terça-feira, 8 de abril de 2014

Remo Madella: "O TempO é o único caminho"



Remo Madella é uma das personalidades mais respeitadas no mundo da Orientação de Precisão. Embora aparentemente insignificante, a sua prestação como traçador do percurso de PreO do Portugal O' Meeting 2012 acabou por se revelar decisiva na evolução desta disciplina no nosso país. Dentro de dias, Madella estará de novo em Portugal para competir nos Campeonatos da Europa e escutamos hoje as suas palavras.


Não é a primeira vez que está em Portugal este ano. Gostava de ouvir a sua opinião acerca da vitória na etapa de PreO do Portugal O' Meeting, no início do passado mês de Março?

Remo Madella (R. M.) - A minha presença no POM não foi, na verdade, pensada como fazendo parte da preparação para o ETOC. Encontrava-me no meio dumas fantásticas férias que incluiram Orientação Pedestre e umas boas pedaladas de bicicleta e foi-me dada a oportunidade de apreciar um dia de TrailO... então, aproveitei. No POM não tive quaisquer preocupações quanto ao estudo do terreno, dos mapas ou do traçado de percursos com vista ao ETOC, até porque em Palmela tudo será bastante diferente. E assim, procurei apenas divertir-me.

Tendo sido o responsável pelo traçado de percursos do POM 2012, acabou por entrar para a história da Orientação de Precisão em Portugal. Consegue notar algumas diferenças entre Viseu, em 2012, e o evento de Gouveia?

R. M. - Não é fácil encontrar semelhanças entre uma e outra prova porque a minha participação foi distinta (organizador em 2012 e competidor em 2014). Mas penso que posso dizer que o terreno foi muito melhor em 2014 (com aquelas rochas impressionantes e algumas áreas com detalhes interessantes), embora a informação previamente à prova fosse melhor em 2012 :-). Há contudo, seguramente, algo comum às duas competições: um mapa muito bom, no qual se pode confiar perfeitamente, e que em ambos os casos teve a assinatura de Tiago Aires & Raquel Costa.

O que sentiu ao saber que Portugal iria organizar o Campeonato da Europa de Orientação de Precisão em 2014?

R. M. - Penso que senti o quão grande era o desafio para Portugal, sobretudo não tendo qualquer experiência na alta roda do TrailO... todavia, com empenho, tudo se consegue.

Como é que se preparou para esta competição?

R. M. - Procurei marcar presença no maior número possível de provas neste curto início de temporada (a etapa do POM, duas etapas em Lipica e duas etapas em Milão) e tentei usar a minha experiência e o uso diário dos mapas. Acima de tudo, espero ter aprendido “mentalmente” com os erros do passado. Também tenho uma nova atitude (aprendi algo :-) e espero que isso me seja útil no decorrer das competições.

Que tipo de provas espera?

R. M. - Espero uma competição muito tática. Não temos qualquer tipo de conhecimento quanto ao estilo do traçador de percursos e da própria cartografia; está toda a gente à espera do Model Event para se situar.

Pode indicar os grandes candidatos aos títulos europeus?

R. M. - Penso que é muito claro apontar os grandes candidatos, sobretudo para mim que sou um grande adepto dos competidores nórdicos. No TempO: Pinja, Antti, Lauri, Marit, MartinJ. No PreO: os mesmos que no TempO e ainda outros suecos (Stig, Jens, Martin, Lennhart, William, Erik), finlandeses (Marko, Martti, Jari) e noruegueses (Lars Jacob, Geir).

PreO ou TempO?

R. M. - Perdi o interesse no PreO, o TempO é o único caminho. 90% dos traçadores de percursos (e infelizmente alguns Supervisores) falham na oferta de provas justas e tudo pode acontecer ao nível dos resultados. Daí que o PreO esteja a perder valor como um desporto de competição. Há formas de promover competições justas mas os traçadores parecem ignorá-las. Em Itália, costumo dizer: “O TempO nunca mente”. Portanto, em definitivo, TempO!

No seu caso, o que consideraria um resultado perfeito?

R. M. - O resultado perfeito seria ficar satisfeito com as minhas respostas e apreciar a competição. Habitualmente, quando fico satisfeito, os bons resultados vêm por acréscimo. Em todo o caso, gostaria de me classificar entre os 15 primeiros no TempO (o terreno parece ser ao meu jeito, mas sei que as coisas nunca são fáceis e no último ETOC não cheguei sequer a classificar-me para a Final onde, depois, os 15 primeiros lugares foram facilmente ocupados só por finlandeses, suecos e noruegueses).

Qual o grande objetivo da temporada? Ser campeão do mundo no seu próprio país?

R. M. - De maneira nenhuma. Nem sequer sei se estarei presente em Itália em 2014 ou na Croácia em 2015. O meu único grande objetivo, de momento, é estar presente na Suécia em 2016, quando os títulos de Estafetas forem disputados pela primeira vez. Após vários anos de preparação para os grandes eventos, à espera dum elevado número de competidores e de grandes esforços no sentido de explicar aos traçadores como deveria ser uma prova justa, penso que falhei. Não consegui grandes resultados, pessoalmente, e ainda constato um número cada vez mais reduzido de provas de PreO onde possa admitir que haja justiça no resultado, especialmente provas ao nível dos Campeonatos do Mundo. Estou, por isso, numa altura de inverter o rumo, procurar descontrair-me e gozar o meu TrailO hoje e no futuro. Procurarei tirar o maior partido daquilo que é extra-competição, mantendo as expectativas em baixo e sem me preocupar muito com os resultados.

Gostaria de formular um desejo para os Campeonatos da Europa?

R. M. - O meu desejo, como sempre, é que o ETOC ofereça percursos justos e onde as respostas não sejam determinadas pelo fator sorte. Desejo igualmente boa sorte aos fantásticos rapazes e raparigas do TempO que lutarão pela medalha de ouro com a sua velocidade louca; adorava ser parte interessada deste jogo na grande final para os poder acompanhar de perto (tal como em Vuokatti e em Selkie no ano passado) e, claro, tentar alcançar a melhor posição possível.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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