segunda-feira, 26 de maio de 2014

Charles Bromley Gardner: "Tenho de aprender a ajuizar o nível adequado da tolerância"



Depois de ter sido o segundo classificado na etapa de Orientação de Precisão do Portugal O' Meeting, Charles Bromley Gardner regressou ao nosso País, integrando a seleção da Grã-Bretanha presente nos Campeonatos da Europa de Orientação de Precisão ETOC 2014. Ao longo desta Entrevista, Gardner revive alguns dos momentos marcantes da sua carreira, revisita Palmela e o ETOC, exprime os seus pontos de vista em relação ao atual momento da Orientação de Precisão e fala do futuro, adivinhando uma “reforma agitada”.


Começaria esta nossa conversa pedindo-lhe que, de forma sucinta, se apresentasse.

Charles Bromley Gardner (C. B. G..) -Estou com 54 anos, tendo sido uma das primeiras crianças a nascer na Inglaterra nos anos 60! Com o aproximar do final da minha carreira militar no exército britânico, vim viver para o Sul de Inglaterra, próximo da cidade de Andover, a meio caminho entre as cidades de Salisbury e Winchester, bem conhecidas pelas suas catedrais antigas. Pratiquei vários desportos – Biatlo, Esqui, um pouco de Orientação em Esqui também, corrida sob as mais variadas formas e Râguebi, tendo sido esta, provavelmente, a modalidade onde mais investi. Também gastei uma “pipa de massa” em bicicletas. Entretanto, organizo os Campeonatos do Exército de Biatlo e de Esqui na vertente Cross Country, e treino Esqui e Tiro quando consigo disponibilidade para me ausentar para o estrangeiro. Também faço um pouco de desenho de traçado de percursos de Orientação e arbitro uns jogos de Râguebi.

Conheci a Orientação quando ingressei no serviço militar e a minha integração neste desporto foi-se construindo desde então, desde logo como parte integrante do treino tático militar. Ganhei por várias vezes os Campeonatos do Exército e os Campeonatos das Forças Armadas. Nos últimos quatro anos terminei no 3º lugar por três vezes e fui 2º classificado na outra vez – nada mau para um atleta do escalão H50! Fui campeão da Grã-Bretanha uma vez, no escalão H35, nas dunas de Anglesey. A minha primeira participação numa prova de Orientação de Precisão teve lugar em 1999, tendo ganho os Campeonatos Nacionais da Grã-Bretanha! Inscrevi-me apenas e só porque era mais uma actividade complementar aos Campeonatos Nacionais de Orientação Pedestre. Penso que os desafios eram bastante objetivos – não havia a quantidade de problemas intrincados como acontece nos dias de hoje. Lembro-me de outro evento no início dos anos 2000, quando fui “apanhado” pelo traçador de forma irrevogável. De 2003 a 2007 estive ausente na Noruega e afastado destas lides, o mesmo sucedendo em 2009 pelo que, na verdade, só passeia levar a sério a Orientação de Precisão a partir de 2010/2011.

São muito poucos os eventos organizados na Grã-Bretanha, talvez uns dois ou três por ano, apenas. Quando são organizados conjuntamente com os Campeonatos de Orientação Pedestre, eu inscrevo-me. Foi assim que consegui qualificar-me para os Europeus da Suécia (2012), naquilo que constituiu a minha estreia internacional na Orientação de Precisão. Os quatro ou cinco erros do primeiro dia ajudaram-me a “emendar a mão” e no segundo dia fiz uma prova limpa.

Esteve recentemente em Portugal, onde participou no ETOC. Marcar presença em Palmela era, no início da temporada, um dos seus objectivos?

C. B. G. - Conforme referi, são muito poucas as oportunidades que temos para competir na Grã-Bretanha. A selecção baseia-se num Ranking que integra um determinado número de eventos relativos aos dois anos anteriores. Em 2013 estive ausente no Afeganistão, pelo que o meu resultado levou em conta apenas a pontuação obtida em 2012, ano em que conclui na terceira posição. As selecções, tanto para o ETOC como para o WTOC foram anunciadas em Novembro de 2013 e acabei por ser seleccionado para os Europeus, mas não para os Mundiais.

