quinta-feira, 22 de maio de 2014

Davide Machado: "Uma medalha no Mundial é um sonho que há muito está presente"


Ao terminar na segunda posição a etapa de Distância Longa da ronda inaugural da Taça do Mundo de Orientação em BTT, Davide Machado voltou a fazer história. O melhor resultado de sempre dum “OriBTTista” português é aqui recordado na primeira pessoa, misturando emoções passadas com ambições futuras.


Com o filme daqueles 95 minutos e qualquer coisa ainda bem vivos na sua memória, pedia-lhe que resumisse esta prova de Distância Longa e o seu histórico segundo lugar?

Davide Machado (D. M.) - Depois de um resultado satisfatório obtido na etapa de Sprint, sabia que na Distância Longa teria a oportunidade de fazer algo mais. O início não foi o melhor, principalmente o arranque, onde perdi algum tempo a colocar o mapa na bicicleta e quando dei por mim já estava bem para trás da frente da corrida. Os quilómetros iniciais foram feitos “em sprint”, para tentar ganhar as posições perdidas inicialmente. Mesmo assim, para o primeiro ponto de controlo acabei por perder bastante tempo. O facto de todos os atletas terem o mesmo primeiro ponto de controlo gerou uma grande confusão, obrigando a quem seguia mais atrás a parar por completo numa passagem estreita antecedente ao ponto. A partir daí, foi colocar o meu ritmo, focar-me no mapa e tentar abstrair-me dos restantes atletas em prova. Mesmo assim ainda fiz alguns pequenos erros no primeiro mapa, tendo perdido cerca de um minuto, mas que viriam a ser “compensados” com a parte física nas zonas mais rolantes. Ainda na parte inicial, perto do ponto 7, um choque frontal com um atleta sueco (Linus Mood) não chegou para o susto. No entanto, ao contrário dele que partiu o desviador e viu-se obrigado a abandonar a prova, eu tive sorte, sofri apenas alguns arranhões e desalinhei a direção. Acabei, para além do GPS e do jogo de ferramentas de bolso, por perder algum tempo e, por breves momentos, a concentração.

Foi uma prova onde as boas sensações físicas me permitiram andar sempre no limite, e onde tecnicamente consegui ser muito regular. Essas sensações demonstravam-me na altura que poderia estar numa boa posição, mas não fazia ideia qual, pois existiam pontos de dispersão e não fazia a mínima ideia da posição dos restantes atletas. Já na parte final, quando seguimos apenas três atletas, um pequeno erro fez com que o segundo grupo nos alcançasse, mas para o penúltimo ponto a opção do Pekka Niemi e a minha valeram-nos uma pequena vantagem, fazendo com que apenas os dois pudéssemos discutir ao sprint a chegada. No entanto só segundos depois de atravessar a linha de meta é que me inteirei que tinha conseguido o segundo lugar. Nem queria acreditar!

Rolou praticamente sempre na frente da corrida (o Giaime Origgi apelidou-o, inclusivamente, de "moto"). Em algum momento sentiu que nada nem ninguém lhe poderia roubar a vitória?

D. M. - Tirando a parte inicial, rolei muitas vezes na frente da corrida, ou melhor dizendo, na frente dos grupos que ia apanhando pelo caminho. Em alguns pontos andei no grupo onde seguia o Giaime Origgi e, como as sensações eram boas, tentava sempre andar na frente e livrar-me da confusão, daí ele me ter apelidado de “moto”. Contudo, em momento algum me passou pela cabeça que poderia andar na frente “geral” da prova, visto nem todos terem a mesma ordem no percurso. Por incrível que pareça, só me apercebi da minha posição poucos segundos após traçar a linha de meta.

Apesar de todos os momentos duma prova de Orientação acabarem por se resumir a uma tira de papel com os parciais e um tempo final, esta prova teve o aliciante especial duma partida “em massa”, em que o primeiro a chegar seria o vencedor. Em que medida é que este formato pode ter ttido influência no resultado alcançado?

