sábado, 12 de abril de 2014

Campeonato da Europa de Orientação de Precisão 2014: Tudo a postos!



Integrou a seleção nacional presente nos Campeonatos do Mundo de Orientação de Precisão 2013, naquela que foi a sua estreia numa competição desta natureza. A responsabilidade técnica ao nível da cartografia e do traçado de percursos dos Campeonatos da Europa que agora se iniciam implicou, porém, que em Vuokatti tivesse a necessidade de assumir a dupla figura de competidor e de observador. No dia em que “começam a aquecer os motores” com a realização do Model Event, Alexandre Reis abre-nos as portas dum sonho tornado realidade, ajudando-nos a vislumbrar – ainda que apenas ao de leve - os recantos deste pequeno grande mundo chamado ETOC 2014.


Quando olha para a sua participação no Campeonato do Mundo de Orientação de Precisão WTOC 2013, quais as imagens que lhe surgem na ideia de forma mais clara?

Alexandre Reis (A. R.) - A primeira grande imagem tem a ver com a própria participação em si. Estive presente num Campeonato do Mundo duma modalidade que gosto muito mas numa das suas disciplinas que, até então – e não tenho qualquer problema em assumi-lo –, nunca me tinha despertado interesse. Fui aos Campeonatos do Mundo quase por obrigação e acabei por gostar muito. Depois há esse olhar muito mais refinado sobre a cartografia que é algo que passa quase despercebido a quem faz Orientação Pedestre. Daí eu ter sido, em certa medida, desleixado face ao necessário rigor na leitura do mapa e na interpretação do terreno, o que acabou por se refletir no meu desempenho. Finalmente, há a questão dos atletas paralímpicos e o desmistificar dessa ideia que a Orientação de Precisão é só para pessoas com mobilidade reduzida. Neste aspeto, aquilo que mais me agradou foi perceber que competimos realmente em pé de igualdade e não foi por se deslocar em cadeira de rodas que este ou aquele atleta teve mais dificuldade em resolver os problemas. Isto foi dum grande ensinamento para mim, já que esta questão da participação em pé de igualdade só é real se devidamente salvaguardada pelo traçador de percursos.

A sua presença em Vuokatti não teve apenas a ver com a competição...

A. R. - Sim, é verdade. Não posso dissociar a minha participação em Vuokatti daquela que era a minha missão de observação na qualidade de futuro responsável pela cartografia e percursos do Campeonato da Europa 2014. Aliás, se não fosse assim, nunca teria participado nestes Mundiais. Mas porque foi assim - e porque não gosto de entrar nas coisas de ânimo leve - tentei perceber a mecânica desta disciplina e dediquei-me de corpo e alma aos Campeonatos. Devo confessar que não fiquei satisfeito com o resultado – apesar de esta ter sido a minha estreia e de não dominar minimamente a mecânica do TrailO, julgo que poderia ter feito melhor – mas deu para aprender com os erros. Se tudo tivesse corrido muito bem, talvez os pequenos pormenores tivessem passado despercebidos e a minha presença não tivesse sido tão proveitosa.

Erros esses - e rasteiras, como aquelas das pedras no primeiro dia (risos) - que vai agora tentar passar aos competidores no ETOC (!?) .

A. R. - Não foi só a pedra, foi também a casa e o poço. Caí nas três rasteiras... (risos). Fiquei surpreendido com esse tipo de problemas lá na Finlândia, mas não, não é essa a filosofia deste ETOC, sobretudo porque os dois Supervisores Internacionais [Knut Ovesen e Ola Wiksell] não são apologistas desse tipo de problemas. Confesso que ainda tentei avançar com exemplos destes em duas ou três situações, mas não iremos por aí. E não me peça para adiantar muito mais do que isto porque não posso (risos).

Quais os passos mais importantes desta sua caminhada como responsável técnico do ETOC 2014?