Como é que se preparou para esta competição?

C. B. G. - O primeiro evento do ano na Grã-Bretanha foi o JK Festival, por altura da Páscoa, ou seja, depois dos Campeonatos da Europa. Portanto, a maior parte dos atletas da selecção britânica optou pela participação no Portugal O’ Meeting, em Março, numa prova de Orientação de Precisão “encravada” no meio de cinco provas de Orientação Pedestre. Seguramente não teria participado no Portugal O’ Meeting se em causa estivesse apenas a prova de Orientação de Precisão, mesmo tendo em conta que terminei no segundo lugar, a um ponto do vencedor, o italiano Remo Madella. Por outro lado, a minha preparação consistiu praticamente na leitura dos Regulamentos Técnicos para Elite da Federação Internacional de Orientação (revistos em janeiro de 2014). Isto é quase o que acontece quando estamos a aprender para sermos árbitros de Râguebi: é necessário conhecermos as regras antes de sabermos como as aplicar. E acabei por prescindir das possibilidades de treinar online – a perspectiva bidimensional não é propriamente a mesma coisa.

Alcançou um grande resultado no segundo dia do PreO mas o início da competição terá ficado um pouco aquém das suas expectativas. Como é que vê o seu 36º lugar final?

C. B. G. - Eu gosto de aprender! Em ambos os Campeonatos da Europa (2012 na Suécia e 2014 em Portugal) fiz o “pleno” no segundo dia. Creio que o problema reside no facto de ser demasiado crítico em relação à posição da baliza e tender a decidir-me pela resposta zero quando o traçador, ele próprio, concedeu uma margem de tolerância mais larga no posicionamento da baliza. Tenho de aprender a ajuizar o nível adequado da tolerância!

Se fui ou não o 36º classificado, pouco importa. Mais importante é que fui o segundo atleta britânico melhor classificado! Os cinco erros do primeiro dia foram desanimadores; três dos erros foram zeros, pelo que percebi que poderia melhorar muito ajustando o meu nível de tolerância. Os outros dois erros foram “limpinhos” - o traçador levou a melhor. Eu sei que poderia de novo ter ficado muito perto do Remo, que terminou no 9º lugar e, contudo, estava bastante seguro das respostas dadas. Este é um fator importante na Orientação de Precisão – até à divulgação dos resultados, nunca sabemos qual o grau de sucesso nessa luta contra o traçador e, muito menos, se os restantes competidores foram bem sucedidos. Pelo menos na Orientação Pedestre temos a noção de estarmos a ler o mapa de forma adequada!

Quanto à competição Por Equipas, confesso que não é nada de mais para mim: não sinto qualquer tipo de pressão acrescida, mesmo sabendo que é a competição na qual as hipóteses da Grã-Bretanha chegar ao pódio são maiores. Apenas é necessário que todos os elementos da equipa consigam um bom resultado... e como eu próprio não consigo ser suficientemente consistente, não posso esperar outra coisa dos restantes elementos da equipa.

Fazia parte dos seus planos chegar à Final da competição de TempO?

C. B. G. - Fiquei muito contente com a minha prestação na segunda série de qualificação e com o facto de ter garantido a qualificação para a Final. A minha estratégia consistia em dar respostas certas, ao invés de me deixar levar pela primeira impressão. Acabei por errar apenas três questões... mesmo que tivesse ficado atrás de quem deu cinco ou seis respostas erradas! É desta forma que encaro a parte do tiro no Biatlo – atirar com cuidado em vez de atirar à primeira. A pouca prática em ambas as vertentes faz com que seja esta a maneira mais adequada de conseguir melhores resultados. Mas nunca dará para ganhar.

Na Final não alterei em nada a minha estratégia, embora os pontos fossem, claramente, muito mais difíceis. Tive seis respostas erradas, mas entre todos os competidores fui eu quem demorou mais tempo a responder. Desta forma, acabei por ser batido por aqueles que deram o dobro de respostas erradas! Naturalmente estou um pouco desapontado, tanto com o resultado como com três dos meus seis erros, mas a experiência foi muito positiva naquele que foi o meu terceiro evento do género nos anos mais recentes.