D. M. - Não foi a minha primeira prova em que a partida foi dada em massa. Pessoalmente é um formato que não aprecio, principalmente da forma como foi feito. Desde logo, porque o local de partida era apertado para a quantidade de atletas presentes; em segundo lugar, pelo facto de o primeiro ponto de controlo ser o mesmo para todos e o trajeto para esse mesmo ponto ser algo apertado, causando muita confusão. Um dos fatores deste formato que vejo como determinante para o meu resultado tem a ver com o facto de saber que fiquei para trás na partida e ter feito tudo para conseguir chegar à frente o mais rapidamente possível, assim como o facto de ,ao longo da prova, conseguirmos alcançar atletas de renome, o que no momento nos dá uma motivação e uma força extra.

Que valor atribui a este seu segundo lugar numa etapa da Taça do Mundo?

D. M. - Para mim é um resultado de enorme valor. Um resultado que vem, de certa forma, compensar todo o esforço e dedicação nestes últimos anos e, ao mesmo tempo, motivar-me para o que ainda está para vir. Depois de, na época passada, não ter alcançado os resultados que esperava a nível internacional, este resultado faz com que esta época internacional comece da melhor forma. Para além do fator pessoal, revejo neste resultado uma espécie de recompensa para todas as pessoas que me rodeiam, para todas as pessoas que me apoiam e sempre me disseram que seria capaz e principalmente para todas as entidades e patrocinadores que de uma forma ou de outra tudo têm feito para me possibilitarem as melhores condições possíveis. Dentro de todos estes, destaco a Federação Portuguesa de Orientação, que acreditou, apostou e aposta no meu desenvolvimento, o meu clube de orientação (.COM) que desde sempre me apoiou, a marca de bicicletas FOCUS, representada em Portugal pela Tecnocycle, que me tem colocado à disposição, não só as bicicletas, como todas as marcas que representa, os meus treinadores Físicos (Bike-Treino) e a allsport.pt, entre outros.

O próximo desafio chama-se...

D. M. - A nível pessoal, acabar a Licenciatura em Gestão é o próximo desafio. Estes últimos tempos têm sido complicados, os treinos e as provas “roubam-me” grande parte do tempo de estudo. A nível desportivo, seguem-se vários desafios nacionais, como será o caso do Campeonato Nacional de Maratonas de BTT e do Campeonato Nacional de Cross-Country Olímpico, desafios estes onde espero marcar a diferença e tentar divulgar a orientação noutros ambientes. A nível internacional resta-me treinar e esperar ansiosamente pela próxima etapa da Taça do Mundo, a realizar na Suécia, de 17 a 21 de Julho.

Qual o maior objetivo traçado para a presente temporada?

D. M. - Uma vez mais - e como já tem vindo a ser habitual nestes últimos anos -, o objetivo principal da época desportiva passa pelo Campeonato do Mundo, e em especial pela Distância Longa. Apesar do grande resultado obtido nesta Taça do Mundo, sei que todos os atletas se preparam para o Mundial. O nível está elevado e ainda vai aumentar até lá, mas espero dar luta. Nestes últimos quatro anos, o objetivo principal tem sido a manutenção do estatuto de alto rendimento nível A, que só é conseguido com uma qualificação dentro dos 8 primeiros num Campeonato do Mundo ou num Campeonato da Europa. Este será um ano onde apenas terei o Campeonato do Mundo para o conseguir, o que acarreta sempre uma pressão acrescida, mas sei que tenho capacidade para o conseguir uma vez mais e estou motivado para tal. Uma medalha no Mundial é um sonho que há muito está presente. Sei que não é impossível e consegui provar isso a mim mesmo, mas neste patamar todos os detalhes contam e uma boa dose de sorte ou, pelo menos, ficar longe dos azares, é sempre fundamental.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido
  

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