A. R. - Num primeiro momento, fui abordado pelo Presidente da Federação Portuguesa de Orientação, Augusto Almeida, no sentido de saber se eu estarei disponível para assumir a cartografia e o traçado de percursos do ETOC, no caso de vir a ser necessário. É claro que se me perguntasse se estaria interessado, teria provavelmente dito que não. Mas como “apenas” pretendeu saber se estaria disponível e como disponibilidade pressupõe ajuda, percebi que ele estaria, eventualmente, com alguma dificuldade em encontrar alguém, pelo que me disponibilizei para ajudar. Fiz, contudo, questão de vincar a minha total inexperiência na disciplina, embora sabendo que não nascemos ensinados em nada. Iria ter, certamente, muito trabalho pela frente, mas decidi aceitar o desafio de levar por diante o projeto. A minha participação no Campeonato do Mundo surge precisamente desta necessidade de aprofundar conhecimentos. Depois da vinda da Finlândia, começou então uma fase intensiva de trabalho de campo, durante a qual tive a felicidade de ter cá, por três ou quatro vezes, a presença dos Supervisores. Foram dias e dias a palmilhar o terreno, a tirar e a pôr balizas, a ver dum lado e do outro, a corrigir aqui e a eliminar acolá... Fizémos um trabalho constante, um trabalho de equipa, pelo que neste momento não seria justo aceitar o exclusivo de ter sido eu o traçador do Campeonato da Europa. As ideias partiram sempre de mim, mas a relação foi de total interajuda e a participação deles acabou por ser fundamental na melhoria das ideias, até chegarmos a um produto final de qualidade, assim o dirão os atletas. A última fase, considerada a mais simples, teve a ver com o TempO e realmente os desafios são interessantes e num terreno muito agradável.

Na altura de planear os pontos, em que medida é que ter assinado também a cartografia foi importante?

A. R. - Diria que facilita muito. Quer queiramos, quer não, cartógrafo e traçador de percursos têm sempre um olhar crítico sobre o trabalho um do outro. Se eu vou para o terreno, o meu olhar sobre os erros num mapa feito por mim ou por outra pessoa é um olhar necessariamente diferente. Resumidamente, quando somos, em simultâneo, cartógrafos e traçadores de percursos, conseguimos ser mais pró-ativos do que se formos apenas traçadores. Este “dois em um”, esta possibilidade de dar “mais um toquezinho” na cartografia, acaba por ser fundamental em determinadas circunstâncias.

Sem pretender que levante em demasia a “ponta do véu”, que tipo de terrenos são estes onde irão decorrer os Campeonatos da Europa?

A. R. - O terreno tem um relevo-padrão mais ou menos constante. Apenas poderei dizer que será o relevo, juntamente com a vegetação, a servir de base aos percursos. Em todo o caso, o Model Event será bastante representativo do tipo de terreno e vegetação que se irá encontrar e traduzirá aquilo que irá ocorrer no decurso da competição.

Numa altura em que a contagem decrescente decorre a uma rápida velocidade, há algo que o aflija ou assuste?

A. R. - Eu estou confiante, mas é óbvio que quem desenha mapas ou traça percursos está sempre “com o coração nas mãos” até à chegada do último atleta. Aliás, até à chegada dos primeiros (!)... se o primeiro e o segundo chegarem e não disserem nada, nós já começamos a descarregar um bocadinho a pressão (risos). No entanto, salvo uma intervenção externa em pontos vitais, do género lavrar um terreno ou cortar uma árvore, não creio que haja algo que me aflija ou assuste. Os pontos são pacíficos. Oferecer problemas, sim, mas problemas com uma resolução segura e que não ofereçam dúvidas, é essa a nossa filosofia. E isto deixa-me confiante.

É talvez uma questão algo abstrata mas não hesito em tentar colher a sua opinião: A Orientação de Precisão em Portugal será a mesma depois do ETOC?

A. R. - Para mim não é fácil fazer o antes, já que a minha participação em provas de Orientação de Precisão antes do Mundial de 2013 é nula e depois disso tenho apenas a participação em Gouveia, há cerca de um mês. Contudo, após o que me foi dado ver no POM e por aquilo que vou ouvindo, acho que as coisas estão a mudar. Após uma ou duas experiências no estrangeiro, percebe-se que o intercâmbio de ideias vai começando a criar novas exigências e o ETOC deverá constituir mais um passo em frente – e um passo significativo (!) – em todo este processo. O grande problema em Portugal, até há bem pouco tempo, teve a ver com a subjetividade. Os atletas da Pedestre, por exemplo, apesar de serem muito “generalistas” a navegar, não gostam de subjetividade. A partir do momento em que deixamos de ter subjetividade e passamos a ter coisas exatas, rigorosas, penso que o gosto por esta disciplina vai crescer e o número de praticantes irá aumentar.

A terminar, qual o seu maior desejo?

A. R. - É óbvio que todos gostamos de ouvir palavras sinmpáticas mas, no final, se não disserem mal já fico contente (risos). Agora mais a sério: O meu maior desejo é... são dois! Um é que os atletas saiam de Portugal satisfeitos com a competição e outro é que este evento seja mais um contributo para a imagem de Portugal como organizador de eventos de excelência, mesmo numa disciplina que está a dar os primeiros passos.


Saudações orientistas.

Joaquim Margarido

Sem comentários: