus gostei de tudo: a amizade dos organizadores, a simpatia dos acompanhantes das cadeiras de rodas, a qualidade dos percursos, uma equipa técnica precisa e um tempo perfeito. Foi tudo fantástico!

A Orientação de Precisão caminha na direção certa?

M. B. - Sim, claramente! Mas temos levantado, repetidamente, as seguintes questões, as quais acreditamos possam ser importantes no desenvolvimento desta disciplina: (1) o TempO te, necessariamente, de ser separado em duas classes, Aberta e Paralímpica; (2) na competição por equipas deve voltar a haver resultados separados por classes, Aberta e Paralímpica; (3) no sentido de aumentar o interesse do TrailO nos jovens deve ser permitida a inclusão dum atleta adicional, se presente como junior, em relação ao número definido em cada uma das classes e tipo de competição: (4) ter uma classe Paralímpica também na Taça da Europa de Orientação de Precisão (ECTO).

Acredito na Orientação de Precisão como uma oportunidade para a auto-realização, adaptação e apoio a pessoas com deficiência. Podemos assistir, nos últimos tempos, a um processo de “desalojamento” das pessoas em cadeira de rodas, muito gentil e disfarçadamente. Clamamos por distâncias adequadas e acessíveis, adaptamo-nos à chuva, vencemos desníveis sem qualquer tipo de ajuda e parece que ninguém percebe o esforço que fazemos. Lutar em igualdade de circunstâncias é realmente muito duro. Agora mesmo, na Taça da Europa, não haver classe Paralímpica (!) … É um insulto, é incompreensível.

Vamos vê-la a competir no Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão WTOC 2014, em Itália? Quais são os seus grandes objetivos?

M. B. - Claro que sim, estou a preparar-me para o WTOC 2014 e espero mostrar que não foi acidentalmente que consegui chegar ao pódio em Portugal.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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