segunda-feira, 28 de abril de 2014

Orientação para Invisuais chega a Portugal



Torres Vedras assistiu à estreia, no nosso país, da Orientação para Invisuais. Partindo duma iniciativa do Académico de Torres Vedras e integrada na Feira da Saúde daquela cidade, a experiência revelou-se deveras interessante e com enorme potencial.


Como que a provar que são muitas as barreiras que permanecem erguidas em torno da deficiência e do acesso às práticas mais comuns do dia a dia, a Orientação para Invisuais é uma disciplina de Desporto Adaptada com reduzidíssima expressão em todo o mundo. Às dificuldades logísticas inerentes à montagem dum percurso desta natureza, junta-se um público-alvo reduzido em termos de número e com necessidades e especificidades muito próprias, o que torna inviáveis as organizações destas atividades se, porventura, um dos objetivos é alcançar algum retorno financeiro.

Num gesto notável que releva do papel social dos clubes e instituições, quaisquer que elas sejam, o Académico de Torres Vedras lançou mãos à obra e levou a cabo uma tarde dedicada à Orientação onde, para além de percursos promocionais de Orientação Pedestre e de Orientação em BTT, dedicou uma atenção especial ao Desporto Adaptado, alargando o leque de ofertas à Orientação de Precisão, Orientação Adaptada e Orientação para Invisuais. Um “cinco em um” que se louva e aplaude, ao encontro do desporto para todos e que exalta o princípio “todos diferentes, todos iguais”.


Sair de casa e do sofá para praticar um desporto novo”

Estreia absoluta no nosso país, a prova de Orientação para Invisuais consistiu num percurso tipo labirinto, marcado com cordas no chão, ao longo do qual a progressão pode ser acompanhada sensorialmente com os pés, correlacionando-a com as marcas num mapa em relevo, possível de ler com os dedos. Invisual desde muito novo, o Afonso foi uma das pessoas que participou ativamente na iniciativa, tendo destacado “a oportunidade de sair de casa e do sofá para praticar um desporto novo”. Com uma venda especial nos olhos, João também experimentou a nova modalidade e, “apesar do desconforto de estar completamente às escuras”, confessou surpresa por perceber que “os sentidos estão muito mais alerta, sentimos os nós nos pés e ganhamos confiança porque sabemos que estamos a seguir no bom caminho.”

Mentor desta nova disciplina e responsável pela organização e montagem do percurso, Luís Sérgio confessa que a iniciativa surgiu há sensivelmente dois anos e partiu “dum interesse pessoal, da tentativa de fazer da Orientação uma modalidade ainda mais inclusiva.” Salientando que “cativar as pessoas é a maior dificuldade”, aquele responsável faz questão de referir que “não há qualquer dificuldade em montar um percurso desta natureza, é algo que se pode fazer de forma rudimentar, basta apenas haver vontade.” Quanto ao balanço, Luís Sérgio considera-o muito positivo: “Para um invisual é, de facto, uma mais valia ter a noção do espaço onde se insere, mesmo que esse seja um espaço artificial, criado por nós. Há um potencial muito interessante nesta vertente e que tem a ver com os cascos urbanos das cidades onde, eventualmente, poderão ser criados mapas tácteis, conjugando-os com áudio-guias. Isso é já uma realidade aqui, em Torres Vedras, e acaba por ser uma forma diferente de mostrar a cidade - no fundo, um tipo de oferta turística paa pessoas invisuais (!) -, tendo como ponto de partida a Orientação.” Efetivar, do ponto de vista da competição, aquilo que não passou duma simples experiência, “é viável, é muito interessante, mas teremos de pensar mais um bocadinho”, diz Luís Sérgio.

Refira-se, a terminar, que os dois animadores da ACAPO – Associação dos Cegos e Amblíopes de Portugal presentes na atividade, mostraram-se muito interessados e, futuramente, não é de excluir que possamos assistir a novos e mais consistentes desenvolvimentos nesta área. Veja as fotos em https://plus.google.com/u/0/photos/108054301526873509793/albums/6006980240996108753.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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