quarta-feira, 23 de abril de 2014

João Pedro Valente: "Devo sentir-me satisfeito com a minha prestação no TempO"



Foi a grande surpresa dos Nacionais de Orientação de Precisão 2013, ao arrebatar o primeiro título da história da jovem disciplina em Portugal. Mais recentemente, brilhou a grande altura nos Europeus de Palmela, garantindo um lugar entre os 36 finalistas da competição de TempO. E como se não bastasse, sagrou-se este fim de semana Campeão Nacional de Espanha. Falamos de João Pedro Valente, um homem dividido entre Portugal e Espanha, mas também – percebemo-lo agora! - entre a Pedestre e a Precisão.


Agora que os ecos dos Campeonatos da Europa de Orientação de Precisão se vão esgotando, começaria por lhe perguntar como se preparou para esta competição.

João Pedro Valente (J. P. V.) - Com as poucas possibilidades de participar em provas em Portugal, a minha unica preparação foi no computador. Por um lado, ler de novo toda a documentação disponível, compilada pelo Nuno Pires, especialmente as Guidelines de Trail-O para a Elite, analizando todos os exemplos e visualizando as técnicas a usar em cada caso. Por outro lado, pratiquei com os jogos de TempO que há na net, uma primeira vez em fevereiro, repetindo as jogadas na semana antes do ETOC.

A qualificatória de TempO viria a constituir um feito histórico, com dois portugueses apurados para a grande Final, um dos quais o João Pedro Valente, precisamente. Estava à espera? Onde residiu o segredo de tão excelente resultado?

J. P. V. - Realmente não estava à espera. Eu penso que a modalidade de TempO é para gente mais jovem, com boa capacidade para ver e analizar o mapa de forma rápida, julgando eu que, sendo a primeira vez que fazia uma prova deste tipo, iria ter poucas hipóteses de vir a ser bem sucedido. O problema nao é tanto acertar, mas sobretudo a rapidez em acertar, que nesta modalidade é fundamental. De qualquer maneira o “segredo” é, sem dúvida, a grande experiência em ler mapas, conseguida depois de tantos anos a correr provas de Orientação. A prova começou mal para mim - provavelmente o choque da estreia na primeira estação foi grande -, o que me levou a dar um grito para dentro a caminho da segunda estação. E a partir daí as coisas foram bastante melhor.

Quer falar-nos um pouco daquilo que foi, depois, a Final, mas também dos dois dias de competição de PreO?

J. P. V. - Na Final, as coisas não correram como teria desejado. Pensava eu que, já com a experiência de uma prova (risos), podería corrigir alguns dos erros da qualificação, nomeadamente o stress da primeira estação e talvez conseguir um resultado melhor. Mas desta vez estava mais nervoso ainda, também cometi o mesmo erro estúpido no primeiro ponto da primeira estação, mas desta vez não recuperei tão bem. Sobretudo houve uma estação na qual fiz um erro na análise do mapa, o que levou a que falhasse quatro pontos só aí e estragasse o resultado. Apesar disto, devo sentir-me satisfeito com a minha prestação no TempO, porque ir à Final foi um feito importante para mim e para o Nuno.

Na modalidade de PreO, estava à espera de bastante melhor. Acho que esta vertente se adapta melhor às minhas condições, mas as coisas não correram muito bem, fundamentalmente por falta de experiência. A minha análise leva-me a admitir que o proceso de aprendizagem não é linear, antes tem altos e baixos. Temos de incorporar novas formas de analizar os pontos e saber avaliá-las sobretudo quando dão respostas discordantes e isto, que será positivo a longo prazo, pode dar resultados menos bons a curto prazo e acho que foi algo deste género que sucedeu comigo. Dos seis pontos que falhei na soma dos dois dias, penso que quatro deles (e também a penalização por tempo) teriam sido facilmente corrigidos se algumas ideais estivessem mais assentes na minha cabeça e assim já teria tido um resultado final muito bom. Também é preciso estar consciente da importância dos pontos cronometrados, uma vez que, com tantos empates em respostas certas, o resultado pode facilmente variar vinte posições em função das prestações nestes pontos.

Que balanço retira destes quatro dias de competição ao mais alto nível?

J. P. V. - O balanço é óptimo, obviamente. Não só dupliquei toda a minha experiência prévia em provas de Orientação de Precisão, como, ao estar imerso no seio da equipa, em que se analizavam todos os detalhes, a experiência foi ainda mais proveitosa.

Que avaliação faz do nível competitivo, técnico e organizativo do ETOC 2014?

J. P. V. - Acho que o ETOC a nivel organizativo correu muito bem, numa modalidade que rara vez foge à polémica num ou noutro ponto. Desta vez não houve nenhum ponto anulado o que é muito significativo em relação ao trabalho da equipa organizativa. Por outro lado, acho que a modalidade precisa de incorporar meios electrónicos de picotagem para evitar as grandes esperas na divulgação dos resultados. Esperemos que a Federação Internacional de Orientação avance depressa nesta questão.

Entretanto, ainda com a “mão quente”, seguiu para Antequera onde acabou por se sagrar Campeão Nacional de Espanha 2014. Pedia-lhe que falasse um pouco dessa prova e daquilo que representa para si este título.

J. P. V. - A prova de Antequera foi concebida como o pontapé de saída para a Orientação de Precisão em Espanha. Já tinha havido outro Campeonato há dois anos, mas não teve continuidade. Agora há na FEDO um responsável empenhado em puxar pela modalidade e acho que desta vez as coisas irão em frente. Talvez por isto, a prova era bastante simples, pensada para que os 100 participantes não tivessem grandes dificuldades e gostassem da experiência. Acho que isto foi conseguido. Da prova gostei da rapidez com que consegui responder os pontos cronometrados (a experiência do ETOC notou-se) e sobretudo de partilhar o podio com o meu filho. Divertido foi quando o speaker anunciou no pódio da Precisão os irmãos Valente (risos).

Do seu ponto de vista, que significado poderá ter o ETOC para a Orientação de Precisão portuguesa?

J. P. V. - Acho que cada vez há mais orientistas interessados em Portugal na Precisão, está a deixar de ser aquela coisa estranha que os orientistas acham piada ver os outros fazer. Julgo que se deve trabalhar no sentido de trazer mais orientistas de Elite à Orientação de Precisão, levá-los a experimentar, porque acho que a maioria gostaria, sobretudo da vertente de TempO.

A finalizar, quais os seus objetivos para aquilo que temos ainda de temporada 2014 pela frente?

J. P. V. - O objetivo seguinte é a qualificação para o WTOC. Será aí que vou pôr toda a minha energia, uma vez que ainda não sei se poderei estar presente no Campeonato Nacional. E, obviamente, também continuar a angariar experiência, participando em todas as provas que puder.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

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