Olhando para o quadro de resultados, conseguimos perceber que a Finlândia e a Suécia dominam a cena mundial da orientação de Precisão. E quanto à Grã-Bretanha?

Tivemos a possibilidade de chegar ao pódio na competição Por Equipas (na verdade, analisando bem a prestação de cada um de nós, poderíamos mesmo ter alcançado o 3º lugar). Por outro lado, é extremamente improvável a participação em eventos de Orientação de Precisão suficientes que permitam ganhar a experiência e a consistência necessárias para desafiar a liderança em dois dias de prova (não fui apenas eu – o John Crosby conseguiu 19 respostas corretas na classe Paralímpico no segundo dia de provas, depois de apenas 14 respostas certas no primeiro dia).

Como avalia a organização do ETOC? Consegue apontar o melhor e o pior da competição no seu todo?

C. B. G. - O ETOC foi uma grande competição, sem grandes atritos do ponto de vista organizativo (podemos estabelecer uma comparação com o que aconteceu com o EOC ou isso seria injusto?). Alguns competidores preferirão o mesmo tipo de terreno em ambos os dias da competição de PreO, ao passo que outros gostarão mais de dois tipos de terrenos diferentes. Na minha opinião, devemos estar gratos por termos tido boas provas, independentemente desta questão do terreno. Foi feito um excelente aproveitamento daquele longo vale para uma competição muito justa. A competição de TempO foi, surpreendentemente, muito boa, provando que é possível desenhar uma prova com qualidade, exigência e justiça num terreno sem grandes complicações.

Aparte o facto de ter perdido a minha prova de Distância Média do EOC Tour devido a ter partido muito tarde no primeiro dia da competição de PreO, a fila para os pontos cronometrados no primeiro dia foi, talvez, o ponto fraco deste ETOC. Certamente houve algumas bexigas que sofreram um bocado! Devo agradecer ao traçador o facto de nos ter dado aquele desafio no último ponto do Model Event (as balizas não estarem no centro da reentrância); tendo respondido erradamente (não conseguia perceber porque é que o azimute batia certo a partir duma determinada direção e não a partir de outra), fiquei desde logo à espera que um problema do género voltasse a surgir, o que acabou por acontecer no segundo dia (ponto 15)!

A Orientação de Precisão está no bom caminho?

C. B. G. - A Orientação de Precisão representa um grande desafio mental, mas não acarreta consigo o desafio físico que atraiu muitos de nós, desde logo, para a Orientação. O aspeto mais negativo tem a ver com os Regulamentos e com o facto de serem “uma seca” - talvez “complicados” seja uma palavra mais adequada. É difícil atrair as pessoas quando aquilo que temos para lhes oferecer são colocações de balizas e sinaléticas pouco honestas (refiro-me à Orientação de Precisão dum modo geral e não especificamente em relação ao ETOC). Para atingir uma maior popularidade, os eventos de Orientação de Precisão devem ser levados a cabo conjuntamente com bons eventos de Orientação Pedestre – por exemplo, de 31 de maio a 2 de junho desloco-me a Itália para participar nos “3 Dias de Trenches”, porque (além dum aeroporto próximo) em dois dias e meio for a do Reino Unido eu consigo participar numa prova urbana, numa prova de Distância Média e numa prova de PreO.

Disse antes que não irá participar no WTOC 2014. Quais os seus objetivos para o resto da temporada?

C. B. G. - Não fui selecionado para o WTOC. A divulgação da lista de atletas selecionados foi feita bastante cedo, em Novembro do ano passado, eventualmente para dar a possibilidade aos atletas de reservarem as suas passagens e alojamento aos preços mais baixos, uma vez que comeptem a expensas próprias. Isso acabou por me proporcionar uma semana extra de férias na neve, no Inverno! Quanto aos objetivos para o que falta da temporada, centram-se em decidir o que fazer quando a minha carreira militar terminar, lá para Fevereiro do próximo ano (ou talvez para ser mais preciso, como poderei maximizar a minha participação nos vários desportos) e planificar um evento urbano em Winchester. Irá ser, quer-me parecer, uma reforma bem agitada, assim a saúde o permita!


